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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: "O Século de Gehry" | Frank Gehry



EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “O Século de Gehry”,
de Frank Gehry
Comissário | António Choupina
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Álvaro Siza
13 Jun > 30 dez 2026


“O Século de Gehry”, exposição comissariada por António Choupina, é mais uma jóia a ocupar a Ala Siza Vieira do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Trata-se de uma exposição que não se limita a percorrer a longa trajectória de um dos arquitectos maiores dos séculos XX e XXI, antes propõe uma reflexão sobre aquilo que a arquitectura ainda pode ser quando se recusa a transformar-se numa simples resposta técnica ou numa imagem consumível. Através de desenhos, maquetas, fotografias, filmes e objectos vários, a exposição devolve-nos um Frank Gehry menos próximo do ícone mediático e mais próximo do investigador inquieto que sempre foi. A sua importância histórica não reside apenas nas formas inesperadas que introduziu na paisagem urbana, mas na maneira como restituiu à arquitectura a capacidade de experimentar. Antes do titânio do Guggenheim de Bilbau ou das superfícies ondulantes do Walt Disney Concert Hall, percebemos uma atenção quase artesanal à matéria, ao fragmento e ao acaso. Gehry dizia interessar-se pela energia dos edifícios ainda em construção, pela sua rudeza e pelo seu carácter imediato. Essa afirmação contém, talvez, a chave de toda a sua obra: a arquitectura não como objecto acabado, mas como processo vivo, no qual a dúvida e a descoberta participam tanto quanto o rigor do projecto.

Desde a sua casa em Santa Mónica até aos grandes edifícios que marcam cidades de vários continentes, o arquitecto construiu uma linguagem singular a partir da tensão entre elementos aparentemente incompatíveis. A madeira, o cartão, o metal, o vidro ou o titânio nunca foram simples materiais de revestimento, mas meios para compreender novas possibilidades espaciais. Embora dialogue intensamente com a escultura, a sua arquitectura não é verdadeiramente escultórica. Uma escultura concentra o espaço à sua volta; Frank Gehry procura antes transformá-lo, alterando a luz, o movimento e a percepção de quem o percorre. O fragmento, nos seus projectos, não significa ruptura, mas a busca de uma nova unidade. No Guggenheim de Bilbau, as superfícies curvas e reflectoras não são um mero exercício formal: fazem do edifício uma presença em permanente mutação, dependendo da hora, da claridade do céu, da sensibilidade e apuro do olhar. No Walt Disney Concert Hall, como o próprio arquitecto explicou, cada elemento conserva a sua individualidade antes de participar numa composição colectiva. A arquitectura torna-se assim uma espécie de música construída, cuja harmonia nasce não da uniformidade, mas da relação entre os elementos que a distinguem.

Uma das ideias mais interessantes reveladas pela exposição é a distância entre a imagem pública de Gehry e a complexidade real do seu pensamento. Frequentemente associado ao fenómeno da “arquitectura-espectáculo”, Gehry foi, paradoxalmente, um arquitecto profundamente atento ao contexto. A afirmação de que era “um contextualista convicto” não pode ser entendida como mera defesa circunstancial, mas como uma convicção permanente: cada edifício nasce de uma relação específica com o lugar, a cultura e a memória que o envolve. É nesse ponto que o diálogo com Álvaro Siza, por exemplo, adquire particular significado. Apesar das diferenças formais evidentes, ambos partilham a recusa de uma arquitectura indiferente às circunstâncias. Se Siza procura revelar a continuidade escondida de um lugar, Gehry procura revelar as suas possibilidades latentes. O projecto não construído para o Parque Mayer, em Lisboa, surge na exposição como testemunho de uma relação afectiva com a cidade e de uma vontade de responder ao seu carácter singular. António Choupina compreende essa dimensão ao organizar uma exposição que não apresenta apenas obras acabadas, mas os caminhos, as hesitações e as colaborações que lhes deram origem.

Também por isso, “O Século de Gehry” ultrapassa a condição de homenagem e adquire uma dimensão crítica mais ampla. A exposição recorda-nos uma época em que a arquitectura ainda era entendida como uma forma de conhecimento, uma maneira de pensar o mundo através do espaço e da matéria. Hoje, quando tantos edifícios parecem submetidos à lógica da imagem imediata, da eficiência absoluta ou da repetição globalizada, a obra de Frank Gehry conserva uma pergunta essencial: poderá a arquitectura continuar a surpreender-nos? A sua resposta nunca foi teórica, mas construída. Está na luz que percorre as fachadas de Bilbau, no movimento aparente das superfícies de Düsseldorf, na delicadeza inesperada de uma estrutura metálica no coração das vinhas ou na capacidade de um edifício de transformar a experiência de uma cidade. Percebemos, então, que o verdadeiro legado de Frank Gehry não está nas formas que criou, mas na liberdade que defendeu: a liberdade de imaginar que, mais do que uma solução, um edifício pode ser uma descoberta. E é essa possibilidade - a de uma arquitectura ainda capaz de pensar, emocionar e interrogar o mundo - que permanece como a grande motivação para revisitar a sua obra.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Beautifully Imperfect” | Alice Neel



EXPOSIÇÃO: “Beautifully Imperfect”,
de Alice Neel
Curadoria | Inês Grosso
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Álvaro Siza
16 Jul 2026 > 31 Jan 2027


Hoje considerada uma das mais importantes artistas do século XX, Alice Neel (1900–1984) construiu uma das obras mais singulares da pintura moderna ao permanecer fiel à figura humana numa época em que a abstracção dominava o panorama artístico norte-americano. Durante mais de seis décadas, transformou o retrato num lugar de observação social, onde a intimidade se cruza permanentemente com a história. A Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial, os movimentos pelos direitos civis, o feminismo ou a libertação gay atravessam a sua pintura não como acontecimentos ilustrados, mas através das vidas de quem os viveu. Familiares, vizinhos, trabalhadores, artistas, activistas, crianças, imigrantes ou figuras públicas recebem exactamente o mesmo olhar atento e desarmante, revelando uma profunda convicção de que todas as pessoas merecem ser vistas. Durante décadas, Neel permaneceu praticamente à margem do reconhecimento institucional, recusando adaptar a sua pintura às modas ou às exigências do mercado. Quando esse reconhecimento finalmente chegou, nos anos 1970, a sua obra impunha-se já como uma das vozes mais livres e originais da arte norte-americana, influência que continua hoje a marcar sucessivas gerações de artistas.

O título "Beautifully Imperfect" sintetiza a visão de uma artista para quem a imperfeição nunca representou um desvio à beleza, mas a sua expressão mais autêntica. Nos retratos de Alice Neel, os rostos raramente obedecem a cânones clássicos, os corpos recusam qualquer idealização e a passagem do tempo permanece visível, sem disfarce nem sentimentalismo. A própria pintura assume essa condição: contornos interrompidos, áreas de tela deixadas em aberto e uma pincelada vibrante tornam evidente o gesto e preservam a intensidade do encontro entre artista e modelo. Não por acaso, Neel definia-se como uma "coleccionadora de almas". O que procurava não era a semelhança física, mas a verdade psicológica de cada pessoa. É essa capacidade de tornar visível a complexidade humana que confere à sua obra uma surpreendente actualidade. Muito antes de conceitos como inclusão, diversidade ou representação ocuparem o centro do debate contemporâneo, Neel soube pintar aqueles que a história da arte tantas vezes ignorou: comunidades negras e porto-riquenhas do Spanish Harlem, artistas queer, mulheres grávidas, corpos envelhecidos, doentes ou simplesmente distantes dos modelos convencionais de beleza.

Distribuída por núcleos temáticos que cruzam diferentes momentos da carreira da artista, a exposição privilegia afinidades e ressonâncias em detrimento de uma leitura cronológica, revelando a extraordinária coerência de uma obra construída sempre em torno das pessoas. O percurso inicia-se com o poderoso auto-retrato realizado em 1980, quando Alice Neel tinha oitenta anos: nua, frontal e desprovida de qualquer idealização, a artista apresenta-se ao visitante com uma honestidade quase desconcertante, transformando a sua própria imagem numa declaração de liberdade. Em redor deste quadro, um conjunto de cartas inéditas escritas por artistas, escritores, músicos e outras figuras contemporâneas prolonga o diálogo iniciado pela correspondência preservada no arquivo familiar, testemunhando a vitalidade do seu legado. Obras, documentos, fotografias, livros da biblioteca pessoal, materiais de arquivo e dispositivos de consulta compõem um retrato expandido da artista e do seu tempo. Mais do que uma retrospectiva, “Beautifully Imperfect” propõe um encontro com uma pintura que continua a desafiar convenções estéticas e sociais, lembrando que toda a grande arte nasce, antes de mais, da capacidade de olhar o outro e de o gravar no seu mais íntimo.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO: "SANAA: Sejima + Nishizawa"



EXPOSIÇÃO: “SANAA: Sejima + Nishizawa”,
de Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
15 Nov 2024 > 27 Abr 2025


A exposição no novo espaço de arquitetura, “SANAA: Sejima + Nishizawa”, assinala o primeiro aniversário da Ala Álvaro Siza. Produzida pela Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, a exposição é comissariada pelo arquiteto António Choupina, com curadoria de Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa. Os projectos de Inujima e Imabari representam faces distintas do atelier de arquitectura japonês SANAA e das práticas independentes dos seus fundadores, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, cuja parceria dos últimos trinta anos se celebra por meio desta exposição. Pensando a arquitetura sempre a partir do contexto, os estudos tipológicos de SANAA são um processo interactivo pelo qual o seu trabalho se relaciona incrementalmente com aqueles que habitarão os projetos. A pesquisa subjacente é a estrutura unificante dos dois casos apresentados que, embora fisicamente próximos, operam em contextos políticos e culturais muito diversos.

O projecto de Inujima constitui um longo compromisso com a paisagem característica do Japão pós-industrial. A ilha albergava mais de quatro mil pessoas no início do século XX, tendo o encerramento das pedreiras locais conduzido a um despovoamento dramático — restam actualmente apenas cerca de trinta habitações unifamiliares. Desde a sua génese em 2008, o projecto tem sido uma colaboração contínua entre Kazuyo Sejima, a curadora Yuko Hasegawa e a Fundação Fukutake. Vendo a ilha como um local de acolhimento, pretende-se que esta permaneça uma entidade viva, aliando actividades artísticas e culturais à vida quotidiana, bem como promovendo um ecossistema comunitário, convivial e sustentável. Esta exposição reúne os contributos de Kazuyo Sejima, de Ryue Nishizawa e de outros que, em conjunto, se dedicam ao estímulo e sustento da paisagem viva e hospitaleira de Inujima.

O projecto de Imabari consiste num edifício de escritórios concebido para a Imabari Shipbuilding Corporation, num estaleiro próximo da ilha de Inujima. A concepção deste ambiente de trabalho aberto permite uma relação mais próxima entre os funcionários do edifício. O interesse por ligações sobrepostas surge gradualmente ao longo de um período de dois anos, expondo-se aqui o seu desenvolvimento morfológico através de vários estudos e interacções. As múltiplas evoluções de Imabari apresentam-se à semelhança de uma paisagem de pequenos pedestais desenhados pelo atelier SANAA, juntamente com peças de mobiliário concebidas por Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa. Com âmbitos radicalmente distintos, estes projectos resultam de uma prática prolongada no tempo, orientada por uma metodologia de aprendizagem e adaptação contínuas que entende a arquitectura como extensão do ambiente por si moldado.

[Escrito a partir do Roteiro da Exposição, o qual pode ser lido em https://cdn.bndlyr.com/nsa343pdfl/_assets/2411_sanaa_roteiro_site.pdf]

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

EXPOSIÇÃO: "Anagramas Improváveis. Obras da Coleção de Serralves"



EXPOSIÇÃO: “Anagramas Improváveis. Obras da Coleção de Serralves”
Vários Artistas
Curadoria | Marta Almeida, Isabel Braga, Inês Grosso, Ricardo Nicolau, Joana Valsassina e Philippe Vergne
Museu de Serralves - Ala Álvaro Siza
24 Fev > 13 Out 2024


“Anagramas Improváveis. Obras da Coleção de Serralves” é a primeira exposição a ser apresentada na recém-inaugurada extensão do Museu, a Ala Álvaro Siza, dedicada a acolher no futuro todas as mostras da coleção, ou dedicadas à arquitetura e aos vários arquivos depositados na Fundação de Serralves. Embora concebido pelo arquiteto que desenhou o Museu de Serralves inaugurado há 25 anos, este novo edifício propõe uma experiência de circulação muito diferente, apostando numa sucessão de galerias de exposição de escala relativamente modesta que libertam o visitante de qualquer percurso pré-definido e contemplam a possibilidade de visionar em simultâneo o conteúdo de diferentes salas. Por seu lado, a equipa curatorial da presente exposição soube explorar as características físicas do edifício, tirando o maior partido da sua fluidez, simultaneidade e vaivéns conceptuais, valores do traço de Siza. O resultado é uma exposição que aposta nas relações inéditas e intrigantes entre obras de artistas de diferentes gerações e nacionalidades, desafiando, também ela, quaisquer percursos ou ideias pré-definidas sobre a Colecção de Serralves.

A partir da figura do anagrama, a exposição contém em si mesma uma grande pluralidade de possibilidades de escrita e de leitura. Ao mesmo tempo, o seu título remete para uma das características principais da arte contemporânea portuguesa – a relação com a linguagem – e para um grupo de artistas (nomeadamente Ana Hatherly e E.M. de Melo e Castro) que tiveram, através da Poesia Experimental, um papel fundamental na eclosão e desenvolvimento da contemporaneidade artística portuguesa. “Anagramas Improváveis” contempla a ancoragem da Colecção de Serralves nestes movimentos artístico-literários dos anos 1960-70 – bem como na mítica exposição portuguesa “Alternativa Zero” (1977) e na exposição-manifesto que inaugurou o Museu de Serralves, “Circa 1968” (1999) –, mas olha para o passado com os olhos do presente, nomeadamente através de diálogos entre obras produzidas em tempos e geografias muito distantes.

Além de uma peça sonora de Luisa Cunha, encomendada especificamente para o novo edifício, a mostra reúne uma série de obras de artistas relativamente jovens (Martine Syms, Zanele Muholi, Arthur Jafa, Alexandre Estrela e Trisha Donnelly, entre outros), algumas adaptadas ao espaço com a cumplicidade dos seus autores, lado a lado com obras de artistas pertencentes a gerações mais antigas, ou considerados históricos, casos de Lourdes Castro, Julião Sarmento, Paula Rego e Ana Jotta, entre muitos outros. O objectivo? Duplo e só aparentemente contraditório: por um lado, avançar novas perspectivas sobre peças consideradas históricas, à luz de temáticas e preocupações patentes nas obras mais recentes; por outro, perceber como o convívio entre obras produzidas em períodos muito distintos pode sobrepor a uma certa “espuma dos dias” preocupações comuns mais estruturais. Se os anagramas dão frequentemente origem a jogos em que se tenta formar o maior número de palavras usando as letras disponíveis, “Anagramas Improváveis” é uma exposição que quer espoletar o maior número de sinapses usando as obras expostas.


quarta-feira, 10 de julho de 2024

LUGARES: Ala Álvaro Siza do Museu de Serralves



LUGARES: Ala Álvaro Siza do Museu de Serralves
Open House Porto 2024
Visita comentada por António Choupina
06 Jul 2024 | sab | 11:30


A nova ala do Museu de Arte Contemporânea de Serralves abriu ao público em Outubro passado, e recebeu o nome Ala Álvaro Siza em homenagem ao arquitecto, embora “Ala Poente” fosse uma designação que colhia mais a sua simpatia. Em Serralves, Álvaro Siza desenhou o Museu de Arte Contemporânea, em 1999; a Casa do Cinema Manoel de Oliveira, em 2019; a Casa dos Jardineiros, em 2021; foi responsável pela recuperação da Casa de Serralves, em 2021; e desenhou a nova ampliação do Museu, em 2023. A nova ala tem três pisos e cerca de 4.200 m2 de construção, o que representa um aumento da área expositiva em 44% e um aumento de 75% da área de arquivo. Esta ampliação é tanto mais oportuna quanto é sabido que o museu colhe cada vez mais o interesse de um publico diversificado e interessado, tendo sido visitado por mais de um milhão e cem mil pessoas no ano passado, ao passo que em 1999, o ano da sua abertura, o número de visitantes se quedara nos oitenta mil.

Organizada através de um percurso desde o jardim até à nova ala, de forma a promover uma leitura da notável integração do edifício no Parque de Serralves, a visita constituiu-se parte integrante da 9ª edição do Open House Porto e foi comentada por uma personalidade muito próxima de Álvaro Siza, o Arquitecto António Choupina. Através da sua perspetiva, a Ala Álvaro Siza do Museu de Serralves revelou-se como uma espécie de passado futuro, com o visitante a investir-se no papel de arqueólogo e a partir em busca de vestígios no tempo, de evidências (i)materiais, de (re)imaginar o evidente. Fundando, de novo, uma qualquer “porta para o inacessível jardim do Éden” na floresta primordial do Parque de Serralves, Choupina teve o mérito de, numa linguagem simples, saber lançar luz sobre essas ligações latentes e subconscientes através dos padrões geométricos e conceitos espaciais de Siza, onde se cruzam, entre outras, noções de Antiguidade, Barroco e Construtivismo.

A Ala Álvaro Siza é um edifício simples na sua aparência, que não se impõe, que não pretende ser um gesto arquitectónico imponente, mas sim uma expressão de crescimento natural, como um novo ramo que cresce a partir de uma árvore. Percorrendo o espaço recém-inaugurado, o visitante começa por observar um trecho do Parque através de uma enorme janela que se abre na ponte de ligação entre o edifício primitivo e a nova ala. O respeito pela natureza é o primeiro grande ensinamento desta verdadeira aula de arquitectura, ficando o visitante a saber que o edifício “se torce ligeiramente”, precisamente para não tocar em nenhuma das árvores. A própria ponte é uma solução que segue nesta linha, evitando-se assim a necessidade de fundações que feririam as raízes de duas árvores centenárias e levariam à sua morte (o custo final da obra foi 20% superior ao previsto devido a medidas de protecção da natureza e paisagem envolvente ao novo edifício).

À medida que se avança ao longo dos vários “módulos”, os pormenores arquitectónicos não cessam de desafiar o visitante, destacando-se como “peças admiráveis” em diálogo com as muitas obras que integram as duas exposições ali patentes: “Anagramas improváveis. Obras da Coleção de Serralves” e “C.A.S.A. - Coleção Álvaro Siza. Arquivo”. A sequência de passagens estreitas que se abrem para salas enormes convoca efeitos de contração e expansão geradores de surpresa e espanto no visitante. A diferença entre pisos de madeira e de pedra definem confluências num jogo de chegadas e partidas. Os espaços que devem permanecer vazios, para que neles se percebam conceitos como o de “simetria invertida”, tão caro a Álvaro Siza. As lógicas do centro presente, do centro ausente, do centro desfasado, tão presentes em todo o projecto. A espacialidade oblíqua que nos obriga a ver tudo em perspectiva. A iluminação que, para além de ser um factor de sustentabilidade, se preocupa com a criação de ilusões de óptica que põem em relevo os elementos geométricos do conjunto.

Desce-se ao piso inferior por uma escada com iguais dimensões à daquela existente no corpo nascente do Museu de Serralves e, contudo, tão “diferente” para quem teve já a possibilidade de percorrer as duas. Estamos, então, no piso térreo da Ala Siza Vieira, no qual está patente ao público a maior concentração global de projetos sizianos e que incluem um amplo espectro de projetos para lá dos muros de Serralves. Estão neste caso as Casas de Cultura, do Conhecimento, de Fé, de Lazer, de Comércio, de Família, do Povo e de Trabalho. Com curadoria de António Choupina e coordenação de Sónia Oliveira, a mostra dá a ver desenhos, maquetes e fotografias de edifícios tão emblemáticos como as Quatro Casas ou o Bairro de S. Vitor, a Cooperativa de Lordelo do Ouro ou a Piscina da Quinta da Conceição, os edifícios da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto ou a Casa Armanda Passos. E há ainda os desenhos com o seu traço inconfundível, pinturas ilustrativas de vários momentos da sua carreira, esculturas minimalistas, objectos particulares e projectos (muitos) que nunca chegaram a ver a luz do dia. Uma visita aberta à descoberta e que importa repetir.