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domingo, 13 de setembro de 2026

INSTALAÇÃO: "Sycorax" | Alice Geirinhas



INSTALAÇÃO: “Sycorax”,
de Alice Geirinhas
Curadoria | Lúcia Saldanha, Rui Afonso Santos
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado - Galeria [PeP]
29 Mai > 20 Set 2026


Condenada a existir fora de cena e através de relatos alheios, a bruxa e mãe de Caliban chega ao Museu Nacional de Arte Contemporânea com a força de quem se recusa a ser um eterno ausente. Em “Sycorax”, Alice Geirinhas não se limita a resgatar a personagem de “A Tempestade”, de Shakespeare, fazendo questão de interrogar o próprio acto de a resgatar. Nos doze desenhos de grandes dimensões que compõem a instalação, Sycorax deixa de ser apenas uma figura da imaginação masculina para se tornar corpo, gesto, território e memória. É uma operação coerente com um percurso artístico construído, há décadas, sobre as zonas de conflito entre representação, género, identidade e poder. Mas há aqui algo mais do que uma reescrita feminista de Shakespeare. Há uma pergunta incómoda sobre quem constrói as imagens que herdámos e sobre aquilo que essas imagens fizeram aos corpos que decidiram representar.

A estratégia de Alice Geirinhas é particularmente eficaz porque não procura suavizar a violência desse imaginário, antes a devolve ao espectador com uma crueza quase física. Inspirados nas gravuras e xilogravuras medievais da caça às bruxas, os desenhos recuperam corpos deformados, gestos teatrais, contrastes violentos e uma simbologia carregada de ameaça e punição. Só que, ao deslocar esta iconografia do campo da condenação para o da interrogação, a artista altera profundamente o seu sentido. A imagem que servia para identificar, estigmatizar e controlar, passa a denunciar os mecanismos dessa mesma violência. O resultado é desconfortável - e ainda bem. Em vez de produzir uma ilustração contemporânea de um tema histórico, a artista obriga-nos a reconhecer a persistência de uma gramática visual que continua a determinar como olhamos para o feminino, para a diferença e para aquilo que uma sociedade considera monstruoso.

É nesta tensão entre o passado e o presente que “Sycorax” se afirma em força e significado. A exposição não pretende simplesmente dar voz a quem foi silenciada; mostra-nos como essa voz foi construída como impossível e como o silêncio pode ser uma forma particularmente eficaz de poder. O desenho, no trabalho de Alice Geirinhas, não é uma técnica neutra nem um território de conforto. É campo de disputa, lugar onde imagens antigas podem ser desmontadas e devolvidas com outra carga política. Por isso, a exposição vale menos como homenagem a uma personagem esquecida do que como exercício de vigilância sobre as imagens que ainda nos governam. Com curadoria de Lúcia Saldanha e Rui Afonso Santos, “Sycorax” prolonga uma investigação que a artista vem desenvolvendo entre o desenho, a cultura visual e o pensamento feminista, sem cair na tentação de oferecer respostas tranquilizadoras. Ao trazer Sycorax para o centro, Alice Geirinhas lembra-nos que estar fora de cena nunca significou estar fora da história.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lisboa Düsseldorf Faces” | Ralf Schilberg, Rui Soares Esteves



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lisboa Düsseldorf Faces”,
de Ralf Schilberg e Rui Soares Esteves
Curadoria | Lúcia Saldanha
Museu Nacional de Arte Contemporânea
12 Jul > 05 Out 2025


Pode o contacto diário com a diversidade cultural ou a arquitetura moderna fazer com que as pessoas estejam mais expostas a tendências? Hábitos e gostos ligados à funcionalidade, à natureza ou à tradição podem ter expressão na forma como as pessoas se apresentam? As grandes cidades tendem a impor um ritmo de vida mais acelerado, o que pode contribuir para uma maior ansiedade e impaciência, mas também para o desenvolvimento de resiliência e eficácia nos seus habitantes. Aquelas com bons transportes públicos ou ciclovias são um incentivo a um estilo de vida mais saudável, ao passo que cidades cosmopolitas tendem a fomentar a tolerância, a diversidade e um pensamento mais aberto. Cidades pequenas ou mais isoladas incentivam laços comunitários mais fortes, mas também um pensamento mais conservador ou tradicional. É com base nalgumas destas premissas, mas também na ideia de que a essência da vida não está no indivíduo per se, antes no indivíduo como um “lugar dos outros”, que “Lisboa Düsseldorf Faces” se posiciona, propondo ao visitante o desafio de encontrar a cidade por detrás da pessoa retratada.

Entre 12 de Julho e 05 de Outubro de 2025, a Iniciativa Lisboa Düsseldorf, centrada na cultura e na relação entre duas cidades – através do conhecimento, do trabalho entre cidadãos, empresas e instituições –, apresenta-se na Galeria do Museu Nacional de Arte Contemporânea e, posteriormente, no Stadtmuseum de Düsseldorf, “Lisboa Düsseldorf Faces”. Exposição de fotografia a preto e branco, nela dois fotógrafos de diferentes percursos, Ralf Schilberg, retratista alemão, e Rui Soares Esteves, fotógrafo de moda português, captam, estética e livremente, a substância das suas próprias cidades, respetivamente, Düsseldorf e Lisboa. Entre rostos e ruas, propõem uma leitura visual das duas cidades. No papel de observadores que produzem imagens, fazem, separadamente, uma abordagem e um reconhecimento dos territórios, suscitando a curiosidade, as interrogações e o pensamento sobre pessoas e lugares. Lugares que, citando Cláudio Magris, “significam sobretudo pessoas, mais ou menos familiares ou quase desconhecidas, mas ainda assim testemunhas, embora parciais, da nossa existência”.

Num diálogo de natureza plural, Ralf Schilberg e Rui Soares Esteves criam duas manchas expositivas complementares – “Lisboa Faces” e “Düsseldorf Faces”, baseando-as em identidades e alteridades, profissões e comunidades. O exercício de contrastar duas realidades específicas permite perceber que a cidade não determina, mas influencia fortemente quem somos e como nos apresentamos. Ela molda-nos subtilmente nos hábitos, gostos, valores e até na estética. Embora generalizações possam simplificar realidades complexas, é possível observar tendências distintas: Um lisboeta pode vestir calças de linho, camisa solta, óculos de sol e sandálias, num visual confortável e de inspiração mediterrânica. Já um habitante de Düsseldorf pode preferir jeans escuros, blazer e ténis de marca, sem exageros, mas com atenção aos detalhes. Lisboa parece moldar pessoas mais descontraídas, com uma estética que mistura tradição, sol e improviso criativo. Düsseldorf molda cidadãos mais orientados para a eficiência, com uma aparência cuidada, mas sóbria. Ambas são cidades vibrantes, mas criam culturas urbanas e visuais distintas, e isso influenciará directamente o modo de vestir, de se comportar e até de pensar.