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terça-feira, 1 de abril de 2025

CONCERTO: "Radiohead Recomposed" | Orquestra de Jazz de Espinho & Mário Delgado



CONCERTO: “Radiohead Recomposed”
Orquestra de Jazz de Espinho & Mário Delgado
Direcção musical | Eduardo Cardinho e Paulo Perfeito
Auditório de Espinho - Academia
28 Mar 2025 | sex | 21:30


Radiohead. A Enciclopedia Britannica refere-os como sendo, “sem dúvida, a banda de art-rock mais bem-sucedida do início do século XXI”, acrescentando que o quinteto “produziu algumas das músicas mais majestosas - se bem que saturadas de angústia - da era pós-moderna”. Formado em 1985 em Abingdon, Oxford, o grupo era composto pelo cantor e guitarrista Thom Yorke, o baixista Colin Greenwood, o guitarrista Ed O'Brien, o baterista Phil Selway e o guitarrista e teclista Jonny Greenwood. Cultores de bandas de rock norte-americanas como os R.E.M., Nirvana, Sonic Youth ou Pixies, os Radiohead não resistiram a ir beber ao Jazz algumas das suas influências, nomeadamente a Miles Davis, Charles Mingus e Alice Coltrane. Virá daqui, pelo menos em parte, a poderosa sensação de alienação que as suas músicas provocam, as paisagens sonoras intrincadamente texturadas, os longos silêncios de alguns dos seus temas mais icónicos a trazerem com eles notas mágicas e impressivas capazes de nos alçarem no seu voo e de nos transportarem aos confins do universo.

Foram precisamente os Radiohead e a sua música a estarem na mira da Orquestra de Jazz de Espinho, fazendo deles o alvo central de um projecto diferenciador e estimulante a muitos títulos, tanto para os músicos como para o público que esgotou o Auditório de Espinho nas duas sessões agendadas. Encontrar a combinação perfeita entre o jazz e o rock alternativo terá sido o grande desafio colocado aos oito músicos a quem coube a tarefa de trabalhar os arranjos de outros tantos temas, recompondo sem nada omitir e fundindo géneros sem os desvirtuar. Nazaré Silva, José Pedro Coelho, Paulo Perfeito, Telmo Marques, Estela Alexandre, Johannes Krieger, Daniel Bernardes e Carlos Azevedo puseram mãos à obra com a mestria que se lhes reconhece, ousando desconstruir e reerguer temas de grande complexidade, num processo não isento de riscos (afinal, não é de ânimo leve que se mexe em verdadeiros ícones, como é o caso de “Just” ou “Paranoid Android”, sob pena de se ser acusado de profanação). O resultado exprime-se numa simples palavra: Notável!

Passados pelo crivo do jazz, os temas escolhidos mostraram a sua enorme plasticidade e deram-se a ver numa roupagem cheia de swing, ritmo e alegria. Ao encontro das sonoridades idiossincráticas da banda, a guitarra não poderia ficar esquecida, recaindo em Mário Delgado o convite para se juntar à Orquestra de Jazz de Espinho. Com uma carreira de quase quatro décadas, Delgado é um guitarrista com recursos e técnicas variadas na guitarra eléctrica, o que lhe vem dos diversos estilos provenientes das suas influências, nas quais o rock o jazz ocupam lugar de destaque. Isso ficou bem patente no conjunto de apontamentos solísticos de altíssimo nível, sendo muito bem secundado por uma secção rítmica fortíssima - a par de Mário Delgado, José Diogo Martins, nos teclados, revelou-se fundamental nessa fixação das sonoridades próprias dos Radiohead - e pelo trabalho contrapontístico dos metais, com destaque para o trombonista Hugo Caldeira e para o trompetista João Tavares. Mais um grande concerto com o selo OJE.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

CONCERTO: "Dual Core" | Orquestra de Jazz de Espinho, Eduardo Cardinho, Miguel Moreira



CONCERTO: “Dual Core”
Orquestra de Jazz de Espinho, Eduardo Cardinho, Miguel Moreira
Direcção Musical | Paulo Perfeito
Auditório de Espinho – Academia
15 Dez 2024 | dom | 18:00


Quando se cumprem quinze anos sobre a primeira apresentação pública da Orquestra de Jazz de Espinho, então sob a designação de Orquestra Académica de Jazz da EPME, importa dizer que é passo a passo que se faz o caminho. Impulsionado por Paulo Perfeito, que assumiu desde logo a direcção artística da Orquestra (vindo a ser mais tarde coadjuvado por Daniel Dias e, recentemente, por Eduardo Cardinho), o projecto não mais parou de crescer, expandindo-se para além da sua vocação didáctica, ao encontro de concertos temáticos, repertórios de autor e espectáculos multimédia e multidisciplinares para os mais diversos públicos e faixas etárias. Nesta sequência de passos certos e seguros que sustentam a extraordinária evolução que a Orquestra de Jazz de Espinho vem conhecendo ao longo dos anos, dá-se agora um novo passo com “Dual Core”, o seu primeiro trabalho discográfico que, como se de um ritual de passagem se tratasse, pretende constituir-se em símbolo de afirmação na carreira de um dos colectivos de referência do jazz nacional.

No concerto de apresentação ao público deste trabalho inaugural, a Orquestra de Jazz de Espinho convidou para o palco, de uma assentada, o vibrafonista Eduardo Cardinho e o guitarrista Miguel Moreira. Já o tinha feito nos idos de 2019, num concerto intitulado “Encruzilhadas” e cujo programa exibiu vários pontos de contacto com este apresentado ao final da tarde de domingo. E se nessa altura as “encruzilhadas” deixavam subentender os caminhos cruzados dos solistas com os da Orquestra – Eduardo Cardinho formou-se nesta Escola e integra actualmente o seu corpo docente, enquanto Miguel Moreira concluiu aqui, em 2002, o curso de Percussão Clássica –, “Dual Core” vem mostrar estarmos perante um projecto maduramente pensado, no qual se evidencia um trabalho de revisão e actualização dos temas que o compõem e para o qual Cardinho e Moreira contribuíram como exímios executantes, mas sobretudo como inspirados compositores, a sua energia, criatividade e ousadia vertidas em músicas que expandem para lá dos limites habituais a paleta de possibilidades da Orquestra de Jazz de Espinho.

Com um programa construído em torno de composições de Eduardo Cardinho (“Bipolar Hallucination”, “In Search of Light” e “Lua”) e de Miguel Moreira (“Coentros”, “Suite do Relógio” e “Câmbio”), “Dual Core” aposta no cruzamento das vanguardas com a tradição, do convencional com a originalidade. Viagem por universos sonoros de enorme variedade e riqueza, o concerto destacou o talento e arrojo de dois compositores, assim como a qualidade e versatilidade da Orquestra de Jazz de Espinho. Entre as frases musicais harmoniosas e os momentos abertos à improvisação, o que de melhor há a reter é o entendimento perfeito entre o vibrafone e a guitarra, expresso numa relação de complementaridade, de cumplicidade única, como se cada instrumento vivesse de e para o outro. Junte-se a isto a qualidade do saxofonista Rafael Gomes, dos trompetistas João Tavares e João Dias ou do pianista José Diogo Martins, expressa em solos de engenho e virtuosismo feitos, e facilmente se perceberá o quão extraordinário foi o momento, o público suspenso da complexidade melódica dos temas, a música a oferecer-se em sonho e liberdade.

sábado, 28 de outubro de 2023

CONCERTO: Orquestra de Jazz de Espinho com João Paulo Esteves da Silva



CONCERTO: Orquestra de Jazz de Espinho
Com | João Paulo Esteves da Silva (piano)
Direcção musical | Eduardo Cardinho, Paulo Perfeito
Auditório de Espinho
27 Out 2023 | sex | 2023


Recuar ao início de Março de 2015 e à segunda edição dos “Concertos (in)Comuns em Lugares (in)Comuns” é abraçar um dos momentos primordiais da minha relativamente curta experiência nas lides do jazz. O concerto que juntou Carlos Bica e João Paulo Esteves da Silva no Salão Nobre da Câmara Municipal de Ovar foi daqueles momentos que se guardam na gavetinha das jóias mais íntimas e se revisitam de tempos a tempos com o olhar e o sentir que dedicamos às mais gratas memórias. Desde então, devo ter assistido a uns bons vinte concertos de ambos os músicos, número bem repartido pelos dois, já que não voltei a escutá-los juntos. Ontem, em Espinho, a noite foi dedicada a João Paulo Esteves da Silva, solista convidado da Orquestra de Jazz de Espinho para um programa constituído integralmente por temas do álbum “Bela Senão Sem”. Um concerto que voltou a confirmar a Orquestra como um dos bons agrupamentos do género em Portugal e o pianista como alguém que escapa a qualquer adjectivação, tão rica a sua veia criativa, tão inspiradora a sua música.

Projecto de 2011, “Bela Senão Sem” partiu de uma encomenda da Casa da Música e juntou o pianista lisboeta à Orquestra de Jazz de Matosinhos. Na prática, isto correspondeu à ideia de pegar em material composto por João Paulo Esteves da Silva, trabalhá-lo com arranjos do próprio e ainda de Pedro Guedes e de Carlos Azevedo, os dois directores musicais da OJM à altura, para daí resultar um conjunto de oito composições nas quais é possível identificar a fusão entre o jazz e a música de raiz tradicional. Ao longo de uma hora e meia, o piano de João Paulo Esteves da Silva esteve em plano de evidência, quer nos animados diálogos que manteve com a orquestra, quer em formato trio, socorrendo-se da inspiração de José Carlos Barbosa no contrabaixo e do muito jovem baterista Gonçalo Ribeiro, quer ainda em solos eloquentes e intimistas, reveladores de um apurado domínio musical e de um extraordinário bom gosto.

Foi assim em “Candeia”, o tema de abertura do concerto, de onde sobressaiu o solo de trompete de Gonçalo Marques. Foi assim, também, nos seguintes “Moché Salyó de Misraim” - um casamento perfeito entre a música de tradição sefardita e o jazz -, “Fado Chão” e “Bela Senão Sem”, neste último a concertina a “roubar” ao piano a primazia e Hugo Caldeira a brilhar no trombone. “Pode Ser uma Serra” escutou-se na versão original graças às potencialidades da Orquestra de onde “emergiram” oito instrumentos de sopro e cinco de percussão. “Canção Açoreana” foi um momento único de emoção e beleza, as notas dedilhadas ao piano ao encontro do saxofone tenor de Brian Blaker para um “voo nas asas do sonho” verdadeiramente fenomenal. “Tristo” foi outro momento de enorme inspiração, vivendo em grande medida do diálogo entre o piano e a guitarra de Miguel Dantas, assim como “Certeza”, exercício de improviso provocado e controlado que fechou o alinhamento e que teve nos solos de Daniel Dias (trombone) e Rafael Gomes (saxofone) momentos de enorme génio e inspiração.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia |  https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

sábado, 27 de maio de 2023

CONCERTO: "A Fresh Glimpse of Binney"



CONCERTO: “A Fresh Glimpse of Binney”,
Com | David Binney (saxofone alto, composição)
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical | Eduardo Cardinho, Paulo Perfeito
Auditório de Espinho - Academia
26 Mai 2023 | sex | 21:30


Na viragem do século, a cidade de Nova Iorque recuperou o estatuto de centro nevrálgico da criação jazzística. A criatividade ebulia nos lofts e pequenos clubes de Manhattan e de Brooklyn e uma jovem geração de músicos competia pela atenção dos seus pares. Na vanguarda deste movimento vamos encontrar David Binney, um músico audaz, detentor de uma sonoridade enérgica e de um fraseado elaborado e assertivo. O som distintivo do saxofone de Binney e as suas composições inovadoras fizeram incidir sobre ele o olhar elogioso de críticos e colegas. Senhor de uma carreira brilhante e extraordinariamente prolífica, gravou mais de vinte e cinco álbuns como líder ou co-líder e participou em mais de quatro centenas de outros. Entre os nomes com quem trabalhou contam-se Gil Evans, Maria Schneider, Chris Potter, Aretha Franklin, Jamiroquai, Maceo Parker, Chrissie Hynde ou Norah Jones. Foi ele o convidado da Orquestra de Jazz de Espinho na noite de ontem onde, para além de solista, veio dar a conhecer uma das suas facetas menos reveladas, a de compositor para Big Band.

Exemplo notável do estilo de David Binney neste tipo de composições, “The Valley 1979” abriu o concerto da melhor forma. Escrita no início dos anos 2000, a peça remete para as memórias da infância e juventude do artista em Los Angeles, numa altura em que era já uma certeza da cena jazzística nova-iorquina e escreveu algumas peças para orquestra. Os primeiros momentos do tema são absolutamente marcantes, com a mestria e virtuosismo de Binney a mostrarem-se de forma única, tendo como suporte, apenas, o contrabaixo de José Carlos Barbosa e a bateria de João Martins. A música abre-se, então, à orquestra, dando ao trombonista Hugo Caldeira e ao trompetista Ricardo Formoso a possibilidade de brilharem em dois solos de grande qualidade e intensidade. Manteve-se a toada em “We Dream Oceans”, “Birth” e “Free”, os temas seguintes, sempre com a orquestra muito assertiva na resposta às solicitações do solista convidado, merecendo uma referência particular a condução alternada de Paulo Perfeito e Eduardo Cardinho e os solos dos dois vibrafonistas, João Rosa e Diogo Azevedo, e do trombonista Rui Bandeira. David Binney foi exímio na forma como soube “esconder-se” no seio do conjunto, para emergir em apontamentos distintivos da sua enorme classe nos momentos-chave de cada uma das peças interpretadas.

Pequena jóia deste concerto, “Ballad for Miami” poderia muito bem integrar a banda sonora de um filme de Hollywood, dada a sua vocação iminentemente clássica e o cunho visual muito forte. Esta sensação é reforçada pelo belíssimo solo de piano de Carlos Azevedo a abrir o tema e pelo naipe de clarinetes, onde pontificaram Matilde Zenha, Nuno Magalhães e Francisca Guedes e ainda Luisa Gil, na flauta transversal. Seguiu-se “The Golden Zone”, um tema marcado pelos solos inspirados de David Binney e pela extraordinária prestação do baterista João Martins. A terminar, em estreia mundial, “Petals” foi um momento de enorme beleza, tanto pela sua contemporaneidade - aqueles instrumentos todos a parecerem “remar” cada um para seu lado, como um carro que não quer pegar, se engasga mas acaba por aquecer e arrancar no melhor estilo -, como pela introdução da electrónica, fazendo o espaço saltar para uma outra dimensão. Já no “encore” escutou-se “Return” e escutou-se, enfim, a guitarra de Miguel Dantas, naquela que foi a estreia deste jovem na Orquestra de Jazz de Espinho.


segunda-feira, 14 de março de 2022

CONCERTO: "Acorde(on)"



CONCERTO: “Acorde(on)”
Orquestra de Jazz de Espinho com João Barradas
Direcção musical | Paulo Perfeito
Auditório de Espinho
12 Mar 2022 | sab | 21:30


A história do acordeão é deveras interessante, devendo as suas origens ao cheng, espécie de órgão portátil tocado pelo sopro da boca e inventado na China cerca de 2700 a.C. . Porém, foi só em 1822, na Alemanha, que o fabricante de instrumentos Christien Friederich Buschmann, criou o primeiro acordeão, aperfeiçoando-o nos anos seguintes e assistindo à sua rápida disseminação, sobretudo em França e em Itália. Com uma forte implantação na música popular de toda a Europa, o instrumento chegou ao mundo do jazz de forma discreta, sendo ainda hoje encarado por muitos como uma curiosidade. Tentando vencer a relativa obscuridade em que o acordeão vive mergulhado, virtuosos como Guy Klucevsek, Jean-Louis Matinier, Will Holshouser, Andrea Parkins, Luciano Biondini e o enorme Richard Galiano têm feito um trabalho notável, associando-se a músicos incontornáveis da cena jazzística como Charlie Haden, Bill Frisell, Gianluisi Trovesi ou Anthony Braxton. O mais novo de todos estes virtuosos do acordeão dá pelo nome de João Barradas, é português e foi ele o convidado da Orquestra de Jazz de Espinho na noite do passado sábado. E que noite!...

O início do concerto, valha a verdade, foi relativamente desconcertante. Com a tónica nos metais, “Estiramantens”, composição de Mário Laginha, viu o acordeão ser completamente abafado nessa luta desigual contra uma dúzia de saxofones, trompetes e trombones. A estridência dos metais anulou igualmente contrabaixo, piano e vibrafone e temeu-se o pior. Felizmente, a música entrou nos eixos com “Care” e, de seguida, com “Resilience”, dois temas de João Barradas, extraídos do álbum “Portrait”, de 2020. Dois temas magníficos, acrescente-se, neles sobressaindo a qualidade das composições e o virtuosismo das interpretações, valorizados com os arranjos belíssimos de Carlos Azevedo no primeiro tema e de Paulo Perfeito no tema imediato. “Concert in the Garden”, da compositora norte-americana Maria Schneider, foi outro momento sublime, pontuado por um longo solo improvisado através do qual João Barradas mostrou, entre o clássico e o contemporâneo, a dimensão da sua arte e da sua técnica, assim como a versatilidade deste instrumento.

O concerto encerrou com “The Fremont Seven” e “Cross Fire”, dois temas do brasileiro Jovino Santos Neto que trouxeram com eles um cheirinho a trópicos e a samba. Ao baterista João Martins juntaram-se os jovens percussionistas Diogo Maia e João Oliveira, enchendo o ar de ritmos coloridos e vibrantes fantasias. Para eles vai o primeiro aplauso, que se estende naturalmente aos vibrafonistas João Rosa e Guilherme Guedes, este último irrepreensível num solo que marcou o tema “Resilience”. Outros solistas em destaque foram o trombonista Rui Bandeira e o trompetista Hugo Silva, mas também o saxofonista Lucas Oliveira, de quem retemos o entusiasmo num solo do último tema do programa. João Martins mostrou-se enorme na bateria, muito bem acompanhado por João Rodrigues no piano e Diogo Dinis no contrabaixo. A par do enorme trabalho que Paulo Perfeito e Daniel Dias vêm desenvolvendo à frente da Orquestra de Jazz de Espinho, o derradeiro aplauso vai para João Barradas e para os extraordinários momentos proporcionados, pincelando de erudição o muito e bom jazz ouvido num Auditório praticamente esgotado.

sábado, 11 de dezembro de 2021

CONCERTO: "Mais Que Fado" | Orquestra de Jazz de Espinho & Cristina Branco e Mário Laginha



CONCERTO: “Mais Que Fado”
Orquestra de Jazz de Espinho
Cristina Branco (voz), Mário Laginha (piano)
Direcção musical | Daniel Dias e Paulo Perfeito
Auditório de Espinho
10 Dez 2021 | sex | 21:30


Tende a não ficar na memória o último concerto a que me foi dado assistir no Auditório de Espinho neste ano a caminhar para o final. Com a Orquestra de Jazz de Espinho, em palco estiveram dois ilustres convidados, o pianista Mário Laginha e a fadista Cristina Branco, para um concerto que encerrava a perspectiva de uma grande noite. Porquê? Porque Daniel Dias e Paulo Perfeito vêm a fazer um excelente trabalho com um punhado de jovens que se entregam de alma e coração ao jazz, porque Mário Laginha é um pianista com provas dadas e oferece a garantia de muito empenho e qualidade e porque Cristina Branco é uma grande voz, que não apenas do fado (da minha discoteca fazem parte um número apreciável de trabalhos seus, que revisito amiudadamente com deleite). Se a isto juntar o facto de ser esta a primeira vez que tive oportunidade de escutar Cristina Branco ao vivo, perceber-se-á o quanto de felicidade e beleza antevia no espaço do concerto. Só que não.

Se justificada ou não, a ansiedade foi uma nota indisfarçável na cantora desde o momento da entrada em palco. Não pelo gesto de se benzer ao entrar, mas por aquele constante atirar da cabeça para trás e respirar fundo, tema após tema, como que a dizer de si para si: “Esta já está”. A voz timbrada, melódica, harmoniosa que lhe conhecia desfez-se em hesitações, repentes e lapsos que não era suposto acontecer. A força dos metais da orquestra também não ajudou, de tal forma que os três temas iniciais - “Quando Eu Canto”, com letra de Maria do Rosário Pedreira, o arejado “Alice No País Dos Matraquilhos”, de Sérgio Godinho, e “Cherokee Louise”, letra e música de Joni Mitchell - fazem do arranque do concerto um exercício de sensaboria e tibieza como há muito não me era dado ver. “Ó Laurinda, Linda, Linda” e “Camponês Alentejano” vieram trazer algum alento ao concerto, não pelas melhorias no registo vocal mas porque, finalmente, pode escutar-se Mário Laginha em solos de grande intensidade e riqueza.

Até ao final, o concerto deu mais do mesmo. Cristina Branco continuou a parecer deslocada, Mário Laginha ia fazendo o que podia e a orquestra lá foi cumprindo o seu papel, ainda que muito menos segura em relação àquilo a que nos acostumou. Lucas Oliveira teve uma entrada sem garra no solo de saxofone de “Às Vezes Dou Por Mim” mas acabou em grande e mereceu o enorme aplauso que lhe foi tributado. Na bateria, João Martins esteve ao melhor nível, o mesmo podendo dizer-se de Diogo Dinis, no contrabaixo. Registe-se, em abono da verdade, a interpretação do popular “José Embala o Menino”, o grande momento (único?) de Cristina Branco no Auditório de Espinho. Também “O Amor Quando Se Revela” merece referência, sobretudo pela novidade da versão. “Carta a Miguel Djéje”, de Zeca Afonso, fechou o alinhamento da pior forma, as palavras atropeladas e uma entrada a destempo da cantora a confirmarem uma noite desinspirada. “A Lua Partida ao Meio”, um tema de Mário Laginha cantado a meias pelo próprio e por Cristina Branco”, foi outro equívoco. Melhores dias virão!

[Foto: Auditório de Espinho | facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

sábado, 3 de outubro de 2020

CONCERTO: China Moses & Orquestra de Jazz de Espinho



CONCERTO: China Moses & Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical | Daniel Dias e Paulo Perfeito
FIME – Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho | Academia
02 Out 2020 | sex | 21:30


Nestes tempos confusos, em que o “novo normal” tomou conta do nosso quotidiano e pede que nos reinventemos, foi bom regressar ao Festival Internacional de Música de Espinho e ao belíssimo Auditório da Academia, ao encontro da música e das emoções que sempre convoca. Voltando a pisar os palcos da sua própria casa, a Orquestra de Jazz de Espinho aperaltou-se para receber uma convidada de respeito e o resultado não poderia ter sido melhor. Senhora de uma enorme voz e uma comunicadora de excelência, China Moses proporcionou momentos inesquecíveis, arrancando palmas e gargalhadas ao público, cativando-o com a sua forte presença em palco, com a catadupa de histórias sempre divertidas que fez questão de partilhar e com uma versatilidade vocal incomum, que se sente à vontade tanto nas ondas da Soul como no bater do Jazz ou dos Blues.

Extraída desse álbum de referência que é “This One’s For Dinah” (Blue Note France, 2009), tributo à diva Dinah Washington, “Dinah’s Blues” abriu a parada em grande, logo seguida de um dos maiores êxitos de Donna Summer e tema icónico da Disco, “Hot Stuff”. Estas duas músicas não só apontaram caminhos para um alinhamento que privilegiou a variedade de géneros musicais e pôs em evidência a versatilidade da cantora, como revelaram, desde os primeiros acordes, a forte empatia de China Moses com a Orquestra dirigida por Daniel Dias e Paulo Perfeito e onde se destacaram o teclista Carlos Azevedo, o contrabaixista Filipe Teixeira, o guitarrista AP Neves, o trompetista Luís Macedo, o trombonista Hugo Caldeira, o saxofonista Rafael Gomes e, “last but not least”, o baterista João Cunha, para além de um largo naipe de metais de grande afinação e aprumo.

Entre histórias delirantes – à volta de copos, amigos, amantes e “things” –, e deliciosos temas como “Breaking Point”, “Whatever”, “Lobby Call” ou “Running”, onde pontificaram os arranjos de Theo Croker, Mike Gorman, François Biensan e Marco Pasquariello, decorreu um tempo de felicidade que, pelo espaço de uma hora e meia, fez esquecer o incómodo das máscaras nos rostos. “Se, no final, para além desta Orquestra maravilhosa, puderem levar algo daqui, que seja: Não julgues!”, referiu a cantora numa das fases mais intensas deste seu concerto. Uma cantora que se confessou maravilhada com a cidade de Espinho e com esta oportunidade única para “fugir” de Londres, que não se cansou de condenar os estúpidos deste mundo e que, com a sua presença, nos mostrou que devemos tirar o melhor partido de cada momento que a vida tem para nos oferecer. Já no “encore”, como um brinde com champanhe, “I Just Want To Make Love To You”, “hit” popularizado na voz de Etta James, foi um desses momentos. Tchin, tchin! 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

CONCERTO: "Encruzilhadas"




CONCERTO: “Encruzilhadas”
Orquestra de Jazz de Espinho com Eduardo Cardinho e José Miguel Moreira
Academia de Espinho – Auditório
01 Jun 2019 | sab | 21:30


Numa altura em que se está a completar uma década sobre a sua primeira apresentação pública, a Orquestra de Jazz de Espinho voltou a subir ao palco do Auditório da Academia de Música para uma grande noite. Uma vez mais não veio sozinha, desta feita trazendo consigo o vibrafonista Eduardo Cardinho e o guitarrista José Miguel Moreira, dois nomes que têm em comum o facto de possuírem percursos intimamente ligados à Academia, o primeiro porquanto faz parte do quadro de professores da casa e o segundo porque foi precisamente aqui que, nos idos de 2002, concluiu o curso de Percussão Clássica. Desta ligação íntima à Academia e do cruzamento de interesses em torno do jazz nasceu “Encruzilhadas”, confluência de composições inspiradas e de orquestrações e interpretações de enorme nível, proporcionando um serão único que o público sorveu com deleite e emoção.

Com um programa construído em torno de temas da autoria de Eduardo Cardinho (“Lua” e “Bipolar Hallucination”) e de José Miguel Moreira (“Airhead” e “Coentros”), aos quais se juntou “LH422”, de Paulo Perfeito - director desta Orquestra em parceria com Daniel Dias -, “Encruzilhadas” apostou sobretudo na originalidade. Ao público coube o privilégio de escutar uma série de temas em estreia absoluta – isto se virmos como um “ensaio geral” o facto de este mesmo programa ter sido tocado algumas horas antes no “Serralves em Festa” -, servindo a proposta para divulgar o trabalho de composição destes jovens músicos, nos quais se deve reconhecer uma enorme qualidade e talento. Características que se estendem por inteiro à Orquestra de Jazz de Espinho e aos seus jovens músicos, de novo o suporte perfeito de dois instrumentistas de eleição.

Entre as frases musicais de grande riqueza harmónica e os momentos mais “free”, a musica a querer saltar das pautas e a clamar pela grande improvisação, o que de melhor há a reter em “Encruzilhadas” é o entendimento perfeito entre o vibrafone de Eduardo Cardinho e a guitarra de José Miguel Moreira. E não estou a falar de diálogo entre instrumentos, antes duma relação de complementaridade, de cumplicidade única, como se cada um deles vivesse de e para o outro. Prova disso é a parte inicial de “Coentros”, a fechar o programa, com as lâminas do vibrafone tocadas com arco e as cordas da guitarra postas a vibrar com a ajuda duma baqueta. Foi um momento sublime, o público suspenso da complexidade melódica que tomou conta do concerto, a música a fluir de forma expressiva e totalmente livre. Inesquecível!

[Foto: Auditório de Espinho – Academia | facebook.com/auditoriodeespinhoacademia/]

sábado, 16 de março de 2019

CONCERTO: "Origens"



CONCERTO: “Origens”
Orquestra de Jazz de Espinho | Ricardo Formoso (trompete)
Direcção musical | Daniel Dias, Paulo Perfeito
Auditório de Espinho - Academia
15 Mar 2019 | sex | 21:30


Quase uma década após a sua chegada a Portugal – onde se licenciou em Música variante de Jazz na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto -, Ricardo Formoso decidiu fundir num álbum as suas experiências musicais e pessoais com as influências dos diversos projectos em que se foi envolvendo, sobretudo no circuito de Jazz da Invicta. Foi assim que nasceu “Origens”, álbum de originais com o carimbo Porta Jazz, publicado em finais de 2017, e que contou com a colaboração de Carlos Azevedo no piano, José Carlos Barbosa no contrabaixo, Marcos Cavaleiro na bateria e André Fernandes na guitarra.

Entretanto, mais de um ano volvido, Formoso volta a pegar no projecto, revitalizando-o e vestindo-o de novas sonoridades graças aos arranjos para big band com assinatura de Miguel Blanco. O resultado pode ser apreciado em estreia absoluta no Auditório de Espinho, com o suporte duma Orquestra de Jazz de Espinho “reforçada” com dois músicos bem conhecidos da cena jazzística: o baterista João Martins e o guitarrista Virxilio da Silva. E o mínimo que se pode dizer é que foi uma noite de jazz memorável, a música a fluir ao peso e à medida do talento dos executantes, um toque de Wayne Shorter, John Coltrane ou Alex Sipiagin aqui e ali, a revelar algumas das influências do trompetista.

Do encantatório “Olhar Preguiçoso” ao cubaníssimo “Acere”, passando pelo ritmo e vibração de “Valsa para Medanich” ou “15” ou pela dolência e harmonia de “Lembrança” ou “Pequeno Gigante”, este último com uma dedicatória especial a Juan Carlos Otero, Ricardo Formoso e a Orquestra de Jazz de Espinho superaram as expectativas dum público conhecedor e exigente, honrando os seus pergaminhos. Os elogios ao trabalho de Daniel Dias e de Paulo Perfeito à frente desta jovem Orquestra serão sempre insuficientes, mas importa destacar nesta noite a excelência das performances de Ricardo Formoso e de Virxilio da Silva. Plenos de virtuosismo, rivalizaram em solos que arrancaram aplausos entusiásticos à plateia, fazendo desta uma noite inesquecível!