Integrada no programa do AMBID – Ambiente Imagens Dispersas 2025/26, a exposição de fotografia de natureza “Silentes”, de David Guimarães, reafirma a vocação da Associação Amigos do Cáster para pensar o território, a paisagem e a relação entre cultura e natureza como um exercício continuado de cidadania. Ao longo de duas décadas, esta iniciativa tem promovido um diálogo persistente entre criação artística e consciência ambiental, assumindo a imagem como ferramenta de reflexão e não apenas de fruição estética. “Silentes” surge, assim, como peça central de um projeto amadurecido no tempo, que acaba de soprar vinte velas e se constrói pela persistência e pelo compromisso com o lugar. A exposição não se limita a ilustrar a natureza; propõe antes uma tomada de posição ética, convocando o espectador a reconhecer na árvore e na floresta não apenas um motivo visual, mas um sujeito histórico, silencioso e essencial, cuja presença moldou — e continua a moldar — a existência humana.
A fotografia de David Guimarães afasta-se deliberadamente da tradição decorativa da paisagem para se situar num território mais íntimo e reflexivo. O seu manifesto curatorial constrói uma narrativa quase ancestral, onde a árvore surge como abrigo, ferramenta, memória e origem, acompanhando a humanidade desde os seus primeiros gestos até à actual voragem de consumo e esquecimento. As imagens não gritam nem denunciam de forma panfletária; antes sugerem, convocam e exigem atenção. Há nelas uma quietude densa, um silêncio que não é ausência, mas acumulação de tempo, de gestos e de dependências mútuas. Ao alternar vistas amplas com detalhes florestais, o fotógrafo cria uma cartografia sensível onde o monumental e o ínfimo coexistem, revelando a floresta como organismo vivo e interligado, distante da ideia de cenário e próxima da noção de corpo.
Em “Silentes”, a beleza surge inseparável do cuidado. Pressente-se em cada imagem um amor profundo pela natureza, mas também uma consciência aguda da sua fragilidade e da responsabilidade humana na sua preservação. A floresta é apresentada como espaço de refúgio, de escuta e de reconstrução interior, num mundo saturado de ruído e estímulo. Esta dimensão introspectiva, enraizada nas memórias de infância do autor, confere à exposição uma densidade rara: o exterior completa-se no mundo interior e vice-versa. Ao olhar estas fotografias, o visitante é convidado não apenas a contemplar, mas a reconhecer-se, a desacelerar e a reconsiderar a sua relação com o ambiente. É nesse gesto silencioso que “Silentes” ultrapassa largamente a fotografia de paisagem, afirmando-se como um tributo visual e ético à árvore — essa mãe discreta de uma sociedade que, tantas vezes, insiste em esquecê-la.
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