EXPOSIÇÃO: “Ultratremor”,
de Mira Schendel, Ana Hatherly, Julia Gallo, Mumtazz, Josi, Adriano Amaral, Bruno Cidra, Joana Escoval, Lucas Milano, Caio Carpinelli, Letícia Ramos, Henrique Pavão, Iara Izidoro, João Pimenta Gomes, Vera Mota, Paulo Nazareth
Curadoria | Germano Dushá
Museu Nacional de Arte Contemporânea
29 Mai > 27 Set 2026
“Ultratremor”, exposição com curadoria de Germano Dushá, reúne na Ala Capelo Sul do Museu Nacional de Arte Contemporânea dezasseis artistas portugueses e brasileiros num diálogo que atravessa matéria e espírito, corpo e imagem, visível e invisível. Mais do que aproximar práticas por afinidades formais ou temáticas, a curadoria procurou estabelecer entre elas uma espécie de frequência comum: a tentativa de tornar sensível aquilo que escapa à percepção imediata. O “tremor” do título é, por isso, mais do que uma vibração física. É o estremecimento que precede uma aparição, o estado de instabilidade em que uma forma ainda não se fixou ou já começou a desaparecer. Desenho, pintura, escultura, fotografia, instalação, som e performance constroem um percurso de fantasmagorias, metamorfoses e estados de transição, no qual a obra deixa de ser apenas objecto para se tornar acontecimento. Entre cosmologias, rituais, memória e experiências sensoriais, a exposição sugere que há imagens que não representam simplesmente o mundo: funcionam como passagens para aquilo que, permanecendo oculto, continua a agir sobre ele.
O percurso começa por gestos onde a linha parece nascer de uma pulsão quase orgânica. Nas monotipias de Mira Schendel, figura maior da arte brasileira do século XX, o traço no papel de arroz oscila entre inscrição e desaparecimento; em Ana Hatherly, nome central da poesia experimental e da arte portuguesa contemporânea, escrita e desenho confundem-se até a linguagem se tornar matéria visual. Julia Gallo leva essa tensão para uma dimensão quase eruptiva, construindo anatomias onde o corpo parece dar forma a estados de espírito, enquanto Mumtazz transforma o desenho em território de diagramas, figuras oníricas e energias psíquicas. Em Josi, a ligação é mais directamente cosmológica: água de rio, feijão preto, jenipapo e terra transportam para a pintura saberes e forças ligados ao território. Adriano Amaral faz da matéria um lugar de transmutação, misturando resíduos orgânicos e elementos industriais. Bruno Cidra prolonga essa instabilidade no encontro entre papel e metal. Joana Escoval, pelo contrário, trabalha quase no limite da invisibilidade, com fios de ouro e latão que só se revelam plenamente através da luz e do movimento do espectador. São diferentes modos de fazer aparecer o que normalmente permanece fora do campo da visão.
Essa investigação prolonga-se nas pinturas de Lucas Milano e Caio Carpinelli, onde a imagem se aproxima de uma experiência atmosférica e abissal, e nas fotografias de Leticia Ramos, que exploram a instabilidade do olhar e a fronteira entre real e imaginário. Henrique Pavão radicaliza a própria ideia de imagem ao transformar em prata a matéria extraída de quilómetros de película cinematográfica, convertendo um vestígio luminoso em objecto físico. Iara Izidoro leva a questão ao corpo, enquanto as instalações sonoras de João Pimenta Gomes fazem do espaço uma caixa de ressonância e Vera Mota coloca a matéria em estado de suspensão. Por fim, Paulo Nazareth confronta a memória colonial através de fotografias de arquivos etnográficos, desfocadas e intervencionadas com círculos de “efun”, gesto ritual que desloca aquelas imagens do registo classificatório para o território da memória, da violência e da reparação. O próprio espaço expositivo participa nesta experiência: o corredor e as salas laterais impõem um avanço quase processional, feito de revelações sucessivas. Em “Ultratremor”, importa menos aquilo que a obra mostra do que aquilo que consegue fazer sentir: a presença de uma força que antecede a forma e persiste depois dela.
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