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quarta-feira, 15 de julho de 2026

CONCERTO: Do Cabo do Mundo



CONCERTO: Do Cabo do Mundo
Com | Carlos César Motta (direcção musical e percussão), Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse (vozes), Pablo Marques e Kito Siqueira (sopros), João Pitta (violão), Pri Azevedo (teclados e acordeão), Rolando Semedo (baixo), Lizz Marchi e Daniel Félix (percussão)
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2026 | sab | 18:00


“Arrepia, arrepia
E arrepia sim senhor”
Fausto Bordalo Dias, in “O Barco Vai De Saída”

“Um sonho lindo”, daqueles que permanecem para lá da festa no palco, assim foi o concerto do projecto Do Cabo do Mundo, ao final da tarde de sábado, no derradeiro dia do FESTA – Sons da Lusofonia. Entre o rio e a cidade, a partida e o encontro, a viagem e o sonho, o espectáculo resultou numa única travessia “por este rio acima”, feita de palavras e sons que transportaram o público muito além das margens da memória. “Isto que é de uns / também é de outros” fez da partilha o fundamento de um concerto de homenagem a Fausto Bordalo Dias, interpretado com emoção por artistas de diferentes latitudes, todos eles imigrantes, unidos pela mesma língua da música e pelo mesmo desejo de celebrar um dos maiores cantautores portugueses “do passado, do presente e do futuro”. O público percebeu isso desde o primeiro instante. Cantou, dançou e respondeu a cada refrão como se as canções lhe pertencessem desde sempre, confirmando que as obras verdadeiramente universais não conhecem tempos nem fronteiras. Quando “Meu sonho / quanto eu te quero” ecoou entre vozes e percussões, o rio desembocou naturalmente na cidade. “Ali está a cidade”, cantou-se, uma cidade que já não era apenas Lisboa, mas também Maputo, Praia, Rio de Janeiro, Luanda, Ovar ou qualquer outra onde alguém tenha chegado, carregando consigo saudades, sonhos e esperança.

“Mas sobretudo a cidade é um som”, escreveu Fausto, e nunca um verso pareceu tão exacto. Durante pouco mais de uma hora, o Parque Urbano foi esse lugar improvável onde todas as geografias se reconhecem numa mesma melodia. Idealizado pelos músicos Carlos Cesar Motta e Fred Martins, com a participação de criadores oriundos de diferentes geografias, Do Cabo do Mundo reinterpreta o legado de Fausto, acrescentando uma nova vida às suas obras e enriquecendo-as com o pulsar de ritmos africanos e brasileiros que parece sempre terem estado ali, à espera de serem revelados. “Foi Por Ela”, o momento mais luminoso do concerto, é disso a prova provada. A canção renasce envolta numa cadência afro-brasileira de irresistível elegância, como se as águas do Atlântico finalmente fechassem o círculo iniciado na infância angolana de Fausto, ele que nasceu no meio do oceano, a bordo do navio “Pátria”. O público sentiu ali “o tropical sentido na lapela”, mas houve sobretudo uma compreensão profunda da canção, dessa declaração de entrega absoluta - “foi por ela que eu deixei de ser quem era” -, agora cantada por vozes que conhecem na pele o significado da travessia. Também “Namoro”, com a sua irresistível leveza mestiça, prolongou esse encontro entre continentes, celebrando o amor como território onde todas as fronteiras se esbatem.

Esta ideia encontrou a sua mais clara tradução nas palavras breves, mas profundamente significativas, de Selma Uamusse: “Os imigrantes amam Portugal e esperam que Portugal os ame.” Nada poderia resumir melhor o espírito de Do Cabo do Mundo. Fausto sempre escreveu sobre viagens, encontros e desencontros, sobre os esplendores e as misérias da aventura humana, e este colectivo mostrou como essas canções continuam extraordinariamente actuais. Talvez por isso “Rosalinda” tenha adquirido uma força avassaladora. Ouvir que “os que mandam no mundo / só vivem querendo ganhar”, é perceber que o tempo pouco alterou as injustiças denunciadas por Fausto. A resposta luminosa a esse desencanto veio do palco, com as vozes de Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse, as percussões de Carlos César Motta, Lizz Marchi e Daniel Félix, os metais de Pablo Marques e Kito Siqueira, o violão de sete cordas de João Pitta, os teclados e acordeão de Pri Azevedo e o baixo de Rolando Semedo a mostrarem a música como lugar de encontro, resistência e esperança. O público voltou a responder em uníssono, transformando cada refrão numa afirmação colectiva de pertença. Não foi nostalgia, tão pouco tributo. Foi o provar que estas canções continuam vivas porque continuam a encontrar novos corpos, novas vozes e novas histórias para as habitar.

E como toda a viagem exige uma partida para justificar o regresso, “O Barco Vai de Saída” abriu a derradeira etapa deste percurso. As palavras de Fausto – “levo-te comigo”, “pra lá do Equador”, “no espantoso trono das águas”, “vou “ — ganharam um peso renovado nas vozes de quem conhece intimamente o significado de atravessar oceanos em busca de melhor vida. A tempestade, os medos, a esperança e a coragem, como tão bem “cantou” Ana Luísa Amaral, confundiram-se com as muitas histórias de migração que continuam a escrever-se todos os dias. Depois veio o “encore” inevitável, a transformar “Navegar, Navegar” numa autêntica “profissão de fé”. “Quem conquista sempre rouba, quem cobiça nunca dá”, advertiu Fausto, antes de lembrar que também foi “mercadoria” e que trouxe “um olhar peregrino”. Foi impossível não escutar nesses versos um apelo à dignidade de todos os que atravessam fronteiras, ontem como hoje. Quando o concerto terminou, o público continuou a cantar, prolongando “Navegar, Navegar” para lá dos derradeiros aplausos. Porque todos sabemos que a viagem está longe de chegar ao fim. Continua rio acima, mar adentro, do cabo do mundo até onde valer a pena chegar, até onde a música de Fausto nos levar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

CONCERTO: "Canções para Beber com Pessoa" | Ana Deus e Luca Argel



CONCERTO: “Canções para Beber com Pessoa”,
de Ana Deus e Luca Argel
XI Festival Literário de Ovar
Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 22:30


Fernando Pessoa fez-se forte presença no Festival Literário de Ovar na música e na voz de Ana Deus e Luca Argel. Intitulado “Canções para Beber com Pessoa”, o concerto da dupla fechou o serão do segundo dia do certame, dando a ver uma das facetas menos conhecidas, mas não menos importantes, do poeta, ensaísta, dramaturgo, inventor, crítico literário e publicitário: a de tradutor. Desde a Pérsia do século XI, os “Rubaiyat” do poeta Omar Khayyam atravessaram quase um milénio de tempo e de linguagem até chegarem às mãos de Fernando Pessoa, pela recriação inglesa de Edward FitzGerald. Mais do que uma simples tradução, o encontro de Pessoa com os “Rubaiyat” transformou-se numa experiência literária e sensorial, um jogo livre de reinterpretação onde o vinho, a dúvida e o deslumbramento se entrelaçam numa contemplação do mundo que tanto revela a sua beleza efémera como se abre num abismo ontológico, onde nem mesmo Deus parece alcançar razão. Um século depois, estes poemas ressurgem reinventados pelas vozes de Ana Deus e Luca Argel, mergulhando nos delírios filosóficos e hedonistas do poeta e vestindo-os com uma roupagem contemporânea, onde palavra, som e silêncio se entrelaçam numa nova forma de escuta e celebração.

Não é a primeira vez que Ana Deus e Luca Argel investem o seu talento na obra pessoana. Versos, estrofes e toda uma panóplia de histórias de Fernando Pessoa ganharam uma nova vida no álbum “Ruído Vário”, a convite da Casa Fernando Pessoa, editado em 2017. Poemas bem conhecidos como “Liberdade”, “Na Ribeira Deste Rio”, “Entre o Sono e o Sonho” ou “Ó Sino da Minha Aldeia” ganharam assim uma nova dimensão, ampliando e colorindo a obra daquele que é amplamente considerado como um dos maiores poetas portugueses do Século XX. Regressar a Pessoa foi quase uma “obrigação” para a dupla, fascinada com o trabalho de tradução livre do poeta sobre os “Rubaiyat”, considerado o livro que contém mais notas manuscritas por Pessoa, em toda a sua biblioteca particular. No pequeno palco da Escola de Artes e Ofícios, em formato intimista (duas vozes e uma guitarra), a intensidade e presença cristalina da voz de Ana Deus juntou-se à delicadeza e doçura, já bem conhecidas, da interpretação de Luca Argel, convidando o público a saborear quinze canções praticamente inéditas, nas quais as palavras de Fernando Pessoa foram servidas em pequenas doses refrescantes.

Tema inaugural do concerto, “O Som das Águas” serviu de aperitivo a uma noite de sedução e encanto. As canções seguintes - “É Inútil Dizer”, “Ouvi os Sábios” e “O Grande Espaço Azul” - pareceram querer dizer: Bebe! Bebe! Um beber que, nas palavras e na música de Ana Deus e Luca Argel, se traduz em alegria, tranquilidade e amor. Na dolência de uma valsa ou no frenesim de um samba, é o carácter hedonista, contemplativo e profundamente filosófico do poeta persa que se revela, passando á prática essa ideia fundamental de aproveitar o presente, “pois o tempo é breve e a morte é certa”. “Fingi quem Fui”, “Endoidecendo”, “Melancolia” e “Não Fiz Nada” falam-nos mais de Pessoa que de Khayyam, tal como “Autopsicografia”, interpretado já no “encore” - “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Desenhado com cuidado e bom gosto, o concerto oferece um conjunto de registos em vídeo que evocam a ideia de centriptismo, que atrai o público para o seu interior e o convida a pede que se deixe seduzir pela doce libação das palavras e da voz. Uma experiência sensorial deveras inebriante, que a todos tocou.

sábado, 20 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 2



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abigail Ascenso, Ana Deus, Ana Maria Ferreira, Cláudia Lobo, Daniel Maia Pinto-Rodrigues, Lília Tavares, Luca Argel, Maria Toscano, Nuno Gomes, Vítor Pinto Basto
Escola Secundária José Macedo Fragateiro, Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 21:00 


Depois de um arranque recheado de emoções, o Festival Literário de Ovar enfrentou com renovada ilusão um novo dia, tendo para oferecer um programa em versão curta, mas nem por isso menos aliciante. Entre portas abertas à leitura e azulejos vestidos de poesia, por esta ocasião a cidade reforça o seu abraço às letras. As palavras soltam-se dos livros e revolteiam no ar, dispostas a verter-se em conversas íntimas e em concertos em que a música se curva perante a poesia. Como velhos cúmplices de um segredo partilhado, escritores cruzam de novo olhares e ideias com leitores. Em palcos de pensamento e emoção, a cada novo dia, os livros falam mais alto, os corpos dizem textos, os sons desenham imagens e o FLO cumpre-se no seu desígnio de celebrar a palavra, orgulhoso da escrita de mais um capítulo de uma história com final feliz.

A Escola de Artes e Ofícios foi o epicentro de um programa que atraiu um público leitor entusiasta, disposto a reforçar os laços que, através dos livros, busca estabelecer com o escritor. E quase apetece dizer que o milagre aconteceu de novo, com a bonita Sala Expande a transformar-se, no breve espaço de um serão, num mundo de partilha, imaginação e ideia cúmplice. Lília Tavares, Vítor Pinto Basto e Maria Toscano animaram a terceira mesa do FLO, dispondo-se, sob a moderação de Ana Maria Ferreira, a dissecar uma frase de Fernando Namora: “A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade.” Numa conversa emotiva, interventiva e viva, abanão vigoroso às consciências dos mais distraídos, falou-se da poesia como “o território da pura liberdade” (Lília Tavares), de democracia como elemento-chave de uma trilogia onde se inclui a literatura e a liberdade (Maria Toscano) e da função social da literatura (Vítor Pinto Basto).

“O Corredor Interior”, romance de Daniel Maia Pinto-Rodrigues, editado pela Exclamação e apresentado por Nuno Gomes, tinha aberto o serão, cabendo a Ana Deus e Luca Argel fechar a noite com um concerto intitulado “Canções para beber com Pessoa”. Nele, os artistas revisitaram as “Canções de beber" (ou Rubaiyat), do poeta-astrónomo Omar Khayyam e que, desde a Pérsia do Século XI, inspiraram Fernando Pessoa a traduzir de forma muito livre (do inglês, baseado em Edward Fitzgeral) cerca de duas centenas de quadras. Foi sobre esses poemas que o concerto incidiu, aos quais a dupla acrescentou um conjunto de temas extraídos de “Ruído Vário – Canções com Pessoa”, álbum de estúdio de 2017, uma encomenda da Casa Fernando Pessoa. Ao transformar e atualizar o génio de Fernando Pessoa – “passando por diversas das suas facetas, da solenidade trágica ao escárnio humorístico” –, Ana Deus e Luca Argel ofereceram a possibilidade de escutar a palavra de uma outra forma – igualmente celebrativa, jubilosa e livre. E que siga o FLO!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

CONCERTO: Samba de Guerrilha | Luca Argel



CONCERTO: “Samba de Guerrilha” | Luca Argel
Texto | Luca Argel, Nádia Yracema
Cenografia multimédia | António Jorge Gonçalves
Banda | Carlos César Motta (bateria), Neném do Chalé (percussão), Luca Argel (guitarra e voz), Pri Azevedo (teclado e acordeão), Cláudio César Ribeiro (guitarra eléctrica)
Auditório de Espinho
03 Fev 2023 | sex | 21h30


“Há quem tenha visto o movimento pela janela de casa e descido para se juntar à roda. Há quem tenha ficado com medo dela, fechado as cortinas, e ligado às autoridades. Chamaram-lhes selvagens, bárbaros, primitivos. Esqueceram-se que em tempos haviam oferecido àquelas pessoas uma civilização de correntes e chibatas. Mas elas preferiram outra, de tambores e azeite de dendê. Depois ofereceram-lhes a morte e o silêncio. Mas elas cantaram e dançaram. Ofereceram-lhes, enfim, a miséria. Mas, teimosas, elas fabricaram com as mãos a própria alegria.”

O “Samba de Guerrilha” montou arraiais em Espinho. Veio no embalo de Luca Argel e da sua banda, na narração de Nádia Yracema, no desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves. Fez-se das músicas e das letras de Cartola, Noca da Portela, Herivelto Martins, Aldir Blanc, João Bosco, Batatinha, Nélson Sargento, Paulinho da Viola ou Alfredo Português. Trouxe a alegria do povo na vibração de um tamborim. Uma alegria que foi e é a sua forma de dizer não à pobreza e à opressão. Ao longo de onze quadros, intensos e duros, “Samba de Guerrilha” mostrou que “a cantiga é uma arma”, abrindo-se em música, ritmo e harmonia. Mas também em teatro, a comédia e a tragédia lado a lado a bradar sentenças. Em animação e fotografia, em dança e literatura. Num momento faz-nos cantar, dançar, bater palmas; no momento seguinte faz cair sobre nós um silêncio de morte, olhos postos no cais do Valongo ou no porto do Ceará, ouvidos à escuta no Quilombo do Quariterê ou na Praça Onze.

Quando Nadia Yracema pergunta a Neném do Chalé de onde é que ele é, o Morro da Mangueira abre-se ao “Samba de Guerrilha”. Ou será antes Alfama, berço de um fadista tornado sambista chamado Alfredo Lourenço, a porta de entrada deste espectáculo? Alfredo Português, assim passou a ser conhecido, escreveu a letra de “Samba do Operário”, as palavras a mexerem com a ditadura militar brasileira: “Se o operário soubesse / reconhecer o valor que tem seu dia / por certo que valeria / duas vezes mais o seu salário”. Mas deixemos que o samba se torne ainda mais explícito, ainda mais heróico, e juntemo-nos à Guerrilha do Araguaia, lá na floresta da Amazónia, onde uma centena de guerrilheiros faz frente a uma tropa de mais de cinco mil soldados do exército brasileiro que quer pôr fim à revolução socialista. É com eles que cantamos “Pesadelo”, bebendo a força das suas palavras: “Quando um muro separa uma ponte une / se a vingança encara o remorso pune / você vem me agarra, alguém vem me solta / você vai na marra, ela um dia volta / e se a força é tua, ela um dia é nossa”.

Voz firme, olhos nos olhos dos espectadores, Nádia Yracema pergunta: E se de repente, na calada da noite, a metade escravizada da cidade decidisse não aceitar mais as correntes e a chibata, será que a outra metade seria capaz de resistir? As palavras remetem para a escravatura, a face mais negra da história do Brasil. Cinco milhões de escravizados, um recorde na história moderna em números absolutos, o Rio de Janeiro a maior cidade africana do mundo. A abolição da escravatura será oficialmente proclamada no dia 13 de Maio de 1888, a cantada final sendo dada às três da tarde, no Paço Imperial, pela princesa regente Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, filha mais velha do Imperador Pedro II. “Cangoma”, um jongo, ritmo que é uma espécie de avô do samba, irrompe na voz de Luca Argel. A festa e o delírio, porém, não durarão muito tempo. “Na Fazenda do Senhor”, um outro jongo, ilustra o resultado imediato do movimento abolicionista: A liberdade no papel, na prática a mais profunda desigualdade social.

“É proibido sonhar / então me deixe o direito de sambar”. O tom de denúncia agudiza-se, a contestação sobe de tom. “Se não há mais escravidão, para quê negros?”, pergunta-se. Como exterminar, de uma forma moralmente aceitável, a enorme população negra do país? Alemães, polacos, ucranianos, italianos, espanhóis e até japoneses chegam ao Brasil para ocupar os postos que ficaram vagos. São muitos os imigrantes oriundos de Portugal. A vida que encontram não é fácil, mas importa dizer que, apenas por serem brancos, é-lhes oferecido absolutamente tudo o que foi negado aos setecentos mil negros que já lá estavam, em desamparo. São estes negros que, deixando as fazendas do interior do país, migram em massa para as grandes cidades. O Rio de Janeiro é o grande cruzamento de caminhos onde se encontram e se misturam pessoas das mais variadas origens, idiomas e religiões, convivendo na precariedade e compondo o fumegante caldeirão cultural, de onde vai emergir, entre outras coisas, o samba.

Enquanto as reformas urbanas tentam eliminar do centro da cidade esta “gente perigosa”, a polícia faz uma limpeza cultural. A “lei da vadiagem”, autoriza a polícia a prender, invadir e confiscar qualquer pessoa, espaço ou objecto relacionado com as culturas afro-brasileiras. O batuque é crime, seja ele uma roda de capoeira ou um ritual religioso. “Samba / agoniza mas não morre / alguém sempre te socorre / antes do suspiro derradeiro.” Quatro navios militares brasileiros atraem a nossa atenção. Estão ancorados na Baía de Guanabara, com os canhões apontados à cidade do Rio. Amotinados, os marinheiros clamam “Viva a liberdade, abaixo a chibata!”. O líder da revolta, João Cândido, pede ao presidente Hermes da Fonseca que os oficiais parem de tratar a tropa como se os navios da Marinha fossem plantações, como se a escravatura continuasse vigente naqueles navios onde o comando era sempre branco e os marinheiros, quase todos negros. João Cândido é o “Almirante Negro” e Luca Argel faz dele “Mestre Sala dos Mares”: “Glória a todas as lutas inglórias / que através da nossa história / não esquecemos jamais / Salvе o Almirante Negro / que tеm por monumento / as pedras pisadas do cais.”

“Samba de Guerrilha” chega ao fim. Parece que contar estas histórias é falar do passado, mas não. A escravatura só existiu porque houve um discurso racista que a sustentava e este discurso ainda existe. Não só ainda existe como sustenta a violência do presente. A violência da desigualdade social, A violência da intolerância religiosa. A violência da falta de representatividade. A violência da gentrificação das cidades como forma de higienização social. A violência das prisões, agressões e assassinatos diários dos descendentes dos escravizados. Mas se o racismo ainda está vivo, o samba também está. E as histórias que o samba conta abrem frestas no pensamento, abrem fendas nos muros, abrem clareiras. Rodas por onde ainda circulam os saberes daqueles que sobreviveram à mais terrível das travessias e que tanto nos têm ensinado. Talvez ocupando essas pequenas frestas abertas, e fazendo delas uma trincheira, seja possível transformar a guerra em guerrilha, lutar ponto a ponto, lance a lance, até virar o jogo.


quinta-feira, 30 de maio de 2019

CONCERTO: Luca Argel



CONCERTO: Luca Argel
Bar do Cine-Teatro de Estarreja
25 Mai 2019 | sab | 22:00


“O que espanta miséria é festa!”
Beto Sem Braço

No regresso a Estarreja, após uma participação particularmente activa na última edição do Carnaval da cidade, Luca Argel esteve no Bar do CTE para apresentar “Conversa de Fila”, o seu último trabalho autoral. Leve e bem humorado, este álbum constitui uma resposta à tristeza e à desesperança que o Brasil e os brasileiros vivem neste momento menos positivo da sua História. De forma muito clara, o cantor carioca radicado em Portugal há quase oito anos faz questão de oferecer um momento colorido, pleno de alegria e riso, esse fôlego vital que permite reinventar a vida e fazer com que cada um possa seguir em frente o seu caminho.

Tomando o Samba como a sua grande força inspiradora, Luca Argel oferece-nos um trabalho que é, todo ele, uma celebração, um grito contagiante a clamar felicidade. É assim com “Pisque Três Vezes”, “Não Digo” e “Só Eu Acho?”, os três temas que abriram o concerto e que revelaram, desde logo, um enorme cuidado e bom gosto na construção dos poemas, mas também uma imensa frescura e harmonia em cada uma das composições, alicerçada numa voz timbrada e extremamente melodiosa. Não escondendo o seu apreço pela música de Chico Buarque, Luca Argel foi buscar “Doze Anos” à “Ópera do Malandro”, oferecendo em seguida uma espécie de réplica intitulada “Anos Doze” e que não fala dessa infância de crescer solto, de brincar na rua, jogar à bola e saltar os muros, antes de trocar tardes de praia “por reprises do Jiraya ou caçando Pokémon”.

Deixando momentaneamente de parte “Conversa de Fila”, o cantor carioca visitou ao de leve o seu álbum anterior, “Bandeira” (2017), trazendo-nos “Estar o Ó” (um trocadilho que é também uma homenagem a “Star Wars”), “Rua da Consolação” e “Acanalhado”, mas também, mais à frente no concerto, “Ninguém Faz Festa” e “Calote”, este último tema dedicado a Joe Berardo. No regresso ao álbum mais recente, foi possível escutar “Vila Cosmos”, uma viagem às referências do cantor - “podemos sair do nosso lugar mas o nosso lugar não sai de nós”, disse -, “Natal, Natal” e “Rato! Rato! Rato!”. Luca Argel não esqueceu “Sorria”, o hino do Carnaval de Estarreja em 2019, no qual foi acompanhado por alguns dos presentes. Para o fim, deixo propositadamente, “Samba Invertido”, “Gentrificasamba” e “Conversa de Fila”, sobretudo pela qualidade das respectivas letras. Delas se derrama um humor refinado, uma enorme doçura nos gestos descritos, mas também uma certa ironia na forma como é desenhado o nosso quotidiano. “Lembranças antigas / Histórias de vida / Que a gente partilha” resume na perfeição o sujeito deste delicioso serão, seguido com emoção por todos os presentes. Que não foram muitos, mas foram muito bons!