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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

DANÇA: "Mycelium" | Christos Papadopoulos



DANÇA: “Mycelium”
Coreografia | Christos Papadopoulos
Assistência de coreografia | Georgios Kotsifakis
Composição musical | Coti K.
Figurinos | Angelos Mentis
Interpretação | Bailarinos do Ballet de l’Opéra de Lyon
Co-produção | Opéra de Lyon, Biennale de la Danse, Théâtre de la Ville – Paris
60 Minutos | Maiores de 6 Anos
Teatro Rivoli - Grande Auditório
30 Jan 2026 | sex | 19:30


Ao desenvolver uma obra centrada na experiência íntima e na escuta profunda do tempo, do corpo e do colectivo, Christos Papadopoulos tem vindo a construir uma obra exigente, rigorosa e profundamente comprometida com o tempo presente. A sua pesquisa coreográfica encontra frequentemente inspiração na natureza e nos seus sistemas de organização, abrindo espaços de reflexão sobre a relação entre o indivíduo e o grupo, a sincronia e o dissenso, a pertença e a autonomia. Mais do que a estética, o virtuosismo ou o aparato cénico, interessa-lhe a criação de paisagens imaginárias capazes de estabelecer uma comunicação directa com o espectador. Influenciado pelo minimalismo musical, pelo cinema de Tarkovsky e Béla Tarr e pela escrita de Virginia Woolf, Papadopoulos trabalha a repetição, a duração e a transformação gradual como motores dramatúrgicos. A música ocupa um papel estrutural nas suas criações, sendo desenvolvida em estreita colaboração desde o início do processo e funcionando como força que molda o ritmo e o movimento em cena.

Nesta linha de acção, “Mycelium” afirma-se como uma das obras mais emblemáticas de Christos Papadopoulos, condensando com rara clareza os princípios estéticos, filosóficos e coreográficos que atravessam o seu percurso. Inspirada no vasto e invisível sistema de filamentos que constitui o micélio, a peça traduz em dança a ideia de rede, transmissão e interdependência, transformando vinte corpos num organismo colectivo em permanente mutação. A partir de um vocabulário mínimo - micro-movimentos, ondulações repetidas, variações quase impercetíveis -, Papadopoulos constrói uma dramaturgia do tempo longo, da atenção extrema e da escuta sensível, fazendo com que a força se erga da contenção. O gesto é praticamente único, mas incessantemente modulado pela ocupação do espaço, pela relação entre os intérpretes e pela progressão sonora, criando uma experiência hipnótica que desloca o olhar do espectáculo para o processo. A música eletrónica de Coti K., concebida em estreita colaboração com o coreógrafo, funciona como campo vibratório e motor invisível da acção, enquanto a luz desenha corpos espectrais que parecem dissolver-se e recompor-se no escuro.

Mais do que representar a natureza, “Mycelium” faz sentir os seus ritmos e lógicas profundas, convidando o espectador a entrar num estado de percepção ampliada, no qual o coletivo se impõe sem anular as singularidades. Exigindo do público uma disponibilidade rara para o silêncio, a contemplação e o detalhe, Papadopoulos trabalha a dança como experiência imersiva e meditativa, mostrando como o sentido nasce da repetição, da duração e da lenta transformação. A peça evoca imagens do mundo vegetal e animal - bandos de pássaros, florestas, algas, fluxos subterrâneos -, sem nunca se fixar numa leitura ilustrativa, mantendo-se num território ambíguo entre o abstracto e o orgânico. Esta ambiguidade é uma das suas maiores forças já que “Mycelium” não explica, sugere; não impõe, contamina. Ao criar uma coreografia de contágio, em que o movimento se propaga como uma necessidade interna, o coreógrafo propõe também uma reflexão ética e política sobre coexistência, interligação e responsabilidade partilhada num mundo fragmentado. Capaz de tornar visível o invisível, o espectáculo assume-se como espaço de resistência sensível e de reconexão com a vida. Um gesto artístico discreto, mas de impacto profundo e duradouro.


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