LIVRO: “Vidas Perfeitas”,
de Carla Quevedo
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Abril de 2026
“Há riscos em adaptar máximas antigas aos nossos tempos. O excesso é atrativo numa era em que chamar a atenção é uma virtude. A moderação é um tédio quando comparada com a excitação do radicalismo. Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio que morreu a 13 de maio em Montevidéu, na sequência de um cancro do esófago, adaptou esta máxima ao consumismo desenfreado: 'Em que gastas o milagre de teres nascido? A pagar contas e a comprar coisas até seres um velho destruído. E não compras com dinheiro. Compras com tempo de vida que gastaste para ter esse dinheiro.' A originalidade de Pepe Mujica estava em ser consequente com o que defendia.”
Ao reunir mais de uma centena de obituários, “Vidas Perfeitas”, de Carla Quevedo, parte de uma contradição deliberada: como podem ser perfeitas vidas tão desiguais, algumas luminosas, outras moralmente abjectas? A resposta encontra-se na introdução da autora: “É perfeito o que não pode ser repetido, não é susceptível de correcções, não pode ser refeito.” A morte não absolve nem santifica, antes transforma a existência num território fechado, disponível para a interpretação. O obituário deixa, assim, de ser mera notícia biográfica ou elegia circunstancial para se tornar exercício de julgamento, memória e escrita. Miguel Esteves Cardoso, no prefácio, identifica com precisão a singularidade desta abordagem: os retratos são biografias, mas são também, inevitavelmente, retratos da própria autora. A sua inteligência impaciente, o humor, a ironia e a impiedade perante a banalidade convivem com uma capacidade genuína de admiração e ternura. Carla Quevedo tanto se entusiasma com os seus protagonistas como parece exigir-lhes, postumamente, uma justificação para terem vivido. Nessa oscilação encontramos a recusa da solenidade automática perante a morte e a convicção de que nenhuma existência merece ser reduzida à fórmula piedosa que habitualmente a acompanha. Nem todos são heróis; nem todos merecem lágrimas. Mas todos oferecem matéria para pensar o que significa estar vivo.
A diversidade dos protagonistas constitui um dos grandes argumentos de “Vidas Perfeitas”. Entre os músicos e intérpretes encontramos a “maravilhosa insolente” Rita Lee, Sara Tavares, Fausto Bordalo Dias, Quincy Jones e Ozzy Osbourne; entre os escritores e poetas, Nuno Júdice, Adília Lopes, Maria Teresa Horta, Martin Amis e Mario Vargas Llosa. A ciência e o pensamento estão representados, entre outros, por Daniel Kahneman, James Watson, Jane Goodall e Nuno Loureiro; a política e a justiça convocam figuras tão distintas como Chita Rivera, Álvaro Laborinho Lúcio, Joana Marques Vidal e Silvio Berlusconi. Há ainda fotógrafos, arquitectos, artistas plásticos, empresários, activistas e personalidades menos conhecidas, cujas vidas revelam formas discretas, mas decisivas, de intervenção no mundo. A autora sabe encontrar, por detrás do currículo, o pormenor que devolve humanidade à figura pública. Tom Wilkinson, por exemplo, nunca se interessou pelo estrelato; acreditava que os actores tinham de ter um certo anonimato, e conseguia tê-lo. Falando sobre a sua relação com a natureza e os animais, Sebastião Salgado defendeu que havia que aceitar as pessoas, assim como tivera de aceitar uma tartaruga-gigante nas Galápagos para a poder fotografar com justiça. Ao arquitecto Nuno Portas interessaram-lhe as marcas da cidade e a forma como permaneciam ao longo dos séculos; os edifícios mudam, mas o espaço público permanece igual. São apontamentos que valem mais do que a simples curiosidade biográfica, ao condensar maneiras de estar, trabalhar e olhar. Em vez de alinhar feitos numa cronologia inerte, a autora procura o gesto, a frase ou o episódio capazes de iluminar uma personalidade. O resultado é uma galeria sem hierarquias rígidas, onde a grandeza não coincide necessariamente com a celebridade e a singularidade não depende de uma vida espectacular.
Lido no seu conjunto, o livro desenha também uma história moral e política do nosso tempo. A ditadura portuguesa surge nas fotografias de Eduardo Gageiro, que registou a pobreza censurada pelo regime e encontrou no 25 de Abril uma transformação que continuaria a celebrar até ao fim da vida. A violência das ditaduras latino-americanas atravessa a história de Nora Cortiñas, a “mãe de todas as batalhas” e um dos maiores nomes contra a ditadura argentina, que fez da procura do filho desaparecido uma luta contra o esquecimento. A resistência à Rússia autoritária ganha rosto em Alexei Navalny. A teocracia iraniana encontra em Ebrahim Raisi uma das suas expressões mais brutais. A guerra, a perseguição das mulheres, o terrorismo e a instrumentalização política da religião surgem, por sua vez, na história da israelo-alemã Shani Louk. A estas feridas juntam-se questões menos directamente associadas à violência: a corrupção e a concentração do poder, expostas no retrato de Berlusconi; o consumismo, criticado por Pepe Mujica; os direitos civis, evocados através de Harry Belafonte; e a emancipação feminina, presente em tantas das mulheres que desafiaram convenções e instituições. A cultura não imuniza contra a barbárie, a inteligência não garante a bondade e a notoriedade não constitui prova de mérito. É esta consciência, tão incómoda quanto necessária, que aproxima vidas aparentemente inconciliáveis e impede que a leitura de “Vidas Perfeitas” se transforme num desfile de homenagens.
A qualidade literária da obra nasce, sobretudo, da voz que a percorre. Quevedo alterna a informação rigorosa com a digressão ensaística, o comentário mordaz com a observação afectuosa, sem abdicar de uma prosa que pensa enquanto conta. Rita Lee, ao chamar “Jair” ao cancro, transforma o sofrimento numa última provocação. Perante Berlusconi, a autora observa que “era uma pessoa que se portava mal, e isso era atrativo para os italianos”. A propósito de Nora Cortiñas, a imagem das «mães sem filhos» restitui o absurdo de uma violência de Estado. A fotografia de Höpker regista “a normalidade num dia em que a maior democracia do mundo foi atacada”; Gageiro, por seu turno, fotografava o país que a ditadura preferia esconder. Já Mujica pergunta: “Em que gastas o milagre de teres nascido?”; Joana Marques Vidal surge associada à ideia de que “o maior dos males é cometer uma injustiça”. Shani Louk é recordada como «uma figura bela e livre»; e Raisi termina simbolicamente num inferno que a autora não confunde com absolvição. Estas passagens não substituem a leitura integral, mas mostram a amplitude tonal do livro. Nem todos os retratos atingem a mesma intensidade e a abundância de informação pode, por vezes, sufocar a elaboração literária. Ainda assim, “Vidas Perfeitas” consegue o que distingue um bom livro de obituários de um simples arquivo de vidas: fazer da morte uma pergunta dirigida aos vivos. No fim, a perfeição do título não reside nas personagens, mas na irrepetibilidade das suas existências e na responsabilidade de as contar.
