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sexta-feira, 2 de maio de 2025

CONCERTO: Sérgio & Os Assessores



CONCERTO: Sérgio & Os Assessores
Com | Sérgio Godinho (voz), João Cardoso (teclados, coros), Sérgio Nascimento (bateria), Nuno Espírito Santo (baixo, coros), Miguel Fevereiro (guitarras, percussão, coros) e Nuno “Rafa” Rafael (direcção musical, guitarras, coros)
Centro de Artes de Ovar
30 Abr 2025 | qua | 21:30


“Na verdade quero ser p’ra já / O número dois / P’ra me ultrapassar depois, dois, um / Eleito o rei do zum zum.” Foram estes os versos escolhidos por Sérgio Godinho para abrir o concerto que o trouxe, e aos seus assessores, ao Centro de Artes de Ovar, uma casa que conhece bem. “Famoso por ser famoso”, o artista chamou à sala os seus incondicionais e outros que tais, transformando-a num espaço emotivo, de festa e cumplicidade, repleto de um público incansável no aplauso, sedento de celebrar a música e a poesia numa altura em que passam cinquenta e um anos sobre a Revolução dos Cravos. Com mais de meio século de uma carreira sólida, de força e de luta pela defesa dos valores “da paz e do pão, da habitação, saúde e educação”, o cantautor trouxe-nos os sons e as cores da liberdade num conjunto de canções, umas mais antigas que outras, todas elas icónicas, como icónica é a sua obra. A mescla de “novo” e “menos novo”, num alinhamento inteligentemente construído, foi um dos aspectos marcantes do concerto, evidenciando a enorme coerência, homogeneidade e qualidade de uma obra intemporal, inscrita nos genes de quem não desiste de associar as suas cores às do dia inicial inteiro e limpo.

É no palco que se vê e sente a força da obra de Sérgio Godinho: Nesse espalhar a palavra que nos une, no convocar certezas que nos fazem “soltar a rolha que nos tapava a garganta”. “A minha luta não é sozinho que a faço / tem tantos no mesmo passo / braço a braço somos muitos” leva-nos a estender o olhar pela sala e a sentir o coração pequenino ao ver gente de todas as idades a cantar “com um brilhozinho nos olhos”, numa “maré alta” de sonho e ilusão. Para quem “andava há já vinte dias, ao frio, ao vento e à fome”, este reencontro sabe sempre a pouco, mas sabe sempre a tanto. Com “O Charlatão” sobe ao palco José Mário Branco, “Em Dias Consecutivos” traz consigo Bernardo Sassetti, “Ora Vejam Lá” homenageia o Conjunto António Mafra e, porque o Zeca não poderia faltar, “Os Vampiros” vêm lembrar-nos que “eles comem tudo e não deixam nada”. É um caloroso e emotivo matar saudades - “eu matar não gosto nada / mas saudades é diferente / como matar pulgas, alivia a gente” -, que o público sublinhou com a força das suas vozes e o vigor das suas palmas. Força e vigor que os músicos souberam reconhecer, estendendo o “encore” por muito saudadas quatro canções.

Nada ficou por cantar. Nada ficou por contar. Se lido à letra, a certeza seria a de que as doze horas que medeiam o tempo do concerto e o tempo em que escrevo este texto seriam horas de música e estaríamos ainda no Centro de Artes, de tal forma é vasta a discografia de Sérgio Godinho. De “Que Força é Essa?”, a “Bem-Vindo Sr. Presidente”, são dezoito álbuns de originais com muitas dezenas de temas, aos quais se devem acrescentar álbuns ao vivo e em colaboração (com José Mário Branco, Fausto, Manuela Azevedo, Jorge Palma, Galandum Galundaina e outros), colectâneas, compilações e bandas sonoras. Mas “Dancemos no Mundo”, “Cuidado com as Imitações”, “Balada da Rita”, “Quatro Quadras Soltas” e “O Primeiro Dia”, trouxeram consigo “Os Conquistadores”, “Lisboa Que Amanhece”, “É Terça Feira”, “A Vida É feita de Pequenos Nadas”, “Tantas Vezes Fui à Guerra” e tantos, tantos outros temas absolutamente fundamentais da obra de Sérgio Godinho, que os reunimos todos num só, “nas certezas do meu mais brilhante amor”. Na despedida, copo erguido, “brinda-se aos amores com vinho da casa” e deixa-se um voto para que possamos continuar a colher de Sérgio Godinho a inspiração de muitos “primeiros dias do resto das nossas vidas”.

segunda-feira, 18 de março de 2024

CONCERTO: "Liberdade25"



CONCERTO: “Liberdade25”
Sérgio Godinho & Os Assessores
Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha
16 Mar 2024 | sab | 21:30


Seis anos passados sobre o último concerto, volto ao sempre saboroso e apetecido frente a frente com Sérgio Godinho e a sua música. Uma espécie de ciclo que se repete, no recordar de músicas e poemas que são uma parte de mim, inscritos de forma indelével no conjunto das minhas mais gratas memórias, banda sonora dos meus ideais de liberdade e democracia. Aqueles que viveram as alegrias do “dia inicial inteiro e limpo”, que fizeram da esperança certezas e se deram as mãos por uma sociedade mais justa e melhor, sabem o quanto da força da luta se abriga nas canções de intervenção, na razão do seu protesto, no tocar a reunir que se ergue das vozes de Zeca Afonso ou José Mário Branco, de Luís Cília, Adriano Correia de Oliveira, Fausto Bordalo Dias, Manuel Freire ou, claro está, Sérgio Godinho. Esse mesmo Sérgio Godinho de quem guardo discos de muitas décadas, nomeadamente o “Pano Cru”, de 1978, LP inaugural da minha colecção, comprado com um dos meus primeiros salários. São infindáveis as vezes que o ouvi no gira-discos lá de casa… 

Assistir a um concerto de Sérgio Godinho - e são já muitos os regressos ao longo dos anos -, é tornar aos tempos em que mandávamos cartas em papel perfumado, exigíamos os pontos nos iis, queríamos todos ser Etelvinas e abraçávamos os pequenos nadas de que a vida é feita. É por isso que oportunidades como esta, espécie de cursos de actualização e aperfeiçoamento, não se podem perder. Mesmo se a idade do cantor já pesa bastante. Mesmo se a voz perdeu muito da sua elasticidade e a energia em palco já não é o que era. Mas este é homem é eterno, continua a “dar o litro”, o brilhozinho nos olhos quiçá mais intenso e vivo, as palavras avisadas sempre atentas na denúncia do trabalho infantil, na mão dada aos imigrantes, na lembrança de que a liberdade não está a passar por aqui. Foi isto que vivemos e sentimos ao longo de uma hora e três quartos de emoções fortes, gargantas ao rubro, aplausos vibrantes e dois regressos ao palco em “encores” mais do que reclamados. Sempre na certeza de que, aqui e agora, este é o primeiro dia do resto das nossas vidas.

Cobrindo um arco temporal de mais de meio século, onde cabem vinte álbuns de estúdio e dez gravações ao vivo, o concerto teve o seu início com “O Rei do Zum-Zum”, do álbum “Ligação Directa” e chegou ao fim com “Liberdade”, essa canção icónica do álbum à “Queima Roupa”, que nos põe a cantar a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Pelo meio jogámos ao boxe e tocámos bateria, fomos grão da mesma mó, dançámos no mundo, pusemo-nos em guarda, juntámo-nos ao coro das velhas, tivemos cuidado com as imitações e, até não se poder mais, jogámos, bailámos e cantámos. Recordámos canções menos conhecidas como “Na Prisão”, “Benvindo Sr. Presidente” e “Foi a Trabalhar”, escutámos “O Fugitivo” com o coração apertado, abraçámos Zeca Afonso com os “Vampiros” e José Mário Branco com “O Charlatão” e “Mariana Pais” e lembrámos que foi precisamente há 50 anos que teve lugar o Levantamento das Caldas, prenúncio de um 25 de Abril que não tardou. Os aplausos ainda ecoam ao deixar para trás o CCC numa noite memorável. Hoje soube-me a tanto. Portanto, hoje soube-me a pouco.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

CONCERTO: Canções de roda, lenga lengas e outras que tais | Ana Bacalhau, Jorge Benvinda, Sérgio Godinho e Vitorino



CONCERTO: “Canções de roda, lenga lengas e outras que tais”
Ana Bacalhau | Jorge Benvinda | Sérgio Godinho | Vitorino
O Gesto Orelhudo
Centro de Artes de Águeda
11 Out 2020 | dom | 18:00


São muitos os tesouros que guardamos nos baús que se abrigam nos nossos cérebros, uma grande parte dos quais completamente esquecidos, quem sabe se para sempre. Outros há, porém, que volta e meia saltam cá para fora, puxados por uma força invisível que se insinua sob a forma de um aroma, um sabor, um vislumbre, uma simples palavra ou uma cantiga. Foi precisamente sob a forma de cantigas ou, fazendo jus ao título do concerto que fechou ontem a 19ª edição do Festival “O Gesto Orelhudo, em jeito de “canções de roda, lenga lengas e outras que tais”, que muitas memórias e outras tantas histórias nos acudiram à mente, transportando-nos pelo breve tempo de uma hora aos lugares da infância e a um mundo muito mais belo e verdadeiro. De máscara no nariz, é certo, mas de orelhas sempre no ar.

“Indo eu, indo eu a caminho de Viseu”, “Ah ah ah minha machadinha”, “As pombinhas da Catrina”, “Ó Rosa arredonda a saia”, “Oliveirinha da serra” ou “Tia Anica de Loulé” trouxeram consigo as chaves dos baús, fazendo com que do seu interior se soltassem os risos mais sinceros, os gestos mais puros, os porquês mais inocentes. Com que se revissem amigos perdidos lá atrás na meninice, se regressasse aos lugares da fantasia e se revisitassem outras canções de roda e outras lenga lengas. Temperando a nostalgia, “Um Contra o Outro”, “Coro das Velhas” ou “Queda do Império” prolongaram a boa música e abriram os braços para acolher outros que tais. E assim se escutou também “No Alto Daquela Serra”, “A Valsa do Afonso”, “Ó Menino Ó” - Vitorino e Ana Bacalhau num dos mais belos momentos da tarde -, “João”, “Erva Cidreira” e “As Armas do Meu Adufe”.

Foi com enorme entrega e doses gigantes de boa disposição e optimismo que Ana Bacalhau, Jorge Benvinda, Sérgio Godinho e Vitorino nos ofereceram estas “canções de roda, lenga lengas e outras que tais”. Por detrás das extraordinárias qualidades vocais de cada um deles, há um enorme coração. E há, também, quatro talentosos instrumentistas: o pianista Filipe Raposo, o guitarrista Luís Peixoto, o baixista António Quintino e o percussionista Quiné Teles. Para além disso, na tarde de ontem houve igualmente o Coro da Escola de Palco da D’Orfeu e o Grupo Coral Jovem da ARCEL, conjunto de meninos e meninas que, para além do acompanhamento dado aos solistas nos temas finais, ainda nos ofereceram o outro momento alto do espectáculo com uma fabulosa interpretação da “Canção de Embalar”, de Zeca Afonso. Estão todos de parabéns e de parabéns está a d’Orfeu Associação Cultural e O Gesto Orelhudo pela sua insistência em manter viva a chama da arte e da cultura. Por humor à música!

terça-feira, 5 de novembro de 2019

CONCERTO: Sérgio Godinho



CONCERTO: Sérgio Godinho
Casa da Criatividade
12 Out 2019 | sab | 22:00


“Eu não sei nem de escuros nem de auroras”. Foi com estas palavras que Sérgio Godinho abriu as hostilidades no regresso a uma casa que conhece bem e que se encheu de um público entusiástico para o receber, aplaudir e com ele celebrar a música e a palavra. Com quase cinquenta anos de carreira, o cantautor trouxe a S. João da Madeira “Nação Valente”, o seu 18º álbum de originais, ao qual fez questão de juntar uma ampla “Liberdade”, conjunto de canções, umas mais antigas que outras – “a ordem não sendo importante”, disse –, todas elas icónicas, como icónica é a sua obra. Esta mescla entre o novo e o “menos novo” é, aliás, um dos aspectos mais marcantes dos seus concertos, já que evidencia a enorme coerência, homogeneidade e qualidade de todo um trabalho ao serviço da música e da poesia.

Em “Noite e Dia”, de onde extraí o verso com que se inicia este texto, é impossível não sentir a mesma força de “Que Força é Essa?”, tal como é impossível não perceber em “Grão da Mesma Mó” a mesma intensidade de “Maré Alta” ou em “Mariana Pais, 21 Anos” a mesma doçura de “Paula”, todas estas canções separadas entre si por... 48 anos. E foi nesta toada, entre a esperança e as certezas, que o concerto decorreu, a sala mais sossegada em temas como “Artesanato” ou “Tipo Contrafacção”, em modo extático perante uma “Etelvina” ou “Balada da Rita”, frenética no ritmado “Coro das Velhas” ou no renovado “Espectáculo” ou completamente rendida, já no “encore”, cantando em coro “Com Um Brilhozinho Nos Olhos”, “O Primeiro Dia” ou esse imortal “Liberdade” - “a paz, o pão, habitação, saúde, educação” gritados, em “estado de emergência”.

Num concerto sempre vibrante, feito de detalhes de vida a ligar passado e presente, entre “rapazes de camisola verde”, a “jogar ao boxe” ou a “tocar bateria”, Sérgio Godinho não esqueceu o drama dos refugiados em “Dancemos no Mundo”, tal como não deixou de ironizar com a alta política em “Benvindo Sr. Presidente”. E porque “o Zeca não poderia faltar nesta noite”, do enorme Zeca Afonso escutámos “Os Vampiros”. Restará dizer que acompanharam o cantor em palco os “eternos”, extraordinários, João Cardoso (teclados, coros), Sérgio Nascimento (bateria), Nuno Espírito Santo (baixo, coros), Miguel Fevereiro (guitarras, percussão, coros) e Nuno “Rafa” Rafael (direcção musical, guitarras coros). “Hoje soube-me a pouco”, claro que sim. Mas é sempre um até já!

[Foto: Patrice Almeida | facebook.com/casadacriatividade/]

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

LIVRO: "Estocolmo"



LIVRO: “Estocolmo”,
de Sérgio Godinho
Edição | Lúcia Pinho e Melo
Ed. Quetzal Editores, Fevereiro de 2019


Diria que há livros que se revelam pouco merecedores do tempo que lhes dispensamos e “Estocolmo”, de Sérgio Godinho, só vem reforçar esta convicção. Não que não se consigam vislumbrar méritos nos seus pressupostos – uma ficção onde avulta a bizarra relação entre um jovem em cativeiro e uma mulher, com o dobro da idade, que o mantém cativo -, mas porque há maneiras e maneiras de se contar uma história. Ora, no caso em apreço, há toda uma história contada tibiamente, que dá voltas sobre si mesma sem sair do sítio, incapaz de despertar qualquer interesse, a emoção no grau zero.

Das páginas iniciais, retém o leitor breves traços das duas personagens, ficando na expectativa de que o livro as vá alimentando, até se oferecerem por inteiro no seu enviesamento doentio ou na sua sordidez. Mas o que sobressai é uma narrativa que cedo se revela pouco prometedora, falha de ideias, repetitiva e maçadora, pródiga em tiradas cuja moralidade cresce em bicos de pés para logo se reduzir à sua pequenez. Preponderante, a sensação de vazio avoluma-se com o final da história, uma patine cor-de-rosa de mau gosto a invadir pessoas e lugares, distorcendo e deformando até aos limites do suportável.

Por aquilo que é enquanto escritor de canções e pelo lugar que a sua música ocupa no nosso imaginário colectivo, Sérgio Godinho é merecedor do meu mais profundo respeito. Mas porque vibro, ainda e sempre, com os seus temas maiores, também sinto que não devo “fechar os olhos” a “Estocolmo”, ainda que a minha opinião seja profundamente negativa. Tentasse o autor uma abordagem pura e dura aos contornos psicológicos de cada uma das personagens e, ainda que incoerente ou repleto de lacunas, desculpar-se-ia o “atrevimento”. Fosse mais “íntimo” deste casal improvável e assumisse, do princípio ao fim, o erotismo apenas sugerido e talvez tudo fosse bem diferente. Agora este “nem sim nem sopas”, sensaborão e enfadonho, é que não.

sábado, 28 de julho de 2018

CONCERTO: Orquestra de Jazz de Matosinhos e Sérgio Godinho



CONCERTO: Orquestra de Jazz de Matosinhos e Sérgio Godinho
Festival Matosinhos em Jazz
Praça Guilhermina Suggia, Matosinhos
27 Jul 2018 | sex | 22:00


Com o grande espectáculo da “lua de sangue” – o mais longo eclipse lunar do século – ainda na retina de todos, a Orquestra de Jazz de Matosinhos subiu ao palco montado no centro desse fantástico anfiteatro natural que é a Praça Guilhermina Suggia, em Matosinhos, trazendo com ela um convidado muito especial. De novo com a Orquestra, mas desta vez a “jogar em casa”, o intemporal Sérgio Godinho juntou a sua música e os seus poemas aos arranjos de Pedro Guedes, Carlos Azevedo e Telmo Marques, para um concerto que se prolongou por quase duas horas e que teve momentos de absoluto brilhantismo.

Com “Cuidado com as Imitações” no arranque - a história bem contada de Casimiro Baltazar da Conceição, um homem que “era tudo menos burro / E tinha um nariz que parecia um elefante” - estava dado o mote para a grande festa. Seguiram-se “Bomba-Relógio", com José Pedro Coelho a brilhar no saxofone-tenor, e “O Acesso Bloqueado”, agora com José Miguel Moreira na guitarra a revelar-se o complemento perfeito dum arranjo único. “Arranja-me um Emprego” precedeu o clássico “Etelvina”, o trompete de Ricardo Formoso a sublinhar a magia do poema. “É Terça Feira”, “O Porto Aqui Tão Perto” ou “O Carteiro”, de António Mafra, intercalaram com “Grão da Mesma Mó”, do novíssimo “Nação Valente” ou “Maré Alta”, o tema que fecha “Os Sobreviventes” (1972), o primeiro álbum do cantor.


Já na segunda metade do concerto, “Espalhem a Notícia” foi um momento único - “eu vou ao fundo do mar no corpo de uma mulher bonita” -, o fabuloso arranjo orquestral a realçar o enorme potencial jazzístico deste tema, devidamente sublinhado pelo extraordinário solo de saxofone-alto de João Guimarães. Dedicado a todos os refugiados e emigrados deste mundo, “Domingo no Mundo” foi outro enorme momento, ao qual se seguiu outro clássico intemporal, “Liberdade”, “a paz, o pão, habitação, saúde e educação” cantado por todos a plenos pulmões. Em “O Coro das Velhas” foi a vez dos metais imporem a sua força, tudo a terminar com “O Primeiro Dia” e “É Tão Bom”, os incontornáveis Carlos Azevedo no piano e José Carlos Barbosa no contrabaixo numa demonstração de genialidade. Perante os insistentes aplausos dum público totalmente rendido, a Orquestra e Sérgio Godinho ainda viriam duas vezes ao palco, primeiro “Com Um Brilhozinho nos Olhos” e, uma vez mais, com “Cuidado com as Imitações”. Noite única, noite mágica em Matosinhos. Foi tão bom!


domingo, 18 de março de 2018

CONCERTO: "Nação Valente", de Sérgio Godinho



CONCERTO: “Nação Valente”,
de Sérgio Godinho
Casa da Cultura de Ílhavo
17 Mar 2018 | sáb | 21:30


A um concerto de Sérgio Godinho assiste-se sempre – mas sempre! - “com um brilhozinho nos olhos”. A razão encontrar-se-á, certamente, no mais íntimo de cada um, mas a isso não serão estranhos domingos no mundo, espadas de madeira proferindo sentenças, jogos ao boxe, toques de bateria, partos sem dor, primeiros dias do resto das nossas vidas, Etelvinas, Ritas em guarda, a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação. Em suma, a liberdade. E a liberdade de a cantar!

Em Ílhavo, com sala esgotada, uma vez mais se cantou a liberdade. Espalhadas pelo palco, as letras que compõem a palavra faziam, desde logo, a ponte entre o seu disco anterior (“Liberdade Ao Vivo”, 2014) e este novíssimo “Nação Valente”, lançado há pouco mais de um mês. Revisitando temas antigos e dando a ver as canções do seu mais recente trabalho - “Noites de Macau” foi mesmo a excepção – Sérgio Godinho voltou a mostrar-se em grande forma, contagiando o público com a força das palavras e a energia em palco, dele recebendo vividos e sentidos aplausos.

“Nação Valente” é mais um exemplo da genialidade deste escritor de canções. A sua permanente atenção a um mundo convulsivo e em constante mutação faz com que, cada vez mais, a cantiga seja uma arma na sua voz. “Eu não sei nem do escuro nem da aurora / Eu que trabalho em turnos noite e dia” diz-nos que muito pouco mudou nesta nação valente nos últimos trinta anos (“Que força é essa”, a irmã mais velha desta “Noite e Dia”, data já de1985). E o país é isso mesmo, agora a ressacar da troika, “(...) assim carente, perdão pedindo para a sua gente”, ou talvez “igual no gosto / ou um gosto a contrafacção”. Com “Baralho de cartas”, agora “é carne o que era só céu” e em “Delicado” (com letra e música de Márcia) “quem quiser pintar passados / vai ter muito para emendar”. Pelo meio, José Mário Branco insinua-se em “Mariana Pais, 21 anos” - “os meus sonhos mordem pão de trigo / E mordem pão de ló”.

Embora todo ele se revele precioso, o novo espectáculo de Sérgio Godinho acaba por ter em “Grão da mesma mó”, com música de David Fonseca, o momento mais forte. Vamos já no segundo “encore” e o público vibra. A batida é poderosa e volta a lançar as questões como sementes ao vento. “Um curto espaço de tempo / Vais preenchê-lo com o frio / da morte morrida / ou o calor da vida vivida?”, pergunta. Canta-se “a linha funda, na / palma da mão / Desenha o tempo então”. No palco e na plateia um côro de vozes acompanha o cantor. Finalmente o último acorde, as palmas que parecem não querer acabar e depois o “espaço em branco”. Página virada, Ílhavo ficou para trás. As palavras, porém, continuam a agitar-se na nossa mente com a força de sempre: “Grão da mesma mó / Grão da mesma mó / Grão da mesma mó / Grão da mesma mó / ...”