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sábado, 30 de dezembro de 2023

O MELHOR DE 2023: CINE-CONCERTOS, DANÇA, PERFORMANCES, LUGARES E OUTROS



10. PERFORMANCE: “Variações para Piões”
Autoria | Ines Tartaruga Água
Interpretação e co-autoria | Beatriz Bizarro, Rui Fonseca e Xavier Paes
Museu Escolar Oliveira Lopes - Cantina Escolar
07 Jan 2023 | sab | 17h30

“ (…) Profundamente onírica, a performance explora uma série de pressupostos assentes nas leis da Física. Desde logo o som, tornado audível porque estes piões são, na verdade, ocarinas. Com um orifício apenas, mas ocarinas. De cerâmica, como convém. A sua forma e tamanho definem o som. “Sopradas” em conjunto, permitem a criação de composições muito belas. Há ainda o desenho, os traços de um “pião” impressos numa “esteira” de papel de cera (?) e essa imagem incrível de que apenas na fase final da “vida” do pião o traço se faz notar, sendo tanto mais intenso e, por vezes, irregular, quanto maior é o seu “estertor” (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/01/performance-variacoes-para-pioes.html  



9. LUGARES: Museu Berardo Estremoz
Palácio Tocha
Largo Dragões de Olivença, 100 - Estremoz

“ (…) O Museu Berardo Estremoz abriu há dois anos, em plena pandemia e é um dos maiores, se não o maior museu de azulejos em todo o mundo. Composta por conjuntos azulejares in situ e por mais de quatro mil e quinhentos exemplares móveis datados do século XIII ao século XXI, a Coleção Berardo distribui-se por 35 salas, dando a conhecer, através de uma mostra intitulada “800 Anos de História do Azulejo”, as histórias, as técnicas, o design e os diversos modos de produção que vão da antiga Pérsia a artistas e arquitectos contemporâneos, como Siza Vieira, Júlio Pomar ou Paula Rego (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/05/lugares-museu-berardo-estremoz.html 



8. VISITA GUIADA: “Passo a Passo”
Capelas dos Passos de Ovar
Encenação e orientação | Leandro Ribeiro
18 Ago 2023 | sex | 18:00

“ (…)  O Passo do Cireneu leva-nos ao encontro de Simão de Cirene, essa figura que auxiliou Cristo a transportar a cruz, “não por vontade própria, mas porque a tal foi obrigado”. Lá estão, ainda, as marcas da polémica intervenção de Iglesias, um restaurador espanhol contratado pelo Município que optou por cobrir os frescos das paredes laterais com tinta branca. Sentindo-se insultado nos seus brios, Zé dos Pregos aconselhou o espanhol a mudar de vida e ele assim fez: Regressou à terra dele, trocou o nome de German pelo de Júlio e dedicou-se à música, por sinal com bastante êxito (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/08/visita-guiada-passo-passo.html 



7. EXPOSIÇÃO: “Geografias Construídas: Paulo Mendes da Rocha”
Curadoria | Jean-Louis Cohen, Vanessa Grossman
Consultadoria científica | Catherine Otondo
Projeto expositivo | Eduardo Souto de Moura, Nuno Graça Moura
Casa da Arquitectura
26 Mai 2023 > Fevereiro 2024

“ (…) Sma seleção de materiais de arquivo documenta a imaginação e os métodos de concepção do arquitecto, desde os seus impressionantes esquissos conceituais até ao desenho preciso de detalhes de construção que ele dispôs em folhas de grandes dimensões. Um espaço criativo dentro da exposição combina fotografias e imagens antigas de edifícios com as sombras e o movimento das contemporâneas incursões de vídeo dentro deles e à sua volta. As lendárias delicadas maquetas de estudo do arquiteto, de pequena escala e em papel, dialogam com grandes maquetas produzidas especialmente para a exposição (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/09/exposicao-geografias-construidas-paulo.html 



6. PERFORMANCE: “Os Surrealistas”
Lisbon Poetry Orchestra
Festival Literário de Ovar FLO 2023
Centro de Arte de Ovar
16 Set 2023 | sab | 22:30

“ (…) Entre o estranhar e o entranhar foi tempo de dois poemas (e a adesão só não foi imediata porque a música demasiado alta fez com que nem sempre a palavra fosse perceptível, retardando o processo). Ainda assim, foi possível perceber no poema de abertura, com assinatura de Mário Cesariny, a urgência da sua mensagem: “é preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir é preciso suor / é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda o fogo-de-artifício” (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/09/performance-os-surrealistas-lisbon.html  



5. LUGARES: Museu da Covilhã
Rua António Augusto de Aguiar, Covilhã

“ (…) Os museus são lugares únicos que nos proporcionam experiências memoráveis e uma aprendizagem indispensável à formação da identidade. O novíssimo Museu da Covilhã não foge à regra e é, pela sua beleza e enquadramento, pelas suas colecções e pela forma como nos são apresentadas, um espaço de transmissão de valores e de recuperação de memórias por excelência. Mas há algo que distingue o Museu da Covilhã da esmagadora maioria dos espaços do género no nosso País e isso tem a ver com a forma como os percursos expositivos e todos os conteúdos se encontram desenhados, procurando garantir a acessibilidade dos mais diversos públicos (...). Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/06/lugares-museu-da-covilha.html 



4. CINE-CONCERTO: “Maria do Mar”
Realização | Leitão de Barros (1930)
Argumento | Leitão de Barros, António Lopes Ribeiro
Interpretação | Rosa Maria, Oliveira Martins, Adelina Abranches, Alves da Cunha, Perpetua dos Santos, Horta e Costa
Música | Bernardo Sassetti
Orquestra Filarmonia das Beiras
Centro de Arte de Ovar
24 Jun 2023 | sab | 21:30

“ (…) Seria sempre imperdível a possibilidade de ver aquele que é, para muitos, a obra-prima do cinema mudo português, com cópias nos arquivos das Cinematecas de Londres, Nova Iorque, Moscovo e Tóquio. É um privilégio poder saborear uma história feita de imagens tão belas, de sentimentos tão intensos, de emoções tão fortes, numa cópia brilhantemente restaurada, naquele que seria o primeiro projeto de restauro do laboratório do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento. Mas há ainda o lado musical, a partitura de Bernardo Sassetti, expoente de inventividade da escrita do genial criador, sempre atenta aos cambiantes emocionais da realização de Leitão de Barros (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/06/cine-concerto-maria-do-mar.html  



3. DANÇA | MÚSICA: “Timber”
Direcção | Roberto Olivan
Criação e interpretação | João Cardoso, Vanessa Cunha, Mafalda Cardoso, Liliana Oliveira, Ricardo Machado, Sara Garcia
Música | Michael Gordon
Direcção musical | Miquel Bernat
Interpretação musical | Drumming GP
Auditório de Espinho - Academia
24 Fev 2023 | sex | 21:30

“ (…) De um ponto de vista musical, “Timber” aposta na criação de paisagens sonoras que possam abrir espaço ao movimento e lhe sirvam de alimento. Coreograficamente, importa garantir a necessária fluidez entre bailarinos e percussionistas, rompendo com a dimensão tradicionalmente estática do músico e, ao mesmo tempo, adequando o movimento a um espaço que ora se abre, ora se fecha, como se de um respirar se tratasse (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/02/danca-musica-timber.html 



2. DANÇA: “Corpo Clandestino”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Interpretação | Ana Afonso Lourenço, Andreia Miguel, Gaya de Medeiros, Joãozinho da Costa, Mafalda Ferreira, Paulo Azevedo, Valter Fernandes
Centro de Arte de Ovar
10 Nov 2023 | sex | 21:30

“ (…) Apontando o dedo aos padrões de normalidade pelos quais se regem as sociedades actuais, pondo em causa verdades e consequências, a peça quebra com os tabus, faz do preconceito a face mais visível da diferença e estilhaça em mil pedaços o dogma e a norma. A superação afirma-se na simplicidade de uns dedos que percorrem um corpo, na disponibilidade de umas mãos que se dão ou de uns braços que prendem com força, na complexidade de um coto tornado funcional pelo crer e pela vontade. Nunca o movimento teve tanto significado, nunca o gesto foi tão expressivo (...)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/11/danca-corpo-clandestino.html 



1. CINE-CONCERTO: “A Máscara de Ferro”
Acompanhamento musical | Filipe Raposo (piano)
Realização | Allan Dwan
Interpretação | Belle Bennett, Marguerite de la Motte, Dorothy Revier, Vera Lewis, Rolfe Sedan, Douglas Fairbanks
Festival de Jazz Bernardo Sassetti
Casa das Artes - Auditório 2
09 Dez 2023 | sab | 18:00

“ (…) Além de um excelente divertimento, “A Máscara de Ferro” é também um verdadeiro documento histórico. Por um lado, é o último grande filme de “capa e espada” do período do cinema mudo. Representa também o derradeiro grande filme de Douglas Fairbanks, que coloca aqui um ponto final na colaboração com o realizador Allan Dwan. Finalmente, é um filme característico da fase de transição do cinema mudo para o sonoro (...)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/12/cine-concerto-mascara-de-ferro.html

domingo, 10 de dezembro de 2023

CINE-CONCERTO: "A Máscara de Ferro"



CINE-CONCERTO: “A Máscara de Ferro” / “The Iron Mask”
Acompanhamento musical | Filipe Raposo (piano)
Realização | Allan Dwan
Argumento | Elton Thomas (Douglas Fairbanks)
Fotografia | Henry Sharp, Warren Lynch
Montagem | William Nolan
Interpretação | Belle Bennett, Marguerite de la Motte, Dorothy Revier, Vera Lewis, Rolfe Sedan, William Bakewell, Gordon Thorpe, Nigel de Brulier, Ulrich Haupt, Lon Poff, Charles Stevens, Henry Otto, Leon Barry, Stanley Sandford, Gino Corrad, Douglas Fairbanks
Produção | Elton Corp
Estados Unidos | 1929 | Aventura, Drama, História | 95 Minutos | S/ classificação
Casa das Artes - Auditório 2
09 Dez 2023 | sab | 18:00

O rei Luís XIII de França fica radiante quando o seu filho nasce - um herdeiro do trono. No meio de tanta excitação, porém, poucos são os que se apercebem que a rainha deu à luz gémeos. Vendo num segundo filho um risco para a estabilidade do Estado, o Cardeal Richelieu envia a criança para Espanha, a fim de ser mantida em segredo e garantir um futuro pacífico para a França. Infelizmente, manter o segredo significa enviar Constança, amante de D'Artagnan, para um convento e este tudo irá fazer para a resgatar. A incursão tem um desfecho trágico e Richelieu vence os Mosqueteiros, exigindo que se separem para sempre e deixando a D’Artagnan a tarefa de proteger o jovem príncipe. Entretanto, De Rochefort descobre os planos de Richelieu e rapta o gémeo, criando-o em segredo. Vinte anos mais tarde, com Richelieu morto e o jovem príncipe coroado Luís XIV, Rochefort lança o seu plano. O Rei é raptado, substituído pelo seu gémeo, colocado com uma máscara de ferro para não ser reconhecido e levado para um castelo remoto para ser mantido prisioneiro. Mas Luís XIV consegue fazer chegar uma mensagem a D'Artagnan, que se apercebe que apenas os seus amigos Athos, Porthos e Aramis o podem ajudar. De novo reunidos, os Mosqueteiros fazem abortar o nefasto plano de De Rochefort, mas o custo será tremendamente elevado.

Além de um excelente divertimento, “A Máscara de Ferro” é também um verdadeiro documento histórico. Por um lado, é o último grande filme de “capa e espada” do período do cinema mudo. Representa também o derradeiro grande filme de Douglas Fairbanks, que coloca aqui um ponto final na colaboração com o realizador Allan Dwan. Finalmente, é um filme característico da fase de transição do cinema mudo para o sonoro. Manuel Cintra Ferreira, no apontamento que escreve para a Cinemateca Portuguesa aquando da exibição deste filme em janeiro de 2022, lembra que “a década de 20 vai tornar-se a primeira era de ouro dos filmes de capa e espada, graças sobretudo aos filmes que Fairbanks interpreta e que servirão também de modelo para os seus “herdeiros” (de Errol Flynn e Tyrone Power, ao seu filho Douglas Fairbanks Jr.). Além de Zorro ele vai ser D' Artagnan, Robin dos Bosques, o Ladrão de Bagdad e o Pirata Negro.” De facto, quem, como eu, não conhecia o filme, não pode deixar de ficar maravilhado com a sua dimensão fantasiosa e o seu sentido do entretenimento, a par dos pormenores técnicos e de um trabalho de iluminação e enquadramento verdadeiramente geniais. De surpresa em surpresa, uma questão vai ganhando forma até rebentar em grito: Como é que eu nunca tinha vista este filme antes?

Porque de um cine-concerto se tratou, importa falar da prestação de Filipe Raposo e da forma como acompanhou o filme ao piano. O momento fez parte da segunda edição do Festival de Jazz Bernardo Sassetti. O mesmo Bernardo Sassetti que, em 2000, escrevia: “Devo confessar que a música para cinema é a minha grande paixão mas que, durante muitos anos, esteve longe dos meus planos, nomeadamente quando decidi dedicar-me ao piano e, em particular, à música jazz. No entanto, em 1995, recebi da Cinemateca Portuguesa, um convite para acompanhar filmes mudos, em improvisos de piano solo, nas sessões que aquela instituição dedica a esse tipo de cinema. Este convite e o tempo que dedico à composição trouxeram de novo o gosto que sempre tive pela imagem em movimento e uma enorme vontade de me dedicar à Sétima Arte, o que ultimamente tem vindo a acontecer com maior regularidade.” Este gosto e esta vontade são aspectos que tocam também Filipe Raposo, tal como Sassetti presença assídua na Cinemateca Portuguesa para este género de trabalhos. Na Casa das Artes, o piano de Raposo raiou o sublime, acrescentando emoção, sentimento, bom gosto e sentido de oportunidade aos vários quadros que iam passando na tela. Um espectáculo dentro do espectáculo, fazendo de “A Máscara de Ferro” e da música imersiva de Filipe Raposo um dos momentos mais altos de um ano cultural prestes a chegar ao fim.

domingo, 25 de junho de 2023

CINE-CONCERTO: "Maria do Mar"



CINE-CONCERTO: “Maria do Mar”
Realização | Leitão de Barros (1930)
Argumento | Leitão de Barros, António Lopes Ribeiro
Fotografia | Salazar Dinis, Manuel Luís Vieira
Montagem | Leitão de Barros
Interpretação | Rosa Maria, Oliveira Martins, Adelina Abranches, Alves da Cunha, Perpetua dos Santos, Horta e Costa, Maria Leo, António Duarte, Celestino Pedroso, Mário Duarte, Rafael Alves, Galiana Murraças
Música | Bernardo Sassetti
Orquestra Filarmonia das Beiras
Maestro | Vasco Pearce de Azevedo
Piano | Pedro Burmester
Voz | Filipa Pais
105 Minutos | Maiores de 12 anos
Centro de Arte de Ovar
24 Jun 2023 | sab | 21:30


No dia em que se cumpriram 53 anos sobre a data de nascimento de Bernardo Sassetti, a Cinemateca Portuguesa trouxe ao Centro de Arte de Ovar o filme “Maria do Mar”, de Leitão de Barros. Escrita originalmente por Bernardo Sassetti em 2000 e revista em 2010, a obra foi considerada pelo artista como a mais querida de todas quantas produziu ao longo de uma carreira extraordinariamente rica e produtiva, interrompida brutalmente aos 41 anos na sequência da queda de uma falésia. Em palco, por detrás da tela, a partitura de “Maria do Mar” foi interpretada pela Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direcção do maestro Vasco Pearce de Azevedo, e teve no pianista Pedro Burmester e na cantora Filipa Pais dois convidados de excelência. Com cerca de meia casa, o Centro de Artes foi o fulcro de uma noite mágica, a intensidade e beleza das imagens na tela sublinhadas por um fraseado musical particularmente inspirado, a extraordinária simbiose entre a música e o filme a resultar num processo de valorização mútua da qual sai a ganhar, sobretudo, o espectador.

Obra fundadora na história do cinema português e um marco do património cinematográfico europeu, “Maria do Mar” é vista por historiadores e investigadores como a segunda etnoficção mundial (depois de “Moana”, de Robert Flaherty) e uma das primeiras docuficções da História do Cinema. Neste filme são consensuais as influências do expressionismo alemão e da escola russa, expressas na audácia formal, nos grandes planos, na utilização criteriosa da luz e das sombras, numa estética que não desdenha a distorção das imagens, no sentido do ritmo ao nível da montagem. Rodado na Praia da Nazaré (os interiores filmados nalgumas dependências do Teatro S. Luís, onde Leitão de Barros tinha o seu escritório), o filme é um notável trabalho de integração da paisagem marítima e da vida dos pescadores da Nazaré numa ficção construída à volta do ódio entre duas famílias por causa da morte de um pescador, provocada acidentalmente por outro. Acabará por ser na sequência da união amorosa dos filhos que virá a acontecer a reconciliação.

Seria sempre imperdível a possibilidade de ver aquele que é, para muitos, a obra-prima do cinema mudo português, com cópias nos arquivos das Cinematecas de Londres, Nova Iorque, Moscovo e Tóquio. É um privilégio poder saborear uma história feita de imagens tão belas, de sentimentos tão intensos, de emoções tão fortes, numa cópia brilhantemente restaurada, naquele que seria o primeiro projeto de restauro do laboratório do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento. Mas há ainda o lado musical, a partitura de Bernardo Sassetti, expoente de inventividade da escrita do genial criador, sempre atenta aos cambiantes emocionais da realização de Leitão de Barros. No ouvido do espectador fica a música e, no olhar, as imagens do fragor das ondas a embater nas rochas, a multidão que desce a correr as dunas para acudir à tragédia, a “ousadia” de seis raparigas “que vão a banhos” num pequeno barco a remos, as estreitas veredas da Nazaré com as mulheres de preto sentadas à soleira, a faina do mar, as festividades, a ida às sortes, as preces a Nossa Senhora dos Aflitos. Fica o encantamento de uma obra que é eterna.

sábado, 29 de agosto de 2020

CINE-CONCERTO: "Surdina" | Tó Trips



CINE-CONCERTO: “Surdina” | Tó Trips
Curtas Vila do Conde
Teatro Municipal de Vila do Conde
28 Ago 2020 | sex | 21:3


Realização | Rodrigo Areias
Argumento | Valter Hugo Mãe
Fotografia | Jorge Quintela
Montagem | Tomás Baltazar
Música | Tó Trips
Interpretação | António Durães, Ângela Marques, Ana Bustorff, Emília Silvestre, Adelaide Teixeira, Fernando Moreira, Jorge Mota, Jorge Pinto, Mário Moutinho, Valdemar Santos, Filomena Gigante, Clara Nogueira, João Pedro Vaz, Rosa Quiroga
Produção | Rodrigo Areias
Portugal | 2019 | Comédia | 79 Minutos | Maiores de 14

A mulher morreu-lhe há 30 anos, mas Isaque ainda vive na mesma amargura de sempre, as suas rotinas simples não dispensando a visita diária à campa da mulher, que enfeita desveladamente de cravos vermelhos. O resto do tempo passa-o com os amigos, apesar de não ser dado a grandes falas. Observa o que se passa em volta e o que percebe não lhe traz qualquer conforto. Numa sociedade rural fechada, marcada pelos surtos migratórios, pela crise dos têxteis que abalou o Vale do Ave, encerrando fábrica após fábrica e lançando milhares no desemprego ou pela praga dos incêndios, tornando tudo mais pobre ainda, a bisbilhotice encontra terreno fértil para se espalhar, numa chuva de contos e ditos que não poupa nada nem ninguém. O último boato tem Isaque como um dos visados, a mulher aparentemente “regressada dos mortos”, tendo sido vista às compras na feira. O ajuste de contas começa a pairar no horizonte.

Classificado como comédia, “Surdina” tem sobretudo um lado trágico que acaba por se impor. Mais do que as situações cómicas que se sucedem – o bêbado que urina contra a porta do tascoso, os dois “casamenteiros” a forçar a pretendente ou as comadres que tudo vêem, tudo sabem e tudo comentam -, mais do que a brejeirice que pontua cada fala, mais do que os gestos ou atitudes que se prestam a duplas interpretações, é o sentimento de extrema solidão que habita os mais velhos que ressalta do filme. Há, no argumento de Valter Hugo Mãe, uma verdade muito grande na análise sociológica que faz das comunidades rurais, as gentes do Minho e a sua peculiar forma de estar sendo propícia ao jogo de equívocos que tão bem serve o filme. Mas é quando entra no interior das suas personagens, em especial na de Isaque – uma extraordinária interpretação de António Durães -, que o filme ganha espessura. O corte deste homem com o passado é um momento de redenção que nos deixa um sorriso no rosto e uma lágrima no canto do olho.

Importa, contudo, lembrar que esta não foi uma sessão de cinema trivial. Aliás, quando olhamos para uma sala meia-vazia com o rótulo de “esgotada” e em volta vemos os rostos dos espectadores apenas pela metade, percebemos que não há nisto nada de trivial. A boa notícia é que, apesar dos condicionalismos, este regresso do público às salas é bastante positivo e, servindo esta sessão de “warm-up” para o tão celebrado Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde, que este ano decorrerá entre os dias 03 e 11 de Outubro, as expectativas não podem deixar de estar em alta. A outra originalidade desta sessão é que tivemos em palco Tó Trips, autor da música do filme, e que fez o seu acompanhamento ao vivo. Uma música belíssima, carregada de sentimento, perfeita na correspondência que estabelece com as sequências do filme, ora alegre e livre, ora dura e triste, espelhando a vida tal como ela é. Não raras vezes me esqueci que o músico estava em palco, embalado pelas imagens e pelas melodias. E este, julgo, é o melhor elogio que posso dar a Tó Trips e à sua extraordinária contribuição para o sucesso deste filme.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

CINE-CONCERTO: "J'accuse!"



CINE-CONCERTO: “J’accuse!” 
Realização | Abel Gance 
Argumento | Abel Gance 
Fotografia | Marc Bujard, Léonce-Henri Burel, Maurice Forster 
Montagem | Andrée Danis, Abel Gance 
Interpretação | Romuald Joubé, Maxime Desjardins, Séverin-Mars, Angèle Guys, Maryse Dauvray, Mancini, Elizabeth Nizan, Pierre Danis, Blaise Cendrars, Paul Duc 
Produção | Charles Pathé 
Música | Philippe Schoeller (estreia em Portugal) 
Direcção musical | Christian Schumann 
Interpretação | Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música 
França | 1919 | Drama, Horror, Guerra | 167 Minutos | M/12 
Casa da Música, Sala Suggia 
15 Fev 2020 | sab | 18:00


“…war is futile. Ten or twenty years afterward, one reflects that millions have died and all for nothing. One has found friends among one's old enemies, and enemies among one's friends.” 
Abel Gance

Considerado um dos grandes filmes pacifistas da história do Cinema, “J'accuse!”, de Abel Gance, faz inteiramente jus aos seus créditos, desvendando os horrores da guerra nas suas mais diversas vertentes. Morte, violações, stress pós-traumático, vidas desfeitas e sonhos perdidos, são a demonstração plena de que ninguém sai vencedor de eventos desta natureza. Foi este épico francês do tempo do cinema mudo que se apresentou na vasta e belíssima Sala Suggia da Casa da Música ao final da tarde de ontem, perante uma plateia razoavelmente bem composta. Com ele veio também, em estreia no nosso País, uma nova partitura musical para o filme, da autoria de Philippe Schoeller, interpretada ao vivo pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, sob a direcção fervorosa de Christian Schumann. 

Oscilando entre os registos melodramático e épico, esta “tragédia moderna em três épocas” acompanha o destino funesto de um triângulo amoroso, que se vê arrastado, transfigurado e desfeito pelos ventos da guerra. Estreado em Abril de 1919, poucos meses depois da assinatura do armistício da Primeira Guerra Mundial, o filme trouxe uma enorme projecção internacional ao cineasta Abel Gance, considerado por muitos como o “Griffith francês”, pelo fôlego épico e pela complexidade narrativa que soube imprimir aos seus filmes. Recuperando o título do famoso artigo de 1898 de Emile Zola, pela defesa de Dreyfus, “J’accuse!” aplica-se na denúncia dos horrores da guerra, com a sua procissão de mortes inúteis. Se, no final, os mortos ressuscitam e, com o dedo acusador apontado aos vivos, colocam em causa a sua conduta, são também eles que exigem que os sobreviventes sejam dignos do seu sacrifício e que, portanto, a sua morte não tenha sido em vão.

“J'accuse” é um filme igualmente notável na sua inventividade formal. Abel Gance mostra que o Cinema era, na sua concepção, uma arte resolutamente moderna, violenta, mecânica e flexível, cuja missão deveria ser – como afirmou em 1912 no seu manifesto “Qu’est-ce que le cinematographe” –, a evocação de todas as catástrofes da História, delas retirando a sua “lição objectiva imediata.” A montagem, que inclui cenas filmadas em pleno campo de batalha, mostra-se extraordinariamente dinâmica e surpreendentemente moderna, tirando o melhor partido das mais variadas técnicas cinematográficas – movimentos de câmara, sobreimpressões, efeitos de diafragma, tintagens – para construir um universo visual particularmente denso, em que se multiplicam as referências simbólicas, um inquietante bestiário, evocações alegóricas e uma materialidade quase táctil de mãos que se tocam e se apertam. 

O universo espectral em que “J’accuse!” se desenrola é mudo, mas não é silencioso. Não só as imagens nos fazem ouvir as ensurdecedoras explosões de obuses e os toques de clarim, como todo o filme é atravessado por música, lugar privilegiado da manifestação da emoção e do trauma. Foi em 2014, no contexto das comemorações oficiais do centenário da Grande Guerra, que a ZDF – Arte encomendou a Philippe Schoeller uma nova criação musical para acompanhar a projecção do filme. Embora fosse de temer o impacto causado por quase três horas de filme sobre matéria tão devastadora, a verdade é que assistir a este casamento notável entre duas artes maiores se revelou uma experiência emocionante. Radicalmente diferente dos anteriores acompanhamentos musicais de “J’accuse!”, a partitura de Schoeller explora as possibilidades tímbricas e de espacialização da orquestra sinfónica, da electrónica ao vivo e de um “coro virtual”, propondo “uma aliança do olhar e do ouvido”, na qual a música dialoga com a temporalidade própria do filme e se transforma num verdadeiro “campo magnético atravessado pela imagem”. O “dois em um” perfeito, num grande momento de música e cinema.