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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

CONCERTO: Pedro Abrunhosa



CONCERTO: Pedro Abrunhosa
Festival Montepio Às Vezes o Amor
Teatro Municipal de Vila do Conde
11 Fev 2023 | sab | 21:30


Começou por clamar “A.M.O.R.” e terminou de forma imperativa: “Ilumina-me”! Foi assim o concerto de Pedro Abrunhosa em dose dupla, num Teatro Municipal de Vila do Conde esgotadíssimo e com um público completamente rendido ao carisma do artista e à qualidade da sua música e da sua poesia. Sem o suporte do Comité Caviar, apenas com Bruno Macedo na guitarra e Miguel Barros no baixo, Pedro Abrunhosa quis fazer deste um concerto intimista, distante q.b. dos ambientes festivos, que privilegiasse a palavra e honrasse a literatura. Despojados das melodias habituais, os poemas ganharam novos significados, tornaram-se expressivos. Encontraram amarras onde soltar-se era a regra, deram-se os braços na noite escura, deixaram tanto de si uns nos outros e fizeram o que ainda não foi feito. E no fim, exaustos mas felizes, gritaram “não posso mais”.

“Podes pedir ao meu Deus que eu peço ao teu / Que nos dê a paz e a luz e a vida que nenhum ódio venceu”. Este Deus chamado “A.M.O.R” permaneceu em palco ao longo das mais de duas horas que durou o concerto. Pedro Abrunhosa assim o quis, lançando um constante apelo à tolerância e à união, à harmonia e à concórdia, e envolvendo os presentes num ambiente de paz e espiritualidade. Com “Momento”, do álbum homónimo de 2002, a ideia de reinterpretação surgiu particularmente vincada, o tempo mais asas ainda, o mundo ainda mais momento. Os ambientes noturnos tomam conta dos poemas. “Que o amor te salve nesta noite escura” abraça uma Ucrânia mergulhada no sofrimento e na dor, “Deixas em mim tanto de ti” e “Balada de Gisberta” trazem consigo “a dor da gente”, tal como “É sempre escuro antes de amanhecer”, tema ainda não editado em disco e que contou com um longuíssimo e extraordinário solo de Bruno Macedo.

Já com Miguel Barros em palco, chegou a hora de dizer que “é preciso ter calma.” Soltam-se do piano breves notas enquanto a voz entoa o poema: “Longe ou perto / Tudo é deserto / Tudo é montanha que te arranha a alma / Com fúria, com calma / É preciso ter calma / Não dar o corpo pela alma.” O silêncio espalha-se, espesso. A guitarra desfaz-se em acordes, uma pandeireta vibra, o baixo é contrabaixo. O jazz é aqui. “Se eu fosse um dia o teu olhar” fez com que a plateia começasse a agitar, mas foi “Pontes entre Nós” – “E eu, e tu, / Perdidos e sós, / Amantes distantes, / Que nunca caiam as pontes entre nós” – que estabeleceu a ponte com o público e fez com que as vozes se erguessem sinceras, emotivas, cúmplices e livres. Como resistir ao grito de “Fazer o que ainda não foi feito”? Como não ir quando te dizem “Vem ter comigo aos Aliados”?

“Hallelujah” homenageou Leonard Cohen, “Encosta-te a mim” foi um abraço a Jorge Palma e “The house of the rising sun” lembrou os The Animals. “Socorro” (“estou a apaixonar-me / é impossível resistir a tanto charme”) e “Ilumina-me” fecharam um alinhamento que foi, em si mesmo, uma revisitação de praticamente todos os álbuns de estúdio de Pedro Abrunhosa, de “Viagens”, um trabalho de 1994, a “Espiritual”, um disco que está quase a fazer cinco anos. De pé, num estrondoso aplauso, o público reclamou o “encore”, oferecido com generosidade sob a forma de quatro músicas extra, todas elas partilhadas com calor e emoção. “Eu não sei quem te perdeu” e “Para os Braços da minha mãe” diziam que o concerto estava a chegar ao fim e, com elas, veio essa sensação antagónica da saudade que já se faz sentir, mesclada com a felicidade dos momentos únicos. “Lua” é cantada como uma prece, “eu quero ver o teu brilhar”. “Tudo o que eu te dou” é a certeza. “Deixa-me voar, cantar, adormecer”.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto



CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto
Teatro Municipal de Vila do Conde
16 Abr 2022 | sab | 21:30


“Isto agora só pode melhorar!” Foi em Setembro de 2018 que escutei, pela primeira vez, Ricardo Toscano. Domingo, fim de tarde, num Jardim do Torel aconchegante para um programa de Jazz preenchido pelo Septeto do Hot Club de Portugal, ele foi a estrela entre as estrelas. O valor acrescentado de cada tema fixava-se nas notas que, plenos de virtuosismo, se derramavam do seu saxofone. Estava ganho um fã. Dois meses mais tarde saiu o seu primeiro álbum de originais e coube a Toscano e ao seu Quarteto a primazia de abrir a segunda edição do Ovar em Jazz, já Abril de 2019 ia alto. O álbum, escutei-o dezenas de vezes. O concerto, bebi-o com emoção. No final, conversámos. Falou-me de evolução, da forma como os temas do álbum eram alvo de trabalho constante. Explicou-me a importância dessa enorme transmutação e do quanto lhe agradava o resultado. Assinou-me o CD e escreveu: “Isto agora só pode melhorar!” Reencontrei-o em Vila do Conde e recordei a nossa conversa e aquilo que escreveu. Só não imaginava que a evolução pudesse ser tão impressionante.

Em noite de Sábado de Aleluia, rumemos a Vila do Conde e ao seu bonito e bem recuperado Teatro Municipal. Cá fora, uma multidão prepara-se para receber – e queimar! – o Judas. Lá dentro, indefectíveis do género, não devemos ultrapassar a meia centena. Em palco, o baterista de serviço é o “lendário” Mário Barreiros, substituindo o habitual João Lopes Pereira. E são de Mário Barreiros os primeiros sons que se escutam na sala, num solo exploratório que mais não faz do que desbloquear os nossos ouvidos e convidar-nos a reconhecer a força e a energia que pode estabelecer-se entre os músicos, indo muito além das tonalidades, dos sons ou da harmonia de cada um dos temas. “Reconhecimento” [“Acknowledgement”], pois. Num registo “non stop”, será este o primeiro tema da noite, num guião consagrado a John Coltrane e à sua obra-prima, “A Love Supreme”. Como que suspensos de cada um dos acordes, percebemos o fluir vivo, intenso e livre desta música. Fechamos os olhos e sentimo-nos como que a flutuar.

“A Love Supreme” foi, com “Blue Train”, do mesmo Coltrane, um dos meus primeiros álbuns de jazz. Não tem conta as vezes que os escutei. Isso, porém, não faz de mim um entendido na obra do mestre, habitualmente considerado pela crítica especializada como o maior sax tenor do jazz de todos os tempos. À solta pela sala de Vila do Conde, foram muitas as passagens que reconheci do trabalho de Coltrane, nomeadamente aquelas onde o protagonismo coube à bateria, ao contrabaixo (de Romeu Tristão) ou ao piano (de João Pedro Coelho). Sobretudo ao piano. As intervenções de Ricardo Toscano tiveram o condão de recuperar a genialidade da musica do norte-americano, de mostrar as suas múltiplas texturas, rendendo-lhe um tributo envolto em essência, significado e talento. Neste verdadeiro monumento de espiritualidade, mágico e místico, o sonho, a coragem e a alegria foram pilares de um exercício de partilha que nos abraçou e preencheu por completo. Um concerto absolutamente sublime. Absolutamente “supreme”.

domingo, 17 de abril de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Corpo em Dança"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Corpo em Dança”,
de Paulo Pimenta
Curadoria | José Pedro Martins
Ciclo FOTOVC - 22a. Mostra
Teatro Municipal de Vila do Conde
05 Mar > 30 Abr 2022


“A história do Paulo Pimenta com a dança é uma história da dança contemporânea portuguesa. Não uma história factual, objectiva, organizada por ordem alfabética ou cronológica, mas uma história pessoal, sentimental, cardíaca, guiada por instintos estéticos, éticos e afetivos, pela ligação a famílias (sempre mais e mais numerosas) de artistas e intérpretes, pela fidelidade a certas práticas, a certas pessoas e a certos lugares, pela paixão por todos e cada um dos corpos. Mas também haverá predestinação nisto. Porque ao fim de todos estes anos – estes já muitos anos de que as fotos incluídas nesta exposição constituem apenas pequeníssima, ainda que apaixonadíssima, amostra –, é forçoso concluir que o Paulo Pimenta nasceu predestinado para o palco (e não apenas obcecado pelo palco). Predestinado para registar e iluminar os corpos em cima do palco, fazendo-os brilhar à luz inconfundível da sua intuição e da sua delicadeza, da sua fome de poesia e de beleza – enquanto se apaga, silencioso, misterioso, no escuro e no anonimato da plateia, ou na minúscula legenda do canto superior da foto.”

Em evidência no texto de apresentação de “Corpo em Dança”, as palavras de Inês Nadais contextualizam na perfeição o objecto desta exposição e a particular relação que, desde muito cedo, se vem estabelecendo e consolidando entre o fotógrafo e a dança. Por detrás de cada imagem, a performance; por detrás da performance, o coreógrafo: Olga Roriz, Vera Mantero, Victor Hugo Pontes, Pina Bausch, Mónica Calle, Raimund Hoghe e tantos outros, portugueses e estrangeiros. São momentos únicos, fracções de segundo que permitem fixar expressões corporais tão cheias de histórias que Paulo Pimenta transporta sempre consigo. Cada uma delas abriga o impulso que o faz regressar, uma e outra vez, ao universo mágico da dança, em que as palavras não fazem falta. Um universo em que o movimento é tudo, e em que a possibilidade de o cristalizar no tempo lança ao artista um chamamento e um desafio constantes. “De novo, de novo, a este corpo em dança”.

“Leveza, movimento, alegria, tristeza, dor, suor, ritmo, palco, luz, reflexão, linguagem, cultura, arte, dimensão, disciplina, horas, dedicação, crer, lutar, procurar, limite, explosão, grito, beleza, cor, dança, corpo, mente, possibilidade, descobrir, oportunidade, universal, corpo, dança, acreditar, respirar, deixar ir, voar, sonhar, abrir, lugar, diálogo, figuras, abstrato, intelectual, emocional, metafísico, foco, integrar, grupo, interdisciplinar, mente, corpo em dança.” Estas são algumas palavras que fazem parte das fotografias que Paulo Pimenta tem feito ao longo dos anos. Nem todas representam o momento específico da dança, mas transportam o fotógrafo ao encontro de tudo aquilo que a envolve – os seus protagonistas, a montagem do espetáculo, o que está para lá dele. “Sinto-me um privilegiado por poder fotografar, acompanhar, assistir a este Corpo Em Dança”, diz. Privilegiados somos nós, por podermos desfrutar de tão belos momentos de emoção e partilha. Só até ao próximo dia 30 de Abril.

sábado, 29 de agosto de 2020

CINE-CONCERTO: "Surdina" | Tó Trips



CINE-CONCERTO: “Surdina” | Tó Trips
Curtas Vila do Conde
Teatro Municipal de Vila do Conde
28 Ago 2020 | sex | 21:3


Realização | Rodrigo Areias
Argumento | Valter Hugo Mãe
Fotografia | Jorge Quintela
Montagem | Tomás Baltazar
Música | Tó Trips
Interpretação | António Durães, Ângela Marques, Ana Bustorff, Emília Silvestre, Adelaide Teixeira, Fernando Moreira, Jorge Mota, Jorge Pinto, Mário Moutinho, Valdemar Santos, Filomena Gigante, Clara Nogueira, João Pedro Vaz, Rosa Quiroga
Produção | Rodrigo Areias
Portugal | 2019 | Comédia | 79 Minutos | Maiores de 14

A mulher morreu-lhe há 30 anos, mas Isaque ainda vive na mesma amargura de sempre, as suas rotinas simples não dispensando a visita diária à campa da mulher, que enfeita desveladamente de cravos vermelhos. O resto do tempo passa-o com os amigos, apesar de não ser dado a grandes falas. Observa o que se passa em volta e o que percebe não lhe traz qualquer conforto. Numa sociedade rural fechada, marcada pelos surtos migratórios, pela crise dos têxteis que abalou o Vale do Ave, encerrando fábrica após fábrica e lançando milhares no desemprego ou pela praga dos incêndios, tornando tudo mais pobre ainda, a bisbilhotice encontra terreno fértil para se espalhar, numa chuva de contos e ditos que não poupa nada nem ninguém. O último boato tem Isaque como um dos visados, a mulher aparentemente “regressada dos mortos”, tendo sido vista às compras na feira. O ajuste de contas começa a pairar no horizonte.

Classificado como comédia, “Surdina” tem sobretudo um lado trágico que acaba por se impor. Mais do que as situações cómicas que se sucedem – o bêbado que urina contra a porta do tascoso, os dois “casamenteiros” a forçar a pretendente ou as comadres que tudo vêem, tudo sabem e tudo comentam -, mais do que a brejeirice que pontua cada fala, mais do que os gestos ou atitudes que se prestam a duplas interpretações, é o sentimento de extrema solidão que habita os mais velhos que ressalta do filme. Há, no argumento de Valter Hugo Mãe, uma verdade muito grande na análise sociológica que faz das comunidades rurais, as gentes do Minho e a sua peculiar forma de estar sendo propícia ao jogo de equívocos que tão bem serve o filme. Mas é quando entra no interior das suas personagens, em especial na de Isaque – uma extraordinária interpretação de António Durães -, que o filme ganha espessura. O corte deste homem com o passado é um momento de redenção que nos deixa um sorriso no rosto e uma lágrima no canto do olho.

Importa, contudo, lembrar que esta não foi uma sessão de cinema trivial. Aliás, quando olhamos para uma sala meia-vazia com o rótulo de “esgotada” e em volta vemos os rostos dos espectadores apenas pela metade, percebemos que não há nisto nada de trivial. A boa notícia é que, apesar dos condicionalismos, este regresso do público às salas é bastante positivo e, servindo esta sessão de “warm-up” para o tão celebrado Festival de Curtas-Metragens de Vila do Conde, que este ano decorrerá entre os dias 03 e 11 de Outubro, as expectativas não podem deixar de estar em alta. A outra originalidade desta sessão é que tivemos em palco Tó Trips, autor da música do filme, e que fez o seu acompanhamento ao vivo. Uma música belíssima, carregada de sentimento, perfeita na correspondência que estabelece com as sequências do filme, ora alegre e livre, ora dura e triste, espelhando a vida tal como ela é. Não raras vezes me esqueci que o músico estava em palco, embalado pelas imagens e pelas melodias. E este, julgo, é o melhor elogio que posso dar a Tó Trips e à sua extraordinária contribuição para o sucesso deste filme.

domingo, 7 de julho de 2019

CINEMA: "Bacurau"



CINEMA: “Bacurau”
Realização | Kléber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
Argumento | Kléber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
Fotografia | Pedro Sotero
Montagem | Eduardo Serrano
Interpretação | Udo Kier, Sónia Braga, Alli Willow, Chris Doubek, Jonny Mars, Karine Teles, Barbara Colen, António Sabóia
Produção | Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd, Michel Merkt
Brasil | 2019 | Aventura, Terror, Mistério | 131 minutos | M/14
27º Curtas Vila do Conde - Internacional Film Festival
Teatro Municipal de Vila do Conde – Sala 1
06 Jul 2019 | sab | 2019


O funeral de Dona Carmelita é um verdadeiro acontecimento em Bacurau, pequena comunidade serrana do Rio Grande do Norte. Mãe de muitos filhos espalhados pelo mundo, mulher influente pelos reconhecidos méritos no domínio das práticas de bruxaria, morre com 94 anos deixando a comunidade orfã. Ali, no povoado, o que é de um é de todos. Perder um dos seus é perder uma parte de si mesmo. Entretanto, as eleições aproximam-se e algo de muito estranho começa a acontecer. De repente, o nome de Bacurau desaparece do mapa na internet, um dos habitantes é perseguido por um pequeno ovni e a aldeia recebe a visita de dois “motards” garridamente trajados. A partir daqui, os habitantes da aldeia começam a ser dizimados.

“Bacurau” é um objecto bizarro apenas na aparência. Escavando a sua “casca” de filme de série B, vamos encontrar uma “caça ao homem” levada a cabo por mercenários americanos em pleno sertão, a morte como exercício de pura diversão intermediada por políticos brasileiros e uma burguesia contemporânea que exerce o poder sobre os mais desfavorecidos, oferecendo-lhes tostões e cobrando milhões. Mas o instinto de defesa do ser humano numa comunidade que se fecha sobre si mesma e se protege das ameaças externas fala mais alto. A união está do lado dos mais fracos, daí advindo a sua enorme força. União essa que os salvará dos americanos guiados pela adrenalina egoísta, do intermediário brasileiro sedento de um poder que nunca irá alcançar e, no limite, de si mesmos como seres humanos.

Com um casting extraordinariamente seleccionado, onde pontificam Udo Kier, Sónia Braga e uma grande quantidade de não actores, Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles oferecem-nos um objecto surpreendente nas suas propostas e mensagem. “Bacurau” transporta consigo uma carga política muito grande, clamando pelo fim da exploração do homem pelo homem. Metaforicamente, o filme reflecte igualmente sobre as questões sociais e económicas que fazem com que os mais fracos sejam também os mais resilientes. Ao mesmo tempo, pisca o olho aos problemas ambientais e à igualdade de género, fazendo da pequena comunidade de Bacurau um exemplo dos problemas que assolam este mundo. No limite, percebemos que os ciclos da História se perpetuam porque o homem continua a mostrar-se incapaz de aprender com os seus próprios erros. Presente nesta sessão inaugural do Curtas Vila do Conde 2019, Kléber Mendonça Filho fez questão de salientar isso mesmo, avisando que a acção do filme se centra no futuro, “um futuro que, no Brasil, pode ser agora mesmo ou no ano que vem”.