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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: "O Século de Gehry" | Frank Gehry



EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “O Século de Gehry”,
de Frank Gehry
Comissário | António Choupina
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Álvaro Siza
13 Jun > 30 dez 2026


“O Século de Gehry”, exposição comissariada por António Choupina, é mais uma jóia a ocupar a Ala Siza Vieira do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Trata-se de uma exposição que não se limita a percorrer a longa trajectória de um dos arquitectos maiores dos séculos XX e XXI, antes propõe uma reflexão sobre aquilo que a arquitectura ainda pode ser quando se recusa a transformar-se numa simples resposta técnica ou numa imagem consumível. Através de desenhos, maquetas, fotografias, filmes e objectos vários, a exposição devolve-nos um Frank Gehry menos próximo do ícone mediático e mais próximo do investigador inquieto que sempre foi. A sua importância histórica não reside apenas nas formas inesperadas que introduziu na paisagem urbana, mas na maneira como restituiu à arquitectura a capacidade de experimentar. Antes do titânio do Guggenheim de Bilbau ou das superfícies ondulantes do Walt Disney Concert Hall, percebemos uma atenção quase artesanal à matéria, ao fragmento e ao acaso. Gehry dizia interessar-se pela energia dos edifícios ainda em construção, pela sua rudeza e pelo seu carácter imediato. Essa afirmação contém, talvez, a chave de toda a sua obra: a arquitectura não como objecto acabado, mas como processo vivo, no qual a dúvida e a descoberta participam tanto quanto o rigor do projecto.

Desde a sua casa em Santa Mónica até aos grandes edifícios que marcam cidades de vários continentes, o arquitecto construiu uma linguagem singular a partir da tensão entre elementos aparentemente incompatíveis. A madeira, o cartão, o metal, o vidro ou o titânio nunca foram simples materiais de revestimento, mas meios para compreender novas possibilidades espaciais. Embora dialogue intensamente com a escultura, a sua arquitectura não é verdadeiramente escultórica. Uma escultura concentra o espaço à sua volta; Frank Gehry procura antes transformá-lo, alterando a luz, o movimento e a percepção de quem o percorre. O fragmento, nos seus projectos, não significa ruptura, mas a busca de uma nova unidade. No Guggenheim de Bilbau, as superfícies curvas e reflectoras não são um mero exercício formal: fazem do edifício uma presença em permanente mutação, dependendo da hora, da claridade do céu, da sensibilidade e apuro do olhar. No Walt Disney Concert Hall, como o próprio arquitecto explicou, cada elemento conserva a sua individualidade antes de participar numa composição colectiva. A arquitectura torna-se assim uma espécie de música construída, cuja harmonia nasce não da uniformidade, mas da relação entre os elementos que a distinguem.

Uma das ideias mais interessantes reveladas pela exposição é a distância entre a imagem pública de Gehry e a complexidade real do seu pensamento. Frequentemente associado ao fenómeno da “arquitectura-espectáculo”, Gehry foi, paradoxalmente, um arquitecto profundamente atento ao contexto. A afirmação de que era “um contextualista convicto” não pode ser entendida como mera defesa circunstancial, mas como uma convicção permanente: cada edifício nasce de uma relação específica com o lugar, a cultura e a memória que o envolve. É nesse ponto que o diálogo com Álvaro Siza, por exemplo, adquire particular significado. Apesar das diferenças formais evidentes, ambos partilham a recusa de uma arquitectura indiferente às circunstâncias. Se Siza procura revelar a continuidade escondida de um lugar, Gehry procura revelar as suas possibilidades latentes. O projecto não construído para o Parque Mayer, em Lisboa, surge na exposição como testemunho de uma relação afectiva com a cidade e de uma vontade de responder ao seu carácter singular. António Choupina compreende essa dimensão ao organizar uma exposição que não apresenta apenas obras acabadas, mas os caminhos, as hesitações e as colaborações que lhes deram origem.

Também por isso, “O Século de Gehry” ultrapassa a condição de homenagem e adquire uma dimensão crítica mais ampla. A exposição recorda-nos uma época em que a arquitectura ainda era entendida como uma forma de conhecimento, uma maneira de pensar o mundo através do espaço e da matéria. Hoje, quando tantos edifícios parecem submetidos à lógica da imagem imediata, da eficiência absoluta ou da repetição globalizada, a obra de Frank Gehry conserva uma pergunta essencial: poderá a arquitectura continuar a surpreender-nos? A sua resposta nunca foi teórica, mas construída. Está na luz que percorre as fachadas de Bilbau, no movimento aparente das superfícies de Düsseldorf, na delicadeza inesperada de uma estrutura metálica no coração das vinhas ou na capacidade de um edifício de transformar a experiência de uma cidade. Percebemos, então, que o verdadeiro legado de Frank Gehry não está nas formas que criou, mas na liberdade que defendeu: a liberdade de imaginar que, mais do que uma solução, um edifício pode ser uma descoberta. E é essa possibilidade - a de uma arquitectura ainda capaz de pensar, emocionar e interrogar o mundo - que permanece como a grande motivação para revisitar a sua obra.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “Beleza Apesar de Tudo” | Manuel Aires Mateus e Francisco Aires Mateus



EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “Beleza Apesar de Tudo”,
de Manuel Aires Mateus e Francisco Aires Mateus
Curadoria | Nuno Crespo
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Siza Vieira
27 Nov 2025 > 19 Abr 2026


“Construímos casas para acolher intimamente o bocado do mundo – feito de coisas, pessoas, animais, plantas, atmosferas, eventos, imagens e lembranças – que torna a nossa felicidade possível.”
Emanuele Coccia, Filosofia da casa

A exposição “Beleza Apesar de Tudo” não se apresenta como uma retrospectiva da obra dos arquitectos Aires Mateus, mas como uma investigação aprofundada sobre as ideias que têm orientado o seu pensamento ao longo de duas décadas. Mais do que mostrar edifícios concretos, a exposição propõe uma imersão nas pesquisas espaciais, materiais e conceptuais que estruturam o trabalho do atelier. Reunindo noventa e uma representações espaciais, o projecto expositivo assume-se como um verdadeiro laboratório sensorial, marcado por intensas variações de escala, diversidade de materiais e experiências tácteis. Organizada em cinco áreas - jardim, matéria, tempo, lugares e geografias -, a exposição não propõe um percurso linear nem pretende representar realidades reconhecíveis. Cada espaço funciona como uma composição autónoma, formada por objectos, imagens e desenhos que criam tensões e relações abertas à experimentação. O visitante é convidado a penetrar nestes ambientes como um “explorador inesperado”, testando sensações e percepções num conjunto de experiências espaciais que privilegiam a dimensão física, sensível e poética da arquitectura.

Cada elemento exposto - maquetes, desenhos, imagens ou objetos - desempenha uma dupla função. Por um lado, questiona de forma radical o estatuto da representação em arquitectura, sem abdicar dos seus formatos tradicionais. Esse questionamento estende-se à própria capacidade das representações de dizer o real. Por outro lado, esses elementos não são entendidos como substitutos de obras ausentes, mas como experiências de pensamento, instrumentos para explorar possibilidades no campo disciplinar. Como sublinham os próprios arquitectos, “o trabalho da arquitectura é pensar”. Embora seja possível reconhecer referências a projectos emblemáticos do estúdio, das casas de Alenquer e Azeitão ao Centro de Investigação das Furnas, da sede da EDP aos museus em Lausanne e Tours, a exposição não pretende revisitar essas obras. O objectivo é antes revelar um léxico arquitectónico em construção, feito de volumetrias, escalas e ritmos que reaparecem sem se repetirem, configurando um modo de pensar que ultrapassa a obra dos Aires Mateus e contribui para o debate mais amplo da arquitectura contemporânea.

Num plano mais profundo, “Beleza Apesar de Tudo” enfrenta a própria impossibilidade de expor arquitectura. Não apenas porque os edifícios não podem ser transportados para o Museu, mas porque a arquitectura, como defendem os autores, nunca está concluída: é uma plataforma para a vida, permanentemente em aberto. Esta visão aproxima-se do pensamento de Aldo Rossi, para quem falar de arquitetura é falar da vida, da morte e da imaginação. A exposição assume, assim, uma ambição humanista, resgatando a arquitetura de uma leitura estritamente técnica e afirmando-a como saber cultural, estético e social. Num contexto marcado pela crise climática, pela desumanização das cidades e pela crescente desigualdade no acesso ao espaço construído, a arquitectura surge aqui como um gesto de resistência. Ao suspender, ainda que momentaneamente, a lógica da urgência e da destruição, a exposição propõe a beleza como possibilidade de vida. Uma beleza que, apesar de tudo, persiste.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: "Aalto" | Alvar Aalto



EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “Aalto”,
de Alvar Aalto
Curadoria | António Choupina
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
18 Jul 2025 > 04 Jan 2026


Antecipando o cinquentenário da morte de Alvar Aalto, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresenta uma exposição monográfica que vai muito além da celebração de um nome consagrado. “Aalto” oferece uma leitura emocional e crítica da arquitectura moderna através de uma das suas vozes mais sensíveis. O texto curatorial de António Choupina, que guia o visitante, sublinha o carácter colectivo da criação - a tríade formada por Alvar e pelas suas duas esposas, Aino e Elissa Aalto - e o modo como o seu trabalho redefiniu a vertente humanista do modernismo. O percurso, estruturado cronologicamente e impregnado de simbolismo, revela uma obra que nasce do diálogo com a natureza e com o corpo humano. O gesto inaugural - atravessar a “medalha” de Aalto, reinterpretada como portal expositivo - traduz essa dimensão íntima e táctil, evocando a Casa Experimental de Muuratsalo, onde o arquitecto deixou a sua impressão digital. Esta abertura é mais do que um dispositivo cénico: é a metáfora perfeita para um criador que via na Arquitectura não um estilo, mas uma forma de vida.

Entre as décadas de 1920 e 1960, a narrativa expositiva acompanha a transformação da Finlândia em nação moderna, uma epopeia cultural em que a arquitectura se tornou instrumento de identidade. Aalto foi influenciado pelo funcionalismo e pelo diálogo com os modernistas europeus e o círculo da Bauhaus, mas a sua obra transcendeu rótulos. Onde outros viam uniformidade, ele via complexidade e emoção; onde o racionalismo impunha rigidez, ele introduziu organicidade. Obras como a Biblioteca de Viipuri, hoje na Rússia, a Villa Mairea, na Finlândia, a Baker House, nos Estados Unidos, a Maison Carré, em França, ou o Sanatório de Paimio, testemunham essa fusão entre técnica e poesia — edifícios que respiram, acolhem e curam. Este último, projectado no advento da antibioterapia, é exemplar na forma como o espaço se converte em cuidado: a luz, o ar, o som e até o silêncio constituem matéria de projecto. É por isso que o Sanatório figura entre os treze edifícios de Aalto nomeados a Património Mundial da UNESCO, e que o seu nome continua a definir a ideia de “arquitectura humanizada” que hoje tanto se reivindica.

A exposição culmina com Elissa Aalto, encerrando um ciclo criativo e biográfico, mas também lançando um olhar sobre o futuro da Arquitectura enquanto arte de cuidado e crença. A organização em torno de referências bíblicas - um gesto invulgar no contexto moderno - reforça a leitura espiritual de uma obra que dialoga com a fé luterana e, mais amplamente, com a fé no humano. Ao mesmo tempo, estabelecem-se pontes com a contemporaneidade, recordando a influência de Alvar Aalto em arquitectos como Álvaro Siza, laureado com a Medalha Alvar Aalto em 1988. A relação entre ambos - o mestre distante e o discípulo que transforma o legado em nova sensibilidade - confere à mostra uma densidade rara: não é apenas um arquivo, mas uma meditação sobre a continuidade da modernidade. “Aalto”, em Serralves, é menos uma retrospectiva e mais uma revelação: a de que, entre o concreto e a luz, ainda pulsa a possibilidade de uma arquitectura que respira como um ser vivo.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO: "SANAA: Sejima + Nishizawa"



EXPOSIÇÃO: “SANAA: Sejima + Nishizawa”,
de Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
15 Nov 2024 > 27 Abr 2025


A exposição no novo espaço de arquitetura, “SANAA: Sejima + Nishizawa”, assinala o primeiro aniversário da Ala Álvaro Siza. Produzida pela Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, a exposição é comissariada pelo arquiteto António Choupina, com curadoria de Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa. Os projectos de Inujima e Imabari representam faces distintas do atelier de arquitectura japonês SANAA e das práticas independentes dos seus fundadores, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, cuja parceria dos últimos trinta anos se celebra por meio desta exposição. Pensando a arquitetura sempre a partir do contexto, os estudos tipológicos de SANAA são um processo interactivo pelo qual o seu trabalho se relaciona incrementalmente com aqueles que habitarão os projetos. A pesquisa subjacente é a estrutura unificante dos dois casos apresentados que, embora fisicamente próximos, operam em contextos políticos e culturais muito diversos.

O projecto de Inujima constitui um longo compromisso com a paisagem característica do Japão pós-industrial. A ilha albergava mais de quatro mil pessoas no início do século XX, tendo o encerramento das pedreiras locais conduzido a um despovoamento dramático — restam actualmente apenas cerca de trinta habitações unifamiliares. Desde a sua génese em 2008, o projecto tem sido uma colaboração contínua entre Kazuyo Sejima, a curadora Yuko Hasegawa e a Fundação Fukutake. Vendo a ilha como um local de acolhimento, pretende-se que esta permaneça uma entidade viva, aliando actividades artísticas e culturais à vida quotidiana, bem como promovendo um ecossistema comunitário, convivial e sustentável. Esta exposição reúne os contributos de Kazuyo Sejima, de Ryue Nishizawa e de outros que, em conjunto, se dedicam ao estímulo e sustento da paisagem viva e hospitaleira de Inujima.

O projecto de Imabari consiste num edifício de escritórios concebido para a Imabari Shipbuilding Corporation, num estaleiro próximo da ilha de Inujima. A concepção deste ambiente de trabalho aberto permite uma relação mais próxima entre os funcionários do edifício. O interesse por ligações sobrepostas surge gradualmente ao longo de um período de dois anos, expondo-se aqui o seu desenvolvimento morfológico através de vários estudos e interacções. As múltiplas evoluções de Imabari apresentam-se à semelhança de uma paisagem de pequenos pedestais desenhados pelo atelier SANAA, juntamente com peças de mobiliário concebidas por Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa. Com âmbitos radicalmente distintos, estes projectos resultam de uma prática prolongada no tempo, orientada por uma metodologia de aprendizagem e adaptação contínuas que entende a arquitectura como extensão do ambiente por si moldado.

[Escrito a partir do Roteiro da Exposição, o qual pode ser lido em https://cdn.bndlyr.com/nsa343pdfl/_assets/2411_sanaa_roteiro_site.pdf]

terça-feira, 1 de outubro de 2024

LUGARES: Real Alcázar de Sevilha



LUGARES: Real Alcázar de Sevilha
Pátio de Banderas, Sevilha
Horários | Todos os dias, das 09:30 às 19:00 (01 de Abril a 28 de Outubro) e das 09:30 às 17:00 (29 de Outubro a 31 de Março)
Ingressos | Bilhete normal € 14,50


O complexo do Real Alcázar de Sevilha tem a sua origem na evolução que a antiga “Hispalis” romana, a “Spali” do tempo dos Godos, sofreu durante a Alta Idade Média, quando a cidade passou a ser conhecida como Ixbilia. Mais concretamente, no início do século X, quando o califa de Córdova, Abderrahman III an-Nasir, ordenou, em 913, a construção de um novo recinto governamental, o Dar al-Imara, no flanco sul da cidade, segundo os testemunhos mais fiáveis. A sede do poder omíada do Al-Andalus situava-se anteriormente na zona da cidade baixa imperial romana, não muito longe da mesquita aljama de Sevilha e estava já ligado ao porto da cidade, sede mais importante da sua atividade económica. Ao palácio do governo omíada, juntou-se mais tarde o Alcázar Nuevo dos abádidas, governantes de Sevilha no século X. Este palácio de Al-Mubarak, o Abençoado, era já o centro da vida oficial e literária da cidade, com poetas, como o soberano Al-Mut’amid, que lançaram as bases de outras actividades humanas, e as suas lendas que hoje fazem parte da história de Sevilha.

A conquista castelhana do território em 1248-49 deu ao Real Alcázar o estatuto que se mantém até hoje: a sede da Coroa e a esfera do poder municipal na cidade. Edifícios como o Palácio Gótico, no qual Alfonso X encarna as concepções do novo quadro cultural em que a cidade se integrou, foram construídos sobre as fundações anteriores, numa integração histórica de culturas que faz parte da própria essência de Sevilha. O Palácio Mudéjar de D. Pedro I, em meados do século XIV, faz reaparecer as velhas concepções mediterrânicas numa versão árabe, quando o Al-Andalus era já uma entidade dominada por Castela. A este quadro arquitetónico juntam-se os elementos que deram vida ao Real Alcázar de Sevilha em cada momento: os novos usos dos espaços, os jardins, a água que aparece em cada recanto e os grupos e pessoas que deram vida aos edifícios e construções ao longo dos últimos onze séculos.

Desde o início da Idade Moderna, a constante ligação entre o Alcázar de Sevilha e a Coroa de Espanha reflecte-se nas contínuas transformações do edifício que tentaram adaptar o seu interior aos gostos dos novos tempos. Assim, o piso superior do Pátio de las Doncellas foi remodelado, adquirindo um aspeto renascentista ao gosto italiano. Os estuques também foram renovados e os arcos da galeria inferior foram modificados.Ao longo do século XVI foram também construídos esplêndidos tectos em caixotões que mantiveram a estética mudéjar e não traíram o espírito original do edifício. Entre estes tectos em caixotões, destaca-se o que cobre o amplo espaço da Sala dos Embaixadores. Outras zonas do Alcázar tiveram menos sorte, como o infeliz processo de transformação do encantador Pátio de las Muñecas, muito modificado por restauros do século XIX que destruíram o seu encanto original. No entanto, as antigas colunas e capitéis foram preservados, mantendo parte do carácter original do pátio.

Magníficas contribuições renascentistas enriqueceram o património artístico do Alcázar de Sevilha, como o admirável retábulo de azulejos realizado em 1504 por Francisco Niculoso Pisano no oratório dos Reis Católicos ou o retábulo pictórico da Sala do Almirante, dedicado à Virgem dos Navegantes. O esplendor renascentista também brilha nos chamados Salones de Carlos V, que são precedidos por uma entrada monumental feita pelo arquiteto van der Borch após o terramoto que atingiu Sevilha em 1755. Este pórtico reflecte já o gosto classicista que sucedeu à estética barroca a partir de meados do século XVIII. Os monarcas Bourbon, no século XIX, também deixaram uma forte marca no Alcázar, organizando espaços no piso superior do edifício, onde antigas salas foram remodeladas e enriquecidas com decorações do século XIX, com tapeçarias, candeeiros de cristal de La Granja, relógios, mobiliário e uma notável coleção de pinturas. Por último, os jardins foram objeto de uma grande transformação desde o Renascimento, com a criação de novas fontes e lagos, pavilhões, pórticos e galerias. Os parterres foram permanentemente remodelados e, até meados do século XIX, melhorados com importantes inovações que fazem deste ambiente paisagístico um dos mais belos espaços de Espanha.

sábado, 30 de dezembro de 2023

O MELHOR DE 2023: CINE-CONCERTOS, DANÇA, PERFORMANCES, LUGARES E OUTROS



10. PERFORMANCE: “Variações para Piões”
Autoria | Ines Tartaruga Água
Interpretação e co-autoria | Beatriz Bizarro, Rui Fonseca e Xavier Paes
Museu Escolar Oliveira Lopes - Cantina Escolar
07 Jan 2023 | sab | 17h30

“ (…) Profundamente onírica, a performance explora uma série de pressupostos assentes nas leis da Física. Desde logo o som, tornado audível porque estes piões são, na verdade, ocarinas. Com um orifício apenas, mas ocarinas. De cerâmica, como convém. A sua forma e tamanho definem o som. “Sopradas” em conjunto, permitem a criação de composições muito belas. Há ainda o desenho, os traços de um “pião” impressos numa “esteira” de papel de cera (?) e essa imagem incrível de que apenas na fase final da “vida” do pião o traço se faz notar, sendo tanto mais intenso e, por vezes, irregular, quanto maior é o seu “estertor” (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/01/performance-variacoes-para-pioes.html  



9LUGARES: Museu Berardo Estremoz
Palácio Tocha
Largo Dragões de Olivença, 100 - Estremoz

“ (…) O Museu Berardo Estremoz abriu há dois anos, em plena pandemia e é um dos maiores, se não o maior museu de azulejos em todo o mundo. Composta por conjuntos azulejares in situ e por mais de quatro mil e quinhentos exemplares móveis datados do século XIII ao século XXI, a Coleção Berardo distribui-se por 35 salas, dando a conhecer, através de uma mostra intitulada “800 Anos de História do Azulejo”, as histórias, as técnicas, o design e os diversos modos de produção que vão da antiga Pérsia a artistas e arquitectos contemporâneos, como Siza Vieira, Júlio Pomar ou Paula Rego (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/05/lugares-museu-berardo-estremoz.html 



8. VISITA GUIADA: “Passo a Passo”
Capelas dos Passos de Ovar
Encenação e orientação | Leandro Ribeiro
18 Ago 2023 | sex | 18:00

“ (…)  O Passo do Cireneu leva-nos ao encontro de Simão de Cirene, essa figura que auxiliou Cristo a transportar a cruz, “não por vontade própria, mas porque a tal foi obrigado”. Lá estão, ainda, as marcas da polémica intervenção de Iglesias, um restaurador espanhol contratado pelo Município que optou por cobrir os frescos das paredes laterais com tinta branca. Sentindo-se insultado nos seus brios, Zé dos Pregos aconselhou o espanhol a mudar de vida e ele assim fez: Regressou à terra dele, trocou o nome de German pelo de Júlio e dedicou-se à música, por sinal com bastante êxito (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/08/visita-guiada-passo-passo.html 



7. EXPOSIÇÃO: “Geografias Construídas: Paulo Mendes da Rocha”
Curadoria | Jean-Louis Cohen, Vanessa Grossman
Consultadoria científica | Catherine Otondo
Projeto expositivo | Eduardo Souto de Moura, Nuno Graça Moura
Casa da Arquitectura
26 Mai 2023 > Fevereiro 2024

“ (…) Sma seleção de materiais de arquivo documenta a imaginação e os métodos de concepção do arquitecto, desde os seus impressionantes esquissos conceituais até ao desenho preciso de detalhes de construção que ele dispôs em folhas de grandes dimensões. Um espaço criativo dentro da exposição combina fotografias e imagens antigas de edifícios com as sombras e o movimento das contemporâneas incursões de vídeo dentro deles e à sua volta. As lendárias delicadas maquetas de estudo do arquiteto, de pequena escala e em papel, dialogam com grandes maquetas produzidas especialmente para a exposição (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/09/exposicao-geografias-construidas-paulo.html 



6PERFORMANCE: “Os Surrealistas”
Lisbon Poetry Orchestra
Festival Literário de Ovar FLO 2023
Centro de Arte de Ovar
16 Set 2023 | sab | 22:30

“ (…) Entre o estranhar e o entranhar foi tempo de dois poemas (e a adesão só não foi imediata porque a música demasiado alta fez com que nem sempre a palavra fosse perceptível, retardando o processo). Ainda assim, foi possível perceber no poema de abertura, com assinatura de Mário Cesariny, a urgência da sua mensagem: “é preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir é preciso suor / é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda o fogo-de-artifício” (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/09/performance-os-surrealistas-lisbon.html  



5. LUGARES: Museu da Covilhã
Rua António Augusto de Aguiar, Covilhã

“ (…) Os museus são lugares únicos que nos proporcionam experiências memoráveis e uma aprendizagem indispensável à formação da identidade. O novíssimo Museu da Covilhã não foge à regra e é, pela sua beleza e enquadramento, pelas suas colecções e pela forma como nos são apresentadas, um espaço de transmissão de valores e de recuperação de memórias por excelência. Mas há algo que distingue o Museu da Covilhã da esmagadora maioria dos espaços do género no nosso País e isso tem a ver com a forma como os percursos expositivos e todos os conteúdos se encontram desenhados, procurando garantir a acessibilidade dos mais diversos públicos (...). Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/06/lugares-museu-da-covilha.html 



4. CINE-CONCERTO: “Maria do Mar”
Realização | Leitão de Barros (1930)
Argumento | Leitão de Barros, António Lopes Ribeiro
Interpretação | Rosa Maria, Oliveira Martins, Adelina Abranches, Alves da Cunha, Perpetua dos Santos, Horta e Costa
Música | Bernardo Sassetti
Orquestra Filarmonia das Beiras
Centro de Arte de Ovar
24 Jun 2023 | sab | 21:30

“ (…) Seria sempre imperdível a possibilidade de ver aquele que é, para muitos, a obra-prima do cinema mudo português, com cópias nos arquivos das Cinematecas de Londres, Nova Iorque, Moscovo e Tóquio. É um privilégio poder saborear uma história feita de imagens tão belas, de sentimentos tão intensos, de emoções tão fortes, numa cópia brilhantemente restaurada, naquele que seria o primeiro projeto de restauro do laboratório do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento. Mas há ainda o lado musical, a partitura de Bernardo Sassetti, expoente de inventividade da escrita do genial criador, sempre atenta aos cambiantes emocionais da realização de Leitão de Barros (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/06/cine-concerto-maria-do-mar.html  



3. DANÇA | MÚSICA: “Timber”
Direcção | Roberto Olivan
Criação e interpretação | João Cardoso, Vanessa Cunha, Mafalda Cardoso, Liliana Oliveira, Ricardo Machado, Sara Garcia
Música | Michael Gordon
Direcção musical | Miquel Bernat
Interpretação musical | Drumming GP
Auditório de Espinho - Academia
24 Fev 2023 | sex | 21:30

“ (…) De um ponto de vista musical, “Timber” aposta na criação de paisagens sonoras que possam abrir espaço ao movimento e lhe sirvam de alimento. Coreograficamente, importa garantir a necessária fluidez entre bailarinos e percussionistas, rompendo com a dimensão tradicionalmente estática do músico e, ao mesmo tempo, adequando o movimento a um espaço que ora se abre, ora se fecha, como se de um respirar se tratasse (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/02/danca-musica-timber.html 



2. DANÇA: “Corpo Clandestino”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Interpretação | Ana Afonso Lourenço, Andreia Miguel, Gaya de Medeiros, Joãozinho da Costa, Mafalda Ferreira, Paulo Azevedo, Valter Fernandes
Centro de Arte de Ovar
10 Nov 2023 | sex | 21:30

“ (…) Apontando o dedo aos padrões de normalidade pelos quais se regem as sociedades actuais, pondo em causa verdades e consequências, a peça quebra com os tabus, faz do preconceito a face mais visível da diferença e estilhaça em mil pedaços o dogma e a norma. A superação afirma-se na simplicidade de uns dedos que percorrem um corpo, na disponibilidade de umas mãos que se dão ou de uns braços que prendem com força, na complexidade de um coto tornado funcional pelo crer e pela vontade. Nunca o movimento teve tanto significado, nunca o gesto foi tão expressivo (...). Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/11/danca-corpo-clandestino.html 



1. CINE-CONCERTO: “A Máscara de Ferro”
Acompanhamento musical | Filipe Raposo (piano)
Realização | Allan Dwan
Interpretação | Belle Bennett, Marguerite de la Motte, Dorothy Revier, Vera Lewis, Rolfe Sedan, Douglas Fairbanks
Festival de Jazz Bernardo Sassetti
Casa das Artes - Auditório 2
09 Dez 2023 | sab | 18:00

“ (…) Além de um excelente divertimento, “A Máscara de Ferro” é também um verdadeiro documento histórico. Por um lado, é o último grande filme de “capa e espada” do período do cinema mudo. Representa também o derradeiro grande filme de Douglas Fairbanks, que coloca aqui um ponto final na colaboração com o realizador Allan Dwan. Finalmente, é um filme característico da fase de transição do cinema mudo para o sonoro (...)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/12/cine-concerto-mascara-de-ferro.html

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

EXPOSIÇÃO: “Geografias Construídas: Paulo Mendes da Rocha” 


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO: “Geografias Construídas: Paulo Mendes da Rocha”
Curadoria | Jean-Louis Cohen, Vanessa Grossman
Consultadoria científica | Catherine Otondo
Projeto expositivo | Eduardo Souto de Moura, Nuno Graça Moura
Casa da Arquitectura
26 Mai 2023 > Fevereiro 2024


Primeiro Associado Honorário da Casa da Arquitectura e amigo de longa data da instituição, Paulo Mendes da Rocha é agora objeto de um tributo alargado que percorre sete décadas de actividade e convoca várias dimensões da sua pessoa, do homem que pensa o mundo ao arquiteto que o constrói. A exposição assenta no acervo doado pelo arquitecto à Casa da Arquitectura, representando parte significativa da sua produção profissional, desde finais dos anos 50, logo após a sua formação académica, concluída em 1954. Trata-se de um conjunto documental extenso e riquíssimo, constituído por desenhos, textos, fotografias e maquetes, quer dos seus primeiros projetos, ainda em co-autoria com o arquiteto João Eduardo de Gennaro, quer de obras emblemáticas como a sua própria casa em São Paulo, denominada Casa Butantã, a Casa Gerber em Angra dos Reis, o Estádio Municipal Serra Dourada em Goiânia, o Museu Nacional dos Coches em Lisboa ou o Museu Brasileiro de Escultura em São Paulo, entre outros.

O arquitecto estreou-se em 1958, em S. Paulo, com a construção do Ginásio do Clube Atlético Paulistano, um marco emocionante para o modernismo brasileiro. A partir dos seus primeiros projetos, como este anel de betão combinado com finos cabos de aço, até às suas últimas obras, e desde moradias privadas a programas de grande escala, a exposição reformula, na sua complexidade, um contributo muitas vezes catalogado, de forma simplista, como brutalismo. As principais obras de Mendes da Rocha inscrevem-se na rede variável e transgeracional de parceiros e colaboradores, entre estudantes, arquitetos, artistas e engenheiros, com quem trabalhou desde os anos 1960 até à década de 2010. Inseridas na cultura urbana do Brasil, exprimem uma preocupação constante com os recursos naturais e os materiais da Terra. A exposição reúne uma consciência geográfica de trabalho à escala das casas e prédios que estabelecem diálogo com a topografia de São Paulo e de grandes volumes que abordam as majestosas paisagens do Brasil e o maior litoral inter e subtropical do mundo.

Uma seleção de materiais de arquivo documenta a imaginação e os métodos de concepção do arquitecto, desde os seus impressionantes esquissos conceituais até ao desenho preciso de detalhes de construção que ele dispôs em folhas de grandes dimensões. Um espaço criativo dentro da exposição combina fotografias e imagens antigas de edifícios com as sombras e o movimento das contemporâneas incursões de vídeo dentro deles e à sua volta. As lendárias delicadas maquetas de estudo do arquiteto, de pequena escala e em papel, dialogam com grandes maquetas produzidas especialmente para a exposição. Concebida por Eduardo Souto de Moura e Nuno Graça Moura, a instalação orquestra uma intensa relação entre os materiais de arquivo, apresentados numa mesa central, e as paredes pontuadas por grandes projecções que mostram aos visitantes a vida quotidiana dos edifícios. Passo a passo, o percurso desvela as geografias expandidas da obra de Mendes da Rocha, desde os confins mais íntimos das casas que ele projetou e construiu ao longo da sua vida até às suas vastas visões, que se estendem desde São Paulo até ao continente americano e ao cosmos.

Num segundo momento, a Galeria da Casa acolhe a exposição “Paulo: Para além do Desenho – Conversando com Paulo Mendes da Rocha”, com curadoria de Marta Moreira e Rui Furtado e projeto expositivo de Ricardo Bak Gordon. À espera do visitante está um vídeo composto por dez entrevistas e palestras de Paulo Mendes da Rocha, disponível em cinco ecrãs de forma assíncrona e acompanhado de uma seleção de cento e sessenta imagens exibidas em tablets. Desta forma, propõe-se um diálogo entre o arquitecto e o visitante para que, de uma forma íntima, sem filtros ou interpretações, sejam abordados os mais variados temas, expondo o que pensava, o que o movia e por que lutava Mendes da Rocha. Espera-se que o que resultar desse encontro possa contribuir para que melhor se compreenda o pensamento que está por detrás das obras que realizou, dos projectos que propôs e da concepção do mundo por que lutou.

[Texto composto a partir do Dossier de Imprensa que acompanha a exposição]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

EXPOSIÇÃO: "Retroactivar"


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EXPOSIÇÃO: Retroactivar”
Curadoria | Loreta Castro Reguera e José Pablo Ambrosi
Trienal de Arquitectura de Lisboa 2022
Museu da Electricidade – Central Tejo
30 Set > 05 Dez 2022


Quatro exposições centrais, quatro livros, três prémios, três dias de conferências e uma selecção de projectos independentes. Também uma declaração de intenção e um apelo à acção. Assim é “Terra”, Trienal de Arquitectura de Lisboa, conjunto de eventos que, nesta sexta edição, denunciam os modelos de sistema fragmentado e linear que regem a criação de lugares neste nosso Planeta globalizado, apelando a uma mudança de paradigma para um modelo de sistema circular e holístico, motivado por um maior e mais profundo equilíbrio entre comunidades, recursos e processos. Com curadoria geral de Cristina Veríssimo e Diogo Burnay, a Trienal de Arquitectura de Lisboa 2022 sugere um reequacionamento do futuro a partir do cruzamento e intercâmbio de saberes e fazeres que possam coexistir, contribuindo para uma maior sustentabilidade do planeta e para a melhoria das condições de quem o habita. É nesse âmbito que se enquadra a exposição “Retroactivar”, visitada no penúltimo dia do certame com a preciosa ajuda de João Queiroz e Lima, do atelier CASCA Arquitectura e Design, responsáveis pelo desenho expositivo.

Actualmente, mais de metade da população mundial vive em áreas urbanas. Porém, a maior parte da estrutura em que se desenrola a vida dessas pessoas encontra-se deteriorada ou é inadequada. Debilitada. A energia incorporada nas cidades devido à avassaladora concentração de locais de trabalho, habitação, educação e cultura atrai um grande número de pessoas, mas não conduz a uma qualidade de vida equitativa. Efectivamente, as cidades contemporâneas são conhecidas por fragmentar e isolar o tecido social e habitantes que tentam aceder a condições de vida dignas. Mesmo nas cidades mais prósperas, são inúmeras as áreas da malha urbana formal ou dos subúrbios em que os serviços escasseiam, os transportes públicos são inadequados e abundam os espaços públicos degradados onde se verifica grande concentração de migrantes. Estas zonas desorganizadas, que podem ser ou não de natureza informal, constituem aquilo a que, nesta exposição, é referido como “cidade quebrada”. É aqui que a maior parte da actividade humana tem lugar a nível mundial. Por esse motivo, é urgente começar a examinar este fenómeno nos seus diferentes aspectos.

O Aeroporto de Tempelhof, actualmente o maior parque público de Berlim, o complexo de zonas húmidas do leste de Calcutá, os Matatu partilhados de Nairobi, o tratamento de resíduos de Surabaya, a reciclagem de peças arquitectónicas descartadas de San Diego usadas para construir habitações em Tijuana ou o espaço público Tapis Rouge, no Haiti, são exemplos de como um olhar atento sobre a cidade debilitada pode resultar na busca de soluções mediante a implementação de projectos que restaurem a dignidade espacial e o sentido de pertença das populações. Migração, propriedade fundiária, água, saneamento, sobrepopulação, resíduos, violência, mobilidade e vulnerabilidade geológica são temas prementes para os quais temos de olhar seriamente. A infra-estrutura Retroactiva, uma ferramenta de sutura da cidade debilitada que celebra a existência actual de infra-estruturas, a sua distribuição em todo o mundo e a sua possibilidade de transformação em espaços de habitação condignos, apela à acção em prol de todas as populações urbanas.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

EXPOSIÇÃO: "Mouzinho: Da Ribeira ao Aeroporto"


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EXPOSIÇÃO: “Mouzinho: Da Ribeira ao Aeroporto”,
de Álvaro Domingues e Ivo Poças Martins
Curadoria | Núcleo de Programação do Museu da Cidade do Porto
Casa do Infante
10 Mar > 11 Set 2022


A Rua de Mouzinho da Silveira serve de mote à exposição que, até ao próximo dia 11 de Setembro, se encontra patente na Casa do Infante. Levando o visitante numa viagem que cruza os tempos e os lugares, as gentes e as práticas urbanas e socioculturais, o geógrafo Álvaro Domingues e o arquiteto Ivo Poças Martins partem da documentação referente à intenção de rasgar aquela artéria, em 1872, e perseguem as transformações dos últimos cento e cinquenta anos que moldaram a face da Invicta, transformando-a naquilo que é hoje. Da Ribeira a S. Bento, a “Mouzinho” ilustra e acompanha as grandes ruturas tecnológicas do seu tempo, produzindo uma espacialidade que, durante quase um século, contribuiu para fixar um centro, entretanto deslocado da Ribeira para a Baixa do Porto. Hoje, do nó da Arrábida ao Aeroporto, passando por Leixões, sucedem-se focos de novas centralidades que se distribuem e se relacionam no novo mapa da urbanização em curso. O centro do Porto perdeu o monopólio da centralidade. É “a revolução das cousas”, como escreveu uma vez o conselheiro Mouzinho da Silveira a D. Pedro IV a propósito de outras mudanças de que o mundo então se compunha.

Mas recuemos a 1872, mais concretamente ao mês de Junho, altura em que o Director Geral da Secretaria da Câmara Municipal do Porto, Luís Antonio Nogueira, apresentou à Câmara a “Planta do Projecto da rua da Biquinha parallela à rua das Flores a qual a Ex.ma Camara pretende mandar abrir para ligar o Largo da Feira de S. Bento com a Rua de S. João”. Seria a Rua Mouzinho da Silveira, o novo eixo a unir o Porto ribeirinho e a distinta Praça do Infante à praça D. Pedro IV, terminando onde viria a ser a estação de S. Bento. Corria a segunda metade do séc. XIX e antes que tudo desmoronasse com a crise financeira do estado e do sistema bancário (1891), viviam-se tempos de mudança acelerada, grandes obras e inovações que mudariam radicalmente a organização da sociedade e da urbanização: o caminho de ferro, a eletricidade, o telégrafo, o motor de explosão, as estradas construídas ao modo de Mac-Adam, ou o betão. Entretanto, enquanto se encanava o rio da Vila para traçar a Mouzinho, construíam-se os molhes de Leixões e um outro rio, o Leça, seria depois esventrado para construir uma doca artificial. Os navios aumentavam em dimensão e calado e o Douro, o porto do Porto, era cada vez mais problemático.

Em 1963 inaugurava-se a ponte da Arrábida e o primeiro tramo de autoestrada que levaria a via rápida até Leixões e mais tarde, ao aeroporto. O velho mapa mental do Porto e arredores não tardaria a explodir, dando lugar a uma vasta conurbação: a cidade perdera o exclusivo da urbanização e as medidas curtas que antes bastavam para entender o comprimento da rua Mouzinho, deram lugar aos tempos rápidos das relações e do movimento. Funções que antes se aglomeravam no núcleo central favorecido pelo monopólio da acessibilidade, distribuem-se agora nesse espaço alargado, marcando lugares, expondo os sinais da mudança. A geografia extensa e descontínua da urbanização só é legível através das redes e sistemas de dispositivos técnicos que suportam o movimento de pessoas, mercadorias, informação, capital, água ou energia. É justamente tudo isto que “Mouzinho: Da Ribeira ao Aeroporto” nos dá a ver, através de um conjunto de documentos fascinantes e de intrigantes imagens de Álvaro Domingues, complementadas por textos onde sobressai a assertividade e o rigor, a par de alguma ironia e muito humor. A não perder!

[Baseado no texto que acompanha a exposição e que pode ser lido em https://www.museudacidadeporto.pt/exhibition/mouzinho-da-ribeira-ao-aeroporto/]

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

EXPOSIÇÃO: "Eileen Gray E.1027"



EXPOSIÇÃO: Eileen Gray E.1027,
de Eileen Gray
Curadoria | Carolina Leite, Wilfried Wang, Peter Adam
Museu Nacional de Arte Contemporânea
28 Nov 2021 > 24 Abr 2022


Depois do Mebane Hall em Austin, no Texas, da Akademie der Künste em Berlim, da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e do Instituto de Arquitetura Basco em San Sebastián, é agora a vez do Museu do Chiado acolher “Eileen Gray. E.1027, Arte Total”, projecto que vai buscar o nome à casa de férias, branca e alongada, que a designer anglo-irlandesa Eileen Gray denominou de E.1027 e que fez construir na encosta rochosa de Côte d‘Azur em Roquebrune Cap Martin. Aos 52 anos, esta foi a sua primeira incursão no mundo da arquitectura, realizada com o apoio do seu então companheiro Jean Badovici, editor da revista de vanguarda L’Architecture Vivante. Para Gray, E.1027 mais do que a oportunidade de aplicar novos conceitos espaciais, seria um manifesto, revisitado nos seus subsequentes projectos, para o qual ela concebeu não só a arquitectura, mas também praticamente todos os objectos e peças de mobiliário.

Com curadoria de Carolina Leite, Wilfried Wang e Peter Adam, “Eileen Gray. E.1027, Arte Total” convida o visitante a conhecer o extenso processo de investigação que resultou nesta exposição e que realça a sua importância. Trata-se de uma exposição que combina diverso material informativo com uma instalação à escala real do quarto principal onde é possível experimentar directamente a síntese de proporções espaciais, materiais, cores e peças de mobília, adquirindo-se assim uma impressão imediata das ideias arquitectónicas desta indevidamente negligenciada pioneira do moderno. Esse é, na verdade, o grande mérito da exposição, o de nos lembrar que tudo isto aconteceu há sensivelmente um século e de nos deixar absolutamente embasbacados com a visão modernista de Eileen Gray, a sua enorme criatividade e capacidade de encontrar soluções harmoniosas e contextualizadas para as dificuldades que, seguramente, encontrou ao longo do processo.

Projectada como um refúgio tranquilo para Gray e o seu amante, a casa tem na privacidade um dos seus principais objetivos. No exterior, janelas bi-dobráveis do chão ao tecto abrem-se para o Mediterrâneo, trazendo luz e acesso visual, mas persianas e duas faixas de tela protegem os interiores da casa, bloqueando a incidência da luz forte do sol da tarde e emoldurando a vista para o mar. No interior, a casa abstém-se de usar uma planta livre. Os seus espaços internos não são revelados imediatamente: Gray foi meticulosamente eficiente em matéria de espaço e os quartos são lugares privados à procura de serem descobertos. os guarda-roupas abrem-se para se tornarem paredes, o sofá da sala transforma-se em cama e uma série de armários e outros móveis sob medida estão embutidos ou intrinsecamente em sintonia com o resto da casa. O exemplo mais proeminente deste engenho é a “mesa E.1027”, projectada para a irmã de Gray para que ela pudesse tomar o pequeno almoço na cama.

Chamaram-lhe a “casa maldita”, o que não andará longe da verdade. A E.1027 sobreviveu à profanação de Le Corbusier, foi alvo de destruição por parte do invasor nazi, por um tempo foi destino de orgias e drogas e esteve perto do abandono. Felizmente, o futuro da casa parece agora mais sorridente: a Cap Moderne, organização sem fins lucrativos empenhada na reabilitação e na abertura do edifício como um destino cultural, lançou recentemente uma campanha de financiamento colectivo para prosseguir com o seu restauro. Os primeiros esforços concentraram-se na recriação dos móveis projetados por Eileen Gray, concentrando-se agora na tentativa de remobilar a sala de jantar da casa, incluindo uma mesa de jantar com luz elétrica embutida e tampo de cortiça projetado para proteger pratos e copos. Curador da Cap Moderne, Tim Benton lembra que “o projeto de interiores modernista é um dos quatro mais importantes do mundo”.