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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

CONCERTO: “Na Pele da Terra” | Mário Barreiros



CONCERTO: “Na Pele da Terra”
Com | Mário Barreiros (bateria), Ricardo Toscano (saxofone alto), Carlos Barreto (contrabaixo) e Leonardo Pinto (electrónica)
EstarreJazz 2025
Cine-Teatro de Estarreja
08 Out 2025 | qua | 21:30


“Na Pele da Terra” começou por ser um projecto apresentado por Mário Barreiros à Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Música – Interpretação Artística, especialização Bateria Jazz. O projecto trazia consigo a ideia de combinar um trio de jazz com processamento electrónico por computador, abrindo espaço a que os músicos controlassem os efeitos e as alterações sonoras durante a performance, apoiando-se na dinâmica transformadora da tecnologia nesse fascinante diálogo entre o orgânico e o digital. “Isso gera uma dinâmica única e imprevisível, desafiando a ideia tradicional de que o jazz é puramente baseado na espontaneidade humana”, referia, a propósito, Mário Barreiros. Graças à electrónica, efeitos como delay, modulação, sampling e distorção tímbrica são passíveis de serem manipulados em tempo real, transformando os sons tradicionais do jazz em paisagens sonoras complexas e camadas texturais que transcendem os limites dos instrumentos acústicos convencionais. Em última análise, a música para trio de jazz com processamento electrónico representaria uma jornada de exploração musical onde o passado encontra o futuro. Uma abordagem disposta a desafiar as convenções, abrindo portas para a criatividade ilimitada e a descoberta sonora.

Foi com esta disposição que Mário Barreiros se apresentou ao público de Estarreja, na noite inaugural do EstarreJazz 2025. Em palco, ao seu lado, Ricardo Toscano (saxofone alto) e Carlos Barreto (contrabaixo) assumiram a parte instrumental, enquanto Leonardo Pinto assinou o desenho de som e Nélson Carvalho tratou da sua distribuição espacial - de forma magistral, diga-se. Ao unir a riqueza da tradição do jazz com as possibilidades da tecnologia moderna, os músicos poderam criar uma música enraizada na história e, ao mesmo tempo, verdadeiramente contemporânea. Mas “Na Pele da Terra” foi além deste lado, digamos, experimental (nos anos 1970, já Miles Davis se apoiava na electrónica para desenhar o seu jazz vanguardista). Delicada e elegante, a música contida no projecto é também uma pequena reflexão sobre a frágil e microscópica dimensão daquilo a que chamamos “vida na Terra” quando comparada com a imensidão do Cosmos. A sensação de humildade diante da vastidão do Universo, pode inspirar uma apreciação mais profunda da beleza e da fragilidade da vida na Terra e, nessa medida, “Na Pele da Terra” é um manifesto sobre a responsabilidade, individual e colectiva, que temos no actual estado de pré-colapso do nosso ecossistema e uma homenagem a todos os que participam na preservação do nosso habitat.

Socorro-me da Folha de Sala (um verdadeiro luxo nos tempos que correm) para dar nota do alinhamento de um concerto breve no tempo, mas de alta intensidade, contagiando de emoção e energia um público entusiasta. “O Solo”, composição de Mário Barreiros, abriu o concerto a olhar as árvores e a terra, o que cresce e permanece, oferecendo aos presentes uma experiência sensorial única. Barreiros, Barreto e Toscano punham em prática o seu enorme virtuosismo, mas era na electrónica que o ouvido se apurava, no que reverberava e amplificava de dimensão acústica. Dedicada a todos os que de alguma forma contribuem para uma reconciliação entre a humanidade e a natureza, atitude de importância crucial para o futuro do nosso ecossistema, “One Billion Trees”, de Mário Barreiros, foi um grande momento de jazz, assente na enorme capacidade de improvisação de Ricardo Toscano e Carlos Barreto. “Fall”, de Wayne Shorter, surge como uma meditação sobre a passagem do tempo - o Outono como metáfora da maturidade artística e humana, oferecido em harmonias amplas e movimentos introspectivos, num convite à contemplação do tempo e da existência.

A segunda metade do concerto abriria com “Goal 14”, uma composição assinada conjuntamente por Mário Barreiros e Ricardo Toscano. Apelando à protecção dos ecossistemas marinhos, ao combate à poluição e à sobrepesca, o tema tem como ponto de partida uma improvisação de saxofone alto, pontuado por arcadas de contrabaixo, e processamento electrónico por computador em tempo real. Mário Barreiros compôs “Sol” (fantástica a imagem projectada na tela), balada inspiradíssima que homenageia o coração luminoso que faz pulsar o planeta e que mereceu do público a mais prolongada e entusiástica ovação da noite. John Coltrane não podia faltar no serão de Estarreja e “Naima” foi mais um momento alto do concerto, uma balada pontuada por uma sequência de acordes suspensos capazes de criar uma atmosfera etérea e meditativa. “Na Pele da Terra”, de Leonardo Pinto, encerrou da melhor forma o momento inaugural do EstarreJazz, fazendo assentar a música na crosta terrestre, o verdadeiro palco da vida, a “pele” que sustenta e transforma tudo o que existe à sua margem. O solo inicial do contrabaixo é precioso, como preciosos são os diálogos que virá a estabelecer com o saxofone e a bateria, sob as boas graças - ainda e sempre - da electrónica. Um concerto memorável.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

CONCERTO: Sexteto de Jazz de Lisboa



CONCERTO: Sexteto de Jazz de Lisboa
Ovar em Jazz 2022
Centro de Arte de Ovar
21 Abr 2022 | qui | 21:30


Falar do Sexteto de Jazz de Lisboa é falar de um agrupamento que, apesar das mais de três décadas de vida e de um largo interregno na sua actividade, mantém-se activo e a oferecer do melhor jazz que alguma vez se fez em Portugal. Formado em 1984, o sexteto afirmou-se justamente como um dos primeiros e mais notáveis grupos de jazz do nosso país, assumindo a profissionalização “a tempo inteiro”. Pela primeira vez, víamos surgir um grupo de jazz de constituição relativamente alargada e, acima de tudo, com uma frente de três instrumentos de sopro, constituído na altura por Tomás Pimentel (trompete), Edgar Caramelo (saxofone tenor) e Carlos Martins (saxofone alto). Os dois primeiros ainda por cá andam, tal como o pianista Mário Laginha, outro dos sobreviventes da formação inicial. Após algumas mexidas, Mário Barreiros substituiria Carlos Vieira na bateria e, um pouco mais tarde, Francisco Brito e Ricardo Toscano viriam a ocupar as “pastas” do contrabaixo e do saxofone alto, respectivamente. Foi justamente esta formação que esteve em palco no Centro de Arte de Ovar, naquela que foi a segunda noite do Ovar em Jazz 2022.

Recuperando os temas que fazem de “Ao Encontro” um álbum histórico – gravado em 1987, este trabalho foi publicado no ano seguinte e é o único álbum que o grupo produziu até hoje -, o Sexteto de Jazz de Lisboa ofereceu ao público de Ovar uma grande noite, não apenas porque em palco, “non stop”, estenderam o alinhamento para além da hora e meia, mas sobretudo pela qualidade das interpretações e pela robustez e energia do jazz tocado. Primeiro tema do concerto, “Véspera”, uma composição de Mário Laginha, foi marcante no que à linha melódica e rítmica o sexteto teve para oferecer. Poderosos, os metais definem o tema, deixando as variações por conta do piano, do contrabaixo e da bateria. A solo ou em grupo, regressam a espaços, reforçando o tema e acrescentando-lhe novas variações. Sem pedir licença, a música invade-nos e torna-nos cúmplices de uma viagem com ponto de partida e de chegada no interior, envolvente e intimista, de um clube de jazz. Em Copenhaga como em Nova Orleães, em Nova Iorque como em Nice ou Montreal.

“Raíz” e “Muda”, temas da autoria de Tomás Pimentel, perfilaram-se no alinhamento e foram a demonstração da qualidade compositiva deste músico e, ele próprio, líder de um septeto com o seu nome, onde pontificam, entre outros, músicos de enorme qualidade como João Paulo Esteves da Silva, Mário Franco, Alexandre Frazão e o já referido Edgar Caramelo. De resto, Tomás Pimentel ainda faria escutar outros três temas da sua autoria – “Descolagem”, “Opus” e o bem batido “4 + 3”, com as influências do Caribe a virem ao de cima. Os restantes temas tiveram a assinatura de Mário Laginha, com “Tradição”, “Uma Outra Gaveta” e o delicioso “Balada Para o Meu Filho”, e ainda o tema que fechou o concerto e cujo nome não consegui perceber. Da noite sobra um jazz intenso e vivo, interpretado por músicos onde a a mescla de juventude e veterania resulta em momentos de puro prazer. Mesmo sendo eu um indefectível de Mário Laginha e de Ricardo Toscano, difícil se torna destacar um deles, ou ambos, do conjunto. Todos tiveram a possibilidade de se mostrar a solo ou em grupo e todos eles foram sublimes. Mais um grande momento a marcar a primeira metade da presente edição do Ovar em Jazz.

[Foto: Ovar / Cultura | facebook.com/ovarcultura/]

segunda-feira, 18 de abril de 2022

CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto



CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto
Teatro Municipal de Vila do Conde
16 Abr 2022 | sab | 21:30


“Isto agora só pode melhorar!” Foi em Setembro de 2018 que escutei, pela primeira vez, Ricardo Toscano. Domingo, fim de tarde, num Jardim do Torel aconchegante para um programa de Jazz preenchido pelo Septeto do Hot Club de Portugal, ele foi a estrela entre as estrelas. O valor acrescentado de cada tema fixava-se nas notas que, plenos de virtuosismo, se derramavam do seu saxofone. Estava ganho um fã. Dois meses mais tarde saiu o seu primeiro álbum de originais e coube a Toscano e ao seu Quarteto a primazia de abrir a segunda edição do Ovar em Jazz, já Abril de 2019 ia alto. O álbum, escutei-o dezenas de vezes. O concerto, bebi-o com emoção. No final, conversámos. Falou-me de evolução, da forma como os temas do álbum eram alvo de trabalho constante. Explicou-me a importância dessa enorme transmutação e do quanto lhe agradava o resultado. Assinou-me o CD e escreveu: “Isto agora só pode melhorar!” Reencontrei-o em Vila do Conde e recordei a nossa conversa e aquilo que escreveu. Só não imaginava que a evolução pudesse ser tão impressionante.

Em noite de Sábado de Aleluia, rumemos a Vila do Conde e ao seu bonito e bem recuperado Teatro Municipal. Cá fora, uma multidão prepara-se para receber – e queimar! – o Judas. Lá dentro, indefectíveis do género, não devemos ultrapassar a meia centena. Em palco, o baterista de serviço é o “lendário” Mário Barreiros, substituindo o habitual João Lopes Pereira. E são de Mário Barreiros os primeiros sons que se escutam na sala, num solo exploratório que mais não faz do que desbloquear os nossos ouvidos e convidar-nos a reconhecer a força e a energia que pode estabelecer-se entre os músicos, indo muito além das tonalidades, dos sons ou da harmonia de cada um dos temas. “Reconhecimento” [“Acknowledgement”], pois. Num registo “non stop”, será este o primeiro tema da noite, num guião consagrado a John Coltrane e à sua obra-prima, “A Love Supreme”. Como que suspensos de cada um dos acordes, percebemos o fluir vivo, intenso e livre desta música. Fechamos os olhos e sentimo-nos como que a flutuar.

“A Love Supreme” foi, com “Blue Train”, do mesmo Coltrane, um dos meus primeiros álbuns de jazz. Não tem conta as vezes que os escutei. Isso, porém, não faz de mim um entendido na obra do mestre, habitualmente considerado pela crítica especializada como o maior sax tenor do jazz de todos os tempos. À solta pela sala de Vila do Conde, foram muitas as passagens que reconheci do trabalho de Coltrane, nomeadamente aquelas onde o protagonismo coube à bateria, ao contrabaixo (de Romeu Tristão) ou ao piano (de João Pedro Coelho). Sobretudo ao piano. As intervenções de Ricardo Toscano tiveram o condão de recuperar a genialidade da musica do norte-americano, de mostrar as suas múltiplas texturas, rendendo-lhe um tributo envolto em essência, significado e talento. Neste verdadeiro monumento de espiritualidade, mágico e místico, o sonho, a coragem e a alegria foram pilares de um exercício de partilha que nos abraçou e preencheu por completo. Um concerto absolutamente sublime. Absolutamente “supreme”.