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sábado, 17 de outubro de 2026

LIVRO: “Vidas Perfeitas” | Carla Quevedo



LIVRO: “Vidas Perfeitas”,
de Carla Quevedo
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Abril de 2026


“Há riscos em adaptar máximas antigas aos nossos tempos. O excesso é atrativo numa era em que chamar a atenção é uma virtude. A moderação é um tédio quando comparada com a excitação do radicalismo. Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio que morreu a 13 de maio em Montevidéu, na sequência de um cancro do esófago, adaptou esta máxima ao consumismo desenfreado: 'Em que gastas o milagre de teres nascido? A pagar contas e a comprar coisas até seres um velho destruído. E não compras com dinheiro. Compras com tempo de vida que gastaste para ter esse dinheiro.' A originalidade de Pepe Mujica estava em ser consequente com o que defendia.”

Ao reunir mais de uma centena de obituários, “Vidas Perfeitas”, de Carla Quevedo, parte de uma contradição deliberada: como podem ser perfeitas vidas tão desiguais, algumas luminosas, outras moralmente abjectas? A resposta encontra-se na introdução da autora: “É perfeito o que não pode ser repetido, não é susceptível de correcções, não pode ser refeito.” A morte não absolve nem santifica, antes transforma a existência num território fechado, disponível para a interpretação. O obituário deixa, assim, de ser mera notícia biográfica ou elegia circunstancial para se tornar exercício de julgamento, memória e escrita. Miguel Esteves Cardoso, no prefácio, identifica com precisão a singularidade desta abordagem: os retratos são biografias, mas são também, inevitavelmente, retratos da própria autora. A sua inteligência impaciente, o humor, a ironia e a impiedade perante a banalidade convivem com uma capacidade genuína de admiração e ternura. Carla Quevedo tanto se entusiasma com os seus protagonistas como parece exigir-lhes, postumamente, uma justificação para terem vivido. Nessa oscilação encontramos a recusa da solenidade automática perante a morte e a convicção de que nenhuma existência merece ser reduzida à fórmula piedosa que habitualmente a acompanha. Nem todos são heróis; nem todos merecem lágrimas. Mas todos oferecem matéria para pensar o que significa estar vivo.

A diversidade dos protagonistas constitui um dos grandes argumentos de “Vidas Perfeitas”. Entre os músicos e intérpretes encontramos a “maravilhosa insolente” Rita Lee, Sara Tavares, Fausto Bordalo Dias, Quincy Jones e Ozzy Osbourne; entre os escritores e poetas, Nuno Júdice, Adília Lopes, Maria Teresa Horta, Martin Amis e Mario Vargas Llosa. A ciência e o pensamento estão representados, entre outros, por Daniel Kahneman, James Watson, Jane Goodall e Nuno Loureiro; a política e a justiça convocam figuras tão distintas como Chita Rivera, Álvaro Laborinho Lúcio, Joana Marques Vidal e Silvio Berlusconi. Há ainda fotógrafos, arquitectos, artistas plásticos, empresários, activistas e personalidades menos conhecidas, cujas vidas revelam formas discretas, mas decisivas, de intervenção no mundo. A autora sabe encontrar, por detrás do currículo, o pormenor que devolve humanidade à figura pública. Tom Wilkinson, por exemplo, nunca se interessou pelo estrelato; acreditava que os actores tinham de ter um certo anonimato, e conseguia tê-lo. Falando sobre a sua relação com a natureza e os animais, Sebastião Salgado defendeu que havia que aceitar as pessoas, assim como tivera de aceitar uma tartaruga-gigante nas Galápagos para a poder fotografar com justiça. Ao arquitecto Nuno Portas interessaram-lhe as marcas da cidade e a forma como permaneciam ao longo dos séculos; os edifícios mudam, mas o espaço público permanece igual. São apontamentos que valem mais do que a simples curiosidade biográfica, ao condensar maneiras de estar, trabalhar e olhar. Em vez de alinhar feitos numa cronologia inerte, a autora procura o gesto, a frase ou o episódio capazes de iluminar uma personalidade. O resultado é uma galeria sem hierarquias rígidas, onde a grandeza não coincide necessariamente com a celebridade e a singularidade não depende de uma vida espectacular.

Lido no seu conjunto, o livro desenha também uma história moral e política do nosso tempo. A ditadura portuguesa surge nas fotografias de Eduardo Gageiro, que registou a pobreza censurada pelo regime e encontrou no 25 de Abril uma transformação que continuaria a celebrar até ao fim da vida. A violência das ditaduras latino-americanas atravessa a história de Nora Cortiñas, a “mãe de todas as batalhas” e um dos maiores nomes contra a ditadura argentina, que fez da procura do filho desaparecido uma luta contra o esquecimento. A resistência à Rússia autoritária ganha rosto em Alexei Navalny. A teocracia iraniana encontra em Ebrahim Raisi uma das suas expressões mais brutais. A guerra, a perseguição das mulheres, o terrorismo e a instrumentalização política da religião surgem, por sua vez, na história da israelo-alemã Shani Louk. A estas feridas juntam-se questões menos directamente associadas à violência: a corrupção e a concentração do poder, expostas no retrato de Berlusconi; o consumismo, criticado por Pepe Mujica; os direitos civis, evocados através de Harry Belafonte; e a emancipação feminina, presente em tantas das mulheres que desafiaram convenções e instituições. A cultura não imuniza contra a barbárie, a inteligência não garante a bondade e a notoriedade não constitui prova de mérito. É esta consciência, tão incómoda quanto necessária, que aproxima vidas aparentemente inconciliáveis e impede que a leitura de “Vidas Perfeitas” se transforme num desfile de homenagens.

A qualidade literária da obra nasce, sobretudo, da voz que a percorre. Quevedo alterna a informação rigorosa com a digressão ensaística, o comentário mordaz com a observação afectuosa, sem abdicar de uma prosa que pensa enquanto conta. Rita Lee, ao chamar “Jair” ao cancro, transforma o sofrimento numa última provocação. Perante Berlusconi, a autora observa que “era uma pessoa que se portava mal, e isso era atrativo para os italianos”. A propósito de Nora Cortiñas, a imagem das «mães sem filhos» restitui o absurdo de uma violência de Estado. A fotografia de Höpker regista “a normalidade num dia em que a maior democracia do mundo foi atacada”; Gageiro, por seu turno, fotografava o país que a ditadura preferia esconder. Já Mujica pergunta: “Em que gastas o milagre de teres nascido?”; Joana Marques Vidal surge associada à ideia de que “o maior dos males é cometer uma injustiça”. Shani Louk é recordada como «uma figura bela e livre»; e Raisi termina simbolicamente num inferno que a autora não confunde com absolvição. Estas passagens não substituem a leitura integral, mas mostram a amplitude tonal do livro. Nem todos os retratos atingem a mesma intensidade e a abundância de informação pode, por vezes, sufocar a elaboração literária. Ainda assim, “Vidas Perfeitas” consegue o que distingue um bom livro de obituários de um simples arquivo de vidas: fazer da morte uma pergunta dirigida aos vivos. No fim, a perfeição do título não reside nas personagens, mas na irrepetibilidade das suas existências e na responsabilidade de as contar.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

LIVRO: "A Montanha" | José Luís Peixoto



LIVRO: “A Montanha”,
de José Luís Peixoto
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Outubro de 2025


“Falou do pai, dos vários livros em que nomeou o pai, ou seja, todos os livros que escreveu. Explicou que falava do pai quando escrevia pai ou o meu pai, como no primeiro livro que publicou, Morreste-me; explicou que falava do pai até quando escrevia céu, até quando escrevia sobre escritores de óculos ou empresários de bigode, como nos dois romances anteriores. E comoveu-se ao lembrar o pai, o rosto do pai a olhá-lo, e entusiasmou-se ao explicar ideias, referiu a palavra ficcionalização, utilizou todo o campo lexical da palavra biografia. Quando terminou de falar, o silêncio foi ainda mais opaco, ninguém pareceu entender o que tinha dito.”

O regresso de José Luís Peixoto ao romance confirma uma ambição literária que ultrapassa largamente o mero retrato da doença inscrito nas páginas de “A Montanha”. Partindo de um conjunto de testemunhos recolhidos no Instituto Português de Oncologia do Porto, o autor constrói um mosaico de vidas suspensas, vindas de geografias e circunstâncias diversas, unidas pela experiência comum do cancro. Porém, mais do que um romance sobre a doença, este é um livro sobre o acto de a narrar — e, sobretudo, sobre a impossibilidade de o fazer de forma total. A estrutura fragmentária, evocada no próprio texto como uma “manta” de origens múltiplas, reflecte essa tentativa de apreender o indizível: episódios dispersos, vozes que surgem e se dissipam, histórias que recusam o conforto ou o alívio. Neste sentido, o que José Luís Peixoto propõe é um objecto literário situado algures entre o documental e o onírico, entre a empatia e o distanciamento crítico, desafiando o leitor a aceitar a incompletude como forma de verdade.

É, contudo, na dimensão metaliterária que A Montanha encontra a sua singularidade mais incisiva. O “Escritor”, figura simultaneamente autobiográfica e ficcional, observa-se, desmonta-se e, não raras vezes, ridiculariza-se. Nos excertos apresentados, essa auto-ironia ganha corpo através de diálogos que expõem fragilidades estruturais, hesitações, lugares-comuns da própria narrativa, num gesto de desarmante honestidade. Ao convocar nomes como Gustave Flaubert, Franz Kafka, Kōbō Abe ou Walter Benjamin, o romance inscreve-se numa tradição reflexiva que interroga o próprio estatuto da literatura. A crítica interna, encarnada na voz de um enigmático Björn, evidencia uma consciência aguda dos riscos do projecto: a dispersão, o excesso de referências, a tentação de um livro que fala demasiado de si próprio. Mais do que um exercício de erudição, trata-se de uma tentativa de situar o acto de escrever entre duas tensões, o que é herdado e o que é vivido, num mundo onde ambas parecem insuficientes para dar conta da realidade extrema da doença.

Por fim, “A Montanha” é atravessado por uma linha íntima e persistente: a memória do pai de José Luís Peixoto, cuja morte regressa como ferida jamais cicatrizada, fazendo eco do gesto inaugural de “Morreste-me”. Essa ausência ganha neste livro uma nova densidade ao cruzar-se com a experiência dos doentes oncológicos, fazendo de “A Montanha” um espaço de reconciliação, mas também de culpa e insuficiência. Reiterada e sublinhada, a palavra “cancro” surge como cerne da narrativa, um termo que concentra medo, estigma e fatalidade, mas que o autor insiste em encarar sem eufemismos, como se nomeá-lo fosse já uma forma de resistência. Em contraponto, emerge a ideia de Ubuntu - “eu sou porque nós somos” - como horizonte ético e afectivo que sustém o texto. A identidade constrói-se na relação, na partilha de histórias, na empatia possível, ainda que imperfeita. Entre a fragmentação e o desejo de unidade, entre o silêncio e a palavra, José Luís Peixoto ergue um romance que não oferece respostas fáceis, mas que encontra, na sua própria inquietação, uma forma rara de humanidade.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

LIVRO: “Toda a Gente Tem um Plano”



LIVRO: “Toda a Gente Tem um Plano”,
de Bruno Vieira Amaral
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Novembro de 2024


“Um dia, o professor Pretérito Perfeito cismou com ele, como se nunca o tivesse visto antes, nem se tivesse sequer apercebido da existência daquele rapaz, perdido que geralmente estava nos seus pensamentos, planos e projetos. Quem era mesmo o miúdo? Ah, filho da Alda. Não estava a ver quem era, mas pronto. Um interessante fenómeno sociológico, deveras. Caso para ser acompanhado de perto, estudado. Que destino teria, criado sem pai nem mãe? A tia, sim, que não era tia, não é a mesma coisa. Tinha essa impressão, embora carecesse de confirmação científica. Estudos. Opinião é como o sim-senhor, não é? Toda a gente tem. Mas o saber é para quem estuda. E era necessário estudar os efeitos de uma criação de tal sorte.”

Àquela hora da manhã, as árvores da Avenida da Praia assistem à romaria de fantasmas que arrastam o peso da rotina. Do outro lado do rio, a grande cidade com as suas luzes. Deste lado, paralíticos e cancerosos colostomizados, velhos a falar sozinhos e deprimidos sem dinheiro para aviar a receita de Xanax, ciganos e antigos combatentes da Guerra Colonial “onde perderam pernas, braços e juízo (e ganharam uma reforma de merda e ódio aos turras)”. Entre eles está Carlos, aliás Calita, também ele com ar de suicida, “de quem está no limite e se prepara para dar o último passo rumo a um abismo maior, mais profundo do que o braço de rio que se estende à sua frente”. As próximas duzentas páginas do livro irão mostrar-nos de que massa é feito este Calita, falar-nos das circunstâncias em que conheceu a própria mãe, levá-lo nessa longa jornada que começa nas ruas de Lisboa, passa por um reformatório da Guarda e pelas noites de Benidorm, até terminar nas afueras de Madrid. E trazê-lo de volta à realidade do bairro e ao mundo cinzento que é de novo o seu.

Depois da estreia fulgurante com “As Primeiras Coisas” - que viria a valer-lhe o Prémio Literário José Saramago -, e desse extraordinário “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”, Bruno Vieira Amaral está de regresso ao romance, após sete anos de interregno, com “Toda a Gente Tem um Plano”. Comprometido com as geografias da margem sul - do pontão de Alcochete às salinas de Alhos Vedros, da praia do Rosarinho ao mercado do Lavradio e às moradias do bairro Alentejano, do bairro Gouveia e das Arroteias -, o autor volta às lugares da infância para compor uma ópera trágica à volta de Calita e da sua inaptidão para segurar a felicidade possível que se apresenta ao alcance das mãos. Numa escrita que cruza as memórias de quem vive e sente um tecido social feito de ricos, remediados e pobres, Bruno Vieira Amaral lança um olhar lúcido sobre a vida na margem (e à margem) da capital, pontuado de humor e de uma fina ironia. Na ténue linha que separa uma vida honesta da marginalidade, Calita toca profundamente o leitor pela vontade em regressar aos lugares onde foi feliz, sistematicamente contrariada por uma vida cujas oportunidades são só para alguns.

Admirador confesso da escrita de Bruno Vieira Amaral, seja ela romance ou conto, crónica ou ensaio - e abro aqui um parêntesis para lembrar o excelente “Aleluia!”, um dos “retratos” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, cujos ambientes e personagens estão na base de algumas das mais interessantes passagens de “Toda a Gente Tem um Plano” -, é com emoção que abraço este livro. Através dele revejo as bandeiras de Angola e Cabo Verde que ondulam no cimo de algumas barracas, “como que para sinalizar um território e um orgulho estranhos”, mas também a força de figuras como a Tia Lena ou D. Palmira, o professor Pretérito Perfeito ou D. Pacas, o “sete-vidas”, Rosa Quivunge e Zé Lorde, Canivete e o bando dos Carecas. Entretanto, o bairro torna-se permeável a quem, de longe, traz consigo mensagens de esperança e salvação, o rebanho submisso do pastor Joãozinho de Sousa a crescer a cada dia sob o olhar atento de Pula-Pula. A par de um conjunto de belíssimas obras surgidos neste final de 2024 - e em contraciclo com um ano medíocre (ressaca da pandemia?) -, “Toda a Gente Tem um Plano” é um exemplo acabado do quanto a literatura nos pode inquietar, convocando um renovado olhar sobre as contradições das sociedades em que vivemos.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

LIVRO: "Campo Pequeno"



LIVRO: “Campo Pequeno”,
de João Pedro Vala
Edição | Lúcia Pinho e Melo
Ed. Quetzal Editores, Fevereiro de 2024


“Então, fui lá para comprar uma cebolazinha e o tipo à minha frente, um homem aí com uns, pá, não te sei bem dizer, mas uns, para aí uns cinquenta anos, com aquele ar de quem é mais que os outros, estás a ver, desatou a apalpar as laranjas e a perguntar de onde eram e de onde não eram e o diabo a quatro, de Marrocos mas de Marrocos de onde, dizia o gajo, e eu comecei a incomodar-me, mas, eh pá, enfim, até aí tudo bem, uma pessoa tem de, tem de aceitar, não é (agora falava de forma exageradamente pausada, e, apercebendo-se disso, com medo de que a Laura perdesse o interesse, voltou a acelerar só um bocado); depois, o raio do homem começa-me a escolher os morangos, um a um, eh pá, juro, eu aí comecei, não é, eh pá, comecei a ficar pior que estragado, não é, é que não estás bem a ver, ó Laura, apalpa um, larga, apalpa outro, mete no saco, apalpa outro e mete-o no saco, e ainda me tem a lata de tirar do saco um que tinha acabado de apanhar e voltar a metê-lo no cesto, estás ver (…)”.

Abraçamos um livro de João Pedro Vala com a certeza de que não nos iremos deparar com aquele tipo de leitura que nos faz penar eternidades ou nos obriga a abandoná-la ao fim de umas quantas páginas. A sua escrita espelha um quotidiano do qual nos sentimos cúmplices, discreto na sua essência, despojado de artifícios, que nos faz sorrir das nossas fraquezas, desventuras e imperfeições. Dispensando o grande artifício, as histórias revelam-se plenas de ironia naquilo que a própria vida tem de irónico. Desperdiça-se o tempo em frente ao televisor a ver o Canal Hollywood ou o Roland Garros, elegem-se as citações à categoria de frases filosóficas, o “percebes” é um tique de linguagem que contamina os diálogos, discute-se política em defesa da hombridade do Passos Coelho e o sexismo ainda faz valer a sua lei. Aos domingos, acorda-se estremunhado, espreitando pela fresta a ver se é dia.

A tendência para falar a brincar de coisas sérias é algo que sabíamos de “Grande Turismo” ou do pequenino mas enorme “Muro”, divertidíssima peça literária que resulta de uma residência artística em Figueiró dos Vinhos. Em “Campo Pequeno” João Pedro Vala volta a surgir-nos na pele do narrador e a desenhar o mesmo olhar sobre a vida, embora distanciando-se dela o suficiente para que melhor a possamos observar. Vemos, então, o que distingue aquilo que, na vida, faz sentido (“casar em Outubro por ser mais barato e ainda se apanhar o tempo quente”) e não faz sentido (“não privatizar a TAP, agora tudo ser racismo, ler poesia, uma pessoa ainda descontar para a Segurança Social em vez de haver um sistema de pensões como deve ser”). Nestes pequenos nadas percebemos o reflexo de uma sociedade sem crédito nem ideias, acomodada e falha de iniciativa, a não ser a de se enforcar no coreto do terreiro, como o grande Toninho Mamas.

Laura e Heitor, Gabriel e Mafalda. Mas também Heitor (o pai do Heitor), Manuela e Francisco, Hugo e o pequenino Tomé. Uma freira semi-atropelada, um conquistador mongol, uma mulher roxa, um beatboxer amador, um casal sado-masoquista, um caçador ocasional, um cangalheiro que tira cervejas durante os Santos Populares, uma mãe negligenciada, um actor italiano, um jogador de futebol dos campeonatos distritais, um consultor chato como tudo e um cão. São figuras de uma história que, pontas ligadas, ilustra a demanda do autor sobre o sentido da vida. Entre a esperança e o desânimo, a norma e o desconcerto, todos eles são arquétipos de um quotidiano que cabe, inteirinho, num “campo pequeno”, fechado sobre si mesmo, feita de voltas que se sucedem numa lógica de eterno retorno. No final, não ficará das personagens grande coisa para contar, antes a ideia de identificação com o afã constante de quem se esquiva a uma bandarilha ou sobrevive a uma orelha cortada.

terça-feira, 2 de abril de 2024

LIVRO: "Siríaco e Mister Charles"



LIVRO: “Siríaco e Mister Charles”,
de Joaquim Arena
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Maio de 2022


“Mas ao jovem Charles, que Siríaco observa passeando sozinho pelo ilhéu, pouco interessa o momento mercantil. Os seus olhos procuram identificar os estranhos animais que circulam por entre poças de água e pedras. Siríaco recorda a maresia da sua primeira viagem; a brisa nocturna e o aperto no coração que uma vastidão líquida consegue provocar. O tempo traz aos acontecimentos uma espécie de transparência encantatória e ao mesmo tempo uma incontornável amargura. Mister Merrill, o cônsul, interrompe-lhe os pensamentos, dizendo-lhe que ele poderá ser de grande valia aos ingleses. Talvez seja bom ele ficar ao seu serviço, não só como intérprete, mas para ajudar naquilo que o capitão e os oficiais possam vir a precisar enquanto ali permanecerem. “Não quero que lhes falte nada, não vão esses oficiais nobres emproados dizer lá em Londres que o seu cônsul nestas ilhas lhes faltou com alguma coisa.”

Quando realidade e ficção se cruzam, o resultado pode ser verdadeiramente emocionante. Neste livro acabado de ler, o mais recente vencedor do prestigiado Prémio Oceanos, aquilo que mais cativa o leitor é a forma engenhosa como Joaquim Arena narra um encontro que só por artes da ficção ocorreu, servindo-se para isso de duas personagens reais, em tudo distintas entre si, mas coincidentes no tempo. Charles Darwin é uma delas. O jovem naturalista tem 22 anos e é ainda um aprendiz quando o Beagle, uma fragata da marinha inglesa onde viaja para terras do Sul da América, faz uma escala de vinte e três dias em Porto Praia, na ilha de Santiago, arquipélago de Cabo Verde. Charles fica rendido aos cheiros e ao sentir da primeira terra tropical que pisa, mas sobretudo ao velho negro, esguio e tímido, que lhe é apresentado como guia e intérprete. Chama-se Siríaco, nasceu no Brasil e é um ex-escravo que sofre de vitiligo, o que faz dele alvo da curiosidade geral.

Embora a capa do livro nos leve a pensar que é Darwin a figura central da história, na verdade é de Siríaco que o livro fala. Siríaco que nunca pisou Cabo Verde, é verdade, mas que nasceu escravo no engenho de Princeza da Mata, “nesses campos de cana de Sergipe Del Rey”, e viveu quase toda a sua vida “livre como muitos, livre-alforriado, honrado e preparado para a vida”. E que tinha vitiligo, a mancha a nascer na cabeça e a estender-se a uma boa parte do corpo, “manto do espanto e do mistério” que fazia dele “menino-onça ou negro pigarço”. Do vale do Cotinguiba a São Salvador da Bahia e daí a Lisboa e à corte de D. Maria, às salas e salões dos palácios reais, aos claustros e jardins luxuriantes, vai uma história improvável de grandezas e misérias, ignorância e crueldade. Até ao momento em que Charles e Siríaco se cruzam, numa ilha vulcânica no coração do Atlântico, e o primeiro reconhece no negro “muito mais do que um simples mestre carpinteiro (…), um homem de outra cultura”.

Na escrita de Joaquim Arena prevalecem duas paixões. A paixão pela História, desde logo, evidente nas longas pesquisas que foi obrigado a fazer para nos situar nos ambientes da corte de uma rainha louca, num império em crise com dois irmãos em luta por um trono, nas descobertas do jovem naturalista Charles Darwin tendo como pontos de partida os escritos de Lyell, as teorias de Henslow e as viagens de Von Humboldt, na escravatura nos engenhos de açúcar com as escunas negreiras a persistirem no infame negócio apesar de todas as proibições, no desígnio civilizador a pender sobre três índios da Terra do Fogo para serem mais tarde devolvidos às suas famílias com a missão de espalhar a fé. Mas, sobretudo, a paixão por Cabo Verde, evidente na forma cuidada como recupera a exuberância da vegetação tropical, o vasto campo geológico que é a ilha de Santiago, o carinho com que se refere à vila da Praia e ao cabeço de Monte Facho, à vila de São Domingos, à Trindade ou à Ribeira Grande, a menção à seca, às pragas, às doenças, ao ciclo terrível das fomes. Lição de História e lição de Vida, “Siríaco e Mister Charles” é um livro para guardar nos nossos lugares mais especiais.

sexta-feira, 8 de março de 2024

LIVRO: "Um Preto Muito Português"



LIVRO: “Um Preto Muito Português”,
de Telma Tvon
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Fevereiro de 2024


“Admite, Budjurra, admite que não consegues. Admite que procuras no sonho a ilusão de uma realidade que desmantela tudo o que conheces como verdadeiro e coerente. Admite que navega na secura da incompreensão um compasso de espera de ti para ti. Admite que não te arrependes. Que caminhas perdido e encontrado na sombra dessa luz que não te ilumina por completo. Estarei só? Serei solitário? Claro que não. Sou a gargalhada que feliz deposita confiança nas suas mentiras. Sou, certamente, o escravo do otimismo irritante.”

Chama-se João Moreira Tavares, mas todos o conhecem por Budjurra. É o Budjurra do Cacém, irmão do Carlos e da Sandra, nascido em Lisboa há 26 anos. Mora na casa dos pais, cabo-verdianos que vivem há muito em Portugal. O seu não é um daqueles bairros a que chamam problemáticos, mas diz-se “um ser deveras problemático”. Problemático porque não se enquadra em nenhum dos cenários em que as estatísticas o querem meter. É licenciado em Gestão Ambiental. Fala português convenientemente, seja lá o que isso for. Ninguém sabe se é Preto o suficiente ou se anda a tentar passar por Branco inconscientemente. O que é correcto notar nele é que é amigo de toda a gente. Amigo e companheiro. Tem princípios e valores que passam pelo respeito à vida de outrem e à sua também. É apaixonado pela vida mas anda confuso com a injustiça e as desigualdades sociais. É completamente pacífico, um pouco preguiçoso. É um bacano que se sente sozinho no mundo em que vive e incapaz de o mudar. É um preto muito português.

Telma Tvon tem neste Budjurra o seu alter ego. Mesmo sendo mulher, mesmo tendo nascido em Luanda, é nele que se projecta para nos convidar a atravessar as fronteiras do preconceito e a olhar para a falta de visibilidade, de representatividade e de liberdade que se abate sobre as comunidades tidas como marginais. Do meio dos seus medos, das suas vontades, das suas verdades, Telma Tvon fala de bondade, de humanidade, do que a inspira, do que a torna mais forte. Mas também do que sente, não podendo ser. Fala de emigrantes e imigrantes, de inclusão e rejeição, de “raivas encarceradas no politicamente correcto”. De como se manipulam as ideias, do racismo estrutural no seio das polícias, do inconformismo face à insensibilidade de quem a ignora, de ser mais uma preta que ameaça o Portugal Branco. De se sentir “à margem de uma sociedade que se quer imaculada e de raízes meramente lusitanas”. Por isso proclama mais comunidade, mais poder, mais preta!

Escrito na primeira pessoa, “Um Preto Muito Português” tem uma construção narrativa que o afasta do romance. As reflexões implícitas em cada um dos seus quase cinquenta capítulos faz pensar nele como um livro de crónicas ligadas entre si pela vontade própria de quem se reclama parte da verdade universal de que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”. Primeira obra com uma força invulgar, o livro é fruto do empenhamento pessoal da autora, dele sobressaindo essa urgência de mostrar, de denunciar, de nos fazer passar “para o lado do outro”, que é algo de que todos precisamos muito. Simples sem ser simplista, a prosa é rica em emoções, oscilando entre o divertido e o magoado. É uma prosa fortemente ritmada - “momentos nitidamente transparentes e sorridentes sem motivos aparentes” -, reveladora do facto de a sua autora estar bem integrada na cultura Hip Hop. Por outro lado, faz-nos sorrir com expressões como maka, nha kamba, sabura ou beber uma jola. Um livro fundamental nessa necessidade de nos encontrarmos com aquilo que somos.

domingo, 3 de março de 2024

LIVRO: "A Vida na Selva"



LIVRO: “A Vida na Selva”,
de Álvaro Laborinho Lúcio
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Fevereiro de 2024


“O Velho veste-se de agora. Olha para mim. Cresceu-lhe a barba. Tem cabelo farto, negro e grisalho. Fuma cigarros atrás de cigarros. Trocou de nome. Chama-se Luís. É ele o amigo. Junta-se a aldeia. Todos querem vê-lo. Todos querem ouvi-lo. Todos sabem que quem voa para dentro nunca morre. É dentro que nasce e mora o infinito que habita o humano, e o humano é o eterno em figura de gente.”

Perdeu a camioneta de regresso a casa. Estava no primeiro ano do Liceu e tinha pela frente duas horas de espera e uma redacção de português para o dia seguinte. Nunca dedicara tanto tempo a escrever. Quando acabou, percebeu que tinha completado uma pequena obra-prima. Chamou-lhe “A Vida na Selva”. Com ela, no dia seguinte, escutando a avaliação em tom de crítica da professora, “a adorável D.ª Maria”, nasceu mais um bocado. Falo de Álvaro Laborinho Lúcio e do seu mais recente livro, “A Vida na Selva”, conjunto de crónicas recuperadas “do baú das coisas já escritas”, às quais o autor acrescentou matéria nova, dando-lhes “outra vida, uma identidade própria, mais chegada a este tempo.” Eis, pois, perante nós, um livro que pode ser entendido como uma espécie de testamento, “testemunho de um homem comprometido com as suas paixões e o diálogo com os outros”, resumo de uma vida em contacto íntimo com a palavra.

De nascer e de morrer nos fala este livro precioso - o primeiro grande livro de 2024. Que se abre num prefácio, todo ele espelho de um homem íntegro, firme nas suas convicções, comprometido com o livre pensamento. Um defensor acérrimo da ética, que renega “espreitadelas” e desconfia da “tolerância”. Um humanista, que recusa apear-se cedo de mais e teima em prosseguir rumo à utopia. Prefácio escrito por quem confessa não gostar de prefácios. Prefácio que me prendeu pela sua clarividência e verdade, me obrigou a lê-lo e relê-lo, se mostra uma peça fundamental do pensamento do seu autor e se oferece como uma ferramenta que nos ajuda a melhor ver o que se passa à nossa volta. Que nos alerta e, ao mesmo tempo, nos anima à esperança. Prefácio que vale, por si só, a leitura deste livro, podendo ver-se em cada uma das crónicas que se seguem um extraordinário bónus, fascinantes pelo que convocam, enriquecedoras pelo que transmitem.

Repartido em quatro “tempos” - nascer, voar, lutar, partir -, o livro convoca histórias e reflexões que, sendo do autor, têm um cunho de universalidade que tocam o leitor e o levam a encontrar-se nelas. Estão neste caso as crónicas dedicadas ao tempo pandémico, tempo em que um vírus terrível depositou sobre o mundo “um manto de disfarce”. Tal como o autor, regresso à “correntena” e vejo-me preso a um quarto, “escutando notícias na esperança de notícias”. E, tal como ele, sigo com Camus até Orão à procura de sinais ou guardo na memória esse homem de “cabelo farto, negro e grisalho” chamado Luís, gaivotas no olhar e a certeza de que “só voa quem se atreve a fazê-lo”. Da justiça de Fafe aos silêncios de uma fala, de um Pinóquio trajando “à Sporting” a Natália [Correia] e os juízes, passando pela literatura, pelo teatro ou pelas artes plásticas, são dezanove os textos (mais um prefácio e um posfácio) que nos prendem e inquietam, nos comovem e fazem sorrir. Um livro essencial, de um dos grandes pensadores do nosso tempo.

domingo, 7 de janeiro de 2024

LIVRO: "Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku. Uma Biografia de Angola"



LIVRO: “Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku. Uma Biografia de Angola”,
de José Eduardo Agualusa
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Outubro de 2023


“ - Ficámos lá uma semana, recebendo uma série de tratamentos tradicionais, entre ervas, banhos e outros - recorda Abel. - Para alguns desses tratamentos foi necessário extrair sangue do nosso corpo. Ainda guardamos as marcas. Naquele tempo acreditávamos naquilo. Produzia um efeito psicológico terrível. O que nos garantiram é que depois dos tratamentos, nenhuma bala conseguiria furar-nos a pele. Machadada também não produziria dano algum. Se estivéssemos quase a ser capturados, só teríamos de tirar um pauzinho do bolso e de o mastigar enquanto rodopiávamos em torno de uma árvore, e com isso desapareceríamos, ficaríamos completamente invisíveis.”

“Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku”, a última obra do escritor angolano José Eduardo Agualusa, assume-se como “uma biografia de Angola”. Contributo importante para a compreensão de um conjunto de factos determinantes na construção da nação angolana e na recuperação e consolidação da sua independência, o livro assenta num conjunto de entrevistas a Abel Epalanga Chivukuvuku, histórico dirigente da UNITA (fundou o movimento em 1966, na Suíça, juntamente com Jonas Savimbi), um homem que dedicou a vida ao combate pela democratização do seu país. Um guerrilheiro e um político cuja figura e o seu destino extraordinário “evocam o passado e o presente, as exceções e as escolhas, as dificuldades experimentadas por homens livres que nunca desistiram. Por isso a sua história é também a história de Angola, olhada a partir do Bailundo, no coração da nação ovimbundo.”

Traçar o percurso histórico do Reino do Bailundo - que preservou a sua independência até 1902 - é uma das primeiras preocupações do autor. Recuperando actores e factos históricos, José Eduardo Agualusa aborda a estrutura económica e social deste enclave tão particular e mergulha na cultura e nas tradições próprias do povo ovimbundo. Esta visão inicial permite ao leitor perceber que há aqui uma clara predisposição para a afirmação de vontades em torno de matérias tão importantes como o sentimento de pertença e a luta pela liberdade e pela auto-determinação, o que faz com que o grande movimento oposicionista ao regime do MPLA se tenha fixado no Planalto do Huambo e não em qualquer outro lugar. Determinação, coragem e ambição é aquilo que vemos em Jeremias Chitunda, Miguel N’Zau Puna, Tito Chingunji, Isaías Samakuva, Abel Chivukuvuku, Jonas Savimbi e muitas outras figuras do movimento do Galo Negro, mas sobretudo um enorme orgulho fundado num passado rico de História e tradição.

A partir da “segunda morte de Abel Epalanga Chivukuvuku”, no primeiro de novembro de 1992, o autor traça um percurso que nos leva através de uma Angola mergulhada na Guerra Civil, ao encontro de jogos de interesse e de poder que implicam russos e americanos, cubanos e sul-africanos, e nos quais os angolanos são meros peões num tabuleiro da cor do sangue. À escrita cuidada e envolvente que o caracteriza, acrescenta José Eduardo Agualusa uma singular arquitectura literária que permite ao leitor acompanhar os desenvolvimentos da história como se de um romance se tratasse. Marchas de milhares de quilómetros, ciladas e jogos de bastidores, o animismo e as superstições latentes ou a enorme desconfiança que Jonas Savimbi nutria por Abel Chivukuvuku e que marcou décadas de tensão entre estas duas figuras maiores da oposição ao regime angolano, são-nos mostrados como episódios de uma saga que, do Planalto do Huambo, se estende a Luanda como a Washington, a Lubumbashi como a Kinshasa, a Lusaka como a Bicesse. Pelo que acrescenta à visão da História de Angola, este é um livro a não perder.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

LIVRO: "O Ano do Macaco"



LIVRO: “O Ano do Macaco”,
de Patti Smith
Título original | “Year of the Monkey” (2019)
Edição | Lúcia Pinho e Melo
Ed. Quetzal Editores, Agosto de 2020


“Seguindo as suas vozes, entro na biblioteca de um enorme salão que possui exemplares de grande porte, preservados ao longo dos tempos, e cujas gravuras estão legendadas a lápis como num caderno de recortes. O navio a chegar ao porto de Brindisi quando Virgílio exalou o último suspiro. Navios fantasmagóricos presos no meio da água gelada do Oceano Ártico, cobertos por véus de gelo que brilham como diamantes africanos, Ossos flutuantes de gigantes pré-históricos que outrora foram orgulhosos icebergues. Naufrágios de embarcações com emigrantes e os rostos azulados das crianças e as colmeias que são cada vez menos e uma girafa morta.”

Um tempo chega em que deixa de ser claro se sonhamos os nossos sonhos ou se somos sonhados por eles. Momentos em que a realidade nos pressiona com tanta intensidade, que só nos resta sentarmo-nos no seu bordo cortante de incertezas, os pés pendentes sobre o abismo, à espera do dia claro que nos traga a força e o ânimo que julgámos perdidos para sempre. E depois, com a alma a pingar de dúvida, levantamo-nos e alçamo-nos pesadamente no voo, batendo as asas da esperança sem a certeza de estarmos vivos. Num correr de emoções desencontradas, é isto que Patti Smith se propõe partilhar com o leitor, neste seu “O Ano do Macaco”. Entre geografias pessoais e encontros improváveis, apelos rotineiros e amigos para a vida, numa escrita elegante e fortemente vívida, a autora transforma a narrativa num exercício místico e mágico de imersão no sonho e de recuperação da realidade, na qual se cruzam o eu e o mundo, a poesia e a política, a história e o futuro.

“O Ano do Macaco” reflecte sobre a natureza cíclica do tempo e do ser - do indivíduo, da cultura, da civilização. Assombrada e assombrosa, a história desenrola-se num lugar onde “o sonho é uma segunda vida”, um lugar com a lógica de um imaginário mundo subterrâneo dos tempos da infância, “com os seus duendes e gnomos e a caverna de Ali Babá”. Começa e acaba no camarim do Fillmore West, em San Francisco, atravessando um ano na vida da quase septuagenária Patti Smith. O Ano do Macaco, segundo o horóscopo chinês, no qual tudo acontece, do letreiro de um Hotel que parece ganhar vida aos encontros recorrentes com Ernest, um fã incondicional do escritor Roberto Bolaño. Lá estão “2001, Odisseia no Espaço” e a busca desesperada por uma vacina contra o coronavirus, o Retábulo de Ghent e um bar esconso que já serviu os melhores ovos com presunto do mundo, a doença de Sam Shepard e a morte de Sandy Pearlman, um shot de vodka russa e “o pior de nós” eleito Presidente dos Estados Unidos da América.

Acompanhamos Patti Smith por este mundo desconhecido de ruas secundárias e bares de tacos e os lugares são-nos vagamente familiares. São lugares que pertencem ao sonho (vimo-los no cinema, à boleia de Cassavetes, Jarmush ou Van Sant), mas nos quais a autora se empenha ferozmente em enfrentar a inquietante realidade que neles se esconde, uma realidade injusta e iníqua, à beira do colapso ecológico e moral. Mas se esgravatarmos mais fundo, por baixo deste manto de tristeza - amigos a morrer, filhos de estranhos a morrer, espécies a morrer, icebergues a derreter, a verdade a arder, a justiça a desmoronar-se - veremos que há algo que não desiste de viver, “como o nascimento de um poema ou a erupção de um pequeno vulcão”. É este tipo de otimismo que anima o livro, um optimismo enraizado na noite dos tempos, em estratos de culturas e civilizações que viveram e morreram, esperaram e desesperaram, procuraram um sentido para a vida e souberam encontrá-lo. Vivamos, pois, a vida. Simplesmente!

domingo, 20 de agosto de 2023

LIVRO: "O Quarto do Bebé"



LIVRO: “O Quarto do Bebé”,
de Anabela Mota Ribeiro
Edição | Lúcia Pinho e Melo
Ed. Quetzal Editores, Maio de 2023


“Estou cada vez mais encapsulada. Nos primeiros meses do diário, mantinha-me presa aos dias, à vida real, ao país. Ontem foi o dia em que se registaram mais infeções. Quase esqueci o perigo da pandemia. Rejeitámos aquilo que nos dominava nos primeiros tempos. O rio da pandemia encontrou-se com o rio da doença e este engoliu o primeiro. Agora que a minha doença está controlada, temos condições para fazer o movimento inverso e desenvolver uma diferente obsessão. Se nos confinarmos de novo, no inverno, não terei medo de viver. Porque tenho menos medo de morrer.”

12 de Março de 2020. O Conselho de Ministros aprova um conjunto de medidas extraordinárias e de carácter urgente de contenção e mitigação do novo Coronavírus – COVID 19. Encerram-se escolas e discotecas, estabelece-se a limitação das visitas nos lares e adoptam-se normas restritivas em centros comerciais e restaurantes. Proíbe-se o desembarque de passageiros de navios de cruzeiro e é reforçado o regime de protecção social aos trabalhadores. Para tantos de nós, essa quinta feira marca o dia 0 de isolamento. Como a autora deste livro, também nós dissemos: “Estou noutra irrealidade, e tudo parece absurdo, incompreensível, certamente catastrófico. Não tenho a capacidade de me projectar no futuro, alcançar o verão, a normalidade. Estou presa ao imediato, com uma noção estreita e flexível do tempo. Um dia parece-me uma semana.” De ora em diante, “O Quarto do Bebé” irá tomar a forma de um diário. Palavras como isolamento, confinamento, máscara, luvas, quarentena, pandemia, desinfecção ou assepsia tomam conta dos dias. Também nojo e regressão, medo e morte.

“O Quarto do Bebé” não é só um livro sobre a pandemia, antes “O Livro da Pandemia”, de tal forma ela se faz presente nas palavras de Anabela Mota Ribeiro e na forma como traz com ela o absurdo de um tempo que queremos esquecer. Estamos na presença de um exercício autobiográfico de uma enorme coragem e honestidade, humilde, confidente, certamente doloroso, visceral. É fácil encontrarmo-nos nesta “Filha do meu Pai”, regressando a cada dia seu como se fosse nosso, a mesma determinação, a mesma angústia, ora certos de que “vai ficar tudo bem”, ora perdendo a fé na Humanidade e vendo o horizonte cobrir-se das mais negras nuvens. Pedaços de nós que julgávamos esquecidos regressam com uma força inusitada. Voltamos a bater palmas à janela, a desinfectar as compras com lixívia, a condenar os que ousam sair à rua, a comentar o número crescente de vítimas e de gente nos Intensivos, a dizer amém com a Ministra e a Directora-Geral da Saúde a cada medida mais restritiva do que a anterior. Voltamos a ter medo. A chorar os nossos e os outros.

Mas há ainda uma outra dimensão neste “O Quarto do Bebé”, na medida em que a autora se permite partilhar com o leitor um particular momento de fragilidade física. Presos a uma dolorosa realidade, empatizamos mais ainda com a sua verdade e generosidade. Cada nova página faz-nos mergulhar num turbilhão de emoções e sentimentos, obrigando-nos a olhar no nosso mais fundo, ao encontro da nossa própria finitude. Não é um livro catártico, nem para a autora, nem para o leitor. Antes uma lição de vida, cada memória como parte de um todo que somos, um constructo onde nos achamos incompletos e imperfeitos. Repleto de referências literárias - de Susan Sontag a Primo Levi, de Svetlana Alexievich a Machado de Assis -, o livro reserva ao processo de criação literária uma atenção especial. Metaforicamente, o título ganha expressão se pensarmos no livro como algo que nasce e cresce, que faz o seu caminho escapando ao controlo do seu criador. Livro-almofada, livro-tesoura, livro-espelho, uma coisa apenas ou tudo isso ao mesmo tempo, “O Quarto do Bebé” é livro-eu, sério e sábio, que se ama de coração cheio. Um livro essencial.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

LIVRO: "o meu corpo humano"



LIVRO: “o meu corpo humano”,
de Maria do Rosário Pedreira
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Abril de 2022


“ (…) porque as jóias e as pratas nada valem
se comparadas com a suprema relíquia:
uma caixinha que cabe na concha da
mão, onde repousam, como pérolas
autênticas, todos os dentes de leite

que a fada, afinal, nunca veio buscar.”

No seu extraordinário blogue – “Horas Extraordinárias”, afinal “as horas que passamos a ler” –, Maria do Rosário Pedreira abre uma excepção e fala de si, ou, para ser mais preciso, do seu novo livro de poesia: “o meu corpo humano (em minúsculas, porque eu só pequena)”, no qual “cada poema tem o nome de uma parte do corpo ou de um órgão (braço, cabeça, ouvidos, sangue, carne, rins...) ou várias (cabeça, tronco e membros, por exemplo, ou anca, coxa, perna e pé)”. E acrescenta: “Porque o corpo é frágil e vulnerável, mas também humano no sentido da compaixão, os textos falam de sofrimento próprio e alheio, e do que o tempo faz a um corpo que tem tempo de ver-se ao espelho, e do que a guerra pode fazer ao corpo de uma criança e ao de um adulto.” Fossem as coisas assim tão simples e estaria feita a apresentação do livro. Só que não o são. Há em “o meu corpo humano” uma profundidade que esmaga, uma riqueza de imagens, ideias e emoções que deixa o leitor sem fôlego, um subtil toque de ironia que traz aos lábios um sorriso, uma humanidade tão grande que tudo e todos abraça. Assim, não há como não ir ao fundo do corpo. Do meu corpo humano.

A folha em branco é um espelho em frente ao qual o poeta se despe e se descobre. Aí inscreve, uma a uma, as muitas partes do seu corpo, como quem delas toma verdadeira consciência. Corpo e alma ligados, o rigor é de anatomista. O poema é músculo, mas também é nervo. É carne, mas é também espírito. São muitas as feridas que sangram e nas quais crava o poeta fundo os dedos. A dor atinge o limiar do suportável, o olhar apaga-se. Há uma perna roxa que se esconde no resguardo da saia, uma ferida por sarar na meia grossa e tostões contados na palma da mão, porque pomada é igual a menos pão na mesa. Há uma ratazana que come, descarada, a orelha de um soldado nas trincheiras. No mar segura-se a fome com as mãos todas. Dizem que a doença nova não chega às crianças, mas a morte tem de comer todos os dias. Mói-se o juízo, calam-se as dores, rompem-se as lágrimas, amarrota-se o corpo, o estômago vazio ecoa, são de estimação os calos que se (des)cuidam. Veste-se o sangue de gargalhadas, inflam de vento as veias, cansam-se os olhos de chamas e de sangue, instala-se o bolor nas pregas de uma vida. Escuta-se o bater intermitente do coração: gosto, não gosto.

Património material e imaterial da Literatura, assim declaro, desde já, “o meu corpo humano”. Nos sessenta-poemas-mais-um que o compõem, canta-se a vida e todas as vidas. No que têm de mais belo, extraordinário e tocante, mas também no que abrigam de injusto, imoral e indecoroso. Num gesto, num olhar, numa carícia, louva-se a alegria, a amizade, o amor. Palavras lidas, lá longe, trazem com elas um cheiro a pão e a casa. Quer-se demais o que já não se tem e a testa enruga-se como um sulco na terra. A morte ronda o poema, impõe-se sem vírgulas. Não traz com ela finais felizes, quando muito um sorriso, as memórias que afloram doces para logo se cobrirem de sombras. O poeta mostra e mostra-se. O leitor olha, vê e repara. Repara-se. Tal como o poeta, descobre-se por fora e por dentro. Encontra-se. Num olhar calmo como num sobrolho franzido. No luto que se faz como no que mais logo se desmancha, entre lágrimas e memórias que fazem rir. Nos corpos que se entregam ao amor como num pulso cortado. Não mora aqui a redenção e o tempo, esse, não se detém. Com a alma arranhada, vive-se na esperança de ser desdentado o lobo que uiva lá fora pela nossa carne.

quarta-feira, 1 de março de 2023

LIVRO: "Chamem-me Cassandra"



LIVRO: “Chamem-me Cassandra”, 
de Marcial Gala
Título original | “Llámenme Cassandra” (2019)
Tradução | Margarida Amado Acosta
Edição | Lúcia Pinho e Melo
Ed. Quetzal Editores, Fevereiro de 2023


“Chegarei a Angola qual pássaro invisível para o capitão, serei apenas mais um entre os milhares de soldadinhos cubanos de cabelos mais ou menos crespos e caras que se esforçam por deixar de ser imberbes. As minhas asas serão a pesada mochila verde nas minhas costas, ouvi-lo-ei arengar, largar os seus ‘pátria ou morte’, sendo eu o elemento nove do primeiro pelotão da segunda companhia, um infante entre outros infantes, só depois do Carlos despejar a terra de Angola sobre mim é que o capitão me olhará com outros olhos, ordenará ao tenente Amado que a seguir ao castigo me conduza até ao posto de comando, dir-lho-á sem qualquer explicação, não o olhará nos olhos ao dar a ordem, limitar-se-á a levantar um pouco de pó com o pé esquerdo, calçado com uma bota romena quase nova, e dirá:
     – Manda-me o pequeno soldadinho louro, preciso de falar com ele.”

De Cuba, pela pena de Marcial Gala, chega-nos um livro que é uma verdadeira preciosidade. Num contexto histórico, social e político bem definido – a intervenção cubana em Angola de apoio ao MPLA, na sequência da eclosão da guerra civil, em finais de 1975 –, esta é a história de Raúl Iriarte, mulher no corpo de um homem, com poderes divinatórios que fazem de si Cassandra e que, tal como esta, entregue à condenação de conhecer o futuro sem que alguém nela acredite. É assim que a iremos descobrir, Cassandra, Nancy, Olivia Newton-John ou Marilyn Monroe, na caribenha Cienfuegos ou na terra vermelha e quente de Cunene, maquilhada, de saltos altos e com um vestido de algodão russo comprado no mercado paralelo ou de camuflado verde e castanho, no seguimento do legado internacionalista de dar em dobro tudo o que os outros povos deram a Cuba quando foi preciso.

“Chamem-me Cassandra” é um livro particularmente duro e difícil. A morte faz-se anunciar desde o início e sabemos que não será benigna a forma como se apresentará. Narrada em momentos diferentes da vida de Rauli, a história converge numa candura quase virginal que faz da protagonista uma espécie de joguete às mãos dos deuses e de mártir às mãos dos homens. Trágica figura feminina vergada aos caprichos de Apolo, sempre com um sorriso no rosto – porque não sabe fazer outra coisa senão sorrir perante aquilo que a apavora –, buscando o conforto nos livros que ama, a tudo dizendo que sim, conquista-nos pela pureza e inocência que dela emanam e que chocam frontalmente com a maldade e a violência que a rodeiam desde que se conhece. Marcial Gala, porém, vai mais longe e, se a mitologia grega é invocada para alicerçar as bases metafóricas de uma história marcada pelo preconceito de género, pela discriminação e pela xenofobia, também o ideal cristão cabe nesta história por inteiro, com esse lado sacrificial de quem sabe que veio ao mundo para morrer pelos pecados dos outros.

O contexto social e político do livro concorre para reforçar sentimentos de desconfiança e de medo, quer pela vigilância apertada na ilha sob o regime de Fidel Castro, quer no confronto com as linhas avançadas da FNLA, da UNITA e das forças sul-africanas, sempre na eminência de uma emboscada ou de um ataque de larga escala. Neste ambiente terrivelmente hostil, empatizarmos com a figura de Cassandra é sentirmos a maneira torpe como o nosso pai nos acaricia a cabeça porque não gosta de nós, é provarmos o aço frio de uma pistola que um sargento prepotente nos enfia na boca, é sabermos que aquele que nos veste de mulher, nos bate com força no ventre e diz que o faz porque gosta de nós é o mesmo que se prepara para nos matar. “Chamem-me Cassandra” tem essa capacidade extraordinária de fundir um quotidiano tão particular como o de Cuba em plena euforia revolucionária com as figuras do classicismo grego e fazer com que o todo seja consistente e profundamente actual, ao mesmo tempo que chama a atenção para um conjunto de problemas que persistem nas nossas sociedades. Com imensa admiração pelo que conta e, acima de tudo, pela forma inteligente como o faz, considero “Chamem-me Cassandra” um dos livros mais estimulantes e inspiradores dos últimos anos. Absolutamente essencial!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

LIVRO: "aberto todos os dias"



LIVRO: “aberto todos os dias”,
de João Luís Barreto Guimarães
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Janeiro de 2023


“Já repararam
no bote (pintado a preto e branco)
naquela curva do rio onde
a cidade chega ao fim
dançando quase
ao acaso a cinco ou seis metros da margem
(um remo para cada lado qual
petiz ao acordar)
o ocre vivo
do crepúsculo enchendo de cor
o cenário onde ninguém o navega
nem o reclama para si?
A garça
já.”
[poema “Aquela garça ali”, de João Luís Barreto Guimarães]

Doze livros depois de “Há Violinos na Tribo”, edição de autor de 1989, João Luís Barreto Guimarães volta a inquietar-nos com “aberto todos os dias”, a sua mais recente criação. O livro surge menos de um mês após a distinção com o Prémio Pessoa 2022 e nele o poeta regressa aos pequenos-nadas de que a vida é feita, olhando de forma atenta o seu (e nosso) quotidiano. A familiaridade que brota dos espaços, dos tempos, das situações, gera no leitor a maior das cumplicidades. Lúcido e preciso, sem dispensar a ironia, o olhar de João Luís Barreto Guimarães traz ao nosso encontro as imagens e os sons dos dias repartidos entre a prática médica, uma caminhada à beira-rio ou os momentos passados à mesa do café. A sua poesia convida-nos a ver a cidade que se afadiga para ir jantar a casa, os pequenos avanços que trazem sempre retrocessos, a maçã de Eva a pedir uma segunda dentada, o cheiro a peixe frito que sobe desde a cozinha, os enfermeiros exaustos que saem de mais um turno, um ministro que mentiu. A isto respondemos com um sorriso, certos de que o convite é tudo menos inocente.

Sorrimos quando o poema se faz termo de utilização do livro, a pedir que seja lido e aceite. Ou quando começa a construir-se a partir do momento em que a página se vira sobre si. Ou, ainda, quando se explica, com calma, numa introdução à poesia. Faz-nos bem, o poema. Este poema de um minuto que nos leva a olhar o céu e a ver num relâmpago um electrocardiograma de Deus, nas unhas roídas luas que nascem dos dedos, no sol que passa exactamente por entre os gargalos das garrafas que estivemos a beber o solstício da amizade. Não conseguimos olhar para a poesia de João Luís Barreto Guimarães sem ver nela a vitalidade de Miguel Torga na sua relação com a terra, a musicalidade de Eugénio de Andrade na sua relação com a alma, a luminosidade de Sophia na sua relação com a vida. A diferença estará nas linhas, não aquelas com que o poema se cose, mas as que se aproximam ou se afastam de uma baleia que deu à praia sem vida, de um quarto de hora numa fatia de pizza ou de uma torneira que administra 30 gotas por minuto na boca do lavatório. Alguém tem de amar o vulgar.