“O homem está no meio daquela câmara ardente, a única em que sempre se cavernou. Imóvel, escuta, só, as vozes de todas as suas reais criações. Esbugalhado, possuído por elas, sem se mover roda sobre si próprio, na sua cabeça, cruzam-se espaços, momentos, vozes, risos, gemidos, a sua mão a acenar, a desfazer-se no chão. Os outros voltam todos à sua cabeça. Volta a sezão intermitente. Eles voltam todos como uma multidão que o derruba, que o esmaga, que o pisa prazerosamente. Sorri, intrigantemente, mais alto, mais alto, ensurdecedoramente. Enlouquece rindo. Grita a dor até não poder mais e estilhaça-se no chão. Frio. Trémulo. As palmas das mãos frias chapadas no chão. Frio, tão frio. A face dada ao chão. Fria, tão fria. Arde-lhe de frio. Num salto diabólico como um raio fica em pé, arrebata os pincéis e as tintas. Negro. Cinza. Azul. Desenha, de rajada, no chão, um poço profundo como o breu da noite.”
Matéria comum feita de esperas, silêncios e abandono, os dez contos de “Histórias de Um Tempo Só” trazem-nos um tempo como que suspenso num presente contínuo, rotineiro, quase imóvel. Nele, as personagens vivem à margem, nuas na sua humanidade. São homens e mulheres que esperam pela morte, por uma visita, por um gesto mínimo de atenção, num Alentejo que, mais do que cenário, é condição existencial. O largo, a casa caiada, o banco de jardim, a horta, a ladeira ou a escadaria urbana funcionam como espaços simbólicos onde a vida desliza e se cumpre em gestos pequenos e definitivos. Neste universo frio e impessoal, Ana Zorrinho aponta-nos as portas que não se abrem, as janelas que observam em silêncio, toda uma comunidade que vê, que sabe, mas não age e, assim, normaliza a miséria emocional e material que a rodeia. A força da escrita da autora nasce precisamente dessa contenção, da recusa em denunciar com estrondo, em acusar com raiva, antes deixando que a repetição dos dias, dos rituais e das ausências construa uma crítica profunda a uma sociedade envelhecida, desigual e anestesiada, em cujo seio a solidão há muito que se tornou regra.
Essa contenção transforma-a a autora em poesia pela forma como costura uma linguagem que se cola ao corpo e aos objectos. A prosa de Ana Zorrinho é sensorial, rítmica, feita de enumerações, de cadências orais, de palavras que se tocam e sentem. O terço sobre a cama, o copo de água tapado com um linho ponteado de renda, o cheiro intenso a Aqua Velva, a terra quente apertada nas mãos, o negro guarda-chuva encostado à aduela da porta acabada de trancar, são detalhes que carregam em si uma densidade simbólica que ultrapassa a mera função narrativa. Há frases que respiram como versos - “Não tem medo de morrer. Tem pena das coisas” - e imagens que condensam uma vida inteira num gesto mínimo, como o sapateiro que, ao polir sapatos alheios, inventa para si uma história de beleza e música. Esta poética é profundamente feminina, não apenas porque as mulheres ocupam o centro dos contos, mas porque a escrita valoriza o cuidado, o corpo ferido, o trabalho invisível, a maternidade forçada ou desejada, a violência herdada e silenciada. As Marias, Ermelindas, mães e filhas, surgem como guardiãs de memória e dor, mas também como últimas reservas de afecto num mundo árido.
É nesse ponto que o livro ultrapassa a contemplação estética e inscreve, com nitidez, um apelo iminentemente ético. Os contos confrontam-nos com aquilo que preferimos não ver ou não saber: crianças abusadas e famintas, mulheres marcadas pela violência quotidiana, loucuras entregues à rua, velhices abandonadas à espera de um fim discreto, vidas esmagadas pela pobreza, pelo preconceito, pela indiferença. Ana Zorrinho não oferece redenções fáceis nem soluções narrativas confortáveis; oferece consciência. O recado onde se lê “tenho dentro de mim um filho do meu pai”, o homem que não teme a morte mas sofre antecipadamente pelo destino da casa e da terra, a mulher que mata a fome mas recua perante o risco de amar, são momentos de uma força devastadora, que funcionam como gritos. A leitura não termina no ponto final: prolonga-se na inquietação que deixa, no incómodo que persiste, obrigando-nos a questionar a nossa própria posição enquanto leitores e pessoas. “Histórias de Um Tempo Só” pede-nos empatia activa, não piedade; responsabilidade, não silêncio; memória, não esquecimento. E lembra-nos, com uma delicadeza dura e sem retórica, que um mundo mais justo começa sempre pelo gesto simples e radical de ver o outro, reconhecer a sua dor e, sem hesitações, abrir-lhe a porta e o coração.
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