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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Eu que já fui eu” | Maria José Oliveira



EXPOSIÇÃO: “Eu que já fui eu”,
de Maria José Oliveira
Curadoria | Paula Parente Pinto
Museu Nacional de Arte Contemporânea - Galeria Capelo Norte
15 Mai > 04 Out 2026


Contrariando a ideia de que uma exposição começa nos objectos e acaba neles, Maria José Oliveira inquieta-nos com “Eu que já fui eu”, exposição patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea. Barro, cartão, cera, ferro, borracha, madeira, restos de tecidos, gavetas e outros materiais que o mundo deixou para trás reaparecem como matéria disponível, mas sobretudo como matéria vivida. A artista não os resgata para lhes conferir uma nova dignidade. Interessa-lhe, antes, aquilo que neles persiste depois de cumprida a função, a marca de um uso, de um corpo, de um gesto. É uma arte feita de sobras, mas sem a retórica fácil da reciclagem: o que está em causa é a possibilidade de uma segunda vida que não apague a primeira. Daí a importância da memória, não como arquivo de acontecimentos, mas como matéria sensível, feita de cheiros, tactos, hábitos e relações. Um copo de tintas, um casaco do pai, um frasco de terebentina ou os objectos que se acumulam em “A coluna vertebral ou o princípio do mundo” carregam consigo uma biografia que a artista não procura explicar. Limita-se, com uma espécie de atenção obstinada, a fazê-la reaparecer.

Há algo que contraria o espectacular no trabalho de Maria José Oliveira. Os seus objectos parecem acontecer devagar, como se recusassem a velocidade com que hoje se produz, consome e substitui quase tudo. Mais do que um tema, o tempo é, aqui, um dos materiais da obra. A artista deixa que os acidentes, a decomposição e até a ruína participem no processo, aceitando que uma coisa possa atingir a sua completude precisamente quando começa a desaparecer. O episódio do livro oferecido pelo pai, que aguardou pacientemente a acção dos bibliófagos, é revelador dessa ética: em vez de combater a passagem do tempo, a artista observa-a e incorpora-a. Esta disponibilidade para o acaso aproxima a sua prática da bricolage, mas também de uma arqueologia íntima. Recolher, guardar, aproximar, transformar: os gestos são elementares, quase domésticos, e contudo produzem uma linguagem que escapa às categorias convencionais da arte. Não é desenho, nem escultura, nem instalação em sentido estrito. Ou é tudo isso ao mesmo tempo, sem que a classificação seja verdadeiramente importante. O que importa é a passagem entre as coisas. Entre o objecto e a lembrança, a matéria e o pensamento, aquilo que foi e que pode ainda vir a ser.

O título da exposição - “Eu que já fui eu” - introduz, porém, uma perturbação decisiva: quem é esse “eu” que já foi? A pergunta impede que a exposição seja lida apenas como inventário afectivo ou celebração artesanal de materiais pobres. Há nestas obras uma interrogação sobre a identidade como coisa instável, feita de empréstimos, restos, dádivas e transformações. Maria José Oliveira trabalha com aquilo que recebeu - objectos, técnicas, memórias familiares, saberes arcaicos - mas receber, no seu universo, nunca é conservar intacto. É alterar a forma de transmissão. A experiência com Mestre Albino e a cerâmica arcaica de Ribolhos, tal como os objectos herdados dos pais, não constitui uma genealogia destinada a legitimar a artista. É, antes, um conjunto de ferramentas para continuar a perguntar. Num presente obcecado pela novidade, Maria José Oliveira propõe o contrário: olhar outra vez, usar de novo, escutar aquilo que parecia mudo. “O que pensas disto?”, pergunta a artista. A melhor resposta talvez seja aceitar o desconforto de não saber exactamente o que estamos a ver - e perceber que esse não-saber é, afinal, uma forma de começar a ver.

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