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terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

CONCERTO: Samba de Guerrilha | Luca Argel



CONCERTO: “Samba de Guerrilha” | Luca Argel
Texto | Luca Argel, Nádia Yracema
Cenografia multimédia | António Jorge Gonçalves
Banda | Carlos César Motta (bateria), Neném do Chalé (percussão), Luca Argel (guitarra e voz), Pri Azevedo (teclado e acordeão), Cláudio César Ribeiro (guitarra eléctrica)
Auditório de Espinho
03 Fev 2023 | sex | 21h30


“Há quem tenha visto o movimento pela janela de casa e descido para se juntar à roda. Há quem tenha ficado com medo dela, fechado as cortinas, e ligado às autoridades. Chamaram-lhes selvagens, bárbaros, primitivos. Esqueceram-se que em tempos haviam oferecido àquelas pessoas uma civilização de correntes e chibatas. Mas elas preferiram outra, de tambores e azeite de dendê. Depois ofereceram-lhes a morte e o silêncio. Mas elas cantaram e dançaram. Ofereceram-lhes, enfim, a miséria. Mas, teimosas, elas fabricaram com as mãos a própria alegria.”

O “Samba de Guerrilha” montou arraiais em Espinho. Veio no embalo de Luca Argel e da sua banda, na narração de Nádia Yracema, no desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves. Fez-se das músicas e das letras de Cartola, Noca da Portela, Herivelto Martins, Aldir Blanc, João Bosco, Batatinha, Nélson Sargento, Paulinho da Viola ou Alfredo Português. Trouxe a alegria do povo na vibração de um tamborim. Uma alegria que foi e é a sua forma de dizer não à pobreza e à opressão. Ao longo de onze quadros, intensos e duros, “Samba de Guerrilha” mostrou que “a cantiga é uma arma”, abrindo-se em música, ritmo e harmonia. Mas também em teatro, a comédia e a tragédia lado a lado a bradar sentenças. Em animação e fotografia, em dança e literatura. Num momento faz-nos cantar, dançar, bater palmas; no momento seguinte faz cair sobre nós um silêncio de morte, olhos postos no cais do Valongo ou no porto do Ceará, ouvidos à escuta no Quilombo do Quariterê ou na Praça Onze.

Quando Nadia Yracema pergunta a Neném do Chalé de onde é que ele é, o Morro da Mangueira abre-se ao “Samba de Guerrilha”. Ou será antes Alfama, berço de um fadista tornado sambista chamado Alfredo Lourenço, a porta de entrada deste espectáculo? Alfredo Português, assim passou a ser conhecido, escreveu a letra de “Samba do Operário”, as palavras a mexerem com a ditadura militar brasileira: “Se o operário soubesse / reconhecer o valor que tem seu dia / por certo que valeria / duas vezes mais o seu salário”. Mas deixemos que o samba se torne ainda mais explícito, ainda mais heróico, e juntemo-nos à Guerrilha do Araguaia, lá na floresta da Amazónia, onde uma centena de guerrilheiros faz frente a uma tropa de mais de cinco mil soldados do exército brasileiro que quer pôr fim à revolução socialista. É com eles que cantamos “Pesadelo”, bebendo a força das suas palavras: “Quando um muro separa uma ponte une / se a vingança encara o remorso pune / você vem me agarra, alguém vem me solta / você vai na marra, ela um dia volta / e se a força é tua, ela um dia é nossa”.

Voz firme, olhos nos olhos dos espectadores, Nádia Yracema pergunta: E se de repente, na calada da noite, a metade escravizada da cidade decidisse não aceitar mais as correntes e a chibata, será que a outra metade seria capaz de resistir? As palavras remetem para a escravatura, a face mais negra da história do Brasil. Cinco milhões de escravizados, um recorde na história moderna em números absolutos, o Rio de Janeiro a maior cidade africana do mundo. A abolição da escravatura será oficialmente proclamada no dia 13 de Maio de 1888, a cantada final sendo dada às três da tarde, no Paço Imperial, pela princesa regente Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, filha mais velha do Imperador Pedro II. “Cangoma”, um jongo, ritmo que é uma espécie de avô do samba, irrompe na voz de Luca Argel. A festa e o delírio, porém, não durarão muito tempo. “Na Fazenda do Senhor”, um outro jongo, ilustra o resultado imediato do movimento abolicionista: A liberdade no papel, na prática a mais profunda desigualdade social.

“É proibido sonhar / então me deixe o direito de sambar”. O tom de denúncia agudiza-se, a contestação sobe de tom. “Se não há mais escravidão, para quê negros?”, pergunta-se. Como exterminar, de uma forma moralmente aceitável, a enorme população negra do país? Alemães, polacos, ucranianos, italianos, espanhóis e até japoneses chegam ao Brasil para ocupar os postos que ficaram vagos. São muitos os imigrantes oriundos de Portugal. A vida que encontram não é fácil, mas importa dizer que, apenas por serem brancos, é-lhes oferecido absolutamente tudo o que foi negado aos setecentos mil negros que já lá estavam, em desamparo. São estes negros que, deixando as fazendas do interior do país, migram em massa para as grandes cidades. O Rio de Janeiro é o grande cruzamento de caminhos onde se encontram e se misturam pessoas das mais variadas origens, idiomas e religiões, convivendo na precariedade e compondo o fumegante caldeirão cultural, de onde vai emergir, entre outras coisas, o samba.

Enquanto as reformas urbanas tentam eliminar do centro da cidade esta “gente perigosa”, a polícia faz uma limpeza cultural. A “lei da vadiagem”, autoriza a polícia a prender, invadir e confiscar qualquer pessoa, espaço ou objecto relacionado com as culturas afro-brasileiras. O batuque é crime, seja ele uma roda de capoeira ou um ritual religioso. “Samba / agoniza mas não morre / alguém sempre te socorre / antes do suspiro derradeiro.” Quatro navios militares brasileiros atraem a nossa atenção. Estão ancorados na Baía de Guanabara, com os canhões apontados à cidade do Rio. Amotinados, os marinheiros clamam “Viva a liberdade, abaixo a chibata!”. O líder da revolta, João Cândido, pede ao presidente Hermes da Fonseca que os oficiais parem de tratar a tropa como se os navios da Marinha fossem plantações, como se a escravatura continuasse vigente naqueles navios onde o comando era sempre branco e os marinheiros, quase todos negros. João Cândido é o “Almirante Negro” e Luca Argel faz dele “Mestre Sala dos Mares”: “Glória a todas as lutas inglórias / que através da nossa história / não esquecemos jamais / Salvе o Almirante Negro / que tеm por monumento / as pedras pisadas do cais.”

“Samba de Guerrilha” chega ao fim. Parece que contar estas histórias é falar do passado, mas não. A escravatura só existiu porque houve um discurso racista que a sustentava e este discurso ainda existe. Não só ainda existe como sustenta a violência do presente. A violência da desigualdade social, A violência da intolerância religiosa. A violência da falta de representatividade. A violência da gentrificação das cidades como forma de higienização social. A violência das prisões, agressões e assassinatos diários dos descendentes dos escravizados. Mas se o racismo ainda está vivo, o samba também está. E as histórias que o samba conta abrem frestas no pensamento, abrem fendas nos muros, abrem clareiras. Rodas por onde ainda circulam os saberes daqueles que sobreviveram à mais terrível das travessias e que tanto nos têm ensinado. Talvez ocupando essas pequenas frestas abertas, e fazendo delas uma trincheira, seja possível transformar a guerra em guerrilha, lutar ponto a ponto, lance a lance, até virar o jogo.


domingo, 28 de novembro de 2021

PALESTRA-CONCERTO: "Válvula"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

PALESTRA-CONCERTO: “Válvula”,
de António Jorge Gonçalves e Flávio Almeida aka Lbc Soldjah
Cine-Teatro de Estarreja
27 Nov 2021 | sab | 21:30


“Graffiti: plural do latim graffito - que designa um rabisco. Considera-se graffiti uma inscrição caligrafada ou desenho pintado ou gravado sobre um suporte que não é normalmente previsto para esta finalidade.”

António Jorge Gonçalves é conhecido como um desenhador de múltiplos recursos, estendendo a sua faceta autoral pela banda desenhada, o cartoon editorial, o teatro e as performances de desenho digital ao vivo. Por seu lado, Flávio Almeida, aka Lbc Soldjah, mergulha o seu pensamento e activismo na cultura hip hop, exprimindo-se essencialmente através da música. Ambos são homens de causas e amantes da liberdade. Daí que “Válvula”, uma palestra-concerto que subiu na noite de ontem ao palco do Cine-Teatro de Estarreja, seja a expressão do seu sentir face a um mundo cada vez mais assimétrico, dividido e injusto. Performance em torno do graffiti, “Válvula” oferece-nos uma evolução histórica desta arte e as suas implicações sociais e políticas, desvendando as posições extremadas daqueles que hoje o cultivam e defendem como manifestação artística, face aos demais que vêem nele um acto de vandalismo, logo um crime.

“Começamos em África, há 30.000 anos atrás. Uma pessoa igual a nós encosta a palma da mão numa rocha. Enche a boca com um pó colorido de pedras desfeitas, que mistura com a sua saliva, e sopra, criando a primeira pintura a spray da Humanidade, o primeiro graffiti. Mão. Tacto. Saliva. Palato. Sopro. Pulmão. Olhar. Visão. E com isto diz: Eu estou aqui.” Este é o princípio de uma longa viagem que nos irá levar a Pompeia, à Síria, a Constantinopla, ao Egipto ou ao Sul do Continente Africano, ao encontro de artistas, comerciantes, turistas ou pastores, ao encontro desse impulso que trazemos dentro de nós, uma quase necessidade de escrever ou desenhar em paredes. Aqueles que nunca deixaram a sua mensagem nas portas de uma casa de banho, gravaram juras de amor nas árvores ou nos bancos de jardim ou inscreveram a sua marca no tampo das mesas da escola ou do café, que atirem a primeira pedra. Parece inegável que trazemos nos genes essa necessidade de imprimir a nossa “tag” nos locais por onde passamos; que afinal somos todos “writers”, só que uns mais expressivos (ou compulsivos) que outros. Parece, enfim, que andamos todos a dizer a mesma coisa há milhares de anos: "Nós Estamos Aqui”.

Dos símbolos individuais aos colectivos, recuamos à Nova Iorque dos anos 60, ao encontro de um adolescente de origem grega chamado Demetrius e da marca identitária “Taki 183” que foi deixando pelos locais onde passava. Demetrius terá sido uma das primeiras pessoas a fazê-lo de forma sistemática e, por esse motivo, ocupa um lugar de charneira na história do graffiti. Mas não ficaria sozinho por muito tempo. Os movimentos contestários surgidos nessa altura entre os jovens de classes mais desfavorecidas, levaram ao aparecimento da cultura Hip Hop, onde começaram a pontuar os DJ ou cultores da música, os MC ou cultores da palavra, os B. Boys e as B. Girls ou cultores da dança, e os “writers” ou cultores do graffiti. Dos símbolos territoriais nas grandes cidades norte-americanos ao paulista “alfabeto da pixação” e das suas semelhanças com a escrita rúnica de há quase dois mil anos, entregamo-nos com emoção a esta verdadeira aula de História de Arte que remete para uma “Odisseia pela Sobrevivência”.

Talvez as diferenças entre os pintores primitivos das grutas de Lascaux ou do Vale do Côa e artistas mais recentes como Jean-Michel Basquiat ou Keith Hearing, não sejam tão grandes assim. Talvez a distância entre o trabalho dos grandes muralistas mexicanos como Diego Rivera, Aurora Flores, David Siqueiros ou José Orozco não se afaste assim tanto dos nossos muralistas do pós-25 de Abril ou até de artistas urbanos actuais como Banksy que, com as suas mensagens contestatárias, parecem gritar “Nós Queremos Mudança”. A história do graffiti, porém, pode apresentar outras nuances, nomeadamente a forma como o vemos, como atestamos da sua legalidade ou transgressão, como se define o que é bom ou mau graffiti. É que hoje não vemos da mesma forma a assinatura de um turista chinês actual num baixo relevo do templo de Luxor ou a inscrição de um turista inglês como Lord Byron numa coluna do templo de Poseídon, no Cabo Sounion, feita há duzentos anos. Dois pesos e duas medidas? É possível.

De enorme alcance, as mensagens que António Jorge Gonçalves e Flávio Almeida vão deixando, são pontos de partida para uma reflexão mais lata e abrangente que deve ser feita tendo como ponto de partida esse grupo maior a que chamamos Humanidade e no qual nos inserimos. Um grupo que tem na arte de pintar paredes um dos muitos pontos em comum. Um grupo hoje tão dividido mas que tem em Panmela Castro, Wanksy ou Nomen, verdadeiros faróis nas agitadas águas da discriminação e das injustiças sociais e que nos vêm dizer que o graffiti pode, realmente, influenciar as nossas vidas. O projecto de Siza Vieira para um edifício em Berlim, edifício esse conhecido hoje como “Bonjour Tristesse“, é um dos maiores exemplos do poder do graffiti. Tal como no cinema, há no graffiti lugar para tudo e para todos. “Sou um vândalo, sim, mas faço uma coisa para te abrir os olhos.” Pensemos nisto e, ao mesmo tempo, pensemos no privilégio que é termos a possibilidade de assistir a espectáculos com tanta qualidade e interesse como este. As onze (!) pessoas na sala sabem bem do que estou a falar. E também saberão porque motivo éramos apenas onze.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

TEATRO: "O Convidador de Pirilampos"



TEATRO: “O Convidador de Pirilampos”,
Texto | Ondjaki
Encenação | António Jorge Gonçalves
Co-realização plástica e manipulação ao vivo de objectos | António Jorge Gonçalves, Paula Delecave
Interpretação | Cláudia Semedo (narradora) e José Conde (clarinete baixo e música original)
Co-Produção | Centro Cultural Vila Flor, Teatro Nacional S. João, Culturproject, São Luiz Teatro Municipal
40 Minutos | Maiores de 6 anos
Teatro Carlos Alberto
12 Dez 2019 | qui | 15:00


“ - Porque é que fizeste um monstro com dez cabeças? - Porque é que as patas da girafa pareciam as de um cavalo? - Que barulhos eram aqueles no “saxofone”? - Onde é que foste arranjar essas pedras? - Porque é que descascaste a laranja? - Como é que se chama o menino?” A peça chegara ao fim e “O Convidador de Pirilampos” abria-se agora a uma estimulante conversa com os espectadores. Em palco, Cláudia Semedo, José Conde, Paula Delecave e António Jorge Gonçalves esforçavam-se por atender às mil e uma questões que, entre o divertido e o pertinente, surgiam em catadupa. Com mais ou menos certezas, o quarteto lá ia respondendo como podia e sabia, pondo cobro às dúvidas de um público de palmo e meio que, de pergunta em pergunta, se revelou conhecedor, atento e apreciador deste “sonho sonhado em palavras, imagens e sons, num palco coberto por uma escuridão assustadora e bonita”.

Baseado no livro homónimo de Ondjaki, a peça que se apresenta por estes dias no Teatro Carlos Alberto parte de um sonho. António Jorge Gonçalves teve de dar tempo ao tempo até se ver a si próprio a sonhar com o texto, a enroscar-se na história, a experimentar muitos tipos de desenhos diferentes abraçados a tipos de letras diferentes, até que o livro nascesse. O tempo passou, “O Convidador de Pirilampos” foi fazendo o seu percurso junto dos leitores e António Jorge Gonçalves voltou a sonhar. Nesse sonho, “meninos e meninas entravam numa sala de teatro segurando na mão pequeninos ramos que colocavam em palco, formando uma pequena grande floresta”. Quando acordou, sabia que o espectáculo iria ser feito. Ouvidos músicos e instrumentos diferentes, escutadas várias actrizes, partilhadas conversas, desenhos e ideias com outra desenhadora, encontrado quem ajudasse a organizar tudo, dos grandes aos pequenos detalhes, reuniu-se este quarteto mágico, “no qual cada um faz uma coisa diferente para chegar a um resultado único”.

São estas pessoas que, em palco, fazem a magia acontecer, dando vida a um menino que gostava de passear com o Avô na Floresta Grande, “mesmo quando já fazia quase-escuro. Ou quando era noite de lua nova”. Não é um menino qualquer, antes é um menino muito curioso, que gosta de cientistar coisas, verbo que designa o que os cientistas e os inventores e as crianças fazem: cientistam as coisas, os animais, o mundo. Este menino inventou, por exemplo, um “unóculo”, um “aumentador de caminhos” e um “convidador de pirilampos”. Enquanto isso, vai aprender a ser amigo do escuro. Com enorme expressividade e uma grande ternura na voz, a actriz Cláudia Semedo é exímia na forma como reproduz o texto, a sua respiração embalada pelo clarinete baixo de José Conde, que assina a música original. A António Jorge Gonçalves cabe “animar” a história com a sua imaginação incrível a debitar na tela maravilhosos desenhos, projectados sobre não menos maravilhosos acetatos, recortes e efeitos da autoria de Paula Delecave. O resultado é delicioso, mostrando quanta paixão e arte pode haver na forma de contar uma história. Terminada a representação, uma questão colocada pelas crianças teima em bailar-me na mente: “ - Esta história é real?”

[Foto: António Jorge Gonçalves | facebook.com/antoniojorge.goncalves]

sábado, 5 de maio de 2018

CONCERTO: "4 Mãos: Os Esteiros na Ponta da Caneta"



CONCERTO: “4 Mãos: Os Esteiros na Ponta da Caneta”,
de Filipe Raposo (piano) e António Jorge Gonçalves (desenho em tempo real)
Cine-Teatro de Estarreja
04 Mai 2018 | sex | 21:30


Como um poema! Foi assim, “a 4 mãos”, na noite de ontem, no Cine-Teatro de Estarreja. Em palco, num “concerto para piano e caneta”, o encontro improvável entre a música e o desenho em tempo real, protagonizado por Filipe Raposo e António Jorge Gonçalves, traduziu-se num momento poético singular, intimista e particularmente belo. Ao longo de 45 minutos, sob uma música ora dolente e melodiosa, ora nervosa e vibrante, desfilaram ante o olhar do público um conjunto de sequências desenhadas inspiradas nas belíssimas paisagens desta região do Baixo Vouga Lagunar.

Num palco ainda escuro, começam a escutar-se notas indefinidas que se vão traduzindo por pontos e traços no ecrã, como se de uma espécie de código se tratasse. Passados os primeiros momentos, as linguagens começam a articular-se entre si de forma mais clara, a sequência de notas transforma-se em melodia e os pontos e linhas ganham continuidade para formarem um desenho, inicialmente confuso - reticulado informe sobre um fundo escuro -, logo tornado legível com o aparecimento dum barco, um homem com uma vara que o conduz, uma das linhas transformada em canal. De repente tudo faz sentido, um mapa imaginário da ria com os seus esteiros oferece-se aos nossos olhos com toda a definição. Sobre o mapa surgem homens e a geografia dos lugares desloca-se para paisagens interiores, aludindo à pesca, à apanha do sal, ao cultivo dos campos, ao pastoreio do gado, à comunhão com um mundo a pulsar de vida. Vida que é agora ilha, que logo é jangada a transbordar de gente, para no momento seguinte ser cidade do novo mundo, de arranha-céus feita. E o todo reduz-se ao átomo, que deixa de o ser para ser íris e dente-de-leão e pétalas coloridas que se transformam em fogo com o qual o homem se aquece. Pura poesia!...

Baseado em duas linguagens artísticas diferentes, construído numa base de espontaneidade e improviso, “4 Mãos: Os Esteiros na Ponta da Caneta” oferece momentos de enorme beleza, realçando a simbiose entre o homem e a natureza no seu estado mais puro. E tudo de forma tão simples, tão natural, que nos põe um sorriso de felicidade no rosto e um enorme aconchego na alma. Mas este é também um espectáculo sobre a amizade entre duas pessoas que, ao longo do tempo, têm vindo a construir uma cumplicidade que engloba momento, estrutura, textura, evocação e emoção. Filipe Raposo e António Jorge Gonçalves interagem de forma única, evidenciando discursos que se encontram, intersectam, provocam, completam. Com os sentidos à flor da pele, em suspenso, levados nas asas do sonho, assistimos em êxtase ao desenrolar desta(s) história(s). Que nos confortam e animam, que nos enlaçam e aquecem.