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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Desenhos do Cinismo e Melancolia” | Ana Vidigal



EXPOSIÇÃO: “Desenhos do Cinismo e Melancolia”,
de Ana Vidigal
Curadoria | Patrícia Reis
Museu Nacional Soares dos Reis
Inauguração em 25 Jun 2026


Patente ao público no Museu Nacional Soares dos Reis, “Desenhos do Cinismo e da Melancolia”, de Ana Vidigal, encontra em Camilo Castelo Branco não tanto um pretexto literário, mas uma matéria de trabalho. Integrada no evento literário e cultural BABELL, a exposição reúne vinte e duas obras de pequenas dimensões que recusam a solenidade do objecto artístico e se aproximam antes da intimidade de uma página, de um apontamento ou de algo ciosamente guardado. Ana Vidigal não ilustra Camilo: lê-o, desmancha-o e volta a escrevê-lo através de imagens. O seu gesto é menos o de quem traduz literatura para as artes plásticas do que o de quem procura descobrir, na literatura, aquilo que ainda pode ser deslocado, rasurado e refeito. Nessa operação, adquire a exposição espessura, retirando o universo camiliano daquilo que se aceita como património intocável e e deslocando-o para um território de apropriação, onde a melancolia e o cinismo do título se encontram com o humor, a ironia e a memória pessoal da artista. Desta forma, colagem, desenho e pintura convivem em composições onde a palavra surge como memória, vestígio e provocação.

Há, porém, uma outra leitura que se impõe e que talvez seja uma das mais felizes dimensões da exposição: cada obra é apresentada de modo a poder ser vista dos dois lados. O suporte deixa de ser mero intermediário e passa a integrar a obra, revelando-se aquilo que a sustenta, aquilo que foi escolhido, reaproveitado ou transformado para a receber. O visitante é assim convidado a abandonar a perspectiva frontal e a percorrer o objecto, a olhar para trás, para dentro, para aquilo que normalmente permanece oculto. É uma escolha expositiva que corresponde profundamente à própria prática de Ana Vidigal, feita de acumulações, fragmentos, restos e materiais que carregam consigo outras vidas. Se, como a artista já afirmou, a pintura pode ser tudo aquilo que se cola, aqui também a exposição parece dizer que tudo aquilo que se esconde pode fazer parte da leitura. O verso não é complemento do anverso, antes outra entrada na obra, outra narrativa possível. E esse movimento físico do espectador acaba por reproduzir o movimento intelectual que os desenhos exigem.

É talvez por isso que estas pequenas peças adquirem uma dimensão maior do que a sua escala faria supor. Em vez de oferecerem uma leitura única, Ana Vidigal constrói objectos abertos, onde imagem, palavra, matéria e memória se contaminam mutuamente. A referência a Camilo é reconhecível, mas nunca fechada; serve para convocar uma tradição literária e, simultaneamente, para a interrogar. A artista transforma a memória em matéria plástica e o reaproveitamento dos suportes numa forma de pensamento. Nada é inteiramente descartado; nada se apresenta sem história. Há aqui uma dimensão autobiográfica, mas também política, na atenção concedida às coisas menores, aos restos, às narrativas laterais e às vozes que sobrevivem nas margens. “Desenhos do Cinismo e da Melancolia” vale, por isso, menos como exposição sobre Camilo do que como encontro entre duas formas de escrita: a do romancista que construiu personagens, paixões e desenganos, e a da artista que, décadas depois, os desmonta para lhes devolver outras possibilidades de leitura. O resultado é uma exposição que pede tempo - e que recompensa quem aceita olhar duas vezes.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Imagens Cativas” | Daniel Mordzinski



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Imagens Cativas”,
de Daniel Mordzinski
Curadoria | Patrícia Reis
Centro Português de Fotografia
25 Jun > 05 Out 2026


Entre os dias 24 e 29 de Junho, o Porto viveu uma relação particularmente feliz com a literatura. O BABELL, evento que chamou à cidade escritores, leitores, ideias e diferentes formas de pensar a literatura, revelou-se muito mais do que uma sucessão de encontros ou uma circunstância de calendário: foi, sobretudo, uma proposta cultural de inequívoco alcance, pela dimensão da programação e, sobretudo, pela qualidade e refinamento das propostas. Numa cidade que tem sabido afirmar-se como território de cultura, a literatura encontrou aqui uma casa aberta, capaz de acolher vozes, geografias e sensibilidades muito distintas, aproximando autores e públicos sem abdicar da variedade, qualidade e exigência. É num vasto programa paralelo, feito de exposições, conversas e outras derivações da palavra escrita, que vamos encontrar “Imagens Cativas”, exposição de fotografia que, até 05 de Outubro, toma conta de uma das salas do Centro Português de Fotografia. Num edifício onde a imagem se cruza historicamente com a ideia de memória, o fotógrafo argentino Daniel Mordzinski propõe-nos uma galeria de rostos que nos vêm dizer que a literatura, quando aberta a outras linguagens, pode ganhar novas formas de presença, de diálogo e de descoberta.

É a segunda vez que me encontro diante das fotografias de Daniel Mordzinski. A primeira foi em Lisboa, em Fevereiro de 2022, na exposição “Navegantes da Jangada de Pedra”, integrada nas “Correntes d’Escritas”. Se então a impressão dominante era a de uma extraordinária viagem pela literatura ibero-americana, “Imagens Cativas” confirma e aprofunda aquilo que torna Mordzinski um fotógrafo singular: a sua capacidade de fazer do retrato muito mais do que um registo documental. Há uma técnica apurada, naturalmente, um domínio admirável da luz, do enquadramento, do espaço e do instante, mas é na relação com o retratado que a sua arte verdadeiramente se cumpre. O artista não parece fotografar escritores; parece conversar com eles através da câmara. Dessa conversa nasce uma cumplicidade que lhes permite abandonar, por instantes, a pose previsível do autor consagrado. É então que surgem o gesto inesperado, o olhar oblíquo, o sorriso suspenso, a expressão de inquietação ou de ironia. Pequenos sinais que, nas suas mãos, deixam de ser acaso para se transformarem em narrativa. O fotógrafo dos escritores é, afinal, também um fotógrafo das suas máscaras e das personagens que por detrás delas se escondem.

A força de “Imagens Cativas” reside precisamente nesta ligação tão especial entre fotógrafo e fotografado. Diante de Gabriel García Márquez, Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Margaret Atwood, Isabel Allende ou Mario Vargas Llosa, entre tantos outros, não estamos apenas perante retratos de homens e mulheres que a literatura tornou célebres. Estamos perante uma espécie de prolongamento visual das suas obras. Mordzinski possui o raro dom de encontrar, no corpo do escritor, qualquer coisa da criatura que este criou, como se uma personagem pudesse, por instantes, atravessar a fronteira da ficção e instalar-se no rosto, no gesto ou na postura do seu criador. São pequenas narrativas, quase contos comprimidos no instante de um click, que fazem com que cada retrato contenha uma pergunta sobre o autor e a sua obra. Daniel Mordzinski fotografa pessoas, mas procura personagens; fotografa rostos, mas interroga imaginários. Fá-lo com uma delicadeza reveladora, conseguindo que aqueles que tantas vezes vimos como nomes nas capas dos livros regressem, por um instante, à condição humana de quem nos olha nos olhos e, através desse olhar, se revelem nas personagens que aprendemos a amar.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

LIVRO: "A Desobediente - Biografia de Maria Teresa Horta"



LIVRO: “A Desobediente - Biografia de Maria Teresa Horta”,
de Patrícia Reis
Edição | Rui Couceiro
Ed. Contraponto Editores, Março de 2024


“É uma poetisa tremenda. Falávamos muito sobre as mulheres, sobre o corpo e a sexualidade; sobre usarem o corpo como entendessem. Era uma altura, 1962, em que os preceitos relativos à honra das mulheres se situavam sobretudo na questão da virgindade. Transversal, era comum às várias ideologias, da direita à esquerda adoptava-se a moral dominante. Quando escreveu Minha Senhora de Mim, a Teresa foi a pessoa que, através da poesia, pôs a questão do corpo de uma forma directa. Antes da Teresa, as mulheres não tinham corpo da cintura para baixo. Eram como as sereias.”

Depois de Agustina Bessa-Luís, Manoel de Oliveira, José Cardoso Pires, Manuel António Pina e Natália Correia, chega-nos às mãos um novo volume da coleção “Biografias de Grandes Figuras da Cultura Portuguesa Contemporânea”, dedicado a Maria Teresa Horta e com a assinatura de Patrícia Reis. Trata-se de um livro fundamental de uma figura fundamental das nossas letras, cuja vida apaixonante é tratada pela biógrafa com imenso cuidado e afecto, elevando nela a verdade, a frontalidade e a coerência do seu carácter. Página após página, percorremos a história do país através do olhar e do sentir de Maria Teresa Horta, acérrima defensora dos ideais de justiça e liberdade, na sua luta contra o fascismo e, mais tarde, na defesa dos valores de Abril e dos princípios democráticos. A mesma pessoa que pautou a sua vida pelo posicionamento activista em favor dos direitos da mulher. Uma mulher para quem pôr em causa é como respirar.

Dividida em cinco partes, a obra explora a infância de Teresinha, marcada pela relação com uma mãe “complicada” e um pai demasiado rígido, uma certa errância, quotidianos instáveis e a influência da avó Camila na sua atracção pela escrita desde muito nova. Na juventude nasce a paixão pelo cinema (foi a primeira mulher cineclubista) e acontece, de forma casual, um primeiro acto político, ao qual muitos outros se seguirão pela vida fora, antes e depois do 25 de Abril. A sua necessidade de afirmação vê-se na recusa em continuar a assistir à missa e no casamento aos 18 anos, movida pela ânsia de ser livre, ela que “acreditava piamente que nunca se apaixonaria”. Apaixonou-se, sim, construindo um amor à prova de bala por Luís de Barros, com quem esteve casada durante 56 anos, até que a morte dele os separou fisicamente. Extensa e muito bem documentada, a primeira parte do livro “é o chão fundador de quem é a Teresa. Tudo se desenha a partir daí.”

As dimensões jornalística, feminista, escritora ou política de Maria Teresa Horta vão se abrindo como diques que se rompem. Não sendo excessiva, tudo nesta mulher parece brotar com a força de uma torrente, impressionando pela sua força e coragem. Recusando-se a encaixar na mentalidade vigente, aprendeu a sentir o dobro dos outros, a sofrer o dobro dos outros. Saber-se debaixo dos olhares da PIDE levou-a a escrever “Minha Senhora de Mim”, que viria a ser editado e rapidamente apreendido. “Para aprenderes a não escrever como escreves”, foi abordada na rua por dois homens que a espancaram, mas não lhe serviu de emenda. “Se uma mulher incomoda muita gente…”, é em parceria com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno que colabora na escrita de “Novas Cartas Portuguesas”, o que valeu às “três Marias” um processo judicial que só viria a ser encerrado após a Revolução de Abril de 1974. Fiel a si mesma e aos seus princípios, em 2011 recusou receber o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, das mãos do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, alguém, nas palavras da escritora, “determinado em destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril”. Maria Teresa Horta fará 87 anos em Maio e vale a pena conhecê-la. De mão beijada, este trabalho de Patrícia Reis oferece-nos essa possibilidade.

domingo, 21 de março de 2021

LIVRO: "Contracorpo"



LIVRO: “Contracorpo”,
de Patrícia Reis
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Março de 2013 (2ª edição, Maio de 2013)


“Pedro descobriu outra mãe em Maria e ela percebeu mais coisas no filho. Já não são o contracorpo um do outro, são dois corpos em frente um ao outro, a verem-se, a analisarem-se, a medirem-se. Não são apenas os desenhos e os silêncios de Pedro, mas também uma forma de enquadramento do mundo que é dela, a mãe, e ainda um reflexo de ver distintamente as formas do mundo que porventura, os aproxima.”

“Ninguém cresce sozinho”. Há nesta frase uma verdade inquestionável que nos atrai ao lugar das relações, nem sempre fáceis, entre pais e filhos. Em particular no período da adolescência, elas tendem a ser tumultuosas, feitas de teimosia, provocações e amuos, o dedo apontado aos filhos por “pisarem o risco” e serem cada vez mais insolentes, mas também aos pais por não saberem cumprir convenientemente o seu papel. É neste terreno que se move “Contracorpo”, romance de Patrícia Reis publicado em 2013 e que nos traz a história de Maria e Pedro, mãe e filho em rota de colisão.

Julguei adivinhar o propósito de “Contracorpo” logo nas primeiras páginas. A história do rapaz que se descobre a si mesmo através dos gestos simples de um quotidiano marcado por um pai ausente não é propriamente original. Que os avós maternos e o tio mais novo sejam uma boa rectaguarda ou que revele um jeito fora do comum para o desenho pouco acrescenta ao livro. E depois há esta mãe angustiada com a possibilidade de perder o filho, depois de ter visto morrer o marido, e que é mais fonte de irritação do que de compreensão ou solidariedade. Daí que a tentação para desistir do livro fosse grande. Ainda bem que o não fiz.

Patrícia Reis tem o mérito de ganhar o leitor ao transferir o foco para o interior daquela mãe. A história toma um rumo inesperado e torna-se particularmente apelativa. O ritmo e espessura do livro têm neste processo gradual de aproximação entre mãe e filho a sua conta, peso e medida. Pôr este Pedro a contar(-se) é outra das boas coisas do romance. O resultado final é entusiasmante, levando-me a crer que este será, porventura, o melhor livro de Patrícia Reis, depois de ter lido “A Construção do Vazio” e “As Crianças Invisíveis”. Uma última nota para mostrar, pela enésima vez, o meu desagrado pelas sinopses descuidadas, revelando aquilo que importava esconder. Ditames do marketing, bem sei.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

LIVRO: "As Crianças Invisíveis"



LIVRO: “As Crianças Invisíveis”, 
de Patrícia Reis 
Edição | Cecília Andrade 
Ed. Publicações Dom Quixote, Maio de 2019


“Mas são as regras e as regras são assim. Não vale a pena deixar a irritação transparecer. Não vale a pena dizer que já não é bebé. Sabe coisas que os adultos da Casa não sabem. E sobre isso não há discussão possível, é uma certeza que traz consigo. Todas as crianças invisíveis possuem um conhecimento extraordinário e inalcançável, algo que as separa das pessoas normais. Ditas normais.”

Partindo de um acórdão do Tribunal da Relação de Évora sobre o caso concreto de uma entrega de menor para adopção, Patrícia Reis convida-nos a entrar na “Casa” e a conhecer as suas “crianças invisíveis”. Diferentes entre si – nas certezas como nos sonhos, nas ânsias como nos medos –, são crianças que têm em comum o facto de terem sofrido maus tratos e sido retiradas às famílias biológicas, encontrando-se agora institucionalizadas, numa espécie de limbo, a aguardar uma família que as possa acolher, cuidar e amar. Uma família não natural, adquirida por escrito, por ordem de alguém, na qual o amor não é espontâneo, não nasce do corpo, do crescer dentro de si.

É sobre abandono, adopção e famílias de acolhimento que este livro nos fala. Também de leis, de juízes da lei, das equipas técnicas, das pessoas em geral, adultos que falam em código. De palavras como “protecção” e “direito adquirido”, que tanto podem ser a mesma coisa como o seu contrário. Mas “As Crianças Invisíveis” fala-nos, sobretudo, dessas mesmas crianças para quem uma mãe é alguém que abandona os filhos, as filhas, os bebés, os rebentos. Crianças que cerram os olhos com muita força apenas para conseguirem ver melhor. Crianças em cuja história existem mentiras que não o são. Crianças que aprenderam que não falar muito alto, não desarrumar nada, concordar com qualquer proposta e comer aquilo de que não se gosta, são fórmulas de sucesso para que possa existir a possibilidade de agradar a um potencial pai ou mãe. Crianças obrigadas a crescer depressa, para quem o futuro não é um lugar muito longe. 

Estamos agora na Casa, os muros brancos por fora, às cores por dentro, com o seu portão verde gigante e a sua campainha com um som estridente. No recreio joga-se à bola, à macaca, ao “agora eu era maior e tinha um avião cor de laranja”. Hoje é sexta-feira e podem adormecer mais tarde. O Verão é tempo de ir à praia. Neste cenário de aparente normalidade, a complexa equação “tecto + comida + educação = suficiente” é facilmente aceite como válida para definir a felicidade de crianças que continuarão a não saber viver com perguntas que soam estranhas: Como estás? Precisas de alguma coisa? Sabes que a culpa não é tua, não sabes? É verdade que preferiria que Patrícia Reis refreasse a sua faceta de jornalista, evitando histórias paralelas nessa ânsia de expôr as incoerências e os podres do sistema. Que o livro seria tão melhor se não se “distraísse”, por um segundo, da personagem principal, a figura de M. construída delicadamente e com enorme subtileza. Isto não retira, porém, qualquer valor ao livro. A par do grito de denúncia, há nele uma mensagem de esperança que importa reter.