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quinta-feira, 9 de abril de 2026

LIVRO: "A Montanha" | José Luís Peixoto



LIVRO: “A Montanha”,
de José Luís Peixoto
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Outubro de 2025


“Falou do pai, dos vários livros em que nomeou o pai, ou seja, todos os livros que escreveu. Explicou que falava do pai quando escrevia pai ou o meu pai, como no primeiro livro que publicou, Morreste-me; explicou que falava do pai até quando escrevia céu, até quando escrevia sobre escritores de óculos ou empresários de bigode, como nos dois romances anteriores. E comoveu-se ao lembrar o pai, o rosto do pai a olhá-lo, e entusiasmou-se ao explicar ideias, referiu a palavra ficcionalização, utilizou todo o campo lexical da palavra biografia. Quando terminou de falar, o silêncio foi ainda mais opaco, ninguém pareceu entender o que tinha dito.”

O regresso de José Luís Peixoto ao romance confirma uma ambição literária que ultrapassa largamente o mero retrato da doença inscrito nas páginas de “A Montanha”. Partindo de um conjunto de testemunhos recolhidos no Instituto Português de Oncologia do Porto, o autor constrói um mosaico de vidas suspensas, vindas de geografias e circunstâncias diversas, unidas pela experiência comum do cancro. Porém, mais do que um romance sobre a doença, este é um livro sobre o acto de a narrar — e, sobretudo, sobre a impossibilidade de o fazer de forma total. A estrutura fragmentária, evocada no próprio texto como uma “manta” de origens múltiplas, reflecte essa tentativa de apreender o indizível: episódios dispersos, vozes que surgem e se dissipam, histórias que recusam o conforto ou o alívio. Neste sentido, o que José Luís Peixoto propõe é um objecto literário situado algures entre o documental e o onírico, entre a empatia e o distanciamento crítico, desafiando o leitor a aceitar a incompletude como forma de verdade.

É, contudo, na dimensão metaliterária que A Montanha encontra a sua singularidade mais incisiva. O “Escritor”, figura simultaneamente autobiográfica e ficcional, observa-se, desmonta-se e, não raras vezes, ridiculariza-se. Nos excertos apresentados, essa auto-ironia ganha corpo através de diálogos que expõem fragilidades estruturais, hesitações, lugares-comuns da própria narrativa, num gesto de desarmante honestidade. Ao convocar nomes como Gustave Flaubert, Franz Kafka, Kōbō Abe ou Walter Benjamin, o romance inscreve-se numa tradição reflexiva que interroga o próprio estatuto da literatura. A crítica interna, encarnada na voz de um enigmático Björn, evidencia uma consciência aguda dos riscos do projecto: a dispersão, o excesso de referências, a tentação de um livro que fala demasiado de si próprio. Mais do que um exercício de erudição, trata-se de uma tentativa de situar o acto de escrever entre duas tensões, o que é herdado e o que é vivido, num mundo onde ambas parecem insuficientes para dar conta da realidade extrema da doença.

Por fim, “A Montanha” é atravessado por uma linha íntima e persistente: a memória do pai de José Luís Peixoto, cuja morte regressa como ferida jamais cicatrizada, fazendo eco do gesto inaugural de “Morreste-me”. Essa ausência ganha neste livro uma nova densidade ao cruzar-se com a experiência dos doentes oncológicos, fazendo de “A Montanha” um espaço de reconciliação, mas também de culpa e insuficiência. Reiterada e sublinhada, a palavra “cancro” surge como cerne da narrativa, um termo que concentra medo, estigma e fatalidade, mas que o autor insiste em encarar sem eufemismos, como se nomeá-lo fosse já uma forma de resistência. Em contraponto, emerge a ideia de Ubuntu - “eu sou porque nós somos” - como horizonte ético e afectivo que sustém o texto. A identidade constrói-se na relação, na partilha de histórias, na empatia possível, ainda que imperfeita. Entre a fragmentação e o desejo de unidade, entre o silêncio e a palavra, José Luís Peixoto ergue um romance que não oferece respostas fáceis, mas que encontra, na sua própria inquietação, uma forma rara de humanidade.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

LIVRO: “Toda a Gente Tem um Plano”



LIVRO: “Toda a Gente Tem um Plano”,
de Bruno Vieira Amaral
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Novembro de 2024


“Um dia, o professor Pretérito Perfeito cismou com ele, como se nunca o tivesse visto antes, nem se tivesse sequer apercebido da existência daquele rapaz, perdido que geralmente estava nos seus pensamentos, planos e projetos. Quem era mesmo o miúdo? Ah, filho da Alda. Não estava a ver quem era, mas pronto. Um interessante fenómeno sociológico, deveras. Caso para ser acompanhado de perto, estudado. Que destino teria, criado sem pai nem mãe? A tia, sim, que não era tia, não é a mesma coisa. Tinha essa impressão, embora carecesse de confirmação científica. Estudos. Opinião é como o sim-senhor, não é? Toda a gente tem. Mas o saber é para quem estuda. E era necessário estudar os efeitos de uma criação de tal sorte.”

Àquela hora da manhã, as árvores da Avenida da Praia assistem à romaria de fantasmas que arrastam o peso da rotina. Do outro lado do rio, a grande cidade com as suas luzes. Deste lado, paralíticos e cancerosos colostomizados, velhos a falar sozinhos e deprimidos sem dinheiro para aviar a receita de Xanax, ciganos e antigos combatentes da Guerra Colonial “onde perderam pernas, braços e juízo (e ganharam uma reforma de merda e ódio aos turras)”. Entre eles está Carlos, aliás Calita, também ele com ar de suicida, “de quem está no limite e se prepara para dar o último passo rumo a um abismo maior, mais profundo do que o braço de rio que se estende à sua frente”. As próximas duzentas páginas do livro irão mostrar-nos de que massa é feito este Calita, falar-nos das circunstâncias em que conheceu a própria mãe, levá-lo nessa longa jornada que começa nas ruas de Lisboa, passa por um reformatório da Guarda e pelas noites de Benidorm, até terminar nas afueras de Madrid. E trazê-lo de volta à realidade do bairro e ao mundo cinzento que é de novo o seu.

Depois da estreia fulgurante com “As Primeiras Coisas” - que viria a valer-lhe o Prémio Literário José Saramago -, e desse extraordinário “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”, Bruno Vieira Amaral está de regresso ao romance, após sete anos de interregno, com “Toda a Gente Tem um Plano”. Comprometido com as geografias da margem sul - do pontão de Alcochete às salinas de Alhos Vedros, da praia do Rosarinho ao mercado do Lavradio e às moradias do bairro Alentejano, do bairro Gouveia e das Arroteias -, o autor volta às lugares da infância para compor uma ópera trágica à volta de Calita e da sua inaptidão para segurar a felicidade possível que se apresenta ao alcance das mãos. Numa escrita que cruza as memórias de quem vive e sente um tecido social feito de ricos, remediados e pobres, Bruno Vieira Amaral lança um olhar lúcido sobre a vida na margem (e à margem) da capital, pontuado de humor e de uma fina ironia. Na ténue linha que separa uma vida honesta da marginalidade, Calita toca profundamente o leitor pela vontade em regressar aos lugares onde foi feliz, sistematicamente contrariada por uma vida cujas oportunidades são só para alguns.

Admirador confesso da escrita de Bruno Vieira Amaral, seja ela romance ou conto, crónica ou ensaio - e abro aqui um parêntesis para lembrar o excelente “Aleluia!”, um dos “retratos” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, cujos ambientes e personagens estão na base de algumas das mais interessantes passagens de “Toda a Gente Tem um Plano” -, é com emoção que abraço este livro. Através dele revejo as bandeiras de Angola e Cabo Verde que ondulam no cimo de algumas barracas, “como que para sinalizar um território e um orgulho estranhos”, mas também a força de figuras como a Tia Lena ou D. Palmira, o professor Pretérito Perfeito ou D. Pacas, o “sete-vidas”, Rosa Quivunge e Zé Lorde, Canivete e o bando dos Carecas. Entretanto, o bairro torna-se permeável a quem, de longe, traz consigo mensagens de esperança e salvação, o rebanho submisso do pastor Joãozinho de Sousa a crescer a cada dia sob o olhar atento de Pula-Pula. A par de um conjunto de belíssimas obras surgidos neste final de 2024 - e em contraciclo com um ano medíocre (ressaca da pandemia?) -, “Toda a Gente Tem um Plano” é um exemplo acabado do quanto a literatura nos pode inquietar, convocando um renovado olhar sobre as contradições das sociedades em que vivemos.

terça-feira, 2 de abril de 2024

LIVRO: "Siríaco e Mister Charles"



LIVRO: “Siríaco e Mister Charles”,
de Joaquim Arena
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Maio de 2022


“Mas ao jovem Charles, que Siríaco observa passeando sozinho pelo ilhéu, pouco interessa o momento mercantil. Os seus olhos procuram identificar os estranhos animais que circulam por entre poças de água e pedras. Siríaco recorda a maresia da sua primeira viagem; a brisa nocturna e o aperto no coração que uma vastidão líquida consegue provocar. O tempo traz aos acontecimentos uma espécie de transparência encantatória e ao mesmo tempo uma incontornável amargura. Mister Merrill, o cônsul, interrompe-lhe os pensamentos, dizendo-lhe que ele poderá ser de grande valia aos ingleses. Talvez seja bom ele ficar ao seu serviço, não só como intérprete, mas para ajudar naquilo que o capitão e os oficiais possam vir a precisar enquanto ali permanecerem. “Não quero que lhes falte nada, não vão esses oficiais nobres emproados dizer lá em Londres que o seu cônsul nestas ilhas lhes faltou com alguma coisa.”

Quando realidade e ficção se cruzam, o resultado pode ser verdadeiramente emocionante. Neste livro acabado de ler, o mais recente vencedor do prestigiado Prémio Oceanos, aquilo que mais cativa o leitor é a forma engenhosa como Joaquim Arena narra um encontro que só por artes da ficção ocorreu, servindo-se para isso de duas personagens reais, em tudo distintas entre si, mas coincidentes no tempo. Charles Darwin é uma delas. O jovem naturalista tem 22 anos e é ainda um aprendiz quando o Beagle, uma fragata da marinha inglesa onde viaja para terras do Sul da América, faz uma escala de vinte e três dias em Porto Praia, na ilha de Santiago, arquipélago de Cabo Verde. Charles fica rendido aos cheiros e ao sentir da primeira terra tropical que pisa, mas sobretudo ao velho negro, esguio e tímido, que lhe é apresentado como guia e intérprete. Chama-se Siríaco, nasceu no Brasil e é um ex-escravo que sofre de vitiligo, o que faz dele alvo da curiosidade geral.

Embora a capa do livro nos leve a pensar que é Darwin a figura central da história, na verdade é de Siríaco que o livro fala. Siríaco que nunca pisou Cabo Verde, é verdade, mas que nasceu escravo no engenho de Princeza da Mata, “nesses campos de cana de Sergipe Del Rey”, e viveu quase toda a sua vida “livre como muitos, livre-alforriado, honrado e preparado para a vida”. E que tinha vitiligo, a mancha a nascer na cabeça e a estender-se a uma boa parte do corpo, “manto do espanto e do mistério” que fazia dele “menino-onça ou negro pigarço”. Do vale do Cotinguiba a São Salvador da Bahia e daí a Lisboa e à corte de D. Maria, às salas e salões dos palácios reais, aos claustros e jardins luxuriantes, vai uma história improvável de grandezas e misérias, ignorância e crueldade. Até ao momento em que Charles e Siríaco se cruzam, numa ilha vulcânica no coração do Atlântico, e o primeiro reconhece no negro “muito mais do que um simples mestre carpinteiro (…), um homem de outra cultura”.

Na escrita de Joaquim Arena prevalecem duas paixões. A paixão pela História, desde logo, evidente nas longas pesquisas que foi obrigado a fazer para nos situar nos ambientes da corte de uma rainha louca, num império em crise com dois irmãos em luta por um trono, nas descobertas do jovem naturalista Charles Darwin tendo como pontos de partida os escritos de Lyell, as teorias de Henslow e as viagens de Von Humboldt, na escravatura nos engenhos de açúcar com as escunas negreiras a persistirem no infame negócio apesar de todas as proibições, no desígnio civilizador a pender sobre três índios da Terra do Fogo para serem mais tarde devolvidos às suas famílias com a missão de espalhar a fé. Mas, sobretudo, a paixão por Cabo Verde, evidente na forma cuidada como recupera a exuberância da vegetação tropical, o vasto campo geológico que é a ilha de Santiago, o carinho com que se refere à vila da Praia e ao cabeço de Monte Facho, à vila de São Domingos, à Trindade ou à Ribeira Grande, a menção à seca, às pragas, às doenças, ao ciclo terrível das fomes. Lição de História e lição de Vida, “Siríaco e Mister Charles” é um livro para guardar nos nossos lugares mais especiais.

sexta-feira, 8 de março de 2024

LIVRO: "Um Preto Muito Português"



LIVRO: “Um Preto Muito Português”,
de Telma Tvon
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Fevereiro de 2024


“Admite, Budjurra, admite que não consegues. Admite que procuras no sonho a ilusão de uma realidade que desmantela tudo o que conheces como verdadeiro e coerente. Admite que navega na secura da incompreensão um compasso de espera de ti para ti. Admite que não te arrependes. Que caminhas perdido e encontrado na sombra dessa luz que não te ilumina por completo. Estarei só? Serei solitário? Claro que não. Sou a gargalhada que feliz deposita confiança nas suas mentiras. Sou, certamente, o escravo do otimismo irritante.”

Chama-se João Moreira Tavares, mas todos o conhecem por Budjurra. É o Budjurra do Cacém, irmão do Carlos e da Sandra, nascido em Lisboa há 26 anos. Mora na casa dos pais, cabo-verdianos que vivem há muito em Portugal. O seu não é um daqueles bairros a que chamam problemáticos, mas diz-se “um ser deveras problemático”. Problemático porque não se enquadra em nenhum dos cenários em que as estatísticas o querem meter. É licenciado em Gestão Ambiental. Fala português convenientemente, seja lá o que isso for. Ninguém sabe se é Preto o suficiente ou se anda a tentar passar por Branco inconscientemente. O que é correcto notar nele é que é amigo de toda a gente. Amigo e companheiro. Tem princípios e valores que passam pelo respeito à vida de outrem e à sua também. É apaixonado pela vida mas anda confuso com a injustiça e as desigualdades sociais. É completamente pacífico, um pouco preguiçoso. É um bacano que se sente sozinho no mundo em que vive e incapaz de o mudar. É um preto muito português.

Telma Tvon tem neste Budjurra o seu alter ego. Mesmo sendo mulher, mesmo tendo nascido em Luanda, é nele que se projecta para nos convidar a atravessar as fronteiras do preconceito e a olhar para a falta de visibilidade, de representatividade e de liberdade que se abate sobre as comunidades tidas como marginais. Do meio dos seus medos, das suas vontades, das suas verdades, Telma Tvon fala de bondade, de humanidade, do que a inspira, do que a torna mais forte. Mas também do que sente, não podendo ser. Fala de emigrantes e imigrantes, de inclusão e rejeição, de “raivas encarceradas no politicamente correcto”. De como se manipulam as ideias, do racismo estrutural no seio das polícias, do inconformismo face à insensibilidade de quem a ignora, de ser mais uma preta que ameaça o Portugal Branco. De se sentir “à margem de uma sociedade que se quer imaculada e de raízes meramente lusitanas”. Por isso proclama mais comunidade, mais poder, mais preta!

Escrito na primeira pessoa, “Um Preto Muito Português” tem uma construção narrativa que o afasta do romance. As reflexões implícitas em cada um dos seus quase cinquenta capítulos faz pensar nele como um livro de crónicas ligadas entre si pela vontade própria de quem se reclama parte da verdade universal de que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”. Primeira obra com uma força invulgar, o livro é fruto do empenhamento pessoal da autora, dele sobressaindo essa urgência de mostrar, de denunciar, de nos fazer passar “para o lado do outro”, que é algo de que todos precisamos muito. Simples sem ser simplista, a prosa é rica em emoções, oscilando entre o divertido e o magoado. É uma prosa fortemente ritmada - “momentos nitidamente transparentes e sorridentes sem motivos aparentes” -, reveladora do facto de a sua autora estar bem integrada na cultura Hip Hop. Por outro lado, faz-nos sorrir com expressões como maka, nha kamba, sabura ou beber uma jola. Um livro fundamental nessa necessidade de nos encontrarmos com aquilo que somos.

domingo, 3 de março de 2024

LIVRO: "A Vida na Selva"



LIVRO: “A Vida na Selva”,
de Álvaro Laborinho Lúcio
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Fevereiro de 2024


“O Velho veste-se de agora. Olha para mim. Cresceu-lhe a barba. Tem cabelo farto, negro e grisalho. Fuma cigarros atrás de cigarros. Trocou de nome. Chama-se Luís. É ele o amigo. Junta-se a aldeia. Todos querem vê-lo. Todos querem ouvi-lo. Todos sabem que quem voa para dentro nunca morre. É dentro que nasce e mora o infinito que habita o humano, e o humano é o eterno em figura de gente.”

Perdeu a camioneta de regresso a casa. Estava no primeiro ano do Liceu e tinha pela frente duas horas de espera e uma redacção de português para o dia seguinte. Nunca dedicara tanto tempo a escrever. Quando acabou, percebeu que tinha completado uma pequena obra-prima. Chamou-lhe “A Vida na Selva”. Com ela, no dia seguinte, escutando a avaliação em tom de crítica da professora, “a adorável D.ª Maria”, nasceu mais um bocado. Falo de Álvaro Laborinho Lúcio e do seu mais recente livro, “A Vida na Selva”, conjunto de crónicas recuperadas “do baú das coisas já escritas”, às quais o autor acrescentou matéria nova, dando-lhes “outra vida, uma identidade própria, mais chegada a este tempo.” Eis, pois, perante nós, um livro que pode ser entendido como uma espécie de testamento, “testemunho de um homem comprometido com as suas paixões e o diálogo com os outros”, resumo de uma vida em contacto íntimo com a palavra.

De nascer e de morrer nos fala este livro precioso - o primeiro grande livro de 2024. Que se abre num prefácio, todo ele espelho de um homem íntegro, firme nas suas convicções, comprometido com o livre pensamento. Um defensor acérrimo da ética, que renega “espreitadelas” e desconfia da “tolerância”. Um humanista, que recusa apear-se cedo de mais e teima em prosseguir rumo à utopia. Prefácio escrito por quem confessa não gostar de prefácios. Prefácio que me prendeu pela sua clarividência e verdade, me obrigou a lê-lo e relê-lo, se mostra uma peça fundamental do pensamento do seu autor e se oferece como uma ferramenta que nos ajuda a melhor ver o que se passa à nossa volta. Que nos alerta e, ao mesmo tempo, nos anima à esperança. Prefácio que vale, por si só, a leitura deste livro, podendo ver-se em cada uma das crónicas que se seguem um extraordinário bónus, fascinantes pelo que convocam, enriquecedoras pelo que transmitem.

Repartido em quatro “tempos” - nascer, voar, lutar, partir -, o livro convoca histórias e reflexões que, sendo do autor, têm um cunho de universalidade que tocam o leitor e o levam a encontrar-se nelas. Estão neste caso as crónicas dedicadas ao tempo pandémico, tempo em que um vírus terrível depositou sobre o mundo “um manto de disfarce”. Tal como o autor, regresso à “correntena” e vejo-me preso a um quarto, “escutando notícias na esperança de notícias”. E, tal como ele, sigo com Camus até Orão à procura de sinais ou guardo na memória esse homem de “cabelo farto, negro e grisalho” chamado Luís, gaivotas no olhar e a certeza de que “só voa quem se atreve a fazê-lo”. Da justiça de Fafe aos silêncios de uma fala, de um Pinóquio trajando “à Sporting” a Natália [Correia] e os juízes, passando pela literatura, pelo teatro ou pelas artes plásticas, são dezanove os textos (mais um prefácio e um posfácio) que nos prendem e inquietam, nos comovem e fazem sorrir. Um livro essencial, de um dos grandes pensadores do nosso tempo.

domingo, 7 de janeiro de 2024

LIVRO: "Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku. Uma Biografia de Angola"



LIVRO: “Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku. Uma Biografia de Angola”,
de José Eduardo Agualusa
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Outubro de 2023


“ - Ficámos lá uma semana, recebendo uma série de tratamentos tradicionais, entre ervas, banhos e outros - recorda Abel. - Para alguns desses tratamentos foi necessário extrair sangue do nosso corpo. Ainda guardamos as marcas. Naquele tempo acreditávamos naquilo. Produzia um efeito psicológico terrível. O que nos garantiram é que depois dos tratamentos, nenhuma bala conseguiria furar-nos a pele. Machadada também não produziria dano algum. Se estivéssemos quase a ser capturados, só teríamos de tirar um pauzinho do bolso e de o mastigar enquanto rodopiávamos em torno de uma árvore, e com isso desapareceríamos, ficaríamos completamente invisíveis.”

“Vidas e Mortes de Abel Chivukuvuku”, a última obra do escritor angolano José Eduardo Agualusa, assume-se como “uma biografia de Angola”. Contributo importante para a compreensão de um conjunto de factos determinantes na construção da nação angolana e na recuperação e consolidação da sua independência, o livro assenta num conjunto de entrevistas a Abel Epalanga Chivukuvuku, histórico dirigente da UNITA (fundou o movimento em 1966, na Suíça, juntamente com Jonas Savimbi), um homem que dedicou a vida ao combate pela democratização do seu país. Um guerrilheiro e um político cuja figura e o seu destino extraordinário “evocam o passado e o presente, as exceções e as escolhas, as dificuldades experimentadas por homens livres que nunca desistiram. Por isso a sua história é também a história de Angola, olhada a partir do Bailundo, no coração da nação ovimbundo.”

Traçar o percurso histórico do Reino do Bailundo - que preservou a sua independência até 1902 - é uma das primeiras preocupações do autor. Recuperando actores e factos históricos, José Eduardo Agualusa aborda a estrutura económica e social deste enclave tão particular e mergulha na cultura e nas tradições próprias do povo ovimbundo. Esta visão inicial permite ao leitor perceber que há aqui uma clara predisposição para a afirmação de vontades em torno de matérias tão importantes como o sentimento de pertença e a luta pela liberdade e pela auto-determinação, o que faz com que o grande movimento oposicionista ao regime do MPLA se tenha fixado no Planalto do Huambo e não em qualquer outro lugar. Determinação, coragem e ambição é aquilo que vemos em Jeremias Chitunda, Miguel N’Zau Puna, Tito Chingunji, Isaías Samakuva, Abel Chivukuvuku, Jonas Savimbi e muitas outras figuras do movimento do Galo Negro, mas sobretudo um enorme orgulho fundado num passado rico de História e tradição.

A partir da “segunda morte de Abel Epalanga Chivukuvuku”, no primeiro de novembro de 1992, o autor traça um percurso que nos leva através de uma Angola mergulhada na Guerra Civil, ao encontro de jogos de interesse e de poder que implicam russos e americanos, cubanos e sul-africanos, e nos quais os angolanos são meros peões num tabuleiro da cor do sangue. À escrita cuidada e envolvente que o caracteriza, acrescenta José Eduardo Agualusa uma singular arquitectura literária que permite ao leitor acompanhar os desenvolvimentos da história como se de um romance se tratasse. Marchas de milhares de quilómetros, ciladas e jogos de bastidores, o animismo e as superstições latentes ou a enorme desconfiança que Jonas Savimbi nutria por Abel Chivukuvuku e que marcou décadas de tensão entre estas duas figuras maiores da oposição ao regime angolano, são-nos mostrados como episódios de uma saga que, do Planalto do Huambo, se estende a Luanda como a Washington, a Lubumbashi como a Kinshasa, a Lusaka como a Bicesse. Pelo que acrescenta à visão da História de Angola, este é um livro a não perder.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

LIVRO: "o meu corpo humano"



LIVRO: “o meu corpo humano”,
de Maria do Rosário Pedreira
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Abril de 2022


“ (…) porque as jóias e as pratas nada valem
se comparadas com a suprema relíquia:
uma caixinha que cabe na concha da
mão, onde repousam, como pérolas
autênticas, todos os dentes de leite

que a fada, afinal, nunca veio buscar.”

No seu extraordinário blogue – “Horas Extraordinárias”, afinal “as horas que passamos a ler” –, Maria do Rosário Pedreira abre uma excepção e fala de si, ou, para ser mais preciso, do seu novo livro de poesia: “o meu corpo humano (em minúsculas, porque eu só pequena)”, no qual “cada poema tem o nome de uma parte do corpo ou de um órgão (braço, cabeça, ouvidos, sangue, carne, rins...) ou várias (cabeça, tronco e membros, por exemplo, ou anca, coxa, perna e pé)”. E acrescenta: “Porque o corpo é frágil e vulnerável, mas também humano no sentido da compaixão, os textos falam de sofrimento próprio e alheio, e do que o tempo faz a um corpo que tem tempo de ver-se ao espelho, e do que a guerra pode fazer ao corpo de uma criança e ao de um adulto.” Fossem as coisas assim tão simples e estaria feita a apresentação do livro. Só que não o são. Há em “o meu corpo humano” uma profundidade que esmaga, uma riqueza de imagens, ideias e emoções que deixa o leitor sem fôlego, um subtil toque de ironia que traz aos lábios um sorriso, uma humanidade tão grande que tudo e todos abraça. Assim, não há como não ir ao fundo do corpo. Do meu corpo humano.

A folha em branco é um espelho em frente ao qual o poeta se despe e se descobre. Aí inscreve, uma a uma, as muitas partes do seu corpo, como quem delas toma verdadeira consciência. Corpo e alma ligados, o rigor é de anatomista. O poema é músculo, mas também é nervo. É carne, mas é também espírito. São muitas as feridas que sangram e nas quais crava o poeta fundo os dedos. A dor atinge o limiar do suportável, o olhar apaga-se. Há uma perna roxa que se esconde no resguardo da saia, uma ferida por sarar na meia grossa e tostões contados na palma da mão, porque pomada é igual a menos pão na mesa. Há uma ratazana que come, descarada, a orelha de um soldado nas trincheiras. No mar segura-se a fome com as mãos todas. Dizem que a doença nova não chega às crianças, mas a morte tem de comer todos os dias. Mói-se o juízo, calam-se as dores, rompem-se as lágrimas, amarrota-se o corpo, o estômago vazio ecoa, são de estimação os calos que se (des)cuidam. Veste-se o sangue de gargalhadas, inflam de vento as veias, cansam-se os olhos de chamas e de sangue, instala-se o bolor nas pregas de uma vida. Escuta-se o bater intermitente do coração: gosto, não gosto.

Património material e imaterial da Literatura, assim declaro, desde já, “o meu corpo humano”. Nos sessenta-poemas-mais-um que o compõem, canta-se a vida e todas as vidas. No que têm de mais belo, extraordinário e tocante, mas também no que abrigam de injusto, imoral e indecoroso. Num gesto, num olhar, numa carícia, louva-se a alegria, a amizade, o amor. Palavras lidas, lá longe, trazem com elas um cheiro a pão e a casa. Quer-se demais o que já não se tem e a testa enruga-se como um sulco na terra. A morte ronda o poema, impõe-se sem vírgulas. Não traz com ela finais felizes, quando muito um sorriso, as memórias que afloram doces para logo se cobrirem de sombras. O poeta mostra e mostra-se. O leitor olha, vê e repara. Repara-se. Tal como o poeta, descobre-se por fora e por dentro. Encontra-se. Num olhar calmo como num sobrolho franzido. No luto que se faz como no que mais logo se desmancha, entre lágrimas e memórias que fazem rir. Nos corpos que se entregam ao amor como num pulso cortado. Não mora aqui a redenção e o tempo, esse, não se detém. Com a alma arranhada, vive-se na esperança de ser desdentado o lobo que uiva lá fora pela nossa carne.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

LIVRO: "aberto todos os dias"



LIVRO: “aberto todos os dias”,
de João Luís Barreto Guimarães
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Janeiro de 2023


“Já repararam
no bote (pintado a preto e branco)
naquela curva do rio onde
a cidade chega ao fim
dançando quase
ao acaso a cinco ou seis metros da margem
(um remo para cada lado qual
petiz ao acordar)
o ocre vivo
do crepúsculo enchendo de cor
o cenário onde ninguém o navega
nem o reclama para si?
A garça
já.”
[poema “Aquela garça ali”, de João Luís Barreto Guimarães]

Doze livros depois de “Há Violinos na Tribo”, edição de autor de 1989, João Luís Barreto Guimarães volta a inquietar-nos com “aberto todos os dias”, a sua mais recente criação. O livro surge menos de um mês após a distinção com o Prémio Pessoa 2022 e nele o poeta regressa aos pequenos-nadas de que a vida é feita, olhando de forma atenta o seu (e nosso) quotidiano. A familiaridade que brota dos espaços, dos tempos, das situações, gera no leitor a maior das cumplicidades. Lúcido e preciso, sem dispensar a ironia, o olhar de João Luís Barreto Guimarães traz ao nosso encontro as imagens e os sons dos dias repartidos entre a prática médica, uma caminhada à beira-rio ou os momentos passados à mesa do café. A sua poesia convida-nos a ver a cidade que se afadiga para ir jantar a casa, os pequenos avanços que trazem sempre retrocessos, a maçã de Eva a pedir uma segunda dentada, o cheiro a peixe frito que sobe desde a cozinha, os enfermeiros exaustos que saem de mais um turno, um ministro que mentiu. A isto respondemos com um sorriso, certos de que o convite é tudo menos inocente.

Sorrimos quando o poema se faz termo de utilização do livro, a pedir que seja lido e aceite. Ou quando começa a construir-se a partir do momento em que a página se vira sobre si. Ou, ainda, quando se explica, com calma, numa introdução à poesia. Faz-nos bem, o poema. Este poema de um minuto que nos leva a olhar o céu e a ver num relâmpago um electrocardiograma de Deus, nas unhas roídas luas que nascem dos dedos, no sol que passa exactamente por entre os gargalos das garrafas que estivemos a beber o solstício da amizade. Não conseguimos olhar para a poesia de João Luís Barreto Guimarães sem ver nela a vitalidade de Miguel Torga na sua relação com a terra, a musicalidade de Eugénio de Andrade na sua relação com a alma, a luminosidade de Sophia na sua relação com a vida. A diferença estará nas linhas, não aquelas com que o poema se cose, mas as que se aproximam ou se afastam de uma baleia que deu à praia sem vida, de um quarto de hora numa fatia de pizza ou de uma torneira que administra 30 gotas por minuto na boca do lavatório. Alguém tem de amar o vulgar.

domingo, 8 de janeiro de 2023

LIVRO: "O Segundo Coração"



LIVRO: “O Segundo Coração”,
de Bruno Vieira Amaral
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Novembro de 2022


“Aquela criança, penso agora, morreu. Não teve direito a funeral, reparem. Só eu, que a choro quase todos os dias, lhe sinto a falta, incapaz de aceitar que a sua partida não tenha chocado ninguém, que não a lamentem. Tenho vontade de tirar cópias da fotografia e colá-las nos postes por toda a cidade, nas paragens de autocarro, à entrada dos supermercados: 'Alguém viu esta criança? Quem se lembra ainda desta criança, imortal, plena?’ ”

Com “As Primeiras Coisas”, Bruno Vieira Amaral ficou-me “no goto”. Veio depois “Hoje Estarás Comigo no Paraíso” e aí, em definitivo, entrou para a restrita lista dos “meus” escritores, aqueles que sigo e seguirei religiosamente, mesmo que o futuro me venha a mostrar que não valeu a pena o “apostolado". Seguiram-se, em modo crónica, “Manobras de Guerrilha” e “Uma Ida ao Motel e Outras Histórias”, e o encanto esmoreceu. “Integrado Marginal”, a biografia de José Cardoso Pires, marco na nossa literatura recente, fez redobrar a minha admiração por Bruno Vieira Amaral. E eis que, quase a fechar o ano de 2022, somos brindados com “O Segundo Coração”, de novo a crónica, de novo o olhar sobre si e sobre os outros, de novo as memórias a imporem-se num quotidiano com muito de dúvidas e muito pouco de certezas. Desta vez, porém, não há lugar ao desencanto. Há crónicas que são pérolas e, lido no seu conjunto, “O Segundo Coração” é exemplar na forma como nos vem dizer que a verdade de um - nas forças como nas fraquezas - pode ser a verdade de todos.

“O Segundo Coração” reúne um conjunto de crónicas escritas para a revista GQ e, mais tarde, para a edição digital do Jornal Expresso. Cobrindo um vasto arco temporal de cerca de cinco anos, o livro é composto por cem crónicas através das quais o autor revisita um conjunto de momentos que, de alguma forma, o marcaram e marcam ainda. Nessa busca, a memória desempenha um papel fundamental na forma como traz à superfície, de forma vívida, um quotidiano apenas banal na aparência, recheado de episódios que Bruno Vieira Amaral analisa e reinterpreta, mostrando o quão determinantes podem ser “as primeiras coisas”. Chamando, uma vez mais, os subúrbios da margem sul para primeiro plano, o autor dá-se a conhecer por inteiro, sem rodeios, sem auto-comiseração, sem pedidos de perdão. É tocante a forma como nos mostra o seu bairro, nos abre as portas de casa e nos fala de carência, sacrifício, sobressalto, exclusão. A noção do que é certo e do que é errado surge-nos nos pequenos gestos, nas acções mais comezinhas, nas palavras ditas de forma impensada, pondo a nu imperfeições, culpas e erros que se carregam toda uma vida.

Para aqueles que não conhecem o autor, “O Segundo Coração” pode ser uma bela porta de entrada no seu universo muito particular. Um universo no qual a ficção não goza do estatuto maior, onde o real se impõe com a força da sua verdade e das suas consequências. Não é a “grande” porta de entrada, mas conduz-nos por caminhos que se alargam à medida que os percorremos, que se mostram cada vez mais amplos e fazem com que o nosso olhar se projecte na distância que medeia entre as letras que se alinham e o nosso interior, o nosso coração. Ler “O Segundo Coração”, no meu caso, foi regressar ao tempo das intermináveis tardes a jogar caricas no pátio, das férias com os primos todos, dos dias de chuva que me aprisionavam em casa, das idas à praia de bicicleta, do primeiro dia de aulas no Liceu, dos amigos que nunca mais vi. Mas também das pequenas pulhices, do golpe baixo, da tacanhez, da cobardia, da cobiça e da maledicência. Estou certo que cada leitor fará, também, a ponte com muitas das passagens deste livro, ou talvez apenas algumas. De comum, estou certo, sobrará esse desejo de ser criança outra vez, para nos podermos, como Bruno Vieira Amaral, “espantar com as palavras”.

domingo, 25 de abril de 2021

LIVRO: "Movimento"



LIVRO: “Movimento”,
de João Luís Barreto Guimarães
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Outubro de 2020


“(...) Mantenho uma distância segura do
que chamam realidade (disperso vendedores de rosas
como quem dispensa ilusões)
falamos do que aí vem (dias que
não têm nomes mas
vão desde já
numerados). E conto-te histórias antigas um
exemplo: quando pousava moedas nos carris do eléctrico e
esperava que o movimento esmagasse as caravelas (...)”.

[do poema “Élements impurs”, in “Movimento” (2020)]

Há livros assim, escritos para tomar conta da nossa respiração e dos nossos sentidos, fazendo com que a sua leitura se traduza numa vertigem, num rodopiar constante de imagens, sons e cores, do coração para a cabeça e da cabeça para o coração. Uma a uma, as palavras rasgam-nos as veias, penetram-nos na carne, produtos de contraste que nos tingem o sangue de roxo e nos mostram as nossas insuficiências e imperfeições, nos dizem o quão frágeis, inseguros e desprotegidos somos. Na miséria que em nós se abriga, tomamos o peso ao tempo e levamos em cheio com a nossa finitude. “Na manhã do outro dia o mundo está sempre de volta”. E nós, até quando estaremos de volta para o mundo?

Décimo primeiro livro de uma série iniciada em 1989 com “Há Violinos na Tribo”, “Movimento” é uma extraordinária colecção de poemas que exaltam os nadas de que a vida é feita: uma aspirina que se dissolve num copo de água esquinado, um gato deitado sobre uma campa no cemitério, a chuva que cai nos telhados, a barba de uma semana que se escoa pelo ralo do lavatório, um velho guarda-chuva preto que não resiste ao temporal, o canto das cigarras, um bar em Veneza (não propriamente um bar mas uma dessas trattorias). E discussões absurdas. E instruções quanto ao uso de uma faca. E conselhos para quando precisarmos de engolir a fúria.

Feliz acaso, este, de me cruzar com a poesia de João Luís Barreto Guimarães. Começou por ser uma obrigação – a preparação das “Conversas às 5” que irei moderar e que me levou a ler tudo o que consegui encontrar do poeta -, mas depressa os seus livros se transformaram numa quase obsessão. A qualquer hora do dia, dou por mim a ler a sua poesia, saltando entre as páginas, repetindo poemas no maior dos silêncios ou declamando-os em voz alta, partilhando-os com as pessoas da casa. Com eles rio e comovo-me, com eles dou por mim absorto, ora cúmplice e solidário, ora aturdido, aflito. E penso que, se o dia chegar em que me atreva a escrever poemas, quero que eles sejam assim, simples e belos, a assinatura como a de um pintor flamengo, “João o Velho”.

domingo, 28 de março de 2021

LIVRO: "Almoço de Domingo"



LIVRO: “Almoço de Domingo”,
de José Luís Peixoto
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Março de 2021


“Quando acumulamos suficiente tempo, os domingos transformam-se num período da vida. Recordamos os domingos como uma unidade, anos inteiros só de domingos, estações inteiras compostas apenas por domingos: os domingos do verão, os domingos do outono, todos os domingos do inverno e, de novo, as promessas feitas pelos domingos da primavera. Foram dias separados por semanas, antecedidos por sábados com ilusões próprias, sucedidos por segundas–feiras com agendas precisas, tarefas fatais que exigiam ser feitas, mas tudo se dissipa até ficar apenas uma amálgama de domingos. Ao serem vividos, transformaram-se nessa amálgama, como um almoço de domingo infinito, a crescer permanentemente a partir do seu interior.”

Antecipando em três dias o assunto que lhe serve de título, “Almoço de Domingo” chegou às livrarias na passada quinta-feira e essa será, porventura, a primeira das suas singularidades: conceder ao leitor a hipótese de seguir os passos de alguém numa dimensão temporal paralela à sua, acompanhando as suas rotinas, os seus gestos mais simples, as suas obrigações, os seus pensamentos. Assim tratado, entre o palpável e o etéreo, o tempo transforma-se na principal figura deste livro, carregando em si mesmo a ideia de que “só existe quando paramos”. A segunda singularidade tem a ver com o senhor Rui, figura de carne e osso que assume o papel principal no palco de uma vida, confiando as suas histórias e memórias ao cuidado de José Luís Peixoto para que as transforme em romance biográfico. A terceira singularidade é a de que este almoço de domingo, cujos preparativos decorrem na altura em que escrevo estas linhas, terá lugar dentro de poucas horas e assinalará os 90 anos de vida do senhor Rui, juntando à mesa a sua mulher Alice, os filhos do casal e respectivos cônjuges, os netos e os bisnetos. Também alguns ilustres convidados, entre eles o próprio escritor deste livro.

O senhor Rui a que o livro se refere é Manuel Rui Azinhais Nabeiro, nascido no seio de uma família humilde nos idos de Março de 1931 e hoje um bem sucedido industrial do café, com a conhecida marca Delta Cafés, para além de investimentos no ramo agrícola e vitivinícola, na distribuição alimentar e de bebidas, no retalho automóvel, no comércio imobiliário e na hotelaria. Na base deste livro estão as suas conversas com José Luís Peixoto – cujo propósito inicial seria o de escrever uma biografia –, a cujo resultado o autor acrescentou horas e horas de investigação. Aos poucos foi desvendando um mundo onde cabem as dificuldades económicas nos tempos da infância, os ecos da Guerra Civil de Espanha e os negócios do contrabando na raia, o pulsar de uma vila perdida do interior sul de Portugal, o amor que se abriga em cada flor de papel nas Festas do Povo, histórias de partidas e de chegadas dos entes mais próximos, as sombras do Estado Novo, os brados de uma nova era que Abril abriu.

José Luís Peixoto volta a surpreender-nos com a sua enorme criatividade e a excelência da sua escrita. Dele é o mérito de imprimir ao livro um cunho temporal cativo da memória, sem ordem cronológica definida, feito da circunstância e do acaso. Dele é o mérito, igualmente, de prender o leitor à vida deste senhor Rui, homem cativante e pelo qual não conseguimos deixar de sentir uma admiração crescente à medida que vamos virando as páginas do livro. Nas atitudes e nos gestos mais simples é nele que nos revemos: Na bucha que come durante a inauguração da ponte sobre o Tejo e que reparte com dois deputados da Nação, na frustração pela derrota do Campomaiorense na final da Taça de Portugal ante um superlativo Beira-Mar, na apreensão das mulheres quando lhes anuncia que no dia seguinte terão a almoçar em Campo Maior o Felipe Gonzalez e o Mário Soares ou no nó preso na garganta na hora da partida do pai, da irmã Clarisse ou do amigo mais sincero.

Porque é de tempo que o livro nos fala, ele é também um convite a percebermos o valor que damos ao nosso próprio tempo e àquilo que com ele fazemos. O que o conforma e o que o condiciona. O porquê de passar tão devagar em certos momentos e de correr noutros à velocidade da luz. As memórias que nele cabem e quanto de verdade existe nessas memórias. Quanto desse tempo é partilhável e quanto desapareceu, perdido para sempre na inevitabilidade das suas dobras. Que dimensões abrigamos no nosso trajecto de vida e que nos leva a olhar para o passado e a começar as frases por um irritante “no meu tempo”. Nos reflexos da vida deste homem, o senhor Rui, descobrimos um mundo de reflexos de nós próprios, aqui residindo a grande virtude deste livro. José Luís Peixoto tem este dom de nos pôr a pensar sobre o que fomos e somos, sobre os propósitos da nossa presença neste mundo. Foi assim em “Morreste-me” como em “Galveias”, em “Em Teu Ventre” como em “Autobiografia”. Por isso lhe agradeço e lhe dou os parabéns. Parabéns que estendo ao senhor Rui, no dia do seu aniversário. Longa vida, senhor Rui!

sábado, 29 de agosto de 2020

LIVRO: "Uma Ida ao Motel"



LIVRO: “Uma Ida ao Motel”,
de Bruno Vieira Amaral
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Abril de 2020


“(...) ‘E geme?’, perguntou um deles, sabendo que o amigo se superava quando se punha a relatar pormenores íntimos. Ainda se lembravam de uma Darsónia, mulher de um pastor brasileiro, de uma dessas igrejas evangélicas piratas. Mané contava que, ao desviar as calcinhas só para a tocar com um dedo, a mulher tinha começado a gritar numa língua esquisita. Soube depois que era aramaico.”

É sempre uma felicidade ler Bruno Vieira Amaral. “As Primeiras Coisas” foi um precioso momento de descoberta, prolongado depois com “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”, romance que, de um ponto de vista pessoal, será sempre um dos grandes referenciais da literatura portuguesa do século XXI. No início de 2018 saiu “Manobras de Guerrilha”, conjunto de vinte e seis textos dispersos – publicados em jornais, blogues ou conferências e encontros de escritores –, entretanto reunidos em livro e que voltavam a atestar a qualidade da escrita deste autor e a sua enorme capacidade de nos dar a ver a vida tal como ela é, o banal tornado excepcional por conta de uma simples frase, de um gesto ou, tão somente, porque o destino assim o quis. Finalmente, “Uma Ida ao Motel”, surgido em tempos de pandemia, vem mostrar-nos que, felizmente, há coisas que não mudaram. Que não mudam!

Se quisesse aproximar “Uma Ida ao Motel” de qualquer uma das obras anteriores do autor, seria tentado a irmaná-lo com “Manobras de Guerrilha”. Também este livro nos transporta pelos caminhos do conto, cada um dos seus textos sendo parte integrante duma “encomenda” do Expresso Diário, à qual o autor correspondeu estoicamente ao longo de trinta semanas. Mas se atentarmos bem, perceberemos sem surpresa que é nos dois romances já referidos que se encaixa cada uma destas histórias a pulsar de vida: o corpo destroçado da cozinheira após servir cinquenta almoços, o velho que julga ter ganho o Euromilhões, a prostituta que aguarda o homem no quarto e que descobre tratar-se de um velho conhecido, a mulher cujos passos de fé a encaminham para a bruxa de Alhos Vedros ou as migalhas sacudidas pela vizinha do andar de cima a cair sobre a roupa a secar à janela e a fazer soltar os maiores impropérios, podiam muito bem figurar nas páginas de qualquer um dos seus livros.

Esta unidade que marca a obra de Bruno Vieira Amaral assenta na sua peculiar forma de escrever, no seu gosto pelo detalhe, na descoberta do lado cómico que reside nas tragédias de cada um, na observação minuciosa dos pequenos nadas de que a vida é feita e, naturalmente, numa memória prodigiosa, fonte de alimento para as mais formidáveis narrativas. Há ainda – e este pormenor parece-me deveras importante – toda uma geografia muito precisa em tudo aquilo que Bruno Vieira Amaral escreve e que remete para a Margem Sul. Numa Lisboa para turista ver, cartão postal que vive de aparências, são as gentes de origens humildes que todos os dias cruzam o Tejo que, na sombra, lavam, limpam, cuidam, servem e, estoiradas, regressam a casa para um parco descanso em locais que não dão descanso a ninguém, para que tudo volte ao princípio no dia seguinte. Ao ler Bruno Vieira Amaral, é esta vida que somos convidados a viver, a experimentar, a abrir os olhos e a entrar na pele de pessoas nas quais, fatalmente, descobrimos partes de nós. Com as quais rimos do nosso ridículo, nos escondemos da nossa culpa ou choramos da nossa vergonha.