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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O MELHOR DE 2025: CONCERTOS



10. António Zambujo
XXII Encontro de Culturas
Praça da República, Serpa
07 Jun 2025 | sab | 22:00

“ (…) Mas se “Cidade”, álbum editado em 2023 e que integra apenas músicas compostas e escritas por Miguel Araújo, foi uma espécie de fio condutor do concerto, foi com “Guia” que tudo começou, o cantor a “atravessar o oceano” e a encontrar “terra firme” precisamente em Serpa, numa Praça repleta de alegria e entusiasmo, na expectativa de uma grande noite.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-antonio-zambujo.html



9. Lina_ & Marco Mezquida
Misty Fest
Casa da Música - Sala 2
14 Nov 2025 | sex | 21:30

“ (…) Ao longo de quase uma hora e meia, “O Fado” abriu-se em certeza e diálogo, unindo e reinventando, revelando uma simbiose perfeita com outros géneros e ritmos - da música tradicional aos sons do Brasil, da canção espanhola às marchas de Santo António. Reconhecidamente rica e expansiva, a voz de Lina_ ofereceu-se pura e límpida, ganhando asas e elevando-se nos acordes cristalinos do piano, tecnicamente irrepreensível, ainda que redundante e menos contido aqui e ali. Mesmo assim, Marco Mezquida soube encontrar o equilíbrio entre o lirismo subtil e uma abordagem quase sinfónica, criando uma tensão estrutural que encheu o palco e seduziu o público.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/concerto-lina-marco-mezquida.html



8. The Art of Song vol.2 - Between Sacred and Profane
Com | Filipe Raposo (piano e composição musical), Rita Maria (voz e composição musical)
Auditório de Espinho – Academia
23 Fev 2025 | dom | 18h00

“ (…) Extraída de “Galinhas do Mato”, o último álbum editado em vida por Zeca Afonso, “Alegria da Criação” abriu o concerto e foi dele “pedra de toque”. Escutar em fundo a voz e adufe de Idalina Gameiro (também o adufe de Emília Antunes) como uma ladainha, sobre a qual se impõe a pureza das cordas (vocais de Rita Maria e do piano de Filipe Raposo), é no mínimo arrepiante. Os ritos e os mitos que se estendem ao longo do concerto levam-nos de regresso à origem, explicando mistérios, apaziguando e reconfortando, conferindo significado e valor à nossa existência.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/concerto-art-of-song-vol2-between.html



7. Dino d’Santiago
Casa da Criatividade
12 Jun 2025 | qui | 21:30

“ (…) Ao longo de quase duas dezenas de temas, Dino d’Santiago e a sua banda definiram o pendor da festa, oferecendo a um público esfuziante de entusiasmo momentos de verdadeira igualdade, celebração e partilha. De uma energia sem limites, o artista começou por cantar “Nos tradison” e vincar a importância de olhar para trás, para os valores e para a tradição, se queremos seguir em frente.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-dino-dsantiago.html



6. A garota não
Com | Cátia Mazari Oliveira (guitarra e voz), Sérgio Miendez (guitarra e baixo), João Mota (teclados, guitarra, baixo e voz) e Diogo Arranja Sousa (bateria)
Centro Cultural de Paredes
25 Out 2025 | Sab | 21:30

“ (…) A apresentar “Ferry Gold”, o seu mais recente trabalho discográfico, A garota não tornou a bater na tecla da música de intervenção com uma frescura e vivacidade como há muito se não via, o que faz do seu projecto um dos mais estimulantes, emotivos e inspiradores da nova música portuguesa. Marcado pela consciência social, pela recusa da complacência e pela denúncia da injustiça, desigualdade e discriminação, o seu trabalho é fruto de uma trajectória pessoal, de quem viveu a precariedade nas mais diversas formas e teve de ser fazer à vida com “uma força a crescer-lhe nos dedos e uma raiva a nascer-lhe nos dentes”.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-garota-nao.html



5. Voz e Guitarra
Com | Carolina Deslandes (voz), Feodor Bivol (guitarra)
Cineteatro António Lamoso
09 Mai 2025 | sex | 21:30

“ (…) Cruzando canções que ilustram treze anos de uma carreira recheada de belíssimos momentos, com alguns exemplares de um novíssimo álbum a sair ainda este mês, Carolina Deslandes provou que os sonhos de uma artista e uma artista de sonho podem ser uma e a mesma coisa. “Dois Dedos de Testa” abriu as hostilidades de forma afirmativa - “Quero ser dona da festa / Tenho dois dedos de testa” - e deu o mote para um concerto fortemente intimista, de emoções à flor da pele.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/concerto-voz-e-guitarra-carolina.html



4. Pedro Abrunhosa
Centro de Arte de Ovar
13 Jun 2025 | sex | 21:30

“ (…) Em Ovar, num Centro de Artes há muito esgotado, o artista começaria por saudar o público, afirmando ser a sua presença “o maior tributo à cultura portuguesa”. Uma cultura que, referiria, “nunca foi tão importante para defender a soberania, a democracia e, sobretudo, a paz.” E foi sob o signo da Paz que o concerto decorreu, com a música a carregar consigo mensagens onde as palavras “paz”, “luz” e “amor” foram signos e símbolos de um enorme momento: Íntimo, profundo, intenso, vivo, espiritual.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-pedro-abrunhosa.html



3. Jorge Palma & Júlio Resende
Cine-Teatro de Estarreja
21 Jun 2025 | sab | 21:30

“ (…) Os acordes que precederam “O Meu Amor Existe”, tema de abertura do concerto, faziam antever algo de muito especial. Ainda que facilmente reconhecíveis, Júlio Resende soube revesti-los de um lirismo único, uma quase pureza, transportando o público ao “grau zero” da criação. Mas foi quando as palavras, frágeis e incertas, se soltaram da garganta de Jorge Palma, que o concerto se estabeleceu nesse lugar único onde os homens e os deuses se tocam.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-jorge-palma-julio-resende.html



2. Inspirar
Danças Ocultas
Com | Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo, Francisco Miguel
Misty Fest 2025
Teatro Aveirense
12 Dez 2025 | sex | 21:30

“ (…) A música dos Danças Ocultas nunca é sombria, mesmo quando se move na melancolia. Nela encontramos sempre uma fresta de luz, uma promessa de clareza no meio da contenção. Não é música para consumo rápido, mas para escuta profunda, exigente e, paradoxalmente, reconfortante. Mais do que um simples concerto, o que se viveu no Teatro Aveirense foi uma experiência de partilha sensível, onde os acordes pareceram procurar um lugar íntimo na memória daqueles que tiveram o privilégio de os escutar. Inspirar, como o título bem sugere, foi gesto de recolha, de interiorização, contrastando com a trilogia de álbuns anteriores, mais voltados para fora, para o “respirar” como movimento de saída.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/concerto-inspirar-dancas-ocultas.html



1. Meredith Monk
Com | Meredith Monk (voz e teclados), Katie Geissinger (voz), Allison Sniffin (voz, violino e teclados)
Auditório de Espinho – Academia
14 Out 2025 | ter | 21:30

“ (…) O que à primeira escuta pode parecer uma música “simples”, revela-se, na verdade, como um refinado processo de despojamento, reduzindo a composição ao essencial, na busca de uma forma de pureza quase espiritual. Depurada ao máximo, esta, como todas as restantes peças que compuseram o concerto, não conta uma história no sentido narrativo convencional, antes convoca sensações, estados de alma, geografias interiores. A voz, esse enorme instrumento, é moldada com uma liberdade quase xamânica — como se Monk quisesse cantar antes das palavras, antes da gramática, antes mesmo da consciência de ser. Há algo de poeira e terra molhada, de vento nas montanhas, de infância da humanidade em cada composição.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-meredith-monk.html

domingo, 25 de maio de 2025

CONCERTO: “Variações do Brancø” | Filipe Raposo



CONCERTO: “Variações do Brancø”,
de Filipe Raposo
Teatro Viriato
23 Mai 2025 | sex | 21:00


“Precisamos para começar de um ponto de partida:
Costa ou paisagem, porto ou acontecimento, navegação ou relato.
O lugar donde partimos importa menos que aquele aonde chegamos.
Porque ora todos os mares parecem formar um só,
sobretudo quando é longa a viagem,
Ora cada um deles nos parece ser outro mar.”
Predrag Matvejevitch, in Breviário Mediterrânico

Terceiro volume da “Trilogia das Cores”, projecto do pianista, compositor e orquestrador Filipe Raposo, “Variações do Brancø” acaba de ver a luz do dia e o lançamento ao vivo teve lugar na noite da passada sexta-feira, em Viseu. Reflexão artística sobre a influência da cor ao longo da História, a “trilogia” teve o seu início com o vermelho (“Øcre” vol. 1, 2019), prosseguiu com o preto (“Øbsidiana vol. 2, 2022) e conclui-se agora com o branco (“Variações do Brancø” vol. 3, 2025). Para Filipe Raposo, “as cores surgem como chave do processo criativo, que, ao evocar o próprio nascimento da arte, se encontram presentes nas pinturas e gravuras rupestres, e ganham uma dimensão metafórica e simbólica na mitologia clássica”. Neste trabalho em particular, o branco evoca paisagens alvas, distâncias monótonas, vastas planícies geladas ou desertos de areias claras. Simbolicamente, representa o renascimento, a simplicidade e a restauração. Tanto pode ser luto e resiliência, tal como é entendido nalgumas culturas orientais, como a cor da página em branco que se abre à criatividade e à imaginação.

À semelhança dos volumes anteriores, “Variações do Brancø” é uma viagem, com a carga simbólica que tal desígnio carrega em si. Depois do “negro mais negro” da obsidiana, o branco representa um caminhar em direcção a sul, ao encontro da grande bacia mediterrânica e da sua cultura milenar. Tema de abertura do concerto, “A Idade do Pão” evocou um alimento presente em todas as geografias e que é tido como um símbolo de hospitalidade e partilha. A mesma hospitalidade e partilha gerada entre o artista que, numa sala de espectáculos, tem para oferecer o fruto do seu trabalho, recebendo do público atenção e aplauso. “Entre a cal e o sul” trouxe-nos esse elemento tectónico que, saído do interior da terra, embeleza e protege os espaços que habitamos. O elemento solsticial abriu-se em “Manhãs de S. João”, dividido entre o dia e a noite, a ordem e o caos, a luz e as trevas. “Da minha janela vejo o grande sul” foi um abraço a um sul latino e católico, que bebe vinho e é pobre, deixando para traz um norte germânico e protestante, amigo da cerveja e que é rico.

Simbólica, a lista vai-se afirmando ao longo da viagem: o branco-cal, o branco-pão, o branco-gelo, o branco-linho, o branco luz, ou a noite branca. Com “Búzios mudos, maus agouros”, foi de “sinistros prenúncios de um crime da humanidade contra si mesma” que nos falou uma música feita dos silêncios e dos “sibilinos murmúrios” que neles se insinuam. “Crepúsculo da tarde” foi errância e efemeridade da vida, fim de um ciclo, despedida. Já “Fiadas”, com a sua roca e o seu fuso, simbolizou a mulher e foi bem-estar futuro, abundância e mesmo fecundidade. “Noite branca”, enfim, foi a lua que surge no céu e que ilumina todos os homens - os de hoje e os de outrora. O sentido do trabalho de Filipe Raposo, a sua intencionalidade, as palavras que evoca, a sua qualidade discursiva, vão muito além da música que podemos escutar. Mostra-nos esse sul tão nosso, tão afectuoso e tranquilo, quanto arrebatado e exaltado. “Suão” colocou um ponto final no alinhamento, dizendo, como Mahmoud Darwish, que “os ventos mudam contra nós”. Um abraço à Palestina e ao seu povo, a coroar um concerto inesquecível.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

CONCERTO: “The Art of Song vol.2 - Between Sacred and Profane”



CONCERTO: “The Art of Song vol.2 - Between Sacred and Profane”
Com | Filipe Raposo (piano e composição musical), Rita Maria (voz e composição musical)
Auditório de Espinho – Academia
23 Fev 2025 | dom | 18h00


“Uma chuva não é só chuva no momento em que cai. Começou em água que o calor das emoções evaporou, nuvem que se foi deslocando, juntando momentos, sabedorias e afectos. Ao cair, desliza, inclina-se em leito de rio, campo de cultivo, braço de mar, montanha. São tantos os terrenos de onde parte. É a memória dos afectos evaporando. Vários tempos de escuta e de cultivo que, evaporando conhecimentos e outras águas, se foram juntando numa ou várias nuvens de ideias. Depois de caída, torna o chão mais permeável a novos plantios, a novas colheitas, a novas águas evaporando, subindo de novo ao céu do que mais importa.”
Amélia Muge

Regresso a Espinho e ao seu Auditório. Volto a uma casa que aprendi a respeitar e a amar, pelo cuidado com que me trata e pela excelência da programação que oferece. É a primeira visita este ano e sei que muitas mais se seguirão nos próximos tempos, sempre com renovada alegria e emoção. A proposta para este final de tarde de domingo não poderia ser mais aliciante. Depois do muito bem-sucedido primeiro volume de “The Art of Song”, Filipe Raposo e Rita Maria quiseram trazer-nos o segundo capítulo deste seu projecto, ao qual decidiram chamar “Between Sacred and Profane”. O conjunto de músicas escolhidas para integrar o álbum parte das influências musicais que moldaram artisticamente os dois músicos e que coabitam num território próprio, fundindo a música erudita, o jazz e o cancioneiro tradicional. Podemos ler no texto que acompanha o disco, e que Filipe Raposo tão bem ilustrou nas palavras dirigidas ao público, que “nas sociedades arcaicas, cada intervenção do homem no ambiente rural, como o abrir a terra com um arado ou o derrubar uma árvore da floresta, possuem os ritmos de uma sacralidade latente, não se sentindo diferenciação entre as actividades laico-profanas e a actividade sagrada. É como se vivessem numa permanente imersão no sagrado. Existe uma pulsão unificante, onde tudo é sagrado e profano.”

“The Art of Song, vol.2 - Between Sacred and Profane” pretende, através de canções colhidas de épocas e contextos distintos, evidenciar o papel do canto e da sua força telúrica como factor primordial na socialização, na passagem de conhecimento e no acompanhamento das actividades rituais do trabalho e da religião, do mundo dos homens e dos deuses. O repertório surge assim organizado por temáticas que nos conduzem pela bruma do tempo: as Deusas e os Homens, os Ritos e o Trabalho, as Mãos e os Frutos, da Vida e do Amor, do Berço à Cova, num Eterno Retorno revisitado geração após geração. Não é de espantar, pois, que ao cancioneiro litúrgico do barroco se junte um canto de trabalho tradicional de Penha Garcia, ou que um Hino sagrado coabite com uma cantiga de embalar, igualmente originária dessa localidade da Beira Baixa. Não é de espantar e é, já que tudo é espanto na colecção de treze momentos musicais que nos foram dados a ouvir, espelho da magia, dos mitos e das crenças tão próximos das dimensões existenciais do ser humano. Entre o sagrado sacrificial e o profano ritual, a música e as palavras de Filipe Raposo e Rita Maria dão-nos o conforto de uma visão ordenada da realidade, inseridos que estamos numa sociedade cada vez mais caótica e fragmentada como é a nossa.

“(…) Magistrada Nossa natural / Vitoriosa / Curandeira dos aflitos / Amante de mil maridos / Há mais de um milhão de idos / tormentosa”. Extraída de “Galinhas do Mato”, o último álbum editado em vida por Zeca Afonso, “Alegria da Criação” abriu o concerto e foi dele “pedra de toque”. Escutar em fundo a voz e adufe de Idalina Gameiro (também o adufe de Emília Antunes) como uma ladainha, sobre a qual se impõe a pureza das cordas (vocais de Rita Maria e do piano de Filipe Raposo), é no mínimo arrepiante. Os ritos e os mitos que se estendem ao longo do concerto levam-nos de regresso à origem, explicando mistérios, apaziguando e reconfortando, conferindo significado e valor à nossa existência. Escutar, em sequência, “Cantiga da Ceifa” e “Proserpina”, de Jean-Baptiste Lully, é uma experiência celestial. Já a “Suite em Lá menor, RCT 5, Gavotte et six doubles” de Jean-Philippe Rameau constituiu, para além do primor interpretativo, um divertimento sem par, com arranjos que “empurram” as variações para géneros insuspeitados, um choro aqui, um corridinho ali. E há também “Vai-te Cuca”, canção de embalar e, ao mesmo tempo, espécie de exorcismo sobre a morte que colhia as crianças no sono, da qual fica a doçura de uma sílaba que se prolonga, o amor que só um sussurro pode conter.

domingo, 10 de dezembro de 2023

CINE-CONCERTO: "A Máscara de Ferro"



CINE-CONCERTO: “A Máscara de Ferro” / “The Iron Mask”
Acompanhamento musical | Filipe Raposo (piano)
Realização | Allan Dwan
Argumento | Elton Thomas (Douglas Fairbanks)
Fotografia | Henry Sharp, Warren Lynch
Montagem | William Nolan
Interpretação | Belle Bennett, Marguerite de la Motte, Dorothy Revier, Vera Lewis, Rolfe Sedan, William Bakewell, Gordon Thorpe, Nigel de Brulier, Ulrich Haupt, Lon Poff, Charles Stevens, Henry Otto, Leon Barry, Stanley Sandford, Gino Corrad, Douglas Fairbanks
Produção | Elton Corp
Estados Unidos | 1929 | Aventura, Drama, História | 95 Minutos | S/ classificação
Casa das Artes - Auditório 2
09 Dez 2023 | sab | 18:00

O rei Luís XIII de França fica radiante quando o seu filho nasce - um herdeiro do trono. No meio de tanta excitação, porém, poucos são os que se apercebem que a rainha deu à luz gémeos. Vendo num segundo filho um risco para a estabilidade do Estado, o Cardeal Richelieu envia a criança para Espanha, a fim de ser mantida em segredo e garantir um futuro pacífico para a França. Infelizmente, manter o segredo significa enviar Constança, amante de D'Artagnan, para um convento e este tudo irá fazer para a resgatar. A incursão tem um desfecho trágico e Richelieu vence os Mosqueteiros, exigindo que se separem para sempre e deixando a D’Artagnan a tarefa de proteger o jovem príncipe. Entretanto, De Rochefort descobre os planos de Richelieu e rapta o gémeo, criando-o em segredo. Vinte anos mais tarde, com Richelieu morto e o jovem príncipe coroado Luís XIV, Rochefort lança o seu plano. O Rei é raptado, substituído pelo seu gémeo, colocado com uma máscara de ferro para não ser reconhecido e levado para um castelo remoto para ser mantido prisioneiro. Mas Luís XIV consegue fazer chegar uma mensagem a D'Artagnan, que se apercebe que apenas os seus amigos Athos, Porthos e Aramis o podem ajudar. De novo reunidos, os Mosqueteiros fazem abortar o nefasto plano de De Rochefort, mas o custo será tremendamente elevado.

Além de um excelente divertimento, “A Máscara de Ferro” é também um verdadeiro documento histórico. Por um lado, é o último grande filme de “capa e espada” do período do cinema mudo. Representa também o derradeiro grande filme de Douglas Fairbanks, que coloca aqui um ponto final na colaboração com o realizador Allan Dwan. Finalmente, é um filme característico da fase de transição do cinema mudo para o sonoro. Manuel Cintra Ferreira, no apontamento que escreve para a Cinemateca Portuguesa aquando da exibição deste filme em janeiro de 2022, lembra que “a década de 20 vai tornar-se a primeira era de ouro dos filmes de capa e espada, graças sobretudo aos filmes que Fairbanks interpreta e que servirão também de modelo para os seus “herdeiros” (de Errol Flynn e Tyrone Power, ao seu filho Douglas Fairbanks Jr.). Além de Zorro ele vai ser D' Artagnan, Robin dos Bosques, o Ladrão de Bagdad e o Pirata Negro.” De facto, quem, como eu, não conhecia o filme, não pode deixar de ficar maravilhado com a sua dimensão fantasiosa e o seu sentido do entretenimento, a par dos pormenores técnicos e de um trabalho de iluminação e enquadramento verdadeiramente geniais. De surpresa em surpresa, uma questão vai ganhando forma até rebentar em grito: Como é que eu nunca tinha vista este filme antes?

Porque de um cine-concerto se tratou, importa falar da prestação de Filipe Raposo e da forma como acompanhou o filme ao piano. O momento fez parte da segunda edição do Festival de Jazz Bernardo Sassetti. O mesmo Bernardo Sassetti que, em 2000, escrevia: “Devo confessar que a música para cinema é a minha grande paixão mas que, durante muitos anos, esteve longe dos meus planos, nomeadamente quando decidi dedicar-me ao piano e, em particular, à música jazz. No entanto, em 1995, recebi da Cinemateca Portuguesa, um convite para acompanhar filmes mudos, em improvisos de piano solo, nas sessões que aquela instituição dedica a esse tipo de cinema. Este convite e o tempo que dedico à composição trouxeram de novo o gosto que sempre tive pela imagem em movimento e uma enorme vontade de me dedicar à Sétima Arte, o que ultimamente tem vindo a acontecer com maior regularidade.” Este gosto e esta vontade são aspectos que tocam também Filipe Raposo, tal como Sassetti presença assídua na Cinemateca Portuguesa para este género de trabalhos. Na Casa das Artes, o piano de Raposo raiou o sublime, acrescentando emoção, sentimento, bom gosto e sentido de oportunidade aos vários quadros que iam passando na tela. Um espectáculo dentro do espectáculo, fazendo de “A Máscara de Ferro” e da música imersiva de Filipe Raposo um dos momentos mais altos de um ano cultural prestes a chegar ao fim.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

CONCERTO: "Øcre" | Filipe Raposo



CONCERTO: “Ocre” | Filipe Raposo
Teatro Aveirense
22 Jan 2022 | sab | 21:30


Ensaio sobre as clássicas cores vermelho, preto e branco, “Øcre” é o primeiro trabalho de uma trilogia na qual Filipe Raposo se propõe tornar reconhecível todo um universo harmónico que reside na cor, bem como o vasto conjunto de cinestesias daí resultantes. Com a pandemia a determinar o cancelamento ou o adiamento de inúmeros concertos de apresentação do álbum, dar a conhecê-lo ao grande público resultou numa caminhada errante, a qual chegou ao fim na noite do passado sábado num Teatro Aveirense particularmente despido de público. Em palco, a sós com o seu piano, o músico ofereceu aos presentes, sob a forma de trechos inspirados e de rara beleza, um conjunto de reflexões sobre o vermelho e as suas variações, associando-o ao fogo, o princípio de tudo, e ao sangue, a essência da vida. Mas também, recuando mil séculos, ao nascimento da arte.

Na sua mistura de ritmos, géneros e estilos, “No Princípio Era o Fogo” abriu o concerto da melhor forma, propondo a visão de um universo carregado de força vital, de energia criadora, aberto num todo caótico feito de um céu riscado por mil relâmpagos, ventos ciclónicos e rios de magma, com tanto de horrível como de belo. Seguiu-se “Blombos Cave”, um tema que remete para uma caverna situada cerca de 300 km a leste da Cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro lugar identificado pelos arqueólogos onde o óxido de ferro foi misturado com osso queimado e óxidos vegetais para produzir o ocre que depois era guardado em conchas. É um tema cujos trechos iniciais são de um lirismo surpreendente, que nos convidam a espraiar a vista pelo espaço em volta antes de penetrarmos nesta caverna onde homens e mulheres aprendem a domesticar o fogo e se entregam à árdua tarefa de sobreviver. “Mefistófeles”, a peça seguinte, é um precioso divertimento que remete para a busca da verdade e do conhecimento e nos traz os ambientes clássicos do cinema mudo enquanto nos sussurra ao ouvido: “Sou o espírito que deseja eternamente o mal, mas faz eternamente o bem”.

Entre o sagrado e o profano, “Romances e Litanias” é mais um tema precioso, filiado na tradição popular com origem em Trás-Os-Montes e cujo trecho inicial é do mais belo que jamais um piano me ofereceu. “A Um Deus Desconhecido” desce até sul do Tejo ao encontro de Endovélico, divindade céltica ligada à natureza e às colheitas, mas também às bebidas inebriantes. “Ritos e Encantamentos” cruza-se com Zeca Afonso e “Alegria da Criação” para nos dizer, em acordes feitos poema: “Feiticeira / Mãe de todos nós / Flor da espiga / Maldita para tiranos / Amorosa te louvamos / Tens mais de um milhão de anos / Rapariga”. A música de inspiração popular voltou a mostrar-se por inteiro no delicioso “Ó Meu Bem”, um tema açoriano, e “Uncertainly Lost In Stockholm”, tema que faz a ponte com o álbum “Inquietude” (2015) fechou o alinhamento do concerto. No “encore”, Filipe Raposo recuou ao seu segundo álbum, “A Hundred Silent Ways”, oferecendo-nos a sua versão de “Ó Bento Airoso”, desta forma homenageando a cidade de Aveiro onde esse trabalho nasceu em 2013. Foi a cereja no topo do bolo de uma noite mais que perfeita.

terça-feira, 9 de abril de 2019

TEATRO: "Banda Sonora"




TEATRO: “Banda Sonora”
Texto e encenação |Ricardo Neves-Neves
Composição e orquestração | Filipe Raposo
Interpretação | Ana Valentim, Joana Campelo, Márcia Cardoso, Rita Cruz, Sílvia Figueiredo, Tânia Alves com Orquestra Académica Metropolitana
Maestro | Cesário Costa
Cenografia | Henrique Ralheta
Figurinos | Rafaela Mapril
Caracterização | Cidália Espadinha
Coreografia e movimento | Sónia Baptista
Coprodução | São Luiz Teatro Municipal, Cine-Teatro Louletano e Teatro do Eléctrico
Rivoli - Teatro Municipal do Porto
06 Abr 2019 | sab | 19:00


Inteligente, divertido, inspirador. Todos os adjectivos são insuficientes para classificar o extraordinário momento de teatro que é “Banda Sonora”, um musical cuja concepção teve o seu ponto de partida nos acordes saídos da mente inspirada de Filipe Raposo, aos quais Ricardo Neves-Neves acrescentou uma ideia de texto e de encenação, num processo criativo verdadeiramente invulgar. Depois foi “só” trabalhar um cenário engenhoso, uma fenomenal caracterização e figurinos, a justeza e harmonia da coreografia e do movimento, ainda a música tocada ao vivo por uma orquestra jovem e competente e, naturalmente, a interpretação notável das actrizes em palco, o todo arquitectado num ambiente deliciosamente fantástico e irreal, a fazer lembrar o universo delirante de Tim Burton ou de algumas das mais belas histórias da Disney.

“Banda Sonora” conta a história de três meninas, de 8, 12 e 16 anos, que se vêem sozinhas na floresta, mais ou menos entregues à sua sorte. O passado de todas elas coincide em vários aspectos, desde a perda dos progenitores em contextos absolutamente dramáticos, ao processo natural de crescimento, feito de traquinice, muita curiosidade em perceber o mundo que as rodeia e algumas experiências que tendem a não correr lá muito bem. São três meninas que foram ensinadas a distinguir o que está certo do que está errado, mas que parecem não perceber muito bem que fumar ou namorar não é exactamente o mesmo que espetar uma faca na barriga de alguém. E assim, qual Adão e Eva depois de provarem o fruto proibido, sofrem o castigo de se verem apartadas do “paraíso”, obrigadas a viver o resto da sua existência num mundo subterrâneo onde, apesar de tudo, é ainda possível ver desabrochar uma flor.


Estreada no Teatro S. Luiz em Março de 2018, “Banda Sonora” precede no tempo “Alice no País das Maravilhas”, outro trabalho de encenação notável de Ricardo Neves-Neves, aqui em parceria com Maria João Luís. Ambas as peças prendem pela sua musicalidade e ritmo, o ambiente misterioso e sombrio da floresta a impor-se, tal como a figura do espelho – em “Alice no País das Maravilhas”, recorde-se, ele é elemento fulcral da cenografia, enquanto em “Banda Sonora” ele está presente na “duplicação” das três meninas (são, na verdade, seis actrizes em palco), cada uma espelho da outra. Há ainda o imaginário do cinema, com Burton e Disney à cabeça quando pensamos na envolvência e ambientes da peça, mas também essa notável partitura de Filipe Raposo, a remeter para o Danny Elfman de “Eduardo Mãos de Tesoura”, “O Estranho Mundo de Jack” ou “A Noiva Cadáver”. Genial!

[Foto: Ricardo Neves-Neves / facebook.com/ricardo.neves.neves]

domingo, 3 de junho de 2018

CONCERTO: "O Amor é Cego e Vê"



CONCERTO: “O Amor é Cego e Vê”,
de Vitorino Salomé
Centro de Arte de Ovar
01 Jun 2018 | sex | 22:00


Quando a poesia e o intimismo se juntam ao virtuosismo no piano e na voz, isso só pode resultar em momentos únicos de puro deleite. Foi o que aconteceu na noite da passada sexta feira, num concerto maravilhoso oferecido por Vitorino Salomé ao público ovarense e que o cantautor alentejano intitulou de “O Amor é Cego e Vê”. Numa sala praticamente lotada, Vitorino fez-se acompanhar ao piano por dois nomes que dispensam apresentações, Filipe Raposo e João Paulo Esteves da Silva, revisitando algumas músicas de eleição dos seus mais de quarenta anos de carreira, não necessariamente as mais conhecidas do grande público. Com este espectáculo, estreado no Teatro da Trindade em Outubro do ano passado, Vitorino ensaiou pela primeira vez um novo formato em palco, pondo em destaque a extraordinária riqueza das letras, conferindo às músicas uma beleza extrema e criando um envolvimento único com o público fundado na mais pura emoção.

“Tango do Marido Infiel Numa Pensão do Beato” e “Fado da Prostituta da Rua de Santo António da Glória”, duas canções escritas por António Lobo Antunes e incluídas no álbum “E Eu Que me Comovo Por Tudo e Por Nada” (2006), abriram da melhor forma o concerto, seguindo-se “Fado Triste”, “Corto Maltese” e “Fado Adeus”, um poema escrito para a voz de Carminho, “diz-me onde anda a minha alma já sem cor / onde estão os dias claros, tudo em flor?”. Mas este foi também um concerto de homenagens que teve início no poeta António José Forte, com “Uma Faca nos Dentes”, prosseguiu com Zeca Afonso e “Que Amor não me Engana” e desaguou num dos mais belos sonetos de Manuel Alegre, imortalizado na música e na voz de Adriano Correia de Oliveira, “E Alegre Se Fez Triste”.

Antes de chegarmos a Tomaz Alcaide e a “O Amor é Cego e Vê” (que os mais velhos recordarão da banda sonora do filme “Camões”, de Leitão de Barros e os não tão velhos da voz de Eugénia Melo e Castro, do seu álbum com o mesmo nome, de 1990), tempo para “Porta de Damasco” e “Traz a Água e o Vinho”, poemas da autoria de Vitorino, o primeiro com música de João Paulo Esteves da Silva e o segundo de Filipe Raposo. Com “Vingança”, de Lupicínio Rodrigues - “Eu gostei tanto / Tanto quando me contaram / Que a encontraram / Bebendo e Chorando / Na mesa de um bar” -, Vitorino fundiu samba e fado num dos momentos fundamentais do concerto. Seguiu-se “Vendaval”, um dos grandes sucessos do “Sinatra português”, Tony de Matos, entretanto recuperado por Sérgio Godinho no seu álbum “Caríssimas Canções” (2013), chegando, enfim, ao segundo grande momento de homenagens da noite, primeiro a Joni Mitchell com “Answer me My Love” e depois ao enorme Jacques Brel com “La Chanson des Vieux Amants”, “Plus rien ne ressemblait à rien / Tu avais perdu le goût de l'eau / Et moi celui de la conquête”.

À beirinha do fim, Vitorino juntou o castelhano às canções em português, inglês e francês, interpretando “El Dia Que Me Quieras”, um clássico absoluto de Carlos Gardel, aqui numa adaptação de António Lobo Antunes e do próprio Vitorino Salomé. Colocando um ponto final no alinhamento do concerto, o cantor foi ao seu primeiro álbum de originais, “Semear Salsa ao Reguinho” (1975), resgatar “Vou-me Embora, Vou Partir”, com o público na sala a acompanhar a letra “(...) vou partir mas tenho esperança / de correr o mundo inteiro, quero ir / quero ver e conhecer rosa branca / e a vida do marinheiro sem dormir”. Já no “encore”, Vitorino cantou “A Queda do Império”, do álbum “Sul” (2006), para regressar em seguida a Zeca Afonso e fechar o concerto com “Canto Moço”, canção intemporal, vozes e corações clamando “Onde há sempre uma boa estrela / Noite e dia ao romper da aurora”. Sublime!

sábado, 5 de maio de 2018

CONCERTO: "4 Mãos: Os Esteiros na Ponta da Caneta"



CONCERTO: “4 Mãos: Os Esteiros na Ponta da Caneta”,
de Filipe Raposo (piano) e António Jorge Gonçalves (desenho em tempo real)
Cine-Teatro de Estarreja
04 Mai 2018 | sex | 21:30


Como um poema! Foi assim, “a 4 mãos”, na noite de ontem, no Cine-Teatro de Estarreja. Em palco, num “concerto para piano e caneta”, o encontro improvável entre a música e o desenho em tempo real, protagonizado por Filipe Raposo e António Jorge Gonçalves, traduziu-se num momento poético singular, intimista e particularmente belo. Ao longo de 45 minutos, sob uma música ora dolente e melodiosa, ora nervosa e vibrante, desfilaram ante o olhar do público um conjunto de sequências desenhadas inspiradas nas belíssimas paisagens desta região do Baixo Vouga Lagunar.

Num palco ainda escuro, começam a escutar-se notas indefinidas que se vão traduzindo por pontos e traços no ecrã, como se de uma espécie de código se tratasse. Passados os primeiros momentos, as linguagens começam a articular-se entre si de forma mais clara, a sequência de notas transforma-se em melodia e os pontos e linhas ganham continuidade para formarem um desenho, inicialmente confuso - reticulado informe sobre um fundo escuro -, logo tornado legível com o aparecimento dum barco, um homem com uma vara que o conduz, uma das linhas transformada em canal. De repente tudo faz sentido, um mapa imaginário da ria com os seus esteiros oferece-se aos nossos olhos com toda a definição. Sobre o mapa surgem homens e a geografia dos lugares desloca-se para paisagens interiores, aludindo à pesca, à apanha do sal, ao cultivo dos campos, ao pastoreio do gado, à comunhão com um mundo a pulsar de vida. Vida que é agora ilha, que logo é jangada a transbordar de gente, para no momento seguinte ser cidade do novo mundo, de arranha-céus feita. E o todo reduz-se ao átomo, que deixa de o ser para ser íris e dente-de-leão e pétalas coloridas que se transformam em fogo com o qual o homem se aquece. Pura poesia!...

Baseado em duas linguagens artísticas diferentes, construído numa base de espontaneidade e improviso, “4 Mãos: Os Esteiros na Ponta da Caneta” oferece momentos de enorme beleza, realçando a simbiose entre o homem e a natureza no seu estado mais puro. E tudo de forma tão simples, tão natural, que nos põe um sorriso de felicidade no rosto e um enorme aconchego na alma. Mas este é também um espectáculo sobre a amizade entre duas pessoas que, ao longo do tempo, têm vindo a construir uma cumplicidade que engloba momento, estrutura, textura, evocação e emoção. Filipe Raposo e António Jorge Gonçalves interagem de forma única, evidenciando discursos que se encontram, intersectam, provocam, completam. Com os sentidos à flor da pele, em suspenso, levados nas asas do sonho, assistimos em êxtase ao desenrolar desta(s) história(s). Que nos confortam e animam, que nos enlaçam e aquecem.