Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo Toscano Quarteto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo Toscano Quarteto. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto toca Bernardo Sassetti



CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto toca Bernardo Sassetti
Festival de Jazz Bernardo Sassetti
Casa da Música – Sala 2
09 Dez 2023 | sab | 21:00


Teatro Municipal de Vila do Conde, Centro de Arte de Ovar, Quintal Porta-Jazz, Jardim do Torel, Casa da Música. Em septeto, sexteto, quarteto, trio ou “duplex”. Ricardo Toscano é, seguramente, o músico que mais vezes escutei nos últimos cinco anos e a razão é simples: A abordagem aos grandes referentes do Jazz fazem de cada concerto seu um momento de fruição e prazer único e irrepetível. Em composições próprias de elevado sentido artístico ou nos passos de nomes tão importantes como os de Charlie Parker ou Ornette Coleman, John Coltrane ou Bernardo Sassetti, a sua música, o domínio do instrumento e os músicos de que se faz rodear são sempre valores acrescidos que nos transportam para as dimensões mais puras do género, onde a criatividade e o engenho abraçam a genuinidade e o virtuosismo. Foi isso que aconteceu, uma vez mais, na noite do passado sábado, à boleia do Festival de Jazz Bernardo Sassetti, Toscano e o seu Quarteto a brindarem o público com momentos de enorme talento e significado, numa distinta homenagem ao génio musical desse grande compositor e pianista português que nos deixou demasiado cedo.

Na companhia de João Pedro Coelho (piano), Romeu Tristão (contrabaixo) e João Pereira (bateria e vibrafone), Ricardo Toscano mostrou-se um perfeito mestre de cerimónias. Ao álbum “Mundos”, de 1996, foi buscar “Algumas Coisas não Mudam”, agitando a sala com uma batida quente e vibrante e abrindo o concerto sob o signo da festa e da alegria. O arranjo, como todos os seguintes - à excepção do último tema, “organizado em duas folhas A4” por Romeu Tristão – foi trabalhado em grupo e é notável a forma como o saxofone sabe “esconder-se” tão bem, oferecendo aos restantes instrumentos a quota justa de protagonismo. Como seria expectável, o piano esteve em evidência e João Pedro Coelho mostrou-se à altura das responsabilidades, com intervenções notáveis, tanto no acompanhamento como em apontamentos solísticos intensos e emotivos. Ao mundo da Banda Desenhada foi o Quarteto buscar “Ernesto–Misterioso Obsessivo”, do álbum “Unreal: Sidewalk Cartoon” (2006), naquele que terá sido, quiçá, o mais mágico e intimista tema da noite: uma viagem divertida ao mundo da animação, através de um conjunto de momentos sonoros recriados com imaginação, graça e um apurado sentido do ritmo.

“Olhar”, do álbum “Nocturno” (2002) levou-nos ao encontro do lado mais melancólico de Bernardo Sassetti, com João Pedro Coelho magistral na forma como introduz o tema e o suporta numa linha entre o clássico e o jazz. Notável, primeiro, o diálogo entre o piano e a bateria e, depois, o saxofone de Ricardo Toscano a oferecer-se em beleza e poesia. Poesia que se prolongou num novo diálogo, desta vez entre o piano e o contrabaixo, espécie de viagem carregada de tristeza, mas, ao mesmo tempo, de um lirismo arrebatador (Chopin passeou-se por aqui). O tema seguinte (na verdade dois temas, numa fusão feliz), “Reflexos / Sonhos dos Outros”, ofereceu-se em harmonia e ritmo, abrindo espaço para o momento mais alto da noite, uma “suite” de “Alice”, banda-sonora que Sassetti escreveu para o filme com o mesmo nome, realizado em 2005 por Marco Martins. Entre o hoje e o amanhã, feito de “movimentos invisíveis” e “passagens pela cidade”, de noite, esperas e indiferença, “Alice” escutou-se em suspenso, reverencialmente, a respiração em pausa e o coração aos pulos. Tudo o que de bom se escutara até então (e foi tudo tão bom), surgiu aqui ampliado pela competência, irreverência, dinamismo e energia contagiante de um Quarteto que transpira Jazz por todos os poros. Um grande concerto, quase a fechar um ano jazzístico que teve muito de bom para oferecer.

[Foto gentilmente cedida por Egídio Santos | https://www.facebook.com/egidio.santos.5]

segunda-feira, 18 de abril de 2022

CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto



CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto
Teatro Municipal de Vila do Conde
16 Abr 2022 | sab | 21:30


“Isto agora só pode melhorar!” Foi em Setembro de 2018 que escutei, pela primeira vez, Ricardo Toscano. Domingo, fim de tarde, num Jardim do Torel aconchegante para um programa de Jazz preenchido pelo Septeto do Hot Club de Portugal, ele foi a estrela entre as estrelas. O valor acrescentado de cada tema fixava-se nas notas que, plenos de virtuosismo, se derramavam do seu saxofone. Estava ganho um fã. Dois meses mais tarde saiu o seu primeiro álbum de originais e coube a Toscano e ao seu Quarteto a primazia de abrir a segunda edição do Ovar em Jazz, já Abril de 2019 ia alto. O álbum, escutei-o dezenas de vezes. O concerto, bebi-o com emoção. No final, conversámos. Falou-me de evolução, da forma como os temas do álbum eram alvo de trabalho constante. Explicou-me a importância dessa enorme transmutação e do quanto lhe agradava o resultado. Assinou-me o CD e escreveu: “Isto agora só pode melhorar!” Reencontrei-o em Vila do Conde e recordei a nossa conversa e aquilo que escreveu. Só não imaginava que a evolução pudesse ser tão impressionante.

Em noite de Sábado de Aleluia, rumemos a Vila do Conde e ao seu bonito e bem recuperado Teatro Municipal. Cá fora, uma multidão prepara-se para receber – e queimar! – o Judas. Lá dentro, indefectíveis do género, não devemos ultrapassar a meia centena. Em palco, o baterista de serviço é o “lendário” Mário Barreiros, substituindo o habitual João Lopes Pereira. E são de Mário Barreiros os primeiros sons que se escutam na sala, num solo exploratório que mais não faz do que desbloquear os nossos ouvidos e convidar-nos a reconhecer a força e a energia que pode estabelecer-se entre os músicos, indo muito além das tonalidades, dos sons ou da harmonia de cada um dos temas. “Reconhecimento” [“Acknowledgement”], pois. Num registo “non stop”, será este o primeiro tema da noite, num guião consagrado a John Coltrane e à sua obra-prima, “A Love Supreme”. Como que suspensos de cada um dos acordes, percebemos o fluir vivo, intenso e livre desta música. Fechamos os olhos e sentimo-nos como que a flutuar.

“A Love Supreme” foi, com “Blue Train”, do mesmo Coltrane, um dos meus primeiros álbuns de jazz. Não tem conta as vezes que os escutei. Isso, porém, não faz de mim um entendido na obra do mestre, habitualmente considerado pela crítica especializada como o maior sax tenor do jazz de todos os tempos. À solta pela sala de Vila do Conde, foram muitas as passagens que reconheci do trabalho de Coltrane, nomeadamente aquelas onde o protagonismo coube à bateria, ao contrabaixo (de Romeu Tristão) ou ao piano (de João Pedro Coelho). Sobretudo ao piano. As intervenções de Ricardo Toscano tiveram o condão de recuperar a genialidade da musica do norte-americano, de mostrar as suas múltiplas texturas, rendendo-lhe um tributo envolto em essência, significado e talento. Neste verdadeiro monumento de espiritualidade, mágico e místico, o sonho, a coragem e a alegria foram pilares de um exercício de partilha que nos abraçou e preencheu por completo. Um concerto absolutamente sublime. Absolutamente “supreme”.