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quinta-feira, 30 de abril de 2026

CONCERTO: Selma Uamusse & Projeto Benjamim



CONCERTO: Selma Uamusse & Projeto Benjamim
Com | Selma Uamusse (voz), Augusto Macedo (percussões, baixo, piano), Paulo das Cavernas (percussão), Ana Cortês (bateria)
Direcção musical Projeto Benjamim | Jonas Pinho, Daniela Leite Castro
Auditório de Espinho - Academia
26 Abr 2026 | dom | 18:00


Exercício pleno de liberdade, daqueles que rejeitam encerrar-se na memória breve de um concerto, o encontro de Selma Uamusse com o Projeto Benjamim foi um momento inesquecível, com tanto de inspirador e transformador, quanto de belo e livre. Desde o primeiro instante, percebeu-se que a energia em palco rasgava amarras, pronta a expandir-se pela sala de forma orgânica e a contagiar músicos e público. Fiel ao seu desígnio de cruzar linguagens e explorar novas fronteiras, o Projeto Benjamim da Escola Profissional de Música de Espinho encontrou neste desafio território fértil, através do qual alunos do Curso Básico de Instrumento se libertaram da rigidez académica para abraçar o risco, a improvisação e o diálogo com universos “não clássicos”. Essa vocação, iniciada em 2019 e amadurecida em colaborações diversas, atingiu aqui uma expressão particularmente eloquente, com cerca de noventa jovens em palco, não como meros acompanhantes, mas como corpos vivos de uma experiência colectiva que soube construir-se sob o signo maior da partilha, da cumplicidade e da emoção.

Selma Uamusse emergiu como verdadeiro eixo desta constelação, não apenas pela sua extraordinária voz, mas pela forma como corporizou uma ideia de liberdade que atravessou todo o espectáculo. Recusando categorias fixas, a sua presença abraçou territórios de uma vastidão imensa: entre Moçambique e Portugal, entre a tradição e a reinvenção, entre o íntimo e o político. Ao interpelar o público, ao convidar espectadores para o palco, ao irromper plateia acima e dissolver a distância convencional entre artista e audiência, Selma Uamusse fez do concerto um espaço comum, quase ritual, cruzando e reconfigurando gentes e lugares, estados de alma e modos de ver. A evocação de Zeca Afonso - em temas como “Menino do Bairro Negro”, “Canção de Embalar”, “Lá no Xepangara” ou a inevitável “Grândola, Vila Morena” - não surgiu como gesto nostálgico, mas como reafirmação de um legado vivo, reinterpretado à luz de outras geografias e outras lutas. E quando as vozes de adolescentes e jovens se uniram nesses cânticos, o que se ouviu foi menos homenagem e mais continuidade.

Por contraste implícito, o concerto deixou entrever o que teria sido impossível há pouco mais de meio século: uma mulher africana a cantar nas suas línguas, a dirigir um colectivo, a ocupar o palco sem tutela; jovens a escolher a música como prática quotidiana num contexto de ensino público e acessível; uma plateia convidada a desfilar, livre e feliz, pelas ruas desta “cidade sem muros nem ameias”. Nesse sentido, o concerto encerrou um gesto político de enorme significado e alcance, misturando e confundindo alegria, esperança, vontade, consciência e liberdade. Em músicas como “Hoyo Hoyo” ou “Xikwembu”, “Hope” ou “Mati”, a liberdade que Selma Uamusse e o Projeto Benjamim quiseram trazer não foi abstracta nem decorativa, mas histórica, concreta, afirmativa, conquistada, sofrida, viva. No final, por entre a imensa onda de aplausos, ficou a certeza de se ter vivido um raro momento em que a arte se cumpriu sem reservas e a liberdade foi matéria presente, pulsante, construída no dia a dia e que importa defender e preservar.

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