CINEMA: “A Cronologia da Água” / “The Chronology of Water”
Realização | Kristen Stewart
Argumento | Kristen Stewart, Lidia Yuknavitch
Fotografia | Corey C. Waters
Montagem | Olivia Neergaard-Holm
Interpretação | Imogen Poots, Thora Birch, Jim Belushi, Charlie Carrick, Tom Sturridge, Susannah Flood, Esmé Creed-Miles, Michael Epp, Eleanor Hahn, Earl Cave, Esme Allen, Jeffrey Grinvalds, Ritvars Logins, Peter Rundle, Georgie Dettmer, Keanu Visscher
Produção | Rebecca Feuer, Charles Gillibert, Maggie McLean, Dylan Meyer, Andy Mingo, Michael Pruss, Svetlana Punte, Ridley Scott, Kristen Stewart, Yulia Zayceva
Estados Unidos, França, Letónia | 2025 | Biografia, Drama, Romance | 128 Minutos | Maiores de 16 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 11
30 Jan 2026 | sex | 13:40
Na sua estreia na realização, Kristen Stewart afasta-se deliberadamente das convenções do “biopic” clássico para propor, em “A Cronologia da Água”, uma experiência sensorial e fragmentada, tão instável quanto a própria memória traumática que o filme procura encenar. Adaptando as memórias de Lidia Yuknavitch, co-argumentista do filme, a realizadora opta por uma estrutura descontínua, feita de sobreposições temporais, montagens abruptas e repetições de cenas e diálogos que se reorganizam sob novos ângulos. A vida da protagonista não é apresentada como uma sucessão lógica de acontecimentos, mas como um arquivo emocional em permanente reconfiguração, no qual certos episódios emergem com insistência enquanto outros se diluem. Essa estratégia confere ao filme um carácter profundamente subjectivo: Não estamos tanto a “ver” a história de Lidia, mas a habitar o seu modo de recordar. A narração em “off”, situada num futuro indefinido em que a personagem parece finalmente segura e com coragem de olhar para trás, introduz desde cedo uma promessa silenciosa de sobrevivência. Mesmo quando o que se desenrola no ecrã é brutal - abuso sexual, violência doméstica, dependência, luto -, há sempre a sensação de que este relato existe porque foi possível atravessá-lo.
O mergulho na interioridade de Lidia deve-se, em grande parte, à interpretação de Imogen Poots, que assina aqui uma das performances mais intensas da sua carreira. O seu corpo é o principal campo de batalha do filme: na água, no sexo compulsivo, no consumo excessivo de álcool ou drogas, na raiva que explode sem aviso. Stewart filma-a em fragmentos - pernas, braços, cabelo, boca -, como se o trauma tivesse também estilhaçado a unidade física da personagem. Poots consegue traduzir essa instabilidade com uma fisicalidade crua, especialmente nos momentos em que Lidia tenta escapar de si mesma através do prazer ou da autodestruição. À sua volta, figuras como a irmã Claudia (Thora Birch) ou o escritor Ken Kesey (Jim Belushi) surgem como presenças que intuem mais do que verbalizam, funcionando como espelhos silenciosos do que não pode ser dito. As cenas com Kesey, em particular, condensam uma ambiguidade emocional poderosa: a aproximação a uma figura paternal que é simultaneamente desejada e temida, num reflexo condicionado pelo abuso passado. Ainda assim, a força da interpretação central nem sempre é acompanhada pela “mise-en-scène”, que por vezes se refugia numa estilização excessiva.
É precisamente aqui que “A Cronologia da Água” se torna um objecto crítico de certa forma ambivalente. O lirismo visual - rodado em 16mm, com imagens etéreas e um imaginário que faz lembrar Sofia Coppola e “As Virgens Suicidas” - nem sempre potencia o impacto emocional da narrativa. Em alguns momentos, a violência e a dor parecem suavizadas por uma estética demasiado bela, o que vem problematizar a tensão entre forma e conteúdo. A fidelidade à escrita de Yuknavitch, reforçada pelo uso frequente da sobreposição de vozes e pela divisão em capítulos, aproxima o filme de um objecto literário ilustrado, por vezes relegando para segundo plano o ritmo e a respiração cinematográfica. Ainda assim, seria injusto ignorar a coerência interna deste gesto: Stewart assume um cinema indisciplinado, caótico, mais próximo de um impulso pictórico do que de uma construção clássica. O resultado é irregular, por vezes excessivo e até confuso, mas atravessado por uma convicção rara. “A Cronologia da Água” pode não fluir com suavidade, mas pulsa com uma fome genuína de cinema e revela, apesar das imperfeições, uma cineasta disposta a arriscar e a expor-se tanto quanto a sua protagonista.
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