Páginas

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

CONCERTO: “Fernando Lopes-Graça: Glosas e Embalos” | Luís Duarte



CONCERTO: “Fernando Lopes-Graça: Glosas e Embalos”
Com | Luís Duarte (piano)
Auditório de Espinho - Academia
31 Jan 2026 | sab | 21:30 


Na noite do passado sábado, o Auditório de Espinho acolheu um recital do pianista Luís Duarte, intitulado “Fernando Lopes-Graça: Glosas e Embalos”. Espaço de escuta partilhada, como se de uma confidência se tratasse, o concerto serviu de apresentação ao novíssimo álbum “Glosas, Embalos, Álbum do jovem pianista”, dedicado à obra pianística de Fernando Lopes-Graça. Centrado nas onze Glosas sobre canções tradicionais portuguesas e nos cinco Embalos, três dos quais gravados pela primeira vez, o concerto encerrou o facto raro e precioso de ter permitido ao público escutar estas séries na íntegra. O formato comentado, com a mediação cúmplice e esclarecida de Fausto Neves, ajudou a situar o público nesse território onde a música nasce do confronto entre a tradição e a inovação, o canto popular e a escrita moderna, a consonância prometida e a dissonância nunca plenamente resolvida. Um território que é espelho do percurso humano, político e intelectual do compositor, bem como do seu trabalho de investigador incansável de uma cultura musical vivida longe dos grandes centros e dos palcos oficiais, transmitida de geração em geração graças ao poder da oralidade.

Nas viagens e campanhas de recolha que o levaram a Penamacor, Mação, Paúl ou Vinhais, ao Ribatejo, ao Alentejo ou à Ilha da Madeira, Fernando Lopes-Graça procurou aquilo a que chamava “folclore autêntico”, em clara oposição às versões higienizadas e instrumentalizadas pelo Estado Novo - trabalho que dialoga directamente com o de Michel Giacometti, embora com um olhar de compositor que transforma a recolha em matéria crítica. Foi isso que pudemos apreciar nas Glosas, mostradas como pequenas arquitecturas de tensão, as melodias reconhecíveis emergindo ora protegidas, ora feridas, atravessadas por harmonias ásperas e por um discurso que sabe quando avançar e quando se deter em silêncios que são, eles mesmo, música. Na leitura de Luís Duarte, tudo pareceu dito com economia e convicção: uma eloquência sem retórica, capaz de fazer coexistir o impulso dançante, a rudeza telúrica e uma melancolia contida, quase ética, marcas distintivas da obra de Lopes-Graça. Profundamente identificado com este universo, o pianista evitou tanto a postura agreste como a tentação de alisar arestas, oferecendo uma interpretação onde o gesto popular passeou de mãos dadas com a sofisticação, a harmonia com a sensibilidade e emoção muito próprias do ser português.

O encore veio ampliar e aprofundar esse retrato. Do “Álbum do jovem pianista” - esse “jovem” que não é criança nem ingénuo - ouviram-se peças simples só na aparência, entre elas o belíssimo “Canto dos pequenos pedintes p’los Santos”, a economia de meios transformada em dignidade sonora e em silêncio carregado de sentido. Pensada com um intuito formativo e não como uma concessão a gostos ou modas, a peça confirma Lopes-Graça como alguém que nunca escreve para impressionar, antes para convidar a uma escuta atenta, resistente e ética. Houve igualmente tempo para um dos prelúdios bascos, “Dolor", de Aita Donostia (em castelhano, Padre Donostia), e uma delicada peça de Schumann, ambos colocados como espelhos distantes e reveladores de uma linhagem introspectiva que atravessa séculos. Luís Duarte interpretou-as com igual sobriedade, deixando que o som respirasse e que o tempo se ampliasse. O concerto terminou tal como havia começado: Subtil, intimista, sem grandiloquências, mas ciente do seu maior desígnio: Ter deixado no público a sensação de que algo verdadeiramente essencial foi partilhado.

Sem comentários:

Enviar um comentário