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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Imagens Cativas” | Daniel Mordzinski



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Imagens Cativas”,
de Daniel Mordzinski
Curadoria | Patrícia Reis
Centro Português de Fotografia
25 Jun > 05 Out 2026


Entre os dias 24 e 29 de Junho, o Porto viveu uma relação particularmente feliz com a literatura. O BABELL, evento que chamou à cidade escritores, leitores, ideias e diferentes formas de pensar a literatura, revelou-se muito mais do que uma sucessão de encontros ou uma circunstância de calendário: foi, sobretudo, uma proposta cultural de inequívoco alcance, pela dimensão da programação e, sobretudo, pela qualidade e refinamento das propostas. Numa cidade que tem sabido afirmar-se como território de cultura, a literatura encontrou aqui uma casa aberta, capaz de acolher vozes, geografias e sensibilidades muito distintas, aproximando autores e públicos sem abdicar da variedade, qualidade e exigência. É num vasto programa paralelo, feito de exposições, conversas e outras derivações da palavra escrita, que vamos encontrar “Imagens Cativas”, exposição de fotografia que, até 05 de Outubro, toma conta de uma das salas do Centro Português de Fotografia. Num edifício onde a imagem se cruza historicamente com a ideia de memória, o fotógrafo argentino Daniel Mordzinski propõe-nos uma galeria de rostos que nos vêm dizer que a literatura, quando aberta a outras linguagens, pode ganhar novas formas de presença, de diálogo e de descoberta.

É a segunda vez que me encontro diante das fotografias de Daniel Mordzinski. A primeira foi em Lisboa, em Fevereiro de 2022, na exposição “Navegantes da Jangada de Pedra”, integrada nas “Correntes d’Escritas”. Se então a impressão dominante era a de uma extraordinária viagem pela literatura ibero-americana, “Imagens Cativas” confirma e aprofunda aquilo que torna Mordzinski um fotógrafo singular: a sua capacidade de fazer do retrato muito mais do que um registo documental. Há uma técnica apurada, naturalmente, um domínio admirável da luz, do enquadramento, do espaço e do instante, mas é na relação com o retratado que a sua arte verdadeiramente se cumpre. O artista não parece fotografar escritores; parece conversar com eles através da câmara. Dessa conversa nasce uma cumplicidade que lhes permite abandonar, por instantes, a pose previsível do autor consagrado. É então que surgem o gesto inesperado, o olhar oblíquo, o sorriso suspenso, a expressão de inquietação ou de ironia. Pequenos sinais que, nas suas mãos, deixam de ser acaso para se transformarem em narrativa. O fotógrafo dos escritores é, afinal, também um fotógrafo das suas máscaras e das personagens que por detrás delas se escondem.

A força de “Imagens Cativas” reside precisamente nesta ligação tão especial entre fotógrafo e fotografado. Diante de Gabriel García Márquez, Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Margaret Atwood, Isabel Allende ou Mario Vargas Llosa, entre tantos outros, não estamos apenas perante retratos de homens e mulheres que a literatura tornou célebres. Estamos perante uma espécie de prolongamento visual das suas obras. Mordzinski possui o raro dom de encontrar, no corpo do escritor, qualquer coisa da criatura que este criou, como se uma personagem pudesse, por instantes, atravessar a fronteira da ficção e instalar-se no rosto, no gesto ou na postura do seu criador. São pequenas narrativas, quase contos comprimidos no instante de um click, que fazem com que cada retrato contenha uma pergunta sobre o autor e a sua obra. Daniel Mordzinski fotografa pessoas, mas procura personagens; fotografa rostos, mas interroga imaginários. Fá-lo com uma delicadeza reveladora, conseguindo que aqueles que tantas vezes vimos como nomes nas capas dos livros regressem, por um instante, à condição humana de quem nos olha nos olhos e, através desse olhar, se revelem nas personagens que aprendemos a amar.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Vivian Maier - Antologia” | Vivian Maier



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Vivian Maier - Antologia”,
de Vivian Maier
Curadoria | Tessa Demichel
Produção | Terra Esplêndida
Centro Português de Fotografia
27 Mar > 30 Ago 2026


Mais do que assinalar o centenário do nascimento de Vivian Maier, esta exposição antológica parece convocar um fantasma. Nas mais de cento e quarenta imagens, a artista surge-nos não como biografia resolvida, mas como rasto, como uma sucessão de provas materiais de uma existência que se quis lateral ao mundo. Há, desde logo, um paradoxo inaugural nessa obra gigantesca: meticulosamente acumulada e simultaneamente subtraída ao olhar do público, a exposição não dissolve esse enigma, antes o intensifica ao organizar-se em núcleos que sugerem coerência onde talvez tenha existido apenas pulsão. O visitante atravessa as quatro amplas salas do Centro Português de Fotografia como quem percorre um arquivo íntimo violado pelo acaso, recordando que tudo começou com um leilão, um gesto administrativo que abriu uma caixa de Pandora visual. A curadoria opta por não explorar em excesso esta origem, preferindo deixar que as imagens sustentem o peso da revelação. E sustentam-no: cada fotografia parece conter uma reserva de silêncio, como se tivesse esperado décadas pelo instante de ser vista.

No núcleo mais formalista, percebe-se que Vivian Maier, mais do que procurar apenas o mundo, procurava um sistema de o ordenar. O enquadramento frontal, a economia de elementos ou a geometria quase involuntária dos objectos apontam para uma disciplina do olhar que roça a obstinação. Há imagens em que o referente se esvazia, cedendo lugar a linhas, ritmos, tensões discretas. Poder-se-ia acusar esta abordagem de frieza, de uma certa indiferença ao “assunto”, mas seria talvez ignorar que, na artista, a forma é já um princípio ético. Fotografar de frente, medir distâncias, insistir na justeza do equilíbrio, são gestos que recusam tanto o sentimentalismo como a dramatização. A exposição põe o dedo na ferida ao sublinhar esta dimensão, mostrando como o formalismo não é fuga, mas método de aproximação. Ao reduzir o mundo a relações visuais essenciais, Maier parece dizer que ver é, acima de tudo, escolher onde termina o excesso.

O núcleo dedicada aos retratos — sobretudo de mulheres, idosos, sem-abrigo — faz com que a tensão se desloque. Palavra-chave da prática artística de Vivian Maier, a distância torna-se ambígua, basculando entre a protecção e a intrusão. Há imagens roubadas, de relance, onde o sujeito permanece resguardado por uma espécie de véu invisível; noutras, o confronto é directo, quase brusco, como se a fotógrafa testasse os limites da tolerância alheia. Este jogo de aproximação e recuo expõe uma ética instável, por vezes desconfortável, que a exposição não procura suavizar. Pelo contrário, deixa ver a assimetria social inscrita em muitos destes encontros, bem como uma certa identificação com os mais vulneráveis e a ironia dirigida aos que exibem um ar ostentatório. Importa reconhecer que Vivian Maier é tudo menos inocente. A sua câmara participa, interfere, provoca. Nessa fricção ganham os retratos espessura, mostrando-se não apenas como documentos, mas acontecimentos. Reflexo, sombra ou silhueta, são inúmeros os casos em que a própria artista faz questão de se infiltrar na imagem, contaminando o rosto do outro com a sua presença espectral, como se todo o retrato fosse, inevitavelmente, um autorretrato disfarçado.

Há ainda um conjunto de secções dedicadas aos autorretratos, à rua e à infância que completam o percurso com uma espécie de declaração tácita: fotografar era, para Vivian Maier, uma forma de existir. Nos espelhos, vitrinas e poças de luz, a sua figura surge fragmentada, recusando a frontalidade, como se a identidade fosse sempre um desvio. Nas ruas de Nova Iorque e Chicago, a multidão transforma-se em matéria dramática mínima — gestos, olhares, roupas — onde o extraordinário se infiltra no banal sem grande alarde. E nas crianças, talvez por afinidade biográfica, encontra-se uma suspensão rara, um território onde o olhar é abertura, mas pode ser também defesa. A passagem à cor e ao filme, já tardia, introduz uma leveza inesperada, quase lúdica, sem romper com a lógica anterior, antes prolongando-a, como se a experiência cromática fosse apenas outra maneira de testar o real. No fim, a exposição deixa uma impressão persistente: a de que Maier nunca procurou “fazer obra”, mas sim habitar o intervalo entre ver e ser vista. Nesse intervalo, incerto e fértil, o seu trabalho não cessa de nos interpelar.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Presença Cigana em Portugal. Retrospetiva 1983-2023” | Louise Samson



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Presença Cigana em Portugal. Retrospetiva 1983-2023”,
de Louise Samson
Centro Português de Fotografia
07 Mar > 07 Jun 2026 


“Presença Cigana em Portugal. Retrospetiva 1983-2023”, de Louise Samson, afirma-se como um corpo de trabalho de invulgar densidade humana e rigoroso formalismo. Desde logo, pela qualidade plástica das imagens, trabalhadas num preto e branco saturado, de contrastes firmes e sem concessões decorativas, cada enquadramento revelador de um cuidado extremo e de uma consciência aguda do espaço. Mas sobretudo porque, no encontro entre fotógrafa e retratados, encontra a exposição a sua força maior: há aqui um compromisso evidente com um tempo de escuta e de presença que se traduz numa frontalidade desarmante dos olhares. As figuras não se furtam à câmara; pelo contrário, enfrentam-na, num gesto de confiança conquistada, que confere às imagens uma intensidade rara e uma verdade que escapa ao mero registo documental.

Esse vínculo prolongado, iniciado em 1983 e retomado quatro décadas depois, permite à autora construir uma narrativa que oscila entre a memória e a permanência. Se, por um lado, as fotografias testemunham a passagem do tempo — crianças tornadas pais, e depois avós, famílias transformadas e dispersas —, por outro lado insinuam uma continuidade quase imutável das condições de vida e das estruturas comunitárias. Essa aparente impermeabilidade ao progresso, longe de se reduzir a um estereótipo, emerge aqui como uma constatação inquietante, reforçada pela repetição de gestos, de espaços exíguos, de relações densas. Ao espectador é sugerido um fora de campo amplo, povoado de histórias não ditas, que amplia o alcance de cada imagem. Elementos dissonantes — por vezes cómicos, outras vezes perturbadores — irrompem na composição e quebram qualquer leitura linear, convocando uma atenção mais demorada e uma interpretação mais exigente.

Neste sentido, o trabalho de Louise Samson inscreve-se numa linhagem maior da fotografia documental e humanista, aproximando-se de nomes como Henri Cartier-Bresson, W. Eugene Smith, Sebastião Salgado e, de forma particularmente evidente, de Josef Koudelka. Tal como estes, Samson recusa o exotismo fácil e a dramatização gratuita, optando antes por uma imersão paciente que lhe permite captar a intimidade e a complexidade de uma comunidade historicamente marginalizada. O resultado é simultaneamente um documento e um gesto poético: um arquivo vivo de afectos, tensões e resistências. Mais do que uma retrospectiva, esta exposição apresenta-se como um espaço de relação e de escuta, o visível revelado apenas como superfície de uma experiência mais vasta, que interpela o olhar e convoca a consciência.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “África vista por duas gerações, 1938–1995” | Carol Alexander Schade, Ernst Schade



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “África vista por duas gerações, 1938–1995”,
de Carol Alexander Schade e Ernst Schade
Centro Português de Fotografia
07 Mar > 28 Jun 2026


No vasto território das artes, não é raro encontrarmos linhagens em que o gesto criativo se transmite na forma de herança invisível, o talento como que inscrito no próprio código genético da família. Pense-se, por exemplo, na cumplicidade pictórica entre Pieter Bruegel, o Velho e Pieter Bruegel, o Novo, ou na forma como François Truffaut influenciou toda uma geração, incluindo aqueles que, não sendo seus descendentes directos, herdaram o seu olhar. No caso de “África vista por duas gerações, 1938–1995”, patente no Centro Português de Fotografia, essa transmissão assume contornos literais. Carol Alexander Schade e Ernst Schade, pai e filho, partilham não apenas um vínculo familiar, mas uma mesma urgência em fixar o mundo através da imagem. De mão em mão, de olhar em olhar, a exposição constrói-se como um espaço de ressonâncias onde o tempo não separa, antes aproxima, dois modos de ver que, embora distintos, dialogam numa linguagem comum: a da fotografia enquanto instrumento de memória e testemunho.

O percurso de Carol Alexander Schade, iniciado em 1938 com a travessia do continente africano, inscreve-se numa tradição documental que hoje reconhecemos como profundamente marcada por um impulso etnográfico. As suas imagens, captadas num momento charneira do século XX, revelam uma atenção minuciosa aos modos de vida, às paisagens humanas e naturais, compondo um arquivo visual que oscila entre o fascínio exploratório e a tentativa de sistematização do outro. Há, nelas, uma certa distância — própria do olhar europeu da época —, mas também um inegável rigor na construção de um registo que, décadas mais tarde, se tornaria precioso para a compreensão de realidades entretanto transformadas ou desaparecidas. Em contraponto, Ernst Schade desloca o eixo da representação para um território mais íntimo e implicado. O seu trabalho, desenvolvido sobretudo em contextos pós-coloniais e de conflito, adopta um olhar declaradamente humanista e sociológico, onde a imagem deixa de ser apenas documento para se afirmar como relação. Ao contrário do pai, Ernst não observa de fora: aproxima-se, escuta, constrói confiança, fazendo da fotografia um acto de encontro.

É precisamente nesse confronto — entre a distância analítica de Carol e a proximidade ética de Ernst — que a exposição encontra a sua maior força. As imagens dialogam não apenas pelo que mostram, mas pelo modo como interrogam o próprio acto de representar o outro. Se o pai se revela eminentemente etnográfico, interessado em catalogar e compreender, o filho emerge como um observador sociológico, atento às dinâmicas de poder, às cicatrizes da história e às possibilidades de reconstrução. A guerra civil moçambicana, os fluxos de refugiados ou o quotidiano na Guiné-Bissau surgem, nas fotografias de Ernst, não como meros acontecimentos, mas como experiências vividas, partilhadas e, em certa medida, co-construídas com os retratados. Ao colocá-los lado a lado, o Centro Português de Fotografia não se limita a apresentar duas obras: propõe uma reflexão sobre a evolução do olhar europeu sobre África e, mais amplamente, sobre o papel da fotografia enquanto ferramenta crítica. Entre arquivo e contemporaneidade, entre herança e reinvenção, esta mostra afirma-se como um exercício de memória activa, cada imagem a convocar não apenas o passado, mas a responsabilidade de o interpretar no presente.

sábado, 22 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “100 Anos de Gérard Castello-Lopes”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “100 Anos de Gérard Castello-Lopes”,
de Gérard Castello-Lopes
Colecção Nacional de Fotografia
Centro Português de Fotografia
25 Out 2025 > 04 Jan 2026


Celebrar o centenário de Gérard Castello-Lopes no Centro Português de Fotografia é revisitar a génese silenciosa, mas decisiva, de um dos olhares mais singulares da fotografia portuguesa do século XX. Entre a inquietação intelectual e a discrição quase monástica, Gérard Castello-Lopes construiu uma obra marcada pela reflexão sobre o acto de ver: “Trata-se, claro, dum olhar fotográfico”, escreveria em artigo para a revista INDY, do já extinto jornal O Independente. A “dúvida” (assim se intitulava o artigo) acompanhou-o toda a sua vida. Haveria ou não um “olhar português”, parecia perguntar-se na forma como identificava as posturas mínimas, os gestos ínfimos, a verdade de um país. A fotografia do homem que, de costas, lê a tabela do comboio Lisboa–Sintra é paradigmática: não vemos a face, mas adivinhamos a história: O viajante vindo “de fora”, o melhor fato vestido, as mãos atrás das costas a segurar talvez a merenda. Gérard reconhece ali o que um estrangeiro dificilmente veria: a coreografia íntima do quotidiano português. É a isso que esta exposição regressa, ao modo como um fotógrafo, que começou a fotografar em 1956, soube distinguir o peso simbólico de cada gesto num país fechado e desigual, muito antes de Portugal se descobrir a si próprio através da imagem.

A carreira fotográfica de Gérard Castello-Lopes teve um início precoce e uma longa interrupção. Nos anos 50, a repressão estética e moral do Estado Novo e a hegemonia dos “academismos de salão” — aqueles salões onde se repetiam eternamente a ponte no nevoeiro, a loira intitulada Ingrid ou o seio casto da modelo paga à hora — afastaram-no do meio fotográfico. “Enfiei a Leica no saco”, confessará mais tarde. Só uma geração depois, em 1982, António Sena baterá à sua porta e “arrombará a arca” onde as fotografias jaziam esquecidas. “Vale Tudo Menos Tirar Olhos”, a primeira exposição na galeria Ether, marca o renascimento inesperado de um autor que regressa ao mundo artístico com a serenidade de quem nunca precisou de provar nada. Sena e Gérard coincidem na crítica à mediocridade e à censura dos júris oficiais entre 1910 e os anos 60, mas divergem no tom: Gérard é irónico, mordaz, irritado ainda com a “escatológica dieta” dos salonistas; Sena é metódico, historiográfico, quase militante na reconstrução de uma memória fotográfica portuguesa. Ao voltar a fotografar, já nos anos 80, Gérard Castello-Lopes procura um novo princípio: ver “como se fosse a primeira vez”. No Guincho, diante de uma pedra iluminada por um milagre de luz e mar, encontra a revelação de “fotografar o peso e o seu contrário”. A obra tardia nasce desta simplicidade sublime.

A presente exposição no Centro Português de Fotografia reúne não apenas a obra inicial, mas também os frutos de um percurso que, após 1982, se multiplicou em livros, documentários e projectos de redescoberta do país. O regresso a Monsaraz, em 2001, é talvez o episódio mais tocante da sua maturidade: revisitara o local onde fotografara, em 1963, na companhia de João Cutileiro, e encontra agora uma comunidade capaz de identificar todas as figuras retratadas trinta e sete anos antes. “Invadiu-me a saudade dum paraíso onde toda a gente se conhece”, escreveu a propósito. Essa capacidade de gerar reconhecimento, primeiro no fotógrafo, depois nos fotografados, é uma das marcas essenciais do seu trabalho e reforça a pertinência do tal “olhar português” que o acompanhou como dúvida existencial. Gérard Castello-Lopes fotografava de modo atento, anti-retórico, centrado na dignidade das pessoas e na delicadeza das situações banais. Não buscava o pitoresco, mas a intensidade silenciosa do real. Ao visitante desta mostra pede-se, como o artista pedia, benevolência e disponibilidade: olhar para as imagens não como documentos de época, mas como actos de percepção que decifram um país. Ao fazê-lo, talvez descubramos que essa dúvida — a existência de um certo “olhar português” — é menos uma questão teórica e mais um convite a ver o que sempre esteve diante de nós.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "P25"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “P25”,
de Anna Costa, Beatriz Barbedo Ferro, Beatriz Neves, Carina Sousa, Catarina Paranhos, juliana Freitas, Leida Dupret, Leonardo Rodrigues, Miglé Rugėnaitė, Ricardo Moita, Telma Araújo
RAVE Escola Superior de Media Artes e Design
Centro Português de Fotografia
12 Jul > 05 Out 2025


O ciclo de estudos em Fotografia da Escola Superior de Media Artes e Design visa dotar artistas e fotógrafos de competências e capacidade crítica para desenvolver o discurso fotográfico nas suas diversas vertentes, tanto profissionais como autorais. A aposta vai no sentido de uma forte componente prática que permita a aquisição de competências técnicas e incentive a experimentação e o desenvolvimento autoral. A componente teórica visa desenvolver capacidades discursivas e críticas, bem como uma consciência histórica e política, que incentive nos estudantes uma prática inovadora e desafiante. Face às rápidas e sucessivas transformações no domínio da imagem e, por conseguinte, nos paradigmas da fotografia, a Escola oferece um leque alargado de unidades curriculares que possibilitam a transdisciplinaridade entre a fotografia e áreas que permitem a exploração de outros “media” e formatos que são fundamentais para um discurso fotográfico contemporâneo.

Tal como vem acontecendo de há uns anos a esta parte, uma selecção de trabalhos desenvolvidos pelos estudantes da licenciatura em Fotografia está agora patente ao público na sala Aurélio da Paz dos Reis, no Centro Português de Fotografia. Integrada na RAVE, mostra anual de finalistas das diversas licenciaturas da Escola Superior de Media Artes e Design do Politécnico do Porto, a exposição “P25” reflecte a multiplicidade de abordagens, numa lógica conceptual que pretende valorizar a ideia por detrás da imagem. Aquilo que podemos ver nas séries de Anna Costa, Beatriz Barbedo Ferro, Beatriz Neves, Carina Sousa, Catarina Paranhos, Juliana Freitas, Leida Dupret, Leonardo Rodrigues, Miglė Rugėnaitė, Ricardo Moita e Telma Araújo é a apropriação da fotografia como meio para refletir sobre temas que vão da à política, passando pela memória, as questões de género, a ecologia, a tecnologia e outros.

Ao olhar do visitante não escapa a poética do silêncio, da banalidade, da vivência dos lugares “corpo-a-corpo” que Leonardo Rodrigues imprime ao seu “Último Dia”. Como não escapa a zona de confluência entre o olhar comum e o científico de Beatriz Neves, em “Celsius”, onde a imagem previsível e convencional abraça uma dimensão espectral, explorando a presença invisível nas performances musicais. Catarina Paranhos mostra, em “Place of Unrest”, o retrato como ferramenta de afirmação política e reflexão sobre a condição feminina na sociedade contemporânea. Também Carina Sousa, com “Corpóreo”, pousa o seu olhar na mulher, ao encontro do corpo feminino na sua forma mais autêntica, celebrando a força e a dignidade do corpo enquanto desafia padrões de beleza que muitas vezes moldam a nossa auto-imagem. Em “The Culture and Transformation of Funeral Photography in Lithuania”, Miglė Rugėnaitė explora as mudanças culturais, históricas e tecnológicas da fotografia funerária Lituânia, outrora uma prática comum e que hoje persiste apenas informalmente, graças aos telemóveis. Isto e muito mais para ver até 05 de Outubro.

sábado, 9 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Lázaro"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lázaro”,
de Bárbara Fonte, Bruno Silva, Estefânia r. e Veredas
Centro Português de Fotografia
19 Jul > 26 Out 2025


Bárbara Fonte, Bruno Silva, Estefânia r. e Veredas apresentam Lázaro, instalação desenvolvida a partir de um processo colaborativo que teve início em 2021 e se prolongou até 2025. Tomando o Jardim de São Lázaro, no Porto, como ponto de partida, o grupo trabalhou com fotografia, performance e paisagem sonora para escutar e transfigurar o espaço público entendido aqui como lugar de fricção, memória, resistência e fabulação. Para todos, este jardim foi, e continua a ser, um lugar de fantasia visual. Entrou nas suas vidas antes da idade adulta, num tempo ainda por definir entre a infância e juventude. Lugar real, mas também moldura imaginária, Lázaro emerge agora como espaço de reencontro com esse tempo, com os seus enigmas, os seus afectos e a sua potência de reinvenção.

Nada aqui é suposto. Tudo se aventura no desequilíbrio, num território onde o caos não é ruína, mas princípio organizador. A exposição não propõe uma síntese nem uma unidade, mas uma convivência densa entre linguagens, corpos e imaginários. O colectivo afirma-se não como fusão, mas como campo de tensão onde cada gesto se inscreve com a sua singularidade. Lázaro não representa: convoca. Recria um espaço onde o real e o imaginado se contaminam, onde a cidade se torna matéria viva de escuta e reconfiguração. A instalação emerge como corpo aberto, numa espécie de organismo em variação contínua, onde dispositivos e narrativas se implicam mutuamente, sem hierarquia. Entre camadas visíveis e latências sonoras, entre presença e rasto, entre anjos caídos e promessas de ressurreição, Lázaro evoca uma entrega radical: talvez uma petite mort, talvez uma folia, talvez o abandono necessário à metamorfose.

[Extraído da Folha de Sala da exposição]

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Inocentes” | Garcia de Marina



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Inocentes”,
de Garcia de Marina
Curadoria | Aitor Martínez Valdajos
Centro Português de Fotografia 
19 Jul > 12 Out 2025


À semelhança dos peões num jogo de xadrez, o povo é frequentemente subestimado nas estruturas de poder. No entanto, são essas peças aparentemente fracas que, com estratégia e perseverança, podem atravessar o tabuleiro e transformar-se em rainhas. Pequenos, descartáveis, lançados às feras nos mais variados contextos, são os peões que abrem o jogo, que protegem as demais peças e progridem até ao fim para alterarem o rumo da partida. No preto e branco quotidiano, talvez sejam percebidos como apenas mais um na multidão de peças empurradas pela vida. Mas não desistem do sonho de virem a cruzar o tabuleiro dos dias, vencendo as diagonais da injustiça e, quem sabe, chegando ao fim convictos de terem sido a chave de um glorioso xeque-mate. Garcia de Marina chama-lhes “inocentes”, faz deles o fulcro da sua fotografia e eleva-os à categoria de agentes decisivos nos mais variados contextos, do político ao social, do filosófico ao lúdico. “Inocentes”, que fazem título de uma exposição apresentada pela primeira vez em Portugal, uma série de enorme impacto, situada no domínio criativo da poesia visual.

O povo unido jamais será vencido. Inscrita de forma tão vincada no ideário da liberdade, a frase ocorre com inusitada frequência ante a força e o significado das imagens que vão desfilando ao olhar do visitante. Apresentada como um diálogo entre o observador e a imagem, “Inocentes” revela, através da fotografia, o labor criativo de Garcia de Marina, assente numa perspectiva conceptual e minimalista. A sua visão distingue-se pela busca do complexo numa simplicidade apenas aparente. Ao trazer para fora do contexto um objecto tão banal como o peão, o artista transpõe os limites da realidade e das convenções, criando imagens cuja natureza instigante, sentido crítico e humor refinado, provocam o espectador, forçando-o a exercitar a mente, a romper com os estereótipos e a descobrir novas ideias e sentidos. Despojados da sua essência, prontos para serem reinventados, os inocentes de Garcia de Marina assumem uma desassombrada irreverência, desafiando o óbvio, apontando novos caminhos e chamando a atenção para a força dos mais fracos.

O All About Photo chamou-lhe “poeta do prosaico”, o Humor Sapiens rendeu-se às suas “metáforas visuais” e o Photo Chismes quis saber “onde termina a fotografia e começa o próprio sujeito”. Nascido em Gijón, em 1975, Garcia de Marina emergiu de uma profunda transformação aos 35 anos, altura em que uma paixão adormecida pela fotografia cruzou as barreiras da intimidade e deu início a uma carreira brilhante. Em Avintes, no âmbito do Festival iNstantes de 2023, o fotógrafo trouxe-nos “A Halt to Survive (Pandemic Times)”, um olhar inteligente e acutilante sobre os tempos pandémicos e que teve uma oportuna reposição no Centro de Reabilitação do Norte, em Março deste ano. De regresso ao nosso país, o artista mostra no Centro Português de Fotografia aquela que é a sua série mais comprometida, repleta de narrativas e significados não imediatamente perceptíveis. Num tempo em que testemunhamos diariamente o intensificar dos conflitos armados, das desigualdades e das discriminações, “Inocentes” expressa a urgência de continuar a defender os valores da liberdade, da justiça e da paz.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Retratos com Nome Próprio" | Georges Dussaud



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Retratos com Nome Próprio”,
de Georges Dussaud
Centro Português de Fotografia
19 Jul > 26 Out 2025


Georges Dussaud está de regresso ao Centro Português de Fotografia. Apaixonado por Portugal, vem desenvolvendo, desde o início da década de 1980, um conjunto de trabalhos marcados pela fotografia humanista, através dos quais se manifesta o olhar de um viajante atento às peculiaridades dos lugares e das gentes, da nossa cultura e tradições. A exposição que podemos agora apreciar traz-nos um conjunto de quinze “retratos com nome próprio”, resultantes de um trabalho que teve o seu início em Novembro de 2007 e que foi desenvolvido em paralelo com uma vasta reportagem sobre a cidade do Porto, a convite do Município e do departamento cultural do consulado da França. Sérgio C. Andrade, jornalista, acompanhou então o fotógrafo, servindo-lhe de cicerone numa cidade que conhece bem. São dele as palavras que podemos ler na Folha de Sala da exposição e que recordam esses momentos.

São palavras de Sérgio C. Andrade: “Em Novembro desse ano [2007], desafiado a fotografar o Porto, Georges Dussaud pediu-me que lhes servisse de guia [a Georges e à sua “inseparável e amável companheira, Christine”]. Interessava-lhe a cidade, mas principalmente as pessoas - a gente na rua, nos jardins, nos mercados, nas lojas, nas janelas e nas casas; mas também algumas das personalidades das artes e da cultura. As primeiras foram reveladas na exposição exibida na Primavera / Verão de 2009, no mesmo Centro Português de Fotografia [no âmbito do ciclo “Invisões – Portugal visto pelos fotógrafos franceses”], e fizeram a partir daí um longo caminho que só veio confirmar - se isso fosse necessário - o olhar único de Dussaud, o modo como capta a humanidade de uma cidade inteira, uma cidade de luz e sombra espelhadas no granito entre o Douro e o mar. Os retratos são agora objecto desta exposição mais íntima (…).”

Agustina Bessa-Luís, Álvaro Siza, João Fernandes, José Rodrigues, Júlio Resende, Manoel de Oliveira, Manuel António Pina, Mário Cláudio, Miguel Veiga, Pedro Abrunhosa, Pedro Burmester, Rui Moreira, Rui Reininho, Sérgio C. Andrade, Teresa Siza. Podiam ser outras tantas figuras, e outras ainda. As circunstâncias e algum acaso fizeram com que fossem estas as figuras que Georges Dussaud pôde (e quis) fotografar então com a sua Leica afectiva. O resultado é magnífico, de cada uma das imagens transparecendo a forte relação de cumplicidade e confiança gerada entre o fotógrafo e os sujeitos fotografados. Como parte fundamental das imagens, os ambientes queridos a cada um dos retratados conferem ao todo um forte pendor intimista, permitindo-nos apreciar figuras tão nossas (algumas delas já desaparecidas) como nunca as tínhamos visto. De entrada livre, a exposição pode ser vista até 26 de Outubro.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Claudia Andujar & Os Yanomami” | Claudia Andujar



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Claudia Andujar & Os Yanomami”, 
de Claudia Andujar
Curadoria | Thyago Nogueira
Bienal ’25 Fotografia do Porto
Centro Português de Fotografia
15 Mai > 29 Jun 2025


Claudia Andujar nasceu na Suíça em 1931 e cresceu na Transilvânia numa família de origem judaica e protestante. Sobrevivente do holocausto, estabeleceu-se no Brasil em 1955, onde começou uma carreira de sucesso como fotojornalista, vindo a desenvolver um corpo de trabalho focado em comunidades marginalizadas e vulneráveis. Em 1971, a artista encontrou os Yanomami pela primeira vez, compondo uma série de registos para a revista “Realidade”. Nos seis anos seguintes, Claudia Andujar desenvolveu um extenso projecto fotográfico com este povo, distanciando-se do estilo documental para experimentar novas técnicas fotográficas. Nesse período, fotografou os elementos da comunidade nas suas casas colectivas e acompanhou-os na floresta nas mais diversas actividades, da apanha de frutos às expedições de caça. O animismo fascinou-a, levando-a a esforçar-se por evocar visualmente a experiência xamânica. Adoptou uma lente grande-angular, aplicando vaselina na lente de sua câmara, e usou filme infra-vermelho e filtros coloridos, com o propósito de imbuir as imagens de uma atmosfera onírica. Fez também múltiplas exposições, para sobrepor várias cenas no mesmo quadro, sugerindo a presença de muitas pessoas e a conexão espiritual partilhada.

No começo dos anos 1970, a ditadura militar brasileira lançou um programa com o objectivo de abrir a Amazónia e explorar os seus recursos minerais e agropecuários. A situação deteriora-se rapidamente quando as terras Yanomami são invadidas por quarenta mil garimpeiros. Mais de 15% da população morre de malária e outras doenças. Andujar enceta uma campanha de denuncia desta situação, sendo expulsa do território pelo governo militar. Esta decisão apenas reforçou o seu activismo, levando-a a colocar de lado a carreira artística para se dedicar à defesa dos direitos territoriais e culturais dos povos indígenas através da criação da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY). Em 1980, a CCPY inicia uma campanha de vacinação como parte de um programa de saúde para imunizar os Yanomami contra as doenças trazidas, como tuberculose, malária, coqueluche e gripe. Para facilitar a identificação das pessoas de diferentes comunidades, os médicos desenvolveram um sistema em que cada indivíduo era fotografado com uma placa em volta do pescoço indicando o seu número no boletim de saúde. Em 2005, impactada ao perceber que as placas com números poderiam ser associadas às estrelas amarelas e tatuagens das vítimas do Holocausto, Andujar revisitou esses retratos, desenhando um paralelismo com a sua própria experiência.

Nesta exposição agora patente na Sala Aurélio da Paz dos Reis do Centro Português de Fotografia, é possível acompanhar o trabalho da fotógrafa nas várias fases do seu envolvimento com a comunidade Yanomami, desde a descoberta de uma nova cultura ao amadurecimento do seu trabalho, à medida que foi passando mais tempo na floresta. Em seis ecrãs de grandes dimensões, as imagens vão-se sucedendo e relacionando-se entre si, acrescentando novos significados à fotografia da artista. Na mente do visitante fica um corpo de trabalho que se faz de resistência e luta, mas também de respeito pelo modo de vida das minorias indígenas. A instalação divide-se em dois momentos, o primeiro dos quais tem a ver com o trabalho inicial da artista, o qual traduz a beleza e complexidade da vida na floresta e a espiritualidade xamânica. Num segundo momento, acompanhamos o trabalho de reprodução fotográfica do seu arquivo, nos anos 1980, para protestar contra a demarcação fragmentada da Terra indígena Yanomami, sendo a demarcação contínua apenas homologada pelo governo em 1992. A exposição serve também de plataforma para que o povo Yanomami seja visto e ouvido fora do seu território, num momento em que a violência contra os povos indígenas e a crise climática global ameaçam as suas vidas.

segunda-feira, 10 de março de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Tipologias Oceânicas" | Janek Zamoyski



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Tipologias Oceânicas”,
de Janek Zamoyski
Centro Português de Fotografia
15 Fev > 27 Abr 2025


“Tipologias Oceânicas” é a primeira exposição a inaugurar no Centro Português de Fotografia em 2025. Apresentada em parceria com a Embaixada da República da Polónia, a mostra apresenta duas séries fotográficas de Janek Zamoyski, “Heave Away” e “Antarctic Typology”, que são o resultado de anos de exploração do Oceano como paisagem quase intocada pelo homem, após duas longas viagens de iate: uma através do Atlântico e outra à Antártida. Apresentadas em conjunto pela primeira vez em 2024, na exposição “Uncanny Valley”, em Varsóvia, ambas as séries destacam a interação entre a paisagem e a câmara fotográfica. O conjunto de imagens que pode agora ser visto no Centro Português de Fotografia, explora aquilo que podemos considerar como paisagem pós-natural, destacando o papel do artista na criação da imagem fotográfica.

“Heave Away” foi criada durante uma viagem de vinte e um dias pelo Atlântico, focando-se nas ondas do Oceano e explorando a sua estrutura, luz e cor. Uma viagem marítima de Espanha à América Latina, no rasto da segunda expedição de Colombo ao Novo Mundo, cujas imagens mostram o Oceano como uma entidade dinâmica e inatingível, onde a abstracção natural se cruza com a precisão tecnológica. Em “Antarctic Typology”, Zamoyski explora os glaciares e as ondas da Antártida, revelando a diversidade e a dualidade entre a permanência e a mutabilidade desses elementos. A série reflete o interesse do artista em revelar dimensões ocultas da paisagem. As imagens são uma forma de concretização dos pressupostos teóricos e estéticos de Zamoyski, de uma forma autónoma em relação à realidade retratada. A sua intenção não é criar arte, mas sim encontrá-la, reparar nela, apreendê-la.

Fundador do grupo Czułość, Janek Zamoyski tem vindo a redefinir a fotografia ao rejeitar as categorias clássicas da imagem documental. O grupo, activo entre 2010 e 2020, foi uma plataforma de experimentação artística em Varsóvia, promovendo a fotografia como meio autónomo, aberto à tecnologia e ao discurso contemporâneo. O trabalho de Zamoyski, apresentado em prestigiados eventos como a Paris Photo, procura novas formas estéticas e conceptuais na fotografia contemporânea. As imagens patentes no CPF evidenciam o esforço do artista em perceber a linha ténue que separa a fotografia da pintura. As suas imagens falam da procura de novas ideias, do abandono das formas estabelecidas, bem como da liberdade e da abertura de espírito. O que o artista evidencia com as suas imagens é o quão infinito, vivo e flutuante o Oceano pode ser, mudando constantemente a sua superfície, mas permanecendo coerente apesar da sua diversidade.

sexta-feira, 7 de março de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ezequiel de Campos - 150 Anos do Nascimento”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ezequiel de Campos - 150 Anos do Nascimento”
Centro Português de Fotografia
12 Dez 2024 > 27 Abr 2025


Engenheiro, professor catedrático, economista, escritor, deputado e ministro, Ezequiel de Campos nasceu na Póvoa de Varzim, a 12 de dezembro de 1874. Mas é na qualidade de fotógrafo que vamos ao seu encontro, numa altura em que passam 150 anos sobre a data do seu nascimento e o Centro Português de Fotografia decide comemorar a data, evocando o seu trabalho. Produzida com imagens do seu acervo fotográfico, doado em 2016 pela família, a exposição documenta os locais por onde passou e onde viveu ao longo da sua vida. Realizadas após a idade adulta, com o início da sua vida profissional, as fotografias documentam os locais por onde passou e onde viveu ao longo da sua vida. Este lado documental transforma-o numa espécie de antropólogo visual, na esteira de nomes importantes da fotografia e do cinema como Robert Flaherty, Margaret Mead ou Jean Rouch. Ilustram esta realidade as imagens de S. Tomé e Príncipe, nomeadamente a instalação do caminho-de-ferro, a vida nas roças ou o reconhecimento e medição do Pico do Cão, onde foi pioneiro a chegar.

De âmbito paisagístico, agrícola, social e etnológico, as imagens da sua Beiriz natal, reflectem um forte apego à terra e às suas gentes, ao trabalho e à família, sem esquecer o cão Piloto. O Paço de Leça do Balio, local escolhido para morada de família, é outra das evidências, destacando-se as obras de reconstrução da Casa do Mosteiro e as práticas da lavoura. Da exposição fazem também parte algumas fotografias da cidade de Évora, onde viveu e se dedicou à agricultura, dos rios Douro, Cávado, Tejo e Ribacoyo e também da cidade do Porto. Curiosamente, as poucas fotografias da cidade invicta documentam a zona da Ribeira, o Muro dos Bacalhoeiros e a montagem de candeeiros na Praça de Carlos Alberto, em 1925, facto que à época determinou a publicação de notícia e ilustração jocosa no jornal humorístico “Córócócó”. Estão também documentadas duas viagens, uma designada de “estudantes”, que poderá ter ocorrido após a conclusão do curso, e outra de “professores”, em 1940.

Mesmo considerando que as narrativas que suportam cada uma das imagens parecem ser ingénuas e meramente ilustrativas, facto hoje amplamente criticável como uma utilização reducionista da imagem, uma simples “prova” do “eu estive lá”, as fotografias parecem contrariar essa apropriação reducionista, abrindo-nos a possibilidade de perceber um olhar outro que retorna ao antropólogo. Ao vermos a troca de olhares entre fotógrafo e fotografados, a disposição dos corpos em relação a uma cena que se constrói, um fora de campo que se insinua, somos despertados pelas imagens para uma sensação provocadora: a de que o uso seminal da fotografia como fenómeno provocador de reflexão antropológica aguardava ainda um olhar que não existia. Um olhar capaz de reconhecer e aprender pela e com a imagem, capaz de ler a imagem e as complexas relações que esta constrói com a realidade nela insinuada. Um olhar capaz de entender o “risco” da subjetividade ligado à imagem como uma oportunidade de ampliar o conhecimento.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Contrast III - A Fotografia no Ensino Superior"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Contrast III - A Fotografia no Ensino Superior”
Vários artistas
Centro Português de Fotografia
09 Nov 2024 > 27 Abr 2025


“Começámos por escutar o que as imagens têm para dizer. Pequenas notas que dão, através de um gesto, de uma árvore, de um edifício, de um corpo de água, de um ponto de fuga, de um signo…. Fomos à procura de representações que não nos revelassem tudo, que nos deixassem a questionar o porquê de elas existirem. A sua ressignificação surge aquando da reestruturação interpretativa da obra, um processo de indagação intuitivo e analítico que tenta compreender as intenções originais de quem a produz, sendo a sua realocação no espaço guiada pelas ideias de arquétipo e símbolo. Cada fotografia é contaminada por filtros sociais, culturais e políticos impressos na superfície ou no subtexto, algo que na sua natureza evidencia as ligações continuamente vinculativas entre a identidade do artista e as contingências da cultura e sociedade onde as suas ideias germinaram. A sofisticação e o mistério presente nas imagens alimentam uma ideia de profundidade, que advém da preocupação com as origens, ou se quisermos de um mergulho em zonas singulares da psique humana.”

As palavras de Artur Leão, um dos elementos da coordenação do projecto “Contrast”, resumem na essência os trinta e quatro trabalhos de quase meia centena de artistas, patentes no Centro Português de Fotografia, os quais, por sua vez, são o reflexo do trabalho em rede de um conjunto de iniciativas  artísticas multidisciplinares nos domínios da Arte, Arquitectura, Design e Fotografia. Contando com o envolvimento direto de doze escolas de Ensino Superior a leccionar fotografia em diversas áreas disciplinares e artísticas - ARCO, DARQ, DCAM, EA.UCP, ESAP, ESMAD, FAUP, FBAUL, FBAUP, FEUP, IPT e UL.CUP -, o projecto propõe-se actuar no campo da dinamização cultural interdisciplinar, focado na criação de obras artísticas, na programação de obras preexistentes e em acções específicas de desenvolvimento de públicos, envolvendo as instituições parceiras e comunidades locais, proporcionando a participação activa na criação e fruição das artes de diversos públicos e servindo as iniciativas propostas como territórios documentais e artísticos para diversos projectos.

Riquíssimos na sua diversidade, os vários trabalhos dialogam entre si ao encontro de novas concepções de reparar e fixar os momentos que marcam o quotidiano. Do enorme cuidado posto na disposição das imagens ao interesse e relevância dos assuntos abordados , “Contrast III” oferece todo um manancial de ensinamentos, pedindo ao visitante atenção e reflexão sobre aquilo que se oferece ao seu olhar. Projectos de fotografia documental, abordagens fotográficas à arquitectura e à paisagem, preocupações sociais e ambientais, sequências narrativas, fotojornalismo ou a exploração pura e simples do potencial artístico da fotografia com recurso às mais variadas técnicas, de tudo um pouco é possível explorar numa exposição que se apresentação sob o signo da “alteridade, ausência e origem”. Patente está também o livro que reúne as várias contribuições para esta edição do projecto [AQUI], editado pela scopio Editions e considerado um elemento essencial para o projecto “Contrast”, já que potencia a sua disseminação e garante uma memória física passível de ser consultada e estudada. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Miragaia 1975 – Vida e Luta no Pós-25 de Abril”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Miragaia 1975 – Vida e Luta no Pós-25 de Abril”,
de Humphry Trevelyan
Centro Português de Fotografia
20 Out 2024 > 09 Fev 2025


Evocado na Assembleia da República com a pompa e circunstância que a data (não) merece, o 25 de Novembro suscitou em muitos sectores da sociedade civil e da classe política reacções acesas e opiniões divergentes. Num texto partilhado na sua página do Facebook, a autora e professora Elisa Costa Pinto relata a experiência pessoal numa aula com o professor Lindley Cintra sobre o conceito de distinção entre “língua” e “fala”. Refere ela a verdadeira epifânia que foi “o momento de tomada de consciência de que a língua é uma entidade de pertença social e colectiva, um código, uma possibilidade, de certa forma uma passividade, uma inexistência, enquanto a fala é a realização, a voz individual, o poder da palavra em acção”. A partilha desta reflexão teve por base o 25 de Novembro “que foi, disso tenho a certeza, o golpe contra o direito à fala, individual e colectiva, que o 25 de Abril tinha instaurado e que nós tínhamos agarrado e exercíamos com uma surpreendente desenvoltura.”

Guiados pelo olhar do britânico Humphry Trevelyan, recuamos ao Verão de 1975 e mergulhamos no viver das gentes de Miragaia, nas suas casas estreitas, nos vãos das suas arcadas, nos muros das suas fábricas. Em cada imagem, parece-nos “escutar” aquilo que Elisa Costa Pinto lembra na referida publicação, as ruas como enxurradas de fala, as praças como palcos de fala, as fábricas, os campos, as escolas, todos os lugares como lugares de fala. É disto que “Miragaia 1975 – Vida e Luta no Pós-25 de Abril” muito justamente fala, documentando a passagem do cineasta, fotógrafo e educador na área do cinema desde 1969 pela cidade do Porto. Em Miragaia irá encontrar um grupo de jovens que tinham criado um centro comunitário numa fábrica abandonada, passando alguns dias a registar fotograficamente estes adolescentes e as suas famílias, percorrendo as ruas estreitas que subiam a colina a partir dos espaços abertos perto do Rio Douro, entrando nas suas casas e participando num quotidiano onde a agitação política em curso se faz sentir nos gestos, nas atitudes, na fala.

Com as marcas das convulsões do PREC espalhadas por toda a parte, nas paredes, no chão, Trevelyan teve oportunidade de observar um ambiente de aparente “normalidade”, a maioria dos jovens de férias, a vida de sempre nos meses de verão, com as casas cheias de crianças e adolescentes. O fotógrafo lembra que “os adolescentes estavam ansiosos para mostrar o mundo que tinham criado na fábrica abandonada que se tinha tornado um centro comunitário. Recriaram algumas das actividades desportivas em que tinham estado envolvidos no início do Verão e desenrolaram orgulhosamente a grande faixa com slogans anti-imperialistas que tinha sido carregada em manifestações.” Vale a pena visitar este outro olhar sobre um período marcante da nossa história, numa iniciativa integrada nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Uma exposição que destaca a importância da preservação da memória e do património e celebra o papel dos arquivos na salvaguarda da nossa história.

sábado, 25 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Despojos de Guerra"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Despojos de Guerra”,
de Leonel de Castro
Curadoria | NARATIVA / Mário Cruz
Centro Português de Fotografia
20 Abr > 20 Out 2024


Angola, 1961. Na madrugada de 4 de Fevereiro, guerrilheiros africanos atacam, em Luanda, a casa de reclusão militar, a cadeia administrativa de São Paulo e o Quartel da Companhia Móvel da Polícia de Segurança Pública. De Conacry, o Movimento Popular de Libertação de Angola, de Mário Pinto de Andrade e Viriato Cruzii, reivindica a autoria do ataque. Salazar responde com o envio de tropas para o Ultramar, “imediatamente e em força”, rejeitando toda e qualquer negociação, mesmo que Portugal se encontrasse “orgulhosamente só” a partir desse momento. Travada em três frentes - Angola, Moçambique e Guiné - ao longo de treze anos, a Guerra Colonial delapidará as finanças do Estado português, provocará dissensões no seio do próprio Governo, desgastará o moral das Forças Armadas, retirará braços à produção em Portugal e provocará o isolamento do país na arena diplomática mundial. O seu balanço em termos humanos é trágico: mobilização de cerca de um milhão e quatrocentos mil homens, aproximadamente nove mil mortos e trinta mil feridos e ainda cento e quarenta mil ex-combatentes sofrendo de distúrbio pós-traumático do stress de guerra.

Expostas nas paredes, estão as imagens de deficientes militares, homens então rapazes que a ditadura escondia mais do que os caixões cobertos com a bandeira nacional, porque nestes via a potencial perturbação de uma paz pública forjada de mentiras e silêncios. Manuel Ferreira, João Simão, António Pereira Neves, João Adão Neto, Silvério Jorge Rodrigues, Abel Fortuna, Armando Alves, Sá Flores, Sene Candé Bebanda, Lama Baldé, Abdu Indjai, João Manhula, Salvador Filomone, Jonas Ofisso Mate. Sanza Pombo, Nóqui, Kanacassala, Lumege, Cacuso, Gabú, Bambadinca, Catesse, Cacheu, Metangula, Mueda, Vuende, Moatise, Pemba, Nambude. Os nomes dos militares e os dos locais onde os episódios de guerra ocorreram cruzam-se em trágicas memórias. É em busca dos espaços da guerra, de outros vestígios, de outros despojos ocultados pelo tempo ou pelo mato, que Leonel de Castro parte e nos dá a ver numa mostra de enorme significado e alcance.

Ensaio de fotografia documental e, também, de recolha memorialística, “Despojos de Guerra” nasceu com os deficientes das Forças Armadas portuguesas, em particular com deficientes profundos. É um trabalho que não se esgota na guerra ela mesma, mas busca histórias de resistência e superação dos jovens soldados daquele tempo, que tiveram de lutar para a sociedade os aceitar como os homens inteiros que são. Também é um projeto que não se esgota em Portugal. Cruzando as picadas, entrando no mato e sabendo para onde olhar, é possível, em África, viajar no tempo, tantos são os testemunhos, vivos e silenciosos, do conflito. É o outro lado, menos conhecido por cá, dos que combateram pelos movimentos independentistas, em Angola, em Moçambique e na Guiné-Bissau, mas também dos africanos que integraram o Exército português. As marcas indeléveis nos corpos de homens e mulheres que, ainda crianças, pegaram em armas pela FNLA, na região angolana dos Dembos, pelo MPLA em Cabo Delgado, Niassa e Tete e igualmente nos que combateram pelo PAIGC na Guiné-Bissau. Esses são os que falam, com a voz ou com o olhar. O silêncio é dos espaços. Dos cemitérios onde foram sepultados militares portugueses, hoje ao abandono, dos sítios onde a metralha zurziu vidas de todas as cores, das prisões do salazarismo, das memórias caladas. Um silêncio de morte. De muitos milhares de mortes.

terça-feira, 16 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Esta Máquina, Esta Objectiva, Estas Fotografias: 25 de Abril de 1974, Quinta-Feira”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Esta Máquina, Esta Objectiva, Estas Fotografias: 25 de Abril de 1974, Quinta-Feira”,
de Alfredo Cunha (fotografia) e Alexandre Farto aka Vhils (gravura)
Centro Português de Fotografia
06 Abr > 28 Jul 2024


“A professora mandou‑nos calar e estava a tentar sintonizar o rádio. A determinada altura recambiou‑nos a todos para casa. É tudo o que me lembro desse dia. Tinha 6 anos, estava na 1.ª classe, e pertenço à geração que, nas décadas seguintes, foi acusada de ter perdido o 25 de Abril. Só lá para as eleições de 1980, com uns sólidos 12 anos, é que estava politizado o suficiente para entrar na luta partidária, como era costume na época. Tinha perdido a festa. Mas então o que estou a fazer neste projeto?”

Tenho vários 25 de Abril. Este é o meu favorito: estou na Amadora, são 3 e tal da manhã e ouço pela primeira vez na vida o “Riders on the Storm”, dos Doors. Lá para as 4 e tal começam a dizer que algo se está a passar em Lisboa. Visto‑me e decido ir para o Século. Vou para a estação. Passo pelo bairro de lata da Falageira, uma das vistas mais miseráveis dos subúrbios de Lisboa e que tenho fotografado nos últimos anos. Chegado à estação do Rossio, corro até ao Bairro Alto, à redacção do Século, e saco o maior número de rolos possível. Uns quarenta. São umas 6 da manhã. Está lá o Mário Zambujal, que destaca o jornalista Mário Contumélias e a mim para seguirmos para o Terreiro do Paço. Só lá para as 9 e tal é que tenho a primeira conversa com o Salgueiro Maia. Vê‑me fotografar e pergunta‑me o que estou ali a fazer. Digo que sou do Século. Pergunta‑me se sou dos deste lado ou dos outros. Não sei bem o que dizer e respondo que estou ali daquele lado a fotografar. Então ele diz‑me para passar a barreira e não ficar escondido.

Este dia 25 de Abril não me pertence. É o 25 de Abril do Alfredo Cunha, então com 20 anos e que logo no início da carreira tem inesperadamente o dia mais importante da sua vida de fotógrafo. Uma dádiva e uma maldição. Há 50 anos que incansavelmente fotografa, expõe e publica como que para fugir e de novo voltar a esse dia. Esse 25 de Abril que não é meu e que relato na primeira pessoa foi surgindo como peças de um puzzle ao longo das centenas de horas que passámos nas viagens de trabalho em conjunto. Uma história que surgia após um silêncio de quilómetros numa picada. Episódios de que ele próprio não se lembrava e de repente lhe ocorriam. Um dia percebi que o meu dia 25 de Abril já era o dele. Naquele dia, foi gerindo os 40 rolos. Não sabemos se, caso tivesse tirado mais uns milhares de fotos, o seu dia 25 de Abril fotográfico seria mais ou menos intenso em termos imagéticos do que aquele que ficou. Havia a decisão de captar o momento, o que obrigava a puxar manualmente o rolo e perder complemente a situação. E não ceder à tentação de encenar a foto perfeita.

Cinquenta anos depois, Vhils é convidado a selar este projecto, como se se tratasse de uma cápsula feita para enviar para o futuro, para ser vivido, dado ter sido fotografado por quem vive apaixonadamente uma revolução. Deixe‑se levar para aquele dia em que 240 homens (muitos deles meros rapazes), vindos de Santarém, libertaram um país inteiro da mesquinhez instituída, de um poder autocrático e beato que sobrevivia da ignorância dos pobres que controlava. Quando der por isso, estará a ver como a coragem de um só homem perante carros de combate tocou de tal forma os que o estavam a ver do outro lado, que decidiram arriscar tudo e negar‑se a disparar. E assim, sem o saber, derrubaram naquele momento o regime. Foi o cair de uma mordaça pestilenta que sufocava. E o dar um fôlego de quem quer comer o mundo ao encher os pulmões de liberdade fresca e matinal. E gritar.

A próxima revolução pela liberdade não será tão simples e feliz.

[Texto adaptado do original da autoria de Luís Pedro Nunes]

sexta-feira, 22 de março de 2024

EXPOSIÇÃO: NERVO – Observatório do Fotolivro Português do Século XXI



EXPOSIÇÃO: NERVO – Observatório do Fotolivro Português do Século XXI
Curadoria / produção | Coletivo de investigadores e artistas da plataforma Nervo
Direção artística e coordenação | Ângela Ferreira e Rodrigo Peixoto
Centro Português de Fotografia
18 Nov 2023 > 30 Mar 2024


Nos últimos anos, Portugal tem assistido a um florescimento de criatividade no universo das fotolivros, consolidando-se como uma referencia não apenas pelos autores e títulos publicados, mas também graças a uma comunidade editorial que reconhece na fotolivro uma parte integral da fotografia, com o seu próprio alfabeto. Uma peça nuclear na história do fotolivro português e que contribuiu para este fenómeno é “Lisboa, cidade triste e alegre”, da autoria da dupla de arquitectos e fotógrafos Victor Palla e Costa Martins. Originalmente publicada em 1959 e reeditada pela Pierre von Kleist em 2009 (2ª reedição em 2015), esta obra seminal sobre Lisboa dos anos cinquenta, desempenhou um papel crucial no impulso da produção editorial da fotografia portuguesa no alvorecer de séc. XXI. A consagração da obra, viria a surgir apenas em 2004 com a sua inclusão no “The Photobook: A History, Vol 1”, de Gerry Badger o Martin Parr, o único livro português destacado, considerado um dos melhores livros de fotografia da Europa do pós-guerra, pela sua notável complexidade em ternos de forma e conteúdo. Com uma abordagem poética a uma atmosfera vibrante e cinematográfica, distingue-se aо incorporar muitas das técnicas de produção de livros desenvolvidas por William Klein, além de influências de fotógrafos holandeses como Ed van der Elsken a Joan van der Keuken.

Por trás deste crescente fenómeno dedicado ao fotolivro, território em certa medida desbravado por “Lisboa, cidade triste e alegre”, move-se hoje um verdadeiro ecossistema de produção, aquisição, circulação, discussão e pesquisa sobre esta forma de expressão. Para os fotógrafos e críticos de fotografia, Martin Parr, Gerry Badger e John Gossage o fotolivro é o veículo que expressa o verdadeiro potencial narrativo da fotografia. Apesar de ter surgido logo após o seu nascimento em 1839 (Fox Talbot: Pencil of Nature, em 1844; Anna Atkins: Photographs of British Algae em 1843), só recentemente veio a ocupar uma posição central na fotografia contemporânea, como um vasto e extraordinário território a ser mapeado enquanto pesquisa interdisciplinar e artefacto artístico. Perante um mundo hiperconectado, o fotolivro ergue-se como ferramenta de resistência à pressão que o processo de desmaterialização tem exercido sobre a Fotografia, sendo por isso entendido politicamente como uma singularidade dialéctica para (des)elitizar a distribuição do trabalho fotográfico. Por outro lado, sabemos que dentro do género da Fotografia contemporânea, os fotolivros são um dos modos de conhecer e apreciar a linguagem de uma forma verdadeiramente imersiva. Considerados símbolos da sua época, são importantes artefactos visuais, pelo que entender a gramática e alfabeto é entender a cultura e o pulsar dos tempos.

Ora, conscientes do potencial de criação artística despertada pela efervescência dos fotolivros em Portugal, a equipa de investigadores e artistas deste projecto, lançou-se na missão de implementar uma Biblioteca inédita digital de Fotolivros em Portugal, inspirados pela plataforma parceira da América Latina [www.livrosdefotografia.org]. Assim nasce o NERVO - Observatório de Fotolivros Portugueses [www.nervophotobooks.com] que envolve a criação de novas visualidades de livros de fotografia de expressão portuguesa, resultando na criação de um observatório da contemporaneidade que abrange a sua inclusão e digitalização, a criação e edição de podcasts e o lançamento de uma publicação. O NERVO abre-se como um território de reconhecimento da comunidade portuguesa de fotolivros, ao dar voz aos seus autores e editores, agindo como um valioso espaço editorial de criação e pensamento dos fotolivros e suas equivalências às questões contemporâneas sobre arquivo e memória num mundo globalizado e digital. A exposição centra-se exclusivamente nos fotolivros do século XXI, integrando desde obras clássicas até formatos mais experimentais e independentes e é concebida como uma obra viva e plural, espelhando uma seleção dos principais autores e obras, trazendo à luz assuntos da história portuguesa e especificidades técnicas da sua produção até distintas práticas artísticas, revelando um verdadeiro sistema alternativo de produção editorial portuguesa que, ano após ano, continua a dar sinais da sua vitalidade.