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domingo, 17 de abril de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Corpo em Dança"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Corpo em Dança”,
de Paulo Pimenta
Curadoria | José Pedro Martins
Ciclo FOTOVC - 22a. Mostra
Teatro Municipal de Vila do Conde
05 Mar > 30 Abr 2022


“A história do Paulo Pimenta com a dança é uma história da dança contemporânea portuguesa. Não uma história factual, objectiva, organizada por ordem alfabética ou cronológica, mas uma história pessoal, sentimental, cardíaca, guiada por instintos estéticos, éticos e afetivos, pela ligação a famílias (sempre mais e mais numerosas) de artistas e intérpretes, pela fidelidade a certas práticas, a certas pessoas e a certos lugares, pela paixão por todos e cada um dos corpos. Mas também haverá predestinação nisto. Porque ao fim de todos estes anos – estes já muitos anos de que as fotos incluídas nesta exposição constituem apenas pequeníssima, ainda que apaixonadíssima, amostra –, é forçoso concluir que o Paulo Pimenta nasceu predestinado para o palco (e não apenas obcecado pelo palco). Predestinado para registar e iluminar os corpos em cima do palco, fazendo-os brilhar à luz inconfundível da sua intuição e da sua delicadeza, da sua fome de poesia e de beleza – enquanto se apaga, silencioso, misterioso, no escuro e no anonimato da plateia, ou na minúscula legenda do canto superior da foto.”

Em evidência no texto de apresentação de “Corpo em Dança”, as palavras de Inês Nadais contextualizam na perfeição o objecto desta exposição e a particular relação que, desde muito cedo, se vem estabelecendo e consolidando entre o fotógrafo e a dança. Por detrás de cada imagem, a performance; por detrás da performance, o coreógrafo: Olga Roriz, Vera Mantero, Victor Hugo Pontes, Pina Bausch, Mónica Calle, Raimund Hoghe e tantos outros, portugueses e estrangeiros. São momentos únicos, fracções de segundo que permitem fixar expressões corporais tão cheias de histórias que Paulo Pimenta transporta sempre consigo. Cada uma delas abriga o impulso que o faz regressar, uma e outra vez, ao universo mágico da dança, em que as palavras não fazem falta. Um universo em que o movimento é tudo, e em que a possibilidade de o cristalizar no tempo lança ao artista um chamamento e um desafio constantes. “De novo, de novo, a este corpo em dança”.

“Leveza, movimento, alegria, tristeza, dor, suor, ritmo, palco, luz, reflexão, linguagem, cultura, arte, dimensão, disciplina, horas, dedicação, crer, lutar, procurar, limite, explosão, grito, beleza, cor, dança, corpo, mente, possibilidade, descobrir, oportunidade, universal, corpo, dança, acreditar, respirar, deixar ir, voar, sonhar, abrir, lugar, diálogo, figuras, abstrato, intelectual, emocional, metafísico, foco, integrar, grupo, interdisciplinar, mente, corpo em dança.” Estas são algumas palavras que fazem parte das fotografias que Paulo Pimenta tem feito ao longo dos anos. Nem todas representam o momento específico da dança, mas transportam o fotógrafo ao encontro de tudo aquilo que a envolve – os seus protagonistas, a montagem do espetáculo, o que está para lá dele. “Sinto-me um privilegiado por poder fotografar, acompanhar, assistir a este Corpo Em Dança”, diz. Privilegiados somos nós, por podermos desfrutar de tão belos momentos de emoção e partilha. Só até ao próximo dia 30 de Abril.

terça-feira, 8 de março de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "As Bravas"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “As Bravas”, 
de Paulo Pimenta, a partir de um projecto PELE
Fundação Calouste Gulbenkian – Átrio da Biblioteca de Arte
28 Jan > 25 Abr 2022


“Ser Brava é a gente firmar-se naquilo que está a fazer, no que está a dizer e naquilo que quer ser.”

Criação colectiva concebida no âmbito do projeto ENXOVAL – Tempo e Espaço de Resistência, cruzando grupos comunitários do Porto e Amarante, “As Bravas” aposta na ideia do enxoval enquanto representação social da condição feminina que atravessa diferentes gerações. Bordado a muitas mãos, este é um “enxoval” diferente, nascido da vontade de homens e mulheres em questionar e transformar os estereótipos de género, abrindo espaços de liberdade e inspirando a vontade de mudança. Empenhadas em “limpar” a camada de invisibilidade que cobre as histórias de muitas mulheres, “As Bravas” dão-se a conhecer, trazendo com elas as histórias de heroínas da vida real, fortemente inspiradoras, que importa inscrever na nossa história e na nossa memória coletiva.

Entre as várias formas de dar visibilidade ao projecto e de espalhar a sua mensagem, encontramos esta belíssima exposição de fotografia, da autoria de Paulo Pimenta, e que por estes dias ocupa o espaço do Átrio da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. Uma grande parte das imagens tem como elemento comum um manto cosido de retalhos vivos dos caminhos que fazem parte do quotidiano e da sabedoria destas mulheres, um manto que pode ser apreciado numa das paredes do átrio e que, também ele, foi crescendo, florescendo e secando ao longo do processo de criação. Nessas mesmas paredes, singelos, livres, inspiradores, encontramos os testemunhos da mulher que sonhava casar e ir para a “rua do mel” e que hoje sonha aprender a ler, da outra que adora estar no centro de convívio com as amigas por viver sozinha num lugar da aldeia onde não vive mais ninguém ou da outra, ainda, que recorda o momento em que foi a pé buscar a arca que o pai mandou fazer para o seu enxoval, trazendo-a à cabeça o caminho todo.

Esta exposição é uma celebração das Bravas, figuras mitológicas vivas, arquétipos da natureza na sua forma mais bela e mais crua. Guardiãs de pés descalços e de lembranças de tempos duros, de histórias e cantigas do passado, mas com o futuro no olhar, as Bravas são a Iara Lino e a Alexandra Mendes, a Catarina Vaz e o Marco Gomes, a Lucelina Rosa e a Gina Nogueira, a Vitória Babo, o João Carvalho e muitos outros, homens e mulheres que sussurram memórias silenciadas e cantam para espantar a solidão dos dias, que lutam e resistem, que clamam: “Por isso escutem-nos com atenção / Somos muitas, valentes e plurais / Continuaremos juntas na luta / Até sermos livres e iguais!” Para ver até ao próximo dia 25 de Abril!

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "São Pessoas"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “São Pessoas”,
de Paulo Pimenta e Adriano Miranda
Mira Forum
11 Jan > 15 Fev 2020


“Sabes o que é abrir o frigorífico e não ter nada lá dentro? Não sair de casa porque não tenho dinheiro para um café? Ir ao supermercado comprar um litro de leite e um pão, pois não tenho dinheiro para mais?”

Forma de arte com um enorme potencial expressivo, a Fotografia tem essa capacidade de transmitir emoções e sensações. É, nessa medida, uma arma poderosa, usada e manipulada para alcançar todo o tipo de objectivos, marcando vidas e dirigindo pessoas. Paulo Pimenta e Adriano Miranda sabem isso muito bem. Tal como sabem que os indicadores de pobreza no nosso país dizem que uma em cada cinco pessoas são pobres. Conscientes da enorme dimensão social que a solidão, a exclusão e a pobreza representam numa sociedade consumista e centrada no lucro e na descriminação, abraçaram um projecto assente em dois pilares fundamentais – solidariedade e combate. Ao longo de um ano recolheram histórias de pessoas que deram a cara pela “fragilidade do ser humano”, expondo depois as suas imagens, ao mesmo tempo que lançaram um livro e editaram um vídeo. A tudo isso disseram, convictamente e em tom de desafio: “São Pessoas”.

O Monteiro, o Tiago, o Francisco, a Maria, o Bento, a Isabel, a Arlinda, a Laurinda, a Ângela, a Conceição, a Neide, o Higínio, o Bráulio, a Natália, a Sara, o Ismael, o Mauro, o Aurélio, o Paulo, a Graça, o Alexandre, a Albina, o António, a Carolina, o Antunes, o Sérgio, o Renato, o Joaquim, a Lúcia, a Rita, o Igor, o Jaime, a Sandra, o Alex, o Rafael, o Dior, a Teresa, a São, a Ana, o Mário, a Alice, a Celeste e a Cristina são essas pessoas. Pessoas que recebem às 8 e meia o RSI, às 9 pagam o quarto e ficam logo sem dinheiro para o resto do mês. Pessoas que pedem por necessidade, uma ferida a abrir-se mais e mais dentro de si. Pessoas que só gostariam de parar o eterno sofrimento da incerteza e poder acordar no dia seguinte com um pouco mais de tranquilidade. Pessoas que se perguntam porque é que têm que ter vergonha de ser pobres e os ricos não têm vergonha de ser ricos. Pessoas que podiam ser qualquer um de nós.

Condensando um aturado trabalho desenvolvido entre Trás-os-Montes e o Algarve, este ensaio fotográfico não se desvia um milímetro da ideia inicial, os retratados contribuindo com a sua identidade. O resultado é um magnífico conjunto de imagens que, para além do seu valor estético, nos lembra que há ainda um longo caminho a percorrer neste país de dez milhões com mais de dois milhões de pobres dentro. Num dos textos que complementam o livro, Camilo Soldado escreve: “Gradualmente, a pobreza vai abandonando os cabeçalhos dos jornais que a força dos números lhe tinha feito valer. Afinal, há uma nova convergência com a boa Europa. Também aos poucos, vamo-nos esquecendo de quem foi arrastado nessa voragem a que demos o nome de crise, de quem não conseguiu voltar a levantar-se ou de quem, simplesmente, nunca conheceu outra vida que não de privação.” É por isso que estas imagens fazem todo o sentido, resgatando vidas que clamam por direitos e por dignidade. É esse o mérito de Paulo Pimenta e de Adriano Miranda. É sobretudo esse o mérito de todos aqueles que nos olham. O Monteiro, o Tiago, o Francisco, a Maria, o Bento, a Isabel...

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Ilha"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ilha”,
de Paulo Pimenta
Centro Português de Fotografia, Porto
25 Nov 2017 > 25 Mar 2018


As Ilhas constituem no Porto uma realidade multissecular. Construídas de forma precária, aproveitando todas as nesgas de terreno, sem infra-estruturação adequada, as Ilhas são, na sua grande maioria, focos de insalubridade e de doença. O esquecimento a que foram votadas advém também da sua conformação espacial, espaços de viver localizados nas traseiras das ruas, delas separadas e delas escondidas. Apesar disso (ou, até por isso) a Ilha foi, e é, construtora de uma identidade comum, espaço de resistência e socialização dos mais desfavorecidos, elo de familiaridade e acolhimento para com conhecidos e amigos.

São sobretudo os aspectos sociais e culturais intrínsecos às Ilhas do Porto e aos seus “ilhéus” que surgem evidenciados nesta compilação de imagens do fotojornalista Paulo Pimenta, com a participação de crianças da associação O Meu Lugar no Mundo e de seniores do Centro de Dia do Senhor do Bonfim. Um trabalho de criação artística desenvolvido ao longo de dois anos e no qual se buscam respostas a questões tão pertinentes como “o que é uma Ilha”, “o que é estar dentro e estar fora de uma Ilha”, “como é viver num espaço onde as janelas se abrem para muros e as vidas se tecem em arquipélagos de corredores estreitos”, “que memórias perduram inscritas nas pessoas e nas paredes das casas” ou “onde nos cruzamos nesta cidade feita de Ilhas – Casas e Ilhas – Pessoas”.


As respostas encontram-se, em grande medida, nas imagens belíssimas que ilustram esta exposição, nos textos, escritos pelos mais novos, que consubstanciam pela palavra o sentido das imagens e ainda nos registos audio com as impressões de alguns habitantes. “Ilha” é, se quisermos, uma forma de alertar para um problema real e que urge resolver; mas é sobretudo, neste espaço do Centro Português de Fotografia e com este enquadramento, uma excelente exposição, delicada e sensível, que aborda uma temática dura e que o faz de forma equilibrada, entre a proximidade necessária e o distanciamento que se exige. Ou, como diz o fotógrafo em entrevista ao Jornalismo Porto Net [AQUI], “foi uma atitude de alerta, de denúncia, de usar a fotografia como mensagem para não se mudar o mundo, mas se calhar mudar uma vírgula – o que faz toda a diferença”. A ver, forçosamente!