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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Abrir Janelas à Pedrada” | Fernanda Fragateiro



EXPOSIÇÃO: “Abrir Janelas à Pedrada”,
de Fernanda Fragateiro
Curadoria | Inês Grosso e Isabel Braga
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
19 Set 2025 > 2027


Fernanda Fragateiro (Montijo, 1962), uma das mais relevantes personalidades da arte contemporânea portuguesa, construiu ao longo de mais de três décadas uma obra singular onde escultura, instalação e arquitectura se cruzam numa reflexão persistente sobre memória, espaço e política. Partindo de uma linguagem formal depurada, herdeira do minimalismo e da tradição modernista, a artista reutiliza materiais provenientes da construção civil, arquivos e vestígios urbanos para produzir objectos que interrogam os processos de transformação das cidades, as narrativas da História e os mecanismos de exclusão inscritos no território. A sua investigação articula referências à arquitectura do século XX, ao pensamento feminista e ao revisionismo histórico, recuperando frequentemente legados de autoras marginalizadas pelas narrativas dominantes. Com uma carreira amplamente reconhecida em instituições de referência na Europa e nas Américas, Fragateiro afirma-se como uma das vozes mais consistentes da arte contemporânea internacional, desenvolvendo uma prática onde a matéria nunca é neutra, mas portadora de memória, conflito e possibilidade crítica. É neste contexto que surge Abrir janelas à pedrada (2025), obra concebida para a ponte que liga o edifício principal do Museu de Serralves à Ala Álvaro Siza, integrada no ciclo de encomendas inaugurado após a abertura desta nova ligação arquitectónica.

Suspensa ao longo do corredor, a instalação apresenta-se como um muro irregular de blocos de cimento leve que parece desafiar simultaneamente a gravidade e a ordem arquitectónica do espaço. Construída a partir de fragmentos de edifícios demolidos no centro de Lisboa, recolhidos pela artista ao longo de vários anos, a obra transforma restos de gesso, reboco, tijolo e cimento numa poderosa arqueologia do presente. Cada elemento conserva as marcas da sua origem e testemunha os efeitos da gentrificação, da especulação imobiliária e da crescente pressão turística que, nas últimas décadas, redesenharam profundamente a cidade. Mais do que documentar essas transformações, Fragateiro converte-as numa experiência física, onde o visitante é confrontado com uma barreira simultaneamente sólida e permeável. Os blocos parecem prestes a ruir, mas sustentam-se mutuamente, deixando frestas por onde passam a luz, o olhar e o próprio corpo. A artista não procura reconstruir o que desapareceu; organiza antes os fragmentos de uma destruição contínua para revelar aquilo que se perde sempre que um edifício é demolido: não apenas matéria, mas memórias, formas de habitar, relações comunitárias e histórias colectivas apagadas em nome de uma ideia abstracta de progresso.

A presença desta obra na ponte desenhada por Álvaro Siza reforça a tensão entre duas formas de pensar a arquitectura e a cidade. Num espaço marcado pela autoridade do modernismo, Fragateiro introduz matéria precária, desgastada e excluída dos circuitos de valorização patrimonial, confrontando a perfeição da geometria arquitectónica com a fragilidade dos seus resíduos. O título convoca um gesto simultaneamente violento e libertador: abrir uma janela à pedrada significa romper uma superfície fechada para criar uma possibilidade de passagem. A referência às janelas do SESC Pompeia, projecto de Lina Bo Bardi para uma antiga fábrica em São Paulo, aproxima duas autoras que partilham uma atenção comum à ruína, ao inacabado, às práticas vernaculares e à dimensão social da arquitectura. Como em grande parte da produção de Fernanda Fragateiro, a instalação recusa qualquer nostalgia ou reconstrução idealizada do passado. Em vez disso, transforma a ruína num instrumento de pensamento crítico, afirmando que a memória se constrói tanto a partir do que permanece como daquilo que sucessivamente desaparece. As fendas abertas neste muro deixam passar a luz e o olhar, sugerindo que mesmo perante a violência das transformações urbanas continua a existir espaço para imaginar outras formas de habitar, recordar e construir a cidade.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

EXPOSIÇÃO: "Anagramas Improváveis. Obras da Coleção de Serralves"



EXPOSIÇÃO: “Anagramas Improváveis. Obras da Coleção de Serralves”
Vários Artistas
Curadoria | Marta Almeida, Isabel Braga, Inês Grosso, Ricardo Nicolau, Joana Valsassina e Philippe Vergne
Museu de Serralves - Ala Álvaro Siza
24 Fev > 13 Out 2024


“Anagramas Improváveis. Obras da Coleção de Serralves” é a primeira exposição a ser apresentada na recém-inaugurada extensão do Museu, a Ala Álvaro Siza, dedicada a acolher no futuro todas as mostras da coleção, ou dedicadas à arquitetura e aos vários arquivos depositados na Fundação de Serralves. Embora concebido pelo arquiteto que desenhou o Museu de Serralves inaugurado há 25 anos, este novo edifício propõe uma experiência de circulação muito diferente, apostando numa sucessão de galerias de exposição de escala relativamente modesta que libertam o visitante de qualquer percurso pré-definido e contemplam a possibilidade de visionar em simultâneo o conteúdo de diferentes salas. Por seu lado, a equipa curatorial da presente exposição soube explorar as características físicas do edifício, tirando o maior partido da sua fluidez, simultaneidade e vaivéns conceptuais, valores do traço de Siza. O resultado é uma exposição que aposta nas relações inéditas e intrigantes entre obras de artistas de diferentes gerações e nacionalidades, desafiando, também ela, quaisquer percursos ou ideias pré-definidas sobre a Colecção de Serralves.

A partir da figura do anagrama, a exposição contém em si mesma uma grande pluralidade de possibilidades de escrita e de leitura. Ao mesmo tempo, o seu título remete para uma das características principais da arte contemporânea portuguesa – a relação com a linguagem – e para um grupo de artistas (nomeadamente Ana Hatherly e E.M. de Melo e Castro) que tiveram, através da Poesia Experimental, um papel fundamental na eclosão e desenvolvimento da contemporaneidade artística portuguesa. “Anagramas Improváveis” contempla a ancoragem da Colecção de Serralves nestes movimentos artístico-literários dos anos 1960-70 – bem como na mítica exposição portuguesa “Alternativa Zero” (1977) e na exposição-manifesto que inaugurou o Museu de Serralves, “Circa 1968” (1999) –, mas olha para o passado com os olhos do presente, nomeadamente através de diálogos entre obras produzidas em tempos e geografias muito distantes.

Além de uma peça sonora de Luisa Cunha, encomendada especificamente para o novo edifício, a mostra reúne uma série de obras de artistas relativamente jovens (Martine Syms, Zanele Muholi, Arthur Jafa, Alexandre Estrela e Trisha Donnelly, entre outros), algumas adaptadas ao espaço com a cumplicidade dos seus autores, lado a lado com obras de artistas pertencentes a gerações mais antigas, ou considerados históricos, casos de Lourdes Castro, Julião Sarmento, Paula Rego e Ana Jotta, entre muitos outros. O objectivo? Duplo e só aparentemente contraditório: por um lado, avançar novas perspectivas sobre peças consideradas históricas, à luz de temáticas e preocupações patentes nas obras mais recentes; por outro, perceber como o convívio entre obras produzidas em períodos muito distintos pode sobrepor a uma certa “espuma dos dias” preocupações comuns mais estruturais. Se os anagramas dão frequentemente origem a jogos em que se tenta formar o maior número de palavras usando as letras disponíveis, “Anagramas Improváveis” é uma exposição que quer espoletar o maior número de sinapses usando as obras expostas.