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domingo, 13 de setembro de 2026

INSTALAÇÃO: "Sycorax" | Alice Geirinhas



INSTALAÇÃO: “Sycorax”,
de Alice Geirinhas
Curadoria | Lúcia Saldanha, Rui Afonso Santos
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado - Galeria [PeP]
29 Mai > 20 Set 2026


Condenada a existir fora de cena e através de relatos alheios, a bruxa e mãe de Caliban chega ao Museu Nacional de Arte Contemporânea com a força de quem se recusa a ser um eterno ausente. Em “Sycorax”, Alice Geirinhas não se limita a resgatar a personagem de “A Tempestade”, de Shakespeare, fazendo questão de interrogar o próprio acto de a resgatar. Nos doze desenhos de grandes dimensões que compõem a instalação, Sycorax deixa de ser apenas uma figura da imaginação masculina para se tornar corpo, gesto, território e memória. É uma operação coerente com um percurso artístico construído, há décadas, sobre as zonas de conflito entre representação, género, identidade e poder. Mas há aqui algo mais do que uma reescrita feminista de Shakespeare. Há uma pergunta incómoda sobre quem constrói as imagens que herdámos e sobre aquilo que essas imagens fizeram aos corpos que decidiram representar.

A estratégia de Alice Geirinhas é particularmente eficaz porque não procura suavizar a violência desse imaginário, antes a devolve ao espectador com uma crueza quase física. Inspirados nas gravuras e xilogravuras medievais da caça às bruxas, os desenhos recuperam corpos deformados, gestos teatrais, contrastes violentos e uma simbologia carregada de ameaça e punição. Só que, ao deslocar esta iconografia do campo da condenação para o da interrogação, a artista altera profundamente o seu sentido. A imagem que servia para identificar, estigmatizar e controlar, passa a denunciar os mecanismos dessa mesma violência. O resultado é desconfortável - e ainda bem. Em vez de produzir uma ilustração contemporânea de um tema histórico, a artista obriga-nos a reconhecer a persistência de uma gramática visual que continua a determinar como olhamos para o feminino, para a diferença e para aquilo que uma sociedade considera monstruoso.

É nesta tensão entre o passado e o presente que “Sycorax” se afirma em força e significado. A exposição não pretende simplesmente dar voz a quem foi silenciada; mostra-nos como essa voz foi construída como impossível e como o silêncio pode ser uma forma particularmente eficaz de poder. O desenho, no trabalho de Alice Geirinhas, não é uma técnica neutra nem um território de conforto. É campo de disputa, lugar onde imagens antigas podem ser desmontadas e devolvidas com outra carga política. Por isso, a exposição vale menos como homenagem a uma personagem esquecida do que como exercício de vigilância sobre as imagens que ainda nos governam. Com curadoria de Lúcia Saldanha e Rui Afonso Santos, “Sycorax” prolonga uma investigação que a artista vem desenvolvendo entre o desenho, a cultura visual e o pensamento feminista, sem cair na tentação de oferecer respostas tranquilizadoras. Ao trazer Sycorax para o centro, Alice Geirinhas lembra-nos que estar fora de cena nunca significou estar fora da história.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Dos Gestos e das Formas: Um Diálogo entre Coleções”



EXPOSIÇÃO: “Dos Gestos e das Formas: Um Diálogo entre Coleções”
Vários artistas
Curadoria | Adelaide Duarte, Filipa Oliveira, Maria de Aires Silveira, Tiago Beirão Veiga, Ana Kol Rodrigues, Alexandra Markl, Anísio Franco, Inês Silva, Maria do Carmo Rebelo Andrade, Maria João Vilhena Carvalho, Marta Carvalho, Patrícia Melhanas Machado, Rafael Alfenim, Ramiro Gonçalves
Museu Nacional de Arte Contemporânea - Galeria Millennium bcp
18 Jun > 20 Set 2026


“Há uma mulher chorando lágrimas de pedra.
Parecem de pedra, mas ninguém que esteja vivo agora
a viu chorar. E, no entanto, todos a vemos chorar agora.
Daqui a mil anos, ainda será assim. (...)"
Filipa Leal, excerto do poema inédito “Daqui a mil anos, ainda será assim”

“Dos Gestos e das Formas: Um Diálogo entre Coleções” recupera a história comum do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) e do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), instituições que nasceram juntas e se separaram em 1911, na sequência da divisão do antigo Museu Nacional de Bellas Artes. Mais do que reconstituir essa genealogia institucional, a exposição propõe a sua reactivação através de um reencontro entre obras de épocas, linguagens e contextos diversos, seleccionadas em conjunto pelas equipas dos dois museus. O percurso abandona deliberadamente uma organização cronológica para privilegiar aproximações, correspondências e tensões, construindo um território comum a partir de quatro ideias-temas: a carne, o tempo, o engenho e o material/imaterial. O corpo, a passagem, a invenção e a matéria tornam-se, assim, lugares de contacto entre diferentes modos de ver e de pensar a criação. A integração de obras da Colecção Millennium bcp e da recente doação de Alberto Caetano alarga este campo de relações, reforçando continuidades, rupturas e reinvenções. As obras atravessam os séculos, aproximam-se e afastam-se, permitindo que o tempo deixe de funcionar como uma linha recta para se revelar como uma rede de possibilidades.

Em “Carne”, o corpo é convocado como lugar de experiência, desejo, conflito e transformação. Entre o sagrado e o profano, a violência e a sedução, a vulnerabilidade e a transcendência, as obras de Cristóvão do Figueiredo, Victor Bastos, Rodin, Giuseppe Porta, Simões de Almeida Jr., Francisco dos Santos e Jacob Adriaensz Backer revelam diferentes formas de inscrever no corpo a memória da existência e da morte. A modernidade introduz outras interrogações: em Portinari, a figura humana traduz angústia e solidão; em Almada Negreiros, a contorção torna-se linguagem; Jorge Vieira reduz o corpo à sua estrutura essencial; Fernando Fernandes aproxima-o da abstracção; e Patricia Garrido reconfigura a matéria orgânica. Em “Tempo”, a consciência da passagem e da finitude estabelece novas relações entre obras de Columbano, Eduardo Viana, António Carneiro e Jorge Pinheiro. A ampulheta, a “Vanitas”, o envelhecimento e o retrato tornam visível a transformação inevitável da matéria e da vida. Entre a presença e o desaparecimento, estas obras tornam o tempo simultaneamente tema e experiência, convocando o visitante para uma percepção menos linear e mais sensível da história.

Em “Engenho”, a capacidade humana de inventar e construir cruza-se com o desejo de compreender, dominar ou exorcizar aquilo que permanece desconhecido. Objectos, mecanismos, máquinas, jogos, figuras protectoras e criaturas fantásticas revelam uma imaginação situada entre a técnica e o pensamento, entre a razão e a necessidade de dar forma ao que não pode ser explicado. Obras de Patricia Garrido, René Bértholo, Jorge Vieira, Menez, Joaquim Rodrigo e Albuquerque Mendes estabelecem, neste contexto, relações entre invenção, memória e experiência. Em “Material/Imaterial”, a matéria afirma-se simultaneamente como presença, suporte e vestígio. Vidro, fotografia, pintura, cerâmica, barro e colagem tornam-se campos de experimentação para artistas como Fernando Lemos, Hogan, Noronha da Costa, Vieira da Silva, João Jacinto, Dacosta e Pomar, entre outros. A matéria transforma-se, desaparece, deixa marcas e conserva a memória do gesto. A esta dimensão visual juntam-se quatro poemas inéditos de Filipa Leal e uma composição de Clotilde Rosa, originalmente criada para um vídeo da dupla Musa paradisiaca, que aqui encontra uma nova vida. Palavra e música expandem a experiência das obras e introduzem outras formas de ver, sentir e interpretar. Porque, nesta exposição, a arte não pertence apenas ao seu tempo: permanece disponível para todos os tempos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Eu que já fui eu” | Maria José Oliveira



EXPOSIÇÃO: “Eu que já fui eu”,
de Maria José Oliveira
Curadoria | Paula Parente Pinto
Museu Nacional de Arte Contemporânea - Galeria Capelo Norte
15 Mai > 04 Out 2026


Contrariando a ideia de que uma exposição começa nos objectos e acaba neles, Maria José Oliveira inquieta-nos com “Eu que já fui eu”, exposição patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea. Barro, cartão, cera, ferro, borracha, madeira, restos de tecidos, gavetas e outros materiais que o mundo deixou para trás reaparecem como matéria disponível, mas sobretudo como matéria vivida. A artista não os resgata para lhes conferir uma nova dignidade. Interessa-lhe, antes, aquilo que neles persiste depois de cumprida a função, a marca de um uso, de um corpo, de um gesto. É uma arte feita de sobras, mas sem a retórica fácil da reciclagem: o que está em causa é a possibilidade de uma segunda vida que não apague a primeira. Daí a importância da memória, não como arquivo de acontecimentos, mas como matéria sensível, feita de cheiros, tactos, hábitos e relações. Um copo de tintas, um casaco do pai, um frasco de terebentina ou os objectos que se acumulam em “A coluna vertebral ou o princípio do mundo” carregam consigo uma biografia que a artista não procura explicar. Limita-se, com uma espécie de atenção obstinada, a fazê-la reaparecer.

Há algo que contraria o espectacular no trabalho de Maria José Oliveira. Os seus objectos parecem acontecer devagar, como se recusassem a velocidade com que hoje se produz, consome e substitui quase tudo. Mais do que um tema, o tempo é, aqui, um dos materiais da obra. A artista deixa que os acidentes, a decomposição e até a ruína participem no processo, aceitando que uma coisa possa atingir a sua completude precisamente quando começa a desaparecer. O episódio do livro oferecido pelo pai, que aguardou pacientemente a acção dos bibliófagos, é revelador dessa ética: em vez de combater a passagem do tempo, a artista observa-a e incorpora-a. Esta disponibilidade para o acaso aproxima a sua prática da bricolage, mas também de uma arqueologia íntima. Recolher, guardar, aproximar, transformar: os gestos são elementares, quase domésticos, e contudo produzem uma linguagem que escapa às categorias convencionais da arte. Não é desenho, nem escultura, nem instalação em sentido estrito. Ou é tudo isso ao mesmo tempo, sem que a classificação seja verdadeiramente importante. O que importa é a passagem entre as coisas. Entre o objecto e a lembrança, a matéria e o pensamento, aquilo que foi e que pode ainda vir a ser.

O título da exposição - “Eu que já fui eu” - introduz, porém, uma perturbação decisiva: quem é esse “eu” que já foi? A pergunta impede que a exposição seja lida apenas como inventário afectivo ou celebração artesanal de materiais pobres. Há nestas obras uma interrogação sobre a identidade como coisa instável, feita de empréstimos, restos, dádivas e transformações. Maria José Oliveira trabalha com aquilo que recebeu - objectos, técnicas, memórias familiares, saberes arcaicos - mas receber, no seu universo, nunca é conservar intacto. É alterar a forma de transmissão. A experiência com Mestre Albino e a cerâmica arcaica de Ribolhos, tal como os objectos herdados dos pais, não constitui uma genealogia destinada a legitimar a artista. É, antes, um conjunto de ferramentas para continuar a perguntar. Num presente obcecado pela novidade, Maria José Oliveira propõe o contrário: olhar outra vez, usar de novo, escutar aquilo que parecia mudo. “O que pensas disto?”, pergunta a artista. A melhor resposta talvez seja aceitar o desconforto de não saber exactamente o que estamos a ver - e perceber que esse não-saber é, afinal, uma forma de começar a ver.

domingo, 23 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Ultratremor” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Ultratremor”,
de Mira Schendel, Ana Hatherly, Julia Gallo, Mumtazz, Josi, Adriano Amaral, Bruno Cidra, Joana Escoval, Lucas Milano, Caio Carpinelli, Letícia Ramos, Henrique Pavão, Iara Izidoro, João Pimenta Gomes, Vera Mota, Paulo Nazareth
Curadoria | Germano Dushá
Museu Nacional de Arte Contemporânea
29 Mai > 27 Set 2026


“Ultratremor”, exposição com curadoria de Germano Dushá, reúne na Ala Capelo Sul do Museu Nacional de Arte Contemporânea dezasseis artistas portugueses e brasileiros num diálogo que atravessa matéria e espírito, corpo e imagem, visível e invisível. Mais do que aproximar práticas por afinidades formais ou temáticas, a curadoria procurou estabelecer entre elas uma espécie de frequência comum: a tentativa de tornar sensível aquilo que escapa à percepção imediata. O “tremor” do título é, por isso, mais do que uma vibração física. É o estremecimento que precede uma aparição, o estado de instabilidade em que uma forma ainda não se fixou ou já começou a desaparecer. Desenho, pintura, escultura, fotografia, instalação, som e performance constroem um percurso de fantasmagorias, metamorfoses e estados de transição, no qual a obra deixa de ser apenas objecto para se tornar acontecimento. Entre cosmologias, rituais, memória e experiências sensoriais, a exposição sugere que há imagens que não representam simplesmente o mundo: funcionam como passagens para aquilo que, permanecendo oculto, continua a agir sobre ele.

O percurso começa por gestos onde a linha parece nascer de uma pulsão quase orgânica. Nas monotipias de Mira Schendel, figura maior da arte brasileira do século XX, o traço no papel de arroz oscila entre inscrição e desaparecimento; em Ana Hatherly, nome central da poesia experimental e da arte portuguesa contemporânea, escrita e desenho confundem-se até a linguagem se tornar matéria visual. Julia Gallo leva essa tensão para uma dimensão quase eruptiva, construindo anatomias onde o corpo parece dar forma a estados de espírito, enquanto Mumtazz transforma o desenho em território de diagramas, figuras oníricas e energias psíquicas. Em Josi, a ligação é mais directamente cosmológica: água de rio, feijão preto, jenipapo e terra transportam para a pintura saberes e forças ligados ao território. Adriano Amaral faz da matéria um lugar de transmutação, misturando resíduos orgânicos e elementos industriais. Bruno Cidra prolonga essa instabilidade no encontro entre papel e metal. Joana Escoval, pelo contrário, trabalha quase no limite da invisibilidade, com fios de ouro e latão que só se revelam plenamente através da luz e do movimento do espectador. São diferentes modos de fazer aparecer o que normalmente permanece fora do campo da visão.

Essa investigação prolonga-se nas pinturas de Lucas Milano e Caio Carpinelli, onde a imagem se aproxima de uma experiência atmosférica e abissal, e nas fotografias de Leticia Ramos, que exploram a instabilidade do olhar e a fronteira entre real e imaginário. Henrique Pavão radicaliza a própria ideia de imagem ao transformar em prata a matéria extraída de quilómetros de película cinematográfica, convertendo um vestígio luminoso em objecto físico. Iara Izidoro leva a questão ao corpo, enquanto as instalações sonoras de João Pimenta Gomes fazem do espaço uma caixa de ressonância e Vera Mota coloca a matéria em estado de suspensão. Por fim, Paulo Nazareth confronta a memória colonial através de fotografias de arquivos etnográficos, desfocadas e intervencionadas com círculos de “efun”, gesto ritual que desloca aquelas imagens do registo classificatório para o território da memória, da violência e da reparação. O próprio espaço expositivo participa nesta experiência: o corredor e as salas laterais impõem um avanço quase processional, feito de revelações sucessivas. Em “Ultratremor”, importa menos aquilo que a obra mostra do que aquilo que consegue fazer sentir: a presença de uma força que antecede a forma e persiste depois dela.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

INSTALAÇÃO: “Ascensão do Mont Ventoux” | Manuel Valente Alves



INSTALAÇÃO: “Ascensão do Mont Ventoux”, 
de Manuel Valente Alves
Curadoria | Lúcia Saldanha
Museu Nacional de Arte Contemporânea - Galeria [PeP]
25 Out 2025 > 16 Fev 2026


Na instalação “Ascensão do Mont Ventoux”, Manuel Valente Alves convoca a carta homónima de Petrarca, dispondo-a não como ilustração erudita, mas como dispositivo de fricção entre tempos, práticas e regimes de olhar. A subida descrita em 1336 — física, espiritual, moral — é aqui reinscrita como gesto artístico prolongado, construído ao longo de mais de três décadas de imagens, desenhos e pinturas. Subir deixa de ser apenas vencer a altitude, voltando-se para a importância de insistir no processo: caminhar, parar, observar, regressar, transformar. Contra a lógica de consumo acelerado das imagens contemporâneas, Manuel Valente Alves propõe uma ética da demora, onde o corpo que sobe é também o corpo que resiste à “coisificação” da experiência. A montanha, mais do que paisagem, funciona como operador simbólico: lugar de fricção entre topografia e autobiografia, entre o mundo exterior e a sua inscrição interior. Tal como em Petrarca, a natureza é espelho e obstáculo, mas aqui a epifania não é religiosa, antes crítica, sensorial, construída no atrito entre documentação e invenção.

O núcleo da instalação assenta numa tensão produtiva entre meios: a fotografia como registo do real e do caminhar, o desenho e a pintura como campos de deriva, memória e reinvenção. Esta passagem entre linguagens não é hierárquica, mas processual, revelando uma percepção que se constrói no tempo e se transforma com ele. Se em Petrarca a paisagem conduz à introspecção moral, em Manuel Valente Alves ela torna-se laboratório da percepção: o que vemos, o que lembramos, o que imaginamos. O Mont Ventoux deixa de ser apenas um lugar específico para se afirmar como paisagem mental, atravessada por dúvidas, repetições e deslocamentos. A instalação expõe assim um conflito central da modernidade visual: entre o olhar objectivo e a experiência subjectiva, entre o desejo de fixar e a inevitabilidade da transformação. O gesto artístico surge como percurso de conhecimento e de persistência, onde subir é também aceitar a incompletude e a falha como parte constitutiva do processo criativo.

Esta lógica do percurso e do (des)caminho encontra eco directo em “A Invenção das Nuvens”, a última mostra que vi do artista, no âmbito da Bienal de Fotografia Lamego e Vale do Varosa. Tal como as nuvens, também o Mont Ventoux de Manuel Valente Alves é uma forma em mutação, atravessada por estados sucessivos de visibilidade e ocultação. Em ambas as apresentações, o artista recusa a paisagem como cenário ou objecto estético passivo, trabalhando-a como campo de pensamento onde natureza e cultura, ciência e poesia, corpo e tecnologia se confrontam. Médico de formação e pensador interdisciplinar, Manuel Valente Alves constrói uma obra que observa o mundo com rigor analítico, mas o devolve sob a forma de inquietação sensível. Seja na verticalidade da montanha ou na deriva das nuvens, o que está em causa é sempre a mesma pergunta: como habitar o mundo sem o reduzir, como olhar sem esgotar. No fim, talvez não seja a montanha que se ascende, nem a nuvem que se inventa, mas o próprio olhar que, inapelavelmente, se desloca.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lisboa Düsseldorf Faces” | Ralf Schilberg, Rui Soares Esteves



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lisboa Düsseldorf Faces”,
de Ralf Schilberg e Rui Soares Esteves
Curadoria | Lúcia Saldanha
Museu Nacional de Arte Contemporânea
12 Jul > 05 Out 2025


Pode o contacto diário com a diversidade cultural ou a arquitetura moderna fazer com que as pessoas estejam mais expostas a tendências? Hábitos e gostos ligados à funcionalidade, à natureza ou à tradição podem ter expressão na forma como as pessoas se apresentam? As grandes cidades tendem a impor um ritmo de vida mais acelerado, o que pode contribuir para uma maior ansiedade e impaciência, mas também para o desenvolvimento de resiliência e eficácia nos seus habitantes. Aquelas com bons transportes públicos ou ciclovias são um incentivo a um estilo de vida mais saudável, ao passo que cidades cosmopolitas tendem a fomentar a tolerância, a diversidade e um pensamento mais aberto. Cidades pequenas ou mais isoladas incentivam laços comunitários mais fortes, mas também um pensamento mais conservador ou tradicional. É com base nalgumas destas premissas, mas também na ideia de que a essência da vida não está no indivíduo per se, antes no indivíduo como um “lugar dos outros”, que “Lisboa Düsseldorf Faces” se posiciona, propondo ao visitante o desafio de encontrar a cidade por detrás da pessoa retratada.

Entre 12 de Julho e 05 de Outubro de 2025, a Iniciativa Lisboa Düsseldorf, centrada na cultura e na relação entre duas cidades – através do conhecimento, do trabalho entre cidadãos, empresas e instituições –, apresenta-se na Galeria do Museu Nacional de Arte Contemporânea e, posteriormente, no Stadtmuseum de Düsseldorf, “Lisboa Düsseldorf Faces”. Exposição de fotografia a preto e branco, nela dois fotógrafos de diferentes percursos, Ralf Schilberg, retratista alemão, e Rui Soares Esteves, fotógrafo de moda português, captam, estética e livremente, a substância das suas próprias cidades, respetivamente, Düsseldorf e Lisboa. Entre rostos e ruas, propõem uma leitura visual das duas cidades. No papel de observadores que produzem imagens, fazem, separadamente, uma abordagem e um reconhecimento dos territórios, suscitando a curiosidade, as interrogações e o pensamento sobre pessoas e lugares. Lugares que, citando Cláudio Magris, “significam sobretudo pessoas, mais ou menos familiares ou quase desconhecidas, mas ainda assim testemunhas, embora parciais, da nossa existência”.

Num diálogo de natureza plural, Ralf Schilberg e Rui Soares Esteves criam duas manchas expositivas complementares – “Lisboa Faces” e “Düsseldorf Faces”, baseando-as em identidades e alteridades, profissões e comunidades. O exercício de contrastar duas realidades específicas permite perceber que a cidade não determina, mas influencia fortemente quem somos e como nos apresentamos. Ela molda-nos subtilmente nos hábitos, gostos, valores e até na estética. Embora generalizações possam simplificar realidades complexas, é possível observar tendências distintas: Um lisboeta pode vestir calças de linho, camisa solta, óculos de sol e sandálias, num visual confortável e de inspiração mediterrânica. Já um habitante de Düsseldorf pode preferir jeans escuros, blazer e ténis de marca, sem exageros, mas com atenção aos detalhes. Lisboa parece moldar pessoas mais descontraídas, com uma estética que mistura tradição, sol e improviso criativo. Düsseldorf molda cidadãos mais orientados para a eficiência, com uma aparência cuidada, mas sóbria. Ambas são cidades vibrantes, mas criam culturas urbanas e visuais distintas, e isso influenciará directamente o modo de vestir, de se comportar e até de pensar.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

EXPOSIÇÃO: “Impressões Digitais. Coleção MNAC”



EXPOSIÇÃO: “Impressões Digitais. Coleção MNAC”
Curadoria | Ana Guimarães, Emília Ferreira, Maria de Aires Silveira e Tiago Beirão Veiga
Museu Nacional de Arte Contemporânea
Exposição de longa duração (inauguração em 12.dez.2024)


Depois de sete exposições temporárias, entre 2018 e 2023, em que o Museu Nacional de Arte Contemporânea apresentou vários núcleos da sua colecção, privilegiando obras que nunca haviam sido expostas, a nova exposição de longa duração reúne autores conhecidos de todos e novas entradas na colecção, de artistas contemporâneos. Com curadoria de Ana Guimarães, Emília Ferreira, Maria de Aires Silveira e Tiago Beirão Veiga, esta exposição integra obras fundadoras da historiografia da arte portuguesa contemporânea, de 1850 à atualidade, entre as quais vários tesouros nacionais. Do retrato à paisagem, passando pela abstração e por várias outras linhas de experimentação artística, a colecção do MNAC tem vindo a crescer de forma exponencial nas últimas três décadas, na sua grande maioria graças aos criadores nacionais, com uma expressão crescente de artistas mulheres, o que constitui “um legado ímpar, histórico e emotivo, de algum modo tão identitário como as nossas impressões digitais”, conforme afirma Emília Ferreira, Diretora do Museu Nacional de Arte Contemporânea.

O percurso por estes 170 anos de história, patente no edifício Wilmotte, coloca em diálogo pintura, desenho, fotografia, gravura, escultura, instalação e vídeo. A maqueta do “Monumento ao prisioneiro político desconhecido”, de Jorge Vieira, abre-nos a porta de uma viagem por quase dois séculos da nossa melhor pintura e escultura. A peça constitui uma síntese linear possibilitada pelo bronze, solicitando uma participação dos espaços vazios que são sobrepostos e encadeados. É desde os pés cravados no chão, definindo também eles um espaço vazio emergente, que se projecta uma continuidade espacial ascendente travada pelo encadeamento que os filamentos de bronze impõem com uma certa tensão. A sugestão de um movimento ascendente, que é assim reprimido, encontra no título uma relação directa com o mundo. Está dado o mote para a exposição de longa duração, cujas obras se mostram além do seu significado artístico, abrindo-se nas suas dimensões políticas, sociais, culturais e pessoais.

Ao avançarem com esta “remodelação”, os curadores tiveram a sensibilidade de não a transformar numa simples troca das obras que fazem parte do espólio do Museu, fazendo com que o público não ficasse privado do contacto com os seus quadros favoritos e com os quais se relacionam de uma forma quase afectiva. Numa leitura muito pessoal, foi muito bom poder rever “Vendedeiras”, de Querubim Lapa, “Retrato de Manuel Mendes”, de Sarah Afonso, “A Sesta”, de José Malhoa, “O Grupo do Leão”, de Columbano Bordalo Pinheiro, “Éguas de Manada”, de Dordio Gomes, “Pousada de Ciganos”, de Eduardo Viana, “Jogo de Damas”, de Abel Manta, “Gadanheiro”, de Júlio Pomar, “O Poeta e o Anjo”, de Mário Eloy e a belíssima “Viúva da Nazaré”, fotografia de Varela Pècurto. “A Blusa Azul”, de Adriano Sousa Lopes, “Episódio com um Cão”, de António Dacosta, “Pequena Fiandeira Napolita”, de Silva Porto, “Lisboa e o Tejo; Domingo”, de Carlos Botelho e “Cabeça” de Guilherme Santa-Rita são gratas surpresas.

sábado, 9 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Cuspindo a Barlovento"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Cuspindo a Barlovento”,
de Manuel Sendón
Imago Lisboa Photo Festival
Museu Nacional de Arte Contemporânea
26 Set 2024 > 05 Jan 2025


Acontecimento marcante no panorama da fotografia nacional e internacional, o Imago Lisboa Photo Festival dedica esta sua sexta edição às várias narrativas artísticas em torno do aquecimento global. Este fenómeno climático, que tem como consequência um aumento gradual da temperatura média da Terra ao longo do tempo, é causado principalmente pela intensificação do efeito estufa, um processo natural que retém parte do calor solar na atmosfera para sustentar a vida no planeta. Porém, as atividades humanas intensivas, principalmente a queima de combustíveis fósseis (como carvão, petróleo e gás natural) e a desflorestação de grandes áreas, têm aumentado significativamente a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, agravando o aquecimento global. Adoptando o lema “Action for a Green Future”, o Festival pretende ser fonte de reflexão e debate na luta contra o aquecimento global, exigindo uma rápida mudança nos hábitos quotidianos, da redução do consumo de energia à opção por alimentos de origem sustentável, da minimização do desperdício à promoção de estilos de vida mais sustentáveis.

“Cuspindo a Barlovento”, do fotógrafo galego Manuel Sendón, recupera um dos maiores desastres ecológicos na história da Europa, com trágicas consequências ambientais para o litoral da Península Ibérica e para França. A 13 de novembro de 2002, o Prestige estava a caminho de Gibraltar depois de ter zarpado do porto de Ventspils, na Letónia, e foi apanhado por uma tempestade ao largo da Galiza, o que lhe provocou danos irreversíveis entre os quais um rombo de 50 metros no casco. Seis dias depois de encalhar, a embarcação partiu-se em dois e acabou por se afundar a 28 milhas do Cabo de Finisterra. Mais de 63 mil toneladas de petróleo foram derramadas e cerca de três mil quilómetros das costas espanhola, portuguesa e francesa ficaram poluídas. As imagens de Sendón mostram, de forma pungente, os efeitos da catástrofe. As palavras deixadas a propósito do acidente não deixam margem para dúvidas quanto à forma como as autoridades espanholas lidaram com o assunto: “O resultado era previsível, dado que os cientistas tinham estudado as correntes de Nadal que determinavam o regresso do fuelóleo à costa, mas o desprezo por este país fez com que os responsáveis nem sequer pedissem a opinião dos cientistas e se limitassem a cuspir a barlovento.”

Uma a uma, as paisagens apocalípticas, maioritariamente em formato 1:1, prendem a nossa atenção: postes destruídos, árvores negras, pássaros e caranguejos em agonia cobertos de alcatrão, rochas, areia, passeios, jardins, parques infantis negros. Tudo negro. O trabalho fotodocumental dá igualmente nota da onda de solidariedade gerada pela tragédia, com mais de 300 mil voluntários de toda a Europa a participarem nas operações de limpeza das praias, zonas rochosas atingidas e resgate dos animais afectados pela maré negra. Um trabalho desesperado, em que, como Sísifo, eram obrigados a limpar de novo as praias e enseadas que tinham deixado limpas na maré anterior. A gestão política da catástrofe ambiental por parte do Governo espanhol, liderado por José Maria Aznar, provocou uma onda de protesto em todo o país, com mais de 200 mil pessoas a manifestarem-se sob o lema “nunca mais”. Movimento sem paralelo na história de um povo habitualmente representado como submisso e conservador, o “Nunca Máis” converteu-se, mesmo fora da Galiza, em sinónimo de rebelião cívica contra a injustiça. “Viva o espírito do Nunca Máis.”

sábado, 3 de dezembro de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Echoes of Nature" | Manuela Marques


[Clicar na imagem para ver mais fotos]


EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Echoes of Nature”,
de Manuela Marques
Curadoria | Emília Tavares
Museu Nacional de Arte Contemporânea
21 Out 2022 > 29 Jan 2023


Entre as várias exposições patentes no Museu Nacional de Arte Contemporânea, vamos encontrar este “Echoes of Nature”, “conjunto de trabalhos fotográficos e videográficos com assinatura de Manuela Marques. A mostra pauta-se pela observação e pensamento sobre a paisagem e o meio natural nas suas mais variadas facetas, colocando em diálogo discursos científicos, percepcionais e estéticos. É a partir de territórios continentais, França e Portugal, e insulares, arquipélago dos Açores, que a fotógrafa tem construído um corpo de imagens que elaboram uma abordagem arqueológica sobre a natureza da imagem fotográfica e uma deambulação fenomenológica sobre o conceito artístico da paisagem. Possuindo uma técnica e um rigor estético notáveis, Manuela Marques aborda a matéria experimental da fotografia em muitas das suas dualidades. Entre uma realidade pulsante e um idealismo verista, uma concepção cartesiana do mundo e um último olhar sublime, transcendental e romântico, e ainda entre a mimesis artística do lugar e a imitação da natureza pela arte.

A observação física da natureza e dos seus fenómenos é registada numa perspetiva de diálogo entre os processos operativos naturais e a constituição da imagem fotográfica. A dimensão telúrica da natureza é um eixo fulcral de muitos destes trabalhos, realizados no vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial, Açores, como por exemplo a série “Topographies”. Algumas destas imagens evocam os “mistérios”,  formações lávicas que marcaram a terra e o espírito dos seus habitantes; e a sua observação implica um “stupor”, um silêncio imposto pela transcendência da visão, pela sua incomensurabilidade, ao qual se associa outro conceito partilhado com a imagem fotográfica, o de “Revelação”.No vasto conjunto de imagens expostas, existe uma permuta perceptiva e ontológica entre fenómenos naturais e fotográficos, como o sugerem os títulos: “Reflexão”, “Réplica”, “Superfície sensível” ou “Extração”. Desta forma, a matéria da vida torna-se, também ela, um inesperado campo de mediação entre a realidade e a sua própria representação, desafiando o território do fotográfico.”

[Retirado do texto de Emília Tavares que acompanha a exposição]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

EXPOSIÇÃO: “Maria Eugénia & Francisco Garcia - Uma Coleção”



EXPOSIÇÃO: “Maria Eugénia & Francisco Garcia - Uma Coleção”
Vários artistas
Curadoria | Maria de Aires Silveira, Cristina Azevedo Tavares, Raquel Henriques da Silva
Museu Nacional de Arte Contemporânea
18 Nov 2021 > 13 Dez 2022


“Francisco Garcia escolhia antes e aconselhava-se depois, como os coleccionadores devem fazer para aprender a sê-lo.”
José-Augusto França, 2016

Maria Eugénia e Francisco Garcia constituíram, nas décadas de 1960 e 1970, uma coleção de arte que manifesta as transformações de gosto artístico de uma burguesia cosmopolita, cada vez mais desligada das coações do Estado Novo, embora sofresse as suas permanentes consequências. Apesar dos constrangimentos da guerra colonial, pressentia-se que o regime se esboroava e a cultura estava na primeira linha da contestação. Era raro, na Lisboa de então, que o gosto pela pintura incidisse sobre artistas contemporâneos, trabalhando entre a abstração e a nova figuração, esteticamente atualizados e motivados por um mercado em inédita animação. Amigos de quase todos os artistas expostos, Maria Eugénia e Francisco Garcia eram também amigos e admiradores de José-Augusto França e procuravam os seus conselhos. Por isso, quando se começou a pensar expor a Colecção, ele escreveu para o catálogo o seu último texto, na casa de Jarzé, quando estava à beira de completar 94 anos. Neste território de amizades, destaca-se o convívio permanente com Fernando Lemos, o artista com mais obras na Colecção, Fernando Azevedo e Marcelino Vespeira, os expositores de 1952 na Casa Jalco, na Rua do Carmo, onde a aventura terá começado.

As várias expressões do abstracionismo divulgaram-se e foram conquistando o gosto dos públicos desde o final da década de 1950. Para muitos artistas, essa procura da expressão pictórica em si mesma mantém ligações expressivas com o mundo das coisas. É o caso das manchas encaixadas de René Bertholo ou da sobreposição divertida de quadros dentro dos quadros, proposta por Palolo, que lembram a dinâmica visual de um atelier. Também a acumulação de formas/coisas de José Escada tanto sugere um inventado alfabeto visual, como excessos da nascente sociedade de consumo. Outros pintores afastam-se deliberadamente das narrativas. Ou seja, as obras não contam histórias, mas perscrutam os dispositivos da visualidade, usando recursos científicos: Nadir Afonso, através da matemática, Vasarely ou Eduardo Nery pela recriação de fundamentos e recursos da óptica. Noutros casos, a geometria adquire uma espécie de vida auto-suficiente. Assim acontece com Victor Fortes ou Artur Rosa em que a pureza dos recursos abstratos propõe uma espécie de matriz dos objetos mais comuns.

A paisagem é um tema maior da pintura. Por vezes, os seus valores são essencialmente contemplativos: olhamos como se a pintura fosse uma janela invisível sobre o exterior, como pretendiam os renascentistas. Assim acontece com Carlos Botelho e Alice Jorge, no primeiro, num enfoque sobre os interiores da cidade, na segunda, numa vista à distância em que a paisagem encaixa no mundo. No caso de João Hogan, propõem-se agrestes caminhos, corpos densos abertos à contemplação em que a paisagem é mais conceito do que lugar preciso. Pelo contrário, Rui Filipe regista uma praia concreta que é, ao mesmo tempo, um lugar metafísico: a realidade dilui-se em infinita nostalgia. Há depois os pintores em que a ideia de paisagem surge sem intencionalidade: as manchas/cores entrosadas de João Vieira são uma caminhada de gente ou um lugar casual em que a terra e o céu se chocam? Os golfões de cor de Menez são um mar ou uma tempestade ou apenas a experimentação auto-reflexiva dos recursos da pintura? Absolutamente peculiares são as caminhadas-percursos de Joaquim Rodrigo que regressam à narrativa, mas fora dos códigos tradicionais: são histórias crípticas, primitivas (as pinturas das casas da Lunda); reactualizando o desenho infantil ou ingénuo, Rodrigo elaborou uma nova figuração que se manifesta em obras de excepcional qualidade, verdadeiros tesouros desta Colecção.

Uma coleção, construída em círculo de amigos e sem nenhuma intenção de estabelecer linhas direcionais ou canónicas, permite uma grande variedade de sugestões e curiosidades. A belíssima natureza morta de António Soares e os dois guaches de Almada Negreiros propõem um recuo ao Modernismo da primeira metade do século XX. Logo depois, somos envolvidos pelas experiências do tempo presente: por exemplo, com os ecrãs de Noronha da Costa que velam os motivos, assim estimulando a vontade de ver mais; ou, de modo muito diferente, o Retrato de Lourdes Castro, recortado como sombra em placa de plexiglas. Pode avançar-se para as marcações do surrealismo de Cruzeiro Seixas e para a fuga ao mesmo movimento por parte de Vespeira. Também Júlio Pomar, que nunca quis ser um pintor abstrato, acumula os motivos em conjuntos expressivos, quase feéricos, que obrigam o visitante a perscrutar as narrativas através da picturalidade. Há, finalmente, algumas particularidades que são sempre o cerne de uma Colecção: os objetos cerâmicos do amigo António Pedro, retirado em Moledo. Ou um pequeno retrato ou representação de figura imaginada de António Quadros, o artista do Porto tão raro nas coleções lisboetas. Vale a pena deambular porque há outras peças interessantes para ver: um jardim de Hilário Teixeira Lopes, o sensível e enigmático guache de José Júlio ou a força cromática da “Collage”, de Edgard Pillet, que havia exposto na Galeria de Março no seu curto e brilhante período de existência.

[Compilado a partir dos textos de Raquel Henriques da Silva que acompanham a exposição]

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

EXPOSIÇÃO: "Eileen Gray E.1027"



EXPOSIÇÃO: Eileen Gray E.1027,
de Eileen Gray
Curadoria | Carolina Leite, Wilfried Wang, Peter Adam
Museu Nacional de Arte Contemporânea
28 Nov 2021 > 24 Abr 2022


Depois do Mebane Hall em Austin, no Texas, da Akademie der Künste em Berlim, da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e do Instituto de Arquitetura Basco em San Sebastián, é agora a vez do Museu do Chiado acolher “Eileen Gray. E.1027, Arte Total”, projecto que vai buscar o nome à casa de férias, branca e alongada, que a designer anglo-irlandesa Eileen Gray denominou de E.1027 e que fez construir na encosta rochosa de Côte d‘Azur em Roquebrune Cap Martin. Aos 52 anos, esta foi a sua primeira incursão no mundo da arquitectura, realizada com o apoio do seu então companheiro Jean Badovici, editor da revista de vanguarda L’Architecture Vivante. Para Gray, E.1027 mais do que a oportunidade de aplicar novos conceitos espaciais, seria um manifesto, revisitado nos seus subsequentes projectos, para o qual ela concebeu não só a arquitectura, mas também praticamente todos os objectos e peças de mobiliário.

Com curadoria de Carolina Leite, Wilfried Wang e Peter Adam, “Eileen Gray. E.1027, Arte Total” convida o visitante a conhecer o extenso processo de investigação que resultou nesta exposição e que realça a sua importância. Trata-se de uma exposição que combina diverso material informativo com uma instalação à escala real do quarto principal onde é possível experimentar directamente a síntese de proporções espaciais, materiais, cores e peças de mobília, adquirindo-se assim uma impressão imediata das ideias arquitectónicas desta indevidamente negligenciada pioneira do moderno. Esse é, na verdade, o grande mérito da exposição, o de nos lembrar que tudo isto aconteceu há sensivelmente um século e de nos deixar absolutamente embasbacados com a visão modernista de Eileen Gray, a sua enorme criatividade e capacidade de encontrar soluções harmoniosas e contextualizadas para as dificuldades que, seguramente, encontrou ao longo do processo.

Projectada como um refúgio tranquilo para Gray e o seu amante, a casa tem na privacidade um dos seus principais objetivos. No exterior, janelas bi-dobráveis do chão ao tecto abrem-se para o Mediterrâneo, trazendo luz e acesso visual, mas persianas e duas faixas de tela protegem os interiores da casa, bloqueando a incidência da luz forte do sol da tarde e emoldurando a vista para o mar. No interior, a casa abstém-se de usar uma planta livre. Os seus espaços internos não são revelados imediatamente: Gray foi meticulosamente eficiente em matéria de espaço e os quartos são lugares privados à procura de serem descobertos. os guarda-roupas abrem-se para se tornarem paredes, o sofá da sala transforma-se em cama e uma série de armários e outros móveis sob medida estão embutidos ou intrinsecamente em sintonia com o resto da casa. O exemplo mais proeminente deste engenho é a “mesa E.1027”, projectada para a irmã de Gray para que ela pudesse tomar o pequeno almoço na cama.

Chamaram-lhe a “casa maldita”, o que não andará longe da verdade. A E.1027 sobreviveu à profanação de Le Corbusier, foi alvo de destruição por parte do invasor nazi, por um tempo foi destino de orgias e drogas e esteve perto do abandono. Felizmente, o futuro da casa parece agora mais sorridente: a Cap Moderne, organização sem fins lucrativos empenhada na reabilitação e na abertura do edifício como um destino cultural, lançou recentemente uma campanha de financiamento colectivo para prosseguir com o seu restauro. Os primeiros esforços concentraram-se na recriação dos móveis projetados por Eileen Gray, concentrando-se agora na tentativa de remobilar a sala de jantar da casa, incluindo uma mesa de jantar com luz elétrica embutida e tampo de cortiça projetado para proteger pratos e copos. Curador da Cap Moderne, Tim Benton lembra que “o projeto de interiores modernista é um dos quatro mais importantes do mundo”.