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domingo, 12 de julho de 2026

CONCERTO: Martín Sued & Orquestra Assintomática com Yamandu Costa



CONCERTO: “Saga” | Martín Sued & Orquestra Assintomática com Yamandu Costa
Com | Yamandu Costa (violão de sete cordas), Martín Sued (bandoneón, arranjos e direcção), Gustavo Cabrera (violino), Sandra Martins (violoncelo), Cristian Basto (contrabaixo), Sergio Escalera (piano), Alan Plachta (guitarra)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
10 Jul 2026 | sex | 21:30


O concerto de Martín Sued e da Orquestra Assintomática, com a participação especial de Yamandú Costa, constituiu um dos momentos mais singulares da primeira metade da 52.ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho. No centro das atenções esteve “Saga”, projecto discográfico que remonta a 2023 e que faz da exploração da identidade musical sul-americana o seu grande desígnio. Embora o bandoneón de Martín Sued evoque inevitavelmente o universo do tango, a sua linguagem composicional vai muito além dessa referência, integrando elementos da música de câmara, do jazz, da improvisação e de diversas expressões populares das músicas da América do Sul. Criada pelo próprio músico argentino, a Orquestra Assintomática funciona como um verdadeiro laboratório sonoro, em cujo cerne cada instrumento assume a construção de narrativas ricas em contrastes, alternando momentos de grande delicadeza com passagens de intensa energia rítmica. O resultado é uma música profundamente expressiva, cinematográfica e contemporânea, que se mostrou capaz de transportar o público através de diferentes paisagens emocionais, num todo de enorme coerência artística.

A presença de Yamandú Costa acrescentou uma dimensão muito especial a este projecto. Reconhecido internacionalmente como um dos maiores intérpretes do violão de sete cordas, o músico brasileiro distingue-se não apenas pelo virtuosismo extraordinário, mas também pela forma como alia técnica, sensibilidade e imaginação. Em “Saga”, contudo, o seu papel vai muito além da participação de um solista convidado. As composições apresentadas são da sua autoria, tendo sido desenvolvidas e orquestradas por Martín Sued para esta formação, criando um diálogo permanente entre o violão, o bandoneón e o restante ensemble. Em vez de uma sucessão de momentos de exibição individual, o que emerge é uma verdadeira conversa musical, em que cada intervenção contribui para um todo maior. Inspiradas na tradição do sul do Brasil, as composições convivem de forma natural com as influências argentinas, uruguaias e bolivianas, enquanto os espaços dedicados à improvisação surgem integrados na arquitectura das obras, dotando-as de uma permanente sensação de descoberta, espontaneidade e liberdade.

Marcado pela cumplicidade entre os músicos e por um equilíbrio perfeito entre o rigor da escrita e a liberdade criativa, o concerto afirmou-se como um excelente exemplo da linha artística que o FIME tem vindo a consolidar nas últimas edições: uma programação que valoriza o encontro entre diferentes culturas, linguagens e formas de criação musical. “Saga” não procurou reproduzir modelos tradicionais nem revisitar repertórios conhecidos. Antes propôs uma visão atual da música sul-americana, aberta ao diálogo com a música erudita contemporânea, o jazz e outras formas de expressão instrumental. Foi quase hora e meia de espectáculo pensado para ser vivido como uma peça em contínuo, cada tema ligado ao seguinte através de uma narrativa musical cuidadosamente construída. Os apreciadores da intensidade emocional de Astor Piazzolla encontraram certamente ecos desse universo, mas descobriram igualmente uma linguagem própria, marcada pela elegância dos arranjos, pela riqueza tímbrica da orquestra e pela capacidade de surpreender a cada momento. Mais do que um concerto de tango, de jazz ou de música popular, esta foi uma celebração da criatividade, da escuta e do encontro entre músicos que partilham uma visão artística profundamente contemporânea, oferecendo ao público uma experiência envolvente e sofisticada. Memorável!

segunda-feira, 12 de julho de 2021

CONCERTO: Yamandu Costa - Encontro Ibero-Americano



CONCERTO: “Yamandu Costa – Encontro Ibero-Americano”
Festim - Festival Intermunicipal de Músicas do Mundo 2021
Cine-Teatro de Estarreja
09 Jul 2021 | sex | 21:30


O Cine-Teatro de Estarreja vestiu-se de gala para receber esse verdadeiro prodígio que é Yamandu Costa, considerado como “um dos maiores fenómenos da música brasileira de todos os tempos”. Revelando uma profunda intimidade com o violão, o artista correspondeu na íntegra às elevadas expectativas e, dando provas de um raro virtuosismo capaz de cativar até o melómano mais exigente, mostrou o quanto se transfigura à medida que vai vertendo magia de cada uma das sete cordas do seu instrumento. Mesclando o clássico e o moderno e abrindo a sua música em paisagens sonoras carregadas de sonho e emoção, Yamandu Costa teve em palco a companhia do bandoneon de Martín Sued – com quem gravou, no ano passado, o álbum “Visita Boa” - e da guitarra portuguesa de José Manuel Neto. Com tanto de improvável como de fascinante, este “Encontro Ibero-Americano” conjugou na perfeição o fado com o choro e o tango, mostrando que muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa”.

O concerto arrancou com Yamandu Costa, sozinho em palco, a homenagear dois dos seus compositores de referência: Lúcio Yanel e Raphael Rabello. No primeiro caso, com o tema “Luciana”, o violonista prestou tributo à sua maior influência, com quem conviveu de forma íntima e gravou o seu primeiro álbum, “Dois Tempos”, nos idos de 2000. Raphael Rabello surgirá um pouco mais tarde, numa altura em que Yamandu Costa buscava novos horizontes, que não apenas os da música folclórica do Sul do Brasil, Argentina e Uruguai. É daí que vem “Cimarron”, o génio de Costa unido ao de Rabello, “o violão em erupção”. “Milonga de Mis Amores” viu Costa e Sued em palco, a cumplicidade entre violão e bandoneon levada ao limite, um toque de erotismo no entrelaçar das notas de ambos os instrumentos. Será com o tema “Porto” que José Manuel Neto se juntará aos restantes artistas, como que fechando um círculo que une todos os povos de todos os portos deste grande lago Atlântico. Entretanto, Yamandu Costa vai dedilhando o violão nos intervalos, acabando a confessar que “passa uma metade da vida a afinar o violão e a outra metade a tocar desafinado”.

Com “Limeña”, o ar encheu-se de ritmos andinos, para logo assentarmos arraiais na Ibéria, improvável “jangada de pedra”, com uma inspiradíssima composição de Eduardo Souto intitulada “Despertar da Montanha”. Sob o signo da inspiração, os trinados da guitarra e os gemidos do bandoneon aconchegados pelo vasto manto do violão, o concerto prosseguiu com “Quando Meu Filho Nascer”, um tema do mais recente álbum de Yamandú Costa, “Caminantes”, de parceria com Sued e Luís Guerreiro. Este álbum viria a estar na base do alinhamento do concerto, revisitando o dolentíssimo tema “Peregrim e Beignet” e o mexido “Lapa Hora Zero”, depois de outras duas interpretações notáveis: “Danzarin” e “La Partida”. “Milonga - Choro”, também do álbum “Caminantes”, parece ser a síntese perfeita entre os três estilos musicais que se evidenciaram ao longo do concerto. O final, apoteótico, deu-se com “Vira de Frielas”, um tema desse guitarrista ímpar que foi José Nunes, fazendo levantar o público das cadeiras num longo e entusiástico aplauso. O remate perfeito numa noite inesquecível.

[Foto: FIME - Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho/]