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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Turn Around - Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Turn Around - Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP”,
de Adriana Proganó, Ana Jotta, Bruno Cidra, Gabriel Abrantes, Joana Vasconcelos, João Ferro Martins, João Paulo Feliciano, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, José Pedro Croft, Luisa Cunha, Maria Beatriz, Rodrigo Oliveira, Sérgio Pombo, Tiago Baptista (1.ª parte) e Álvaro Lapa, Ana Cardoso, Ana Hatherly, Ana Vieira, Ângelo de Sousa, António Areal, António Palolo, Augusto Alves da Silva, Diogo Pimentão, Eduardo Batarda, Fernanda Fragateiro, Fernando Calhau, Gonçalo Barreiros, Helena Almeida, João Onofre, João Queiroz, Joaquim Bravo, Jorge Martins, Jorge Molder, José Almeida Pereira, José Barrias, José Loureiro, José Pedro Cortes, José Pedro Croft, Julião Sarmento, Leonor Antunes, Lourdes Castro, Luísa Jacinto, Manuel Baptista, Manuel Rosa, Maria Beatriz, Maria Capelo, Maria José Oliveira, Mariana Gomes, Noronha da Costa, Paulo Nozolino, Pedro Calapez, Rosa Carvalho, Rui Chafes, Rui Sanches, Salomé Lamas, Sara Bichão, Sara Chang Yan, Susanne S. D. Themlitz (2.ª parte)
Curadoria | João Pinharanda, Margarida Almeida Chantre, Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
11 Fev 2026 > 25 Jan 2027 (1.ª parte)
29 Abr 2026 > 11 Jan 2027 (2.ª parte)


“Turn Around – Um Olhar sobre a Colecção de Arte Fundação EDP” parte de uma premissa tão simples quanto exigente: olhar para uma colecção é também olhar para a história que a tornou possível. Reunindo cerca de noventa obras de cinquenta e oito artistas, a exposição percorre mais de seis décadas de criação contemporânea em Portugal, mas recusa a confortável tentação de se apresentar como uma narrativa linear. Em vez de uma história arrumada por gerações, movimentos ou cronologias, propõe uma sucessão de encontros, atritos e reverberações. É nesse confronto que a exposição ganha espessura: entre a herança conceptual e as linguagens mais recentes, entre o corpo e a sua ausência, entre o negro e a cor, entre a matéria e aquilo que nela se procura fazer desaparecer. A voz de Luisa Cunha, que recebe o visitante, funciona quase como uma senha para esse percurso de avanços e recuos, enquanto obras de Jorge Molder, Rui Chafes, Rui Sanches ou Julião Sarmento estabelecem desde logo uma atmosfera de estranheza e inquietação. O mérito está menos na dimensão da mostra do que na capacidade de fazer uma colecção institucional funcionar como matéria crítica, revelando continuidades inesperadas e, sobretudo, as fracturas de uma arte contemporânea portuguesa que nunca coube inteiramente numa única narrativa.

A arquitectura da Central Tejo desempenha um papel que vai muito além do de simples cenário. Na galeria Baixa Pressão Norte, onde a antiga estrutura industrial se encontra domesticada pela disposição museológica das salas, as obras podem ser vistas com maior concentração e num regime de relações mais próximo do habitual. Já na Baixa Pressão Sul, o edifício regressa à condição de presença física: as estruturas de ferro, a escala e a memória de um lugar concebido para a produção entram em choque com objectos que pertencem a uma outra economia, a da representação, do desejo e da crítica. É particularmente feliz a opção por deixar que esse confronto produza tanto tensão como humor. A cabina de marinheiros de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, o kitsch produtivo de Joana Vasconcelos, o monumental e absurdo “Marmitex, Guggenheim ibérico”, de Rodrigo Oliveira, ou o diálogo impossível entre dois candeeiros em João Paulo Feliciano mostram como a arte pode ocupar o espaço industrial sem o neutralizar, ainda que a abundância de propostas ameace nivelar diferenças e transformar o percurso numa sucessão de estímulos. É um risco inerente a qualquer exposição de colecção, mas aqui a própria arquitectura ajuda a contrariá-lo: obriga o olhar a mudar de escala, de ritmo e de disposição.

O título “Turn Around” ganha então um sentido mais amplo do que o de simples instrução ao visitante. Mandar virar, voltar atrás, olhar de novo: eis o gesto que melhor define uma exposição onde a memória não é apresentada como património imóvel, mas como algo que se reconfigura a cada aproximação. As obras mais antigas não surgem como relíquias de uma história já encerrada, nem as mais recentes como confirmação automática de uma suposta evolução. António Palolo pode dialogar com Luísa Jacinto; Lourdes Castro encontra ecos em pesquisas posteriores sobre o corpo, a paisagem ou a linha; Ana Jotta e José Pedro Croft continuam a pôr em causa a dignidade convencional do objecto artístico. E é justamente nessa instabilidade que a exposição se torna mais interessante. A colecção da Fundação EDP, com as suas cerca de duas mil e quinhentas obras, não é aqui celebrada apenas pela dimensão ou pela representatividade: é posta à prova. O que esta selecção demonstra é que uma colecção só ganha verdadeira relevância quando deixa de ser inventário e passa a questionar. Entre o rigor histórico e a liberdade associativa, “Turn Around” consegue, na maior parte do tempo, fazer isso: devolver as obras ao presente, onde podem voltar a incomodar, surpreender e contrariar aquilo que julgávamos já saber sobre elas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Afinidades - Práticas Gráficas Contemporâneas” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Afinidades - Práticas Gráficas Contemporâneas”
Vários artistas
Curadoria | Júlio Dolbeth
Museu Nacional Soares dos Reis
25 Jul > 11 Out 2026


Há qualquer coisa de particularmente feliz no gesto que preside à terceira edição de “Afinidades – Práticas Gráficas Contemporâneas”: retirar uma peça aparentemente modesta do silêncio protector da vitrine e devolvê-la ao ruído criativo do presente. A caneca de vidro da Real Fábrica de Vidros de Coina, produzida entre 1719 e 1747, é o discreto detonador de uma exposição que reúne quarenta e nove obras de autor, numa espécie de conversa a várias vozes entre o património e as linguagens gráficas contemporâneas. Sob curadoria de Júlio Dolbeth, o projecto põe em contacto o Museu Nacional Soares dos Reis com dezanove galerias e estabelecimentos comerciais do Quarteirão Bombarda, confirmando uma vocação que ultrapassa a mera exibição de objectos: a de fazer do museu um lugar de encontro. O interesse da proposta está precisamente nessa deslocação. Não se trata de ilustrar a caneca, nem de a transformar num pretexto decorativo, mas de descobrir nela formas, transparências, funções e símbolos capazes de gerar outras imagens e outras leituras.

É nesse território de contaminação que “Afinidades” encontra a sua maior força, embora também aí resida o risco inevitável de uma mostra tão plural. Ilustração, desenho, gravura, colagem e processos híbridos, analógicos e digitais, respondem de modos muito diferentes à peça de partida, construindo relações conceptuais, formais ou simbólicas que nem sempre terão a mesma intensidade. A heterogeneidade é, contudo, menos uma fragilidade do que a própria matéria do projecto: interessa observar o que acontece quando um objecto do século XVIII, ligado a uma história industrial, tecnológica e social concreta, é submetido aos filtros de sensibilidades contemporâneas. Algumas propostas aproximam-se da caneca pela forma ou pela transparência; outras parecem interessar-se sobretudo pela ideia de memória, uso ou vestígio. E é justamente nessa distância, entre a coisa original e aquilo que dela cada artista imagina, que a exposição se torna mais estimulante. “Afinidades” não procura uma resposta única: ensaia uma multiplicidade de ecos.

O mérito maior desta terceira edição talvez esteja, por isso, em não tratar o património como matéria intocável, mas como algo que ganha espessura quando é questionado. O Museu Nacional Soares dos Reis surge aqui menos como destino final do que como plataforma de circulação: recebe o olhar dos criadores do Quarteirão Bombarda e devolve à comunidade um objecto da sua colecção transformado em ponto de partida. É uma estratégia pertinente num tempo em que os museus são chamados a justificar a sua presença não apenas pela conservação do passado, mas pela capacidade de produzir relações no presente. “Afinidades” cumpre essa ambição sem abandonar a dimensão artística, deixando que as obras falem por si e que a comparação seja feita pelo visitante. Até 11 de Outubro, a exposição permanece como um pequeno laboratório de possibilidades, onde uma caneca de vidro com três séculos de história se converte em matéria de desenho, imagem e pensamento. Aí encontramos a verdadeira afinidade: a convicção de que olhar para o passado também pode ser uma forma de inventar o futuro.

domingo, 30 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós]” | Maria Madeira



EXPOSIÇÃO: “You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós]”,
de Maria Madeira
Museu do Oriente
14 Ago > 13 Dez 2026


A exposição “You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós]”, patente no Museu do Oriente, em Lisboa, coloca no centro do olhar a obra de Maria Madeira, artista timorense-australiana cuja criação nasce de uma experiência marcada pelo deslocamento, pela memória e pela procura de uma identidade feita de várias geografias. Nascida em Gleno, Ermera, Maria Madeira tinha nove anos quando, em 1976, foi evacuada de Timor-Leste, com a família, pela Força Aérea Portuguesa, depois de um período de fuga e refúgio em Timor Ocidental. Seguiram-se anos num campo de refugiados da Cruz Vermelha, nos arredores de Lisboa, antes da emigração para a Austrália, em 1983. É desse percurso entre Timor, Portugal e Austrália que nasce uma exposição construída em torno de uma pergunta aparentemente simples, mas de profundas implicações: como passar do “eu” ao “nós”, do “mim” ao “nós”? Ao longo de trinta e quatro pinturas, desenhos, tecidos, colagens e instalações, Madeira confronta a experiência individual com uma memória colectiva, procurando transformar a dor, a perda e a distância em matéria de encontro.

A relação entre Portugal e Timor-Leste percorre toda a exposição, não como uma narrativa linear da história, mas como um território de afectos, tensões e sobrevivências. Na obra de Maria Madeira, a herança colonial portuguesa cruza-se com crenças ancestrais, práticas comunitárias e uma cultura material em que o papel das mulheres assume particular relevância. O “tais”, tecido tradicional timorense, surge como elemento fundamental dessa reflexão: mais do que objecto artesanal, é suporte de memória, instrumento de troca e expressão de vínculos entre pessoas, famílias e clãs. A própria história da artista encontra-se ligada a essa tradição através de Dona Verónica Pereira Maia, tecelã que conheceu durante os anos passados no campo de refugiados e que viria a inspirar a sua prática. Também a memória materna ganha forma quando a artista recupera peças de croché feitas pela mãe e as sobrepõe ao “tais”, submetendo o conjunto à luz intensa da Austrália Ocidental. O gesto deixa marcas no tecido e transforma a ausência em presença: os dedos da mãe, o trabalho das mulheres e a herança das antepassadas tornam-se visíveis numa espécie de arqueologia íntima.

Terra vermelha, lama, pedras trituradas, café, Betadine, tinta, fibras e fios de “tais” encontrados em sobras de tecido compõem uma linguagem plástica deliberadamente física, onde a matéria transporta consigo histórias de violência, resistência e regeneração. As manchas e os vestígios de noz de areca evocam os encontros e rituais timorenses, enquanto a Betadine, associada ao tratamento das feridas, introduz uma dimensão de dor que remete para as marcas deixadas pela invasão indonésia. Mas “You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós]” não é uma exposição sobre o trauma enquanto destino. É, antes, uma tentativa de o atravessar e de encontrar nele possibilidades de cura, ligação e futuro. Ao dar protagonismo às práticas artesanais femininas e ao diálogo entre natureza e cultura, Maria Madeira transforma a sua história pessoal numa reflexão mais ampla sobre pertença e comunidade. Depois de mais de três décadas de exposições em vários países e de ter representado Timor-Leste na 60.ª Bienal de Veneza, Madeira regressa simbolicamente a Lisboa para reabrir uma história que não pretende fechar, mas partilhar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E VÍDEO: “Cloud of Confusion” | Frida Orupabo



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E VÍDEO: “Cloud of Confusion”,
de Frida Orupabo
Curadoria | Marta Mestre
MAC/CCB - Museu de Arte Contemporânea
03 Jun > 01 Nov 2026


Frida Orupabo chega ao MAC/CCB com uma exposição que parece começar onde termina o gesto automático de percorrer um ecrã. Em “Cloud of Confusion”, a artista norueguesa transforma o seu vasto arquivo de imagens digitais num território de confronto, onde fotografias, fragmentos e objectos deixam de valer pela sua autonomia para adquirir sentido através da montagem. O percurso linear pelas oito secções da exposição transpõe para o espaço físico a lógica do “scroll”: uma imagem chama a seguinte, mas a continuidade depressa se revela ilusória, feita de cortes, choques e lacunas. É nessa fricção entre fluxo e interrupção que Orupabo instala o seu olhar crítico. As imagens, muitas delas provenientes de arquivos coloniais, dos media, da cultura popular ou da circulação indiferenciada da internet, carregam histórias de violência e de apropriação. Ao serem recortadas, ampliadas, justapostas e deslocadas, deixam de ser apenas documentos de um olhar sobre os corpos negros para passarem a confrontar esse mesmo olhar. Não se trata de pacificar as imagens, antes fazê-las regressar, alteradas, ao espectador, devolvendo-lhes uma capacidade de resistência.

A “nuvem” do título é, por isso, menos um lugar de armazenamento do que uma condição contemporânea de existência das imagens. Na “cloud”, memória e esquecimento convivem; tudo pode ser guardado, reproduzido e reencontrado, mas também perdido no excesso. Orupabo explora precisamente esse paradoxo, fazendo da acumulação uma forma de crítica. O arquivo não surge como depósito neutro, mas como espaço atravessado por relações de poder: quem fotografou, quem foi fotografado, quem teve o direito de olhar e quem ficou reduzido a objecto desse olhar. A montagem funciona então como uma espécie de contra-arquivo, capaz de interromper narrativas herdadas e produzir outras associações. Daí a recorrência de questões ligadas à raça, ao género, à maternidade, à sexualidade e à violência, mas também à domesticidade e ao corpo enquanto lugar político. Mesmo quando a imagem parece fragmentária ou enigmática, há nela uma tensão entre exposição e recusa, mostrar e esconder, revelar e silenciar. A confusão a que alude o título não é apenas a do excesso informativo; é também a dificuldade de separar memória, desejo, trauma e representação quando todos circulam dentro do mesmo regime visual.

É neste ponto que a passagem do “feed” para o Museu ganha verdadeira espessura. Nas redes sociais, a sucessão de imagens tende a ser instantânea, solitária e potencialmente infinita; no MAC/CCB, Frida Orupabo obriga o corpo do espectador a entrar nessa sequência e a experimentar fisicamente as relações que a edição propõe. O tempo da visita substitui a velocidade do “scroll” e aquilo que no ecrã poderia ser consumido num segundo ganha uma duração incómoda. A exposição pede, assim, mais do que reconhecimento: pede disponibilidade para permanecer diante de imagens que não se deixam resolver facilmente. A sua força está menos numa mensagem fechada do que na capacidade de produzir desconforto e devolver perguntas ao visitante. Que memória construímos a partir de imagens que nos chegam já carregadas de violência? Que corpos continuam a ser vistos através de representações que os reduziram a tipos, sintomas ou objectos? E o que acontece quando esses corpos, através da colagem e da montagem, parecem devolver o olhar? “Cloud of Confusion” não oferece respostas tranquilizadoras. Faz melhor, problematizando o próprio acto de olhar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Desenhos do Cinismo e Melancolia” | Ana Vidigal



EXPOSIÇÃO: “Desenhos do Cinismo e Melancolia”,
de Ana Vidigal
Curadoria | Patrícia Reis
Museu Nacional Soares dos Reis
Inauguração em 25 Jun 2026


Patente ao público no Museu Nacional Soares dos Reis, “Desenhos do Cinismo e da Melancolia”, de Ana Vidigal, encontra em Camilo Castelo Branco não tanto um pretexto literário, mas uma matéria de trabalho. Integrada no evento literário e cultural BABELL, a exposição reúne vinte e duas obras de pequenas dimensões que recusam a solenidade do objecto artístico e se aproximam antes da intimidade de uma página, de um apontamento ou de algo ciosamente guardado. Ana Vidigal não ilustra Camilo: lê-o, desmancha-o e volta a escrevê-lo através de imagens. O seu gesto é menos o de quem traduz literatura para as artes plásticas do que o de quem procura descobrir, na literatura, aquilo que ainda pode ser deslocado, rasurado e refeito. Nessa operação, adquire a exposição espessura, retirando o universo camiliano daquilo que se aceita como património intocável e e deslocando-o para um território de apropriação, onde a melancolia e o cinismo do título se encontram com o humor, a ironia e a memória pessoal da artista. Desta forma, colagem, desenho e pintura convivem em composições onde a palavra surge como memória, vestígio e provocação.

Há, porém, uma outra leitura que se impõe e que talvez seja uma das mais felizes dimensões da exposição: cada obra é apresentada de modo a poder ser vista dos dois lados. O suporte deixa de ser mero intermediário e passa a integrar a obra, revelando-se aquilo que a sustenta, aquilo que foi escolhido, reaproveitado ou transformado para a receber. O visitante é assim convidado a abandonar a perspectiva frontal e a percorrer o objecto, a olhar para trás, para dentro, para aquilo que normalmente permanece oculto. É uma escolha expositiva que corresponde profundamente à própria prática de Ana Vidigal, feita de acumulações, fragmentos, restos e materiais que carregam consigo outras vidas. Se, como a artista já afirmou, a pintura pode ser tudo aquilo que se cola, aqui também a exposição parece dizer que tudo aquilo que se esconde pode fazer parte da leitura. O verso não é complemento do anverso, antes outra entrada na obra, outra narrativa possível. E esse movimento físico do espectador acaba por reproduzir o movimento intelectual que os desenhos exigem.

É talvez por isso que estas pequenas peças adquirem uma dimensão maior do que a sua escala faria supor. Em vez de oferecerem uma leitura única, Ana Vidigal constrói objectos abertos, onde imagem, palavra, matéria e memória se contaminam mutuamente. A referência a Camilo é reconhecível, mas nunca fechada; serve para convocar uma tradição literária e, simultaneamente, para a interrogar. A artista transforma a memória em matéria plástica e o reaproveitamento dos suportes numa forma de pensamento. Nada é inteiramente descartado; nada se apresenta sem história. Há aqui uma dimensão autobiográfica, mas também política, na atenção concedida às coisas menores, aos restos, às narrativas laterais e às vozes que sobrevivem nas margens. “Desenhos do Cinismo e da Melancolia” vale, por isso, menos como exposição sobre Camilo do que como encontro entre duas formas de escrita: a do romancista que construiu personagens, paixões e desenganos, e a da artista que, décadas depois, os desmonta para lhes devolver outras possibilidades de leitura. O resultado é uma exposição que pede tempo - e que recompensa quem aceita olhar duas vezes.

sábado, 13 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO: "Voltar a Partir" | Bárbara R.



EXPOSIÇÃO: “Voltar a Partir”,
de Bárbara R.
Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira
06 Set > 12 Out 2025


“Percurso. Exploração. Tentativa. Erro. Repetir. Cores. Texturas. Riscos. Papéis. Experimentar. Reflectir. Criar. Comunicar. Relação. Contar. Mão. Adaptação. Arriscar. Coesão. Crescimento. Ouvir. Grafismos. Fio. Terra. Explosão. Ideia. Linguagem visual. Partilhar. Ver. Criticar. Voltar. Continuar. Colagem. Entrelaçar. Textura. Abstracto. Tecer. Natureza. Inspiração. Linha. Recomeço.”

O percurso artístico de Bárbara R. distingue-se por uma abordagem multidisciplinar assente na investigação constante entre ilustração e design gráfico, mas também arte têxtil e gravura, cerâmica e arte urbana, privilegiando, sempre que possível, o trabalho em papel. Crescida num ambiente rodeado de verde, com as montanhas por perto e o mar ao lado, Bárbara R. tem sabido recolher desse imaginário a inspiração para a construção de trabalhos que misturam a experimentação e o engenho, a elegância e a poesia. Refletindo uma vida marcada pela diversidade de experiências e lugares, a presença constante dos livros e das viagens na sua vida vêm reforçar a atracção pela novidade e moldar profundamente o seu processo criativo. Prova disso é o recente retomar do desafio de trabalhar com fios, tecendo peças de enorme beleza que alargam e enriquecem a sua linguagem visual.

A exposição “Voltar a Partir”, que até ao dia 12 de Outubro pode ser vista na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, apresenta um percurso visual que sintetiza os últimos anos desta trajectória criativa, funcionando como um arquivo gráfico e emocional que explora cenários ora próximos e evidentes, ora distantes e inalcançáveis. Este itinerário é composto por gestos, suportes e inquietações que convidam à contemplação e ao reconhecimento da memória como matéria fundamental do processo artístico. Simples e complexa ao mesmo tempo, a mostra deixa perceber um diário sensível e um arquivo em construção, onde se entrelaçam linguagens e intenções as mais diversas, permitindo à artista estabelecer uma linguagem própria na qual estética e afectividade coexistem de forma indissociável.

Neste contexto, “Voltar a Partir” propõe uma reflexão profunda sobre a permanência e a transformação dos espaços físicos e emocionais que habitamos e que continuam a existir dentro de nós, mesmo quando deles nos afastamos. A conjugação de disciplinas e suportes utilizada por Bárbara R., dos quais se destacam a colagem, o trabalho cerâmico e a arte têxtil, manifesta uma prática artística aberta à experimentação e ao diálogo entre memória, tempo e criação. Em cada regresso a casa, sentimos que a artista fortalece as raízes que a sustentam, ao mesmo tempo que magica novos caminhos e possibilidades para o seu trabalho. Esta exposição é, assim, um convite a revisitar os fragmentos que compõem a sua obra e a reconhecer o papel da memória como elemento estruturante da criação contemporânea, destacando a capacidade da arte em estabelecer pontes entre passado e futuro.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Não Confundir um Tijolo com uma Obra de Arte” | Albuquerque Mendes



EXPOSIÇÃO: “Não Confundir um Tijolo com uma Obra de Arte”,
de Albuquerque Mendes
Curadoria | Gonçalo M. Tavares
Galeria Municipal de Matosinhos
10 Mai > 24 Ago 2025


Numa altura em que está a chegar ao fim a exposição de Albuquerque Mendes, é absolutamente urgente falar dela, na medida em que representa uma das mais fascinantes mostras de pintura de um ano, ele próprio, em contagem decrescente. Com curadoria de Gonçalo M. Tavares, a mostra reveste-se de particular significado, não só por ser a primeira vez que Albuquerque Mendes expõe na Galeria Municipal de Matosinhos, mas também por concretizar um desejo antigo de dar corpo a uma exposição que reflecte a forte ligação do criador à cidade. Desde os anos 1990, altura em que se mudou do Porto para Leça da Palmeira, e mais tarde para um atelier na rua de Brito Capelo, em Matosinhos, a obra de Albuquerque Mendes tem vindo a ser profundamente influenciada pelo território e pelas vivências locais. A ligação à cidade e ao mar está patente em muitos dos seus trabalhos de forma viva e constante, moldando temas, materiais e abordagens estéticas. Através da sua arte, Albuquerque Mendes empenha-se em dar voz a uma cultura local que, embora específica, tem uma ressonância universal na forma como identidade, território e memória são abordados.

De um ponto de vista conceptual, esta influência é flagrante nos quadros que ocupam uma parte da primeira sala de exposições. À medida que vamos percorrendo as restantes salas e mergulhando no universo do pintor, vários outros motivos vão prendendo a nossa atenção. O desenho, a cor e o gesto fluem de forma livre, envolvendo as obras num intimismo inesperado, mas mantendo em aberto uma multiplicidade de interpretações no que encerram de inquietação, ambiguidade, tensão, surpresa e espanto. Ao lugar junta-se o corpo e o rosto, intensamente expressivos, de uma estranheza quase irreal nos seus erros e imperfeições. Em particular os auto-retratos revelam as muitas faces do humano, no que têm de seriedade e discrição, mas também de provocação e fingimento. Neles se afiguram as inquietações do pintor, o seu olhar sobre o sofrimento, o erotismo, a religiosidade ou a morte. A questão da religiosidade é mesmo uma das linhas de força mais consistentes no conjunto de obras apresentadas, as imagens e códigos da iconografia católica — procissões, santos, vestes, cruzes — recriados com ironia, os cerimoniais e símbolos respeitados e postos em causa em simultâneo.

A obra de Albuquerque Mendes é ao mesmo tempo íntima e política, expressiva e crítica, teatral e ritualística. O artista encara de frente as tensões sociais e culturais que conformam a nossa sociedade, devolvendo esse olhar com uma linguagem contemporânea e profundamente pessoal. Não é um artista de “escola” ou de “movimento”. É um solitário inquieto, com uma obra que desafia convenções estéticas e morais — usando o corpo, o sagrado, o grotesco e o desejo como ferramentas de confronto e revelação. Acompanhando um percurso artístico de mais de meio século, “Não Confundir um Tijolo com uma Obra de Arte” concentra-se, sobretudo, no trabalho de Albuquerque Mendes ao longo das últimas três décadas, traduzindo a densidade, originalidade e ousadia da sua linguagem artística. Figura incontornável da arte contemporânea portuguesa, Albuquerque Mendes nasceu em Trancoso, em 1953. Autodidata, destacou-se desde cedo no cruzamento entre pintura, colagem, performance, teatro e encenação. Numa altura em que a Galeria Municipal de Matosinhos está a comemorar o seu vigésimo aniversário, eis um extraordinário pretexto para celebrar a arte e os seus criadores. Para ver só até 24 de Agosto.

domingo, 20 de julho de 2025

CERTAME: 8.ª Bienal Internacional de Arte de Espinho



CERTAME: 8ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho
Vários artistas
Museu Municipal de Espinho
16 Jun > 30 ago 2025


O Museu Municipal de Espinho acolhe, até 30 de Agosto, o seu evento de referência no âmbito das grandes exposições de artes plásticas nacionais e internacionais - a Bienal Internacional de Arte de Espinho. Mostra de expressões artísticas que se realiza a cada dois anos, a Bienal deu o pontapé de saída no ano de 2011 e vai já na sua 8.ª edição, assumindo-se como a grande “imagem de marca” do Museu. Ao mesmo tempo, constitui-se cada vez mais como plataforma alargada de divulgação e promoção das artes plásticas, bem como de reconhecimento das respectivas criadoras e criadores. O desígnio volta a repetir-se na edição deste ano, com um conjunto de cerca de duas centenas de obras a merecerem um lugar de destaque nas Galerias Amadeo de Souza-Cardoso, a valência do Museu dedicada a exposições de Arte. São essas obras que o visitante vai poder apreciar, percebendo a grande variedade de géneros, estilos e suportes que as distinguem entre si e tornam a mostra extraordinariamente eclética, abrangente, desafiante e emotiva.

Com a obra “Caminhos: Arquivo de experiências urbanas”, lápis de pastel sobre papel, 2024, Alejandra Pardo conquistou o Grande Prémio Cidade de Espinho. Nela, a artista traça um conjunto de momentos que mimetizam, com engenho e imaginação, aquilo que podemos interpretar como um conjunto de negativos de um rolo fotográfico, testemunho de particulares vivências. O segundo prémio, “Bienal Internacional de Arte de Espinho”, foi entregue a Diana Costa, com a obra “Além do Conflito: A Mão que Une e Constrói”, acrílico e colagem sobre tela de 2024. Através dela, a artista oferece-nos o seu olhar pleno de simbolismo sobre os memórias doces de um tempo que se saboreava com deleite, em contraciclo com o mundo de hoje, a correr a mil à hora. O terceiro prémio, “Prémio Especial do Júri”, distinguiu a obra “Objetos Pesados, 2024/25”, de Cecília Lima, uma instalação dada a múltiplas interpretações e que representa, em última análise, uma cidade imaginária com um conjunto de edifícios unidos por aquilo que os separa.

O júri decidiu atribuir menções honrosas a Maria Meijide, com “Memórias, blá, blá… 2023”, Nicoleta Sandulescu, com “Habitar o Corpo, 2022/2023”, Susana Bravo, com “Joint Present, 2023”, Benedita Kendall, com “Esforços Construtivos, 2024”, Rita Paupério, com “Where the Wind, 2025”, José João, com “CUM LAUDE, 2023”, Mariana Laginha, com “Colchões, 2024” e Carlos Trindade, com “Em Tempos de Guerra (Ucrânia) II, 2023”. É bom cruzar o olhar com as obras enunciadas, mas a Bienal não se esgota nelas e há todo um conjunto de outros trabalhos igualmente dignos de nota. Ao contrário de anos anteriores, há menos “caras conhecidas” este ano, o que é sinónimo de vitalidade e renovação. Destacaria a presença de Mariana Duarte Santos e da Inês Pargana, duas extraordinárias artistas que nos oferecem a excelência do seu trabalho. Vale a pena, ainda, espreitar a explosão de cor de “Setênios”, de Joana Antunes, a geometria de “Desconstrução dos Cristais”, de Ari Vicentini, um excelente “N.1 (Piedade pela Carniça)”, de Luís Rodrigues ou o trabalho têxtil de Marita Setas Ferro. Boas visitas!

quarta-feira, 30 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO: “A Life in a Few Lines” | Huguette Caland



EXPOSIÇÃO: “A Life in a Few Lines”,
de Huguette Caland
Curadoria | Hannah Feldman
Centro de Arte Reina Sofia, Madrid
19 Fev > 25 Ago 2025


“The media I used for art is mostly my own life.”
Huguette Caland

“A Life in a Few Lines”, é a primeira grande retrospectiva na Europa dedicada a Huguette Caland (Beirute, 1931-2019), uma artista cuja vida e obra atravessaram décadas e continentes, desafiando as convenções estéticas e sociais do seu tempo. Através de quase trezentas obras, incluindo desenhos, pinturas, esculturas, colagens e criações multimédia, esta exposição oferece uma narrativa completa e exaustiva baseada na linguagem artística e na história de vida de Caland, ambas intimamente ligadas através da preocupação que está no centro da sua obra: a experiência do eu no encontro com os outros e com os lugares que conheceu. As suas obras dão testemunho de um trajecto que a levou do seu Líbano natal à utopia de Paris e, mais tarde, à cena artística de Venice, Califórnia, antes do definitivo regresso a Beirute. Ao mergulhar nestes diferentes ambientes, Caland criou o seu próprio vocabulário de configurações e formas pictográficas, desafiando tanto a estabilidade do signo linguístico e as oposições binárias fundamentais da arte e do pensamento ocidentais, como a abstração e a figuração, o masculino e o feminino, a imagem e o contexto, o singular e o coletivo.

Filha de Bechara El Khoury, primeiro presidente do Líbano após a independência do país em 1943, Caland iniciou a sua carreira artística aos 33 anos com a tela monocromática “Soleil rouge / Cancer”, cujo título reflecte a representação simultânea de um novo e excitante começo mas também o cancro devastador que acabara de devorar o seu pai. As obras que criou durante esta primeira fase mostram já alguns dos motivos que apareceriam na sua pintura ao longo das décadas, das referências autobiográficas às formas que lembram letras árabes, dos fortes eixos verticais e horizontais aos pontos e linhas. Um exemplo notável é “Exit”, em que uma multidão heterogénea de rostos mais ou menos reconhecíveis do círculo da artista coexistem num mesmo espaço sem margem para respirar. Em 1970, Caland instala-se em Paris em busca de novos estímulos e de maior liberdade criativa. Aí desenvolveu aquela que é provavelmente a sua série mais célebre, “Bribes de corps”, onde erotiza fragmentos do corpo humano que compõem uma paisagem erótica de cores vibrantes e linhas delicadas. Na forma como se expandem, transbordam, retraem, mudam e contorcem, parecem reflectir sobre o género binário e as suas lógicas, mas que podem também ser entendidas como uma exploração de sistemas alternativos de identificação e referencialidade.

No final dessa década, a exuberância das obras anteriores é substituída por figuras mais sedutoras. Em “Madame e Monsieur” (1980), as ambivalências sexuais das séries anteriores cristalizam-se em formas faciais que se dirigem ao interior do corpo, por oposição às que se manifestam à superfície. Esta deriva para criações mais sombrias está relacionada com o agravamento da situação política no Líbano. Em “Guerre incivile” (1981), uma das poucas obras de Caland que faz referência explícita a factos históricos contemporâneos, vemos uma representação da Guerra Civil Libanesa onde as alusões ao corpo misturam o prazer e a sensualidade das obras anteriores com membros amputados e rostos agonizantes. Outro resultado notável da sua estadia em Paris foi a sua incursão no design de moda com a criação de “Nour” (“luz” em árabe), uma colecção para o atelier de Pierre Cardin que incluía vestuário de inspiração árabe, abayas e kaftans, bem como artigos domésticos inspirados na arte islâmica. Antes destas criações, já tinha desenhado os kaftans “Foule" (1974) e “Miroir” (1974), nos quais bordou bocas sensuais, seios provocantes e outras formas anatómicas dos seus quadros, ligando a sua vida - ela usava estes vestidos em público - à sua arte.

Ainda em Paris, Huguette Caland embarcou num projeto que se afastava das suas linguagens e preocupações habituais. A série “L’argent ne fait pas le bonheur, mais il y contribue largement” é composta por 366 pequenas telas quadradas pintadas entre 1994 e 1995. Nestas obras, Caland transforma a linearidade precisa dos seus desenhos eróticos e as superfícies polidas das suas pinturas sensuais em registos mais grosseiros, muitas vezes kitsch. Por detrás do humor, tanto da palavra escrita como da imagem, desvenda-se uma crítica política e económica ao papel desempenhado pela moeda no fracasso de tantas aspirações individuais e colectivas, bem como uma reflexão mais pessoal sobre a relação entre a prática artística e o dinheiro. Tendo-se estabelecido em Venice, Califórnia, no final da década de 1980, viu-se confrontada com a incompreensão e a indiferença de um meio artístico predominantemente masculino e a sua produção mudou de direção uma vez mais. Numa série de auto-retratos do início da década de 1990, dedicou-se à colagem para incorporar fragmentos de cartas dos seus arquivos, dando à linguagem escrita um lugar central e misturando de novo a esfera pessoal e a prática artística. A série “Silent Letters” pode ser lida como uma forma de a artista se reconciliar com uma cena artística que parecia ignorar os seus contributos e, num sentido mais geral, como uma forma de lidar com sistemas marcadamente patriarcais.

Caland foi prolífica até ao final da sua carreira: no início dos anos 2000, já com problemas de saúde, reflectiu sobre a velhice, identificando-se com Rocinante, o pobre cavalo de Dom Quixote, que retratou em telas cromaticamente explosivas. Nestas e noutras obras posteriores, as marcas da trama e as grelhas são utilizadas para dar aos fundos a aparência têxtil do tatreez, uma técnica de bordado palestiniano com o qual Caland contactou através da Inaash, ONG que ajudou a fundar em 1969, destinada a fornecer ajuda aos palestinianos, em particular às mulheres refugiadas no Líbano, oferecendo-lhes a possibilidade de um trabalho remunerado e, ao mesmo tempo, contribuindo para a preservação do seu património cultural. Antes de iniciar aquela que viria a ser a sua última viagem, de volta a Beirute, concebeu uma série de telas de grandes dimensões como que em resposta a uma premonição ou como a expressão de uma funda saudade. Aqui, as casas libanesas, com os seus inconfundíveis telhados vermelhos, tornam-se um motivo recorrente, habitando paisagens fantásticas que se situam a meio caminho entre a memória e a imaginação. Os barcos e o azul do mar também aparecem nas obras deste período final, como nas composições simples “One Boat and Two Boats” (2011) ou na tela de grandes dimensões “Le grand bleu” (2012), uma metáfora da morte entendida como simultaneamente uma viagem para fora e um regresso a casa.


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO: "365" | Carmo Diogo



EXPOSIÇÃO: “365”,
de Carmo Diogo
Museu Escolar Oliveira Lopes
04 Out 2024 > 26 Abr 2025


“ (…) Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas.”
Ruy Belo, in “País possível” (1973)

Há momentos felizes. Estar na sala de exposições temporárias do Museu Escolar Oliveira Lopes, rodeado de tantas obras quantos os dias que o ano tem, pode muito bem ser um desses momentos. Falo de “365”, exposição de Carmo Diogo concentrada em 365 trabalhos sobre papel em tamanho A4, acrescidos de varias outras formas de intervenção artística, da pintura à instalação, dos bordados aos livros de artista. Estabelecendo trajectos pessoais entre passado e presente, a série de trabalhos parte de imagens retiradas de antigos álbuns de fotografia de família e abre caminho a essa tentativa de “perpetuar momentos, cheiros, manifestações de protesto, lugares, situações, identidades dos lugares de outrora”. São, nas palavras da artista, “encenações de afectos ou inquietudes”, conjunto de íntimas reflexões descongeladas no tempo, momentos vividos e respostas emotivas cujo propósito último será o de reter aquilo que a memória acabaria por perder inexorávelmente.

As memórias são um campo de batalha. Vívidas ou desfocadas, leves ou impuras, tornam-se presente sem pedir licença e instalam-se com a certeza de quem possui esse poder único de mudar tempos e vontades. Num passeio à chuva, na doçura de um figo, no cheiro a terra molhada, num poema de Ruy Belo ou numa cantiga do Zeca, surgem num repelão, inescapáveis, prontas a despentear-nos a alma com a força de um ciclone ou, como leve brisa, a envolverem-nos numa carícia. Erguê-las num corpo de trabalho rico de significados e guardá-las na forma de objecto artístico foi rito catártico de quem deixou para trás a “casa mãe e as suas raízes” e, com elas, uma vida em cujo arco temporal cabem o choro e o riso, o sonho e as mais duras realidades. Num trabalho metódico dominado pela colagem, o traço do pincel ou da esferográfica vê-se em desenhos que corporizam a memória, sóbrios, imoderados, inocentes ou cáusticos à vez. O resultado é fascinante, as obras a disputarem entre si a primazia de nos tomarem pelo braço e nos dizerem, num sussurro, que aquelas memórias também são nossas.

Eloquente no delicado exercício de mostrar que a verdade é mais uma opção do que uma obrigação, Carmo Diogo faz do seu resgatar de imagens, corpos e histórias, um exercício contínuo de criação de novas imagens, espécie de ficção baseada no real. Tópicos como os privilégios inerentes ao homem no seio familiar, os códigos baseados na ocultação da violência exercida sobre a mulher, a maldade a pesar sobre aquelas que ousam desafiar a ordem patriarcal ou a exigência de padrões de conduta castradores, são abordados nos trabalhos da artista com intenção e acutilância, acentuando a multiplicidade e complexidade do ser mulher. Mas há também o lado político das questões levantadas neste conjunto de trabalhos, conectando as esferas pessoal e social e traçando um retrato de época onde se revela a natureza sistemática da opressão de grupos inferiorizados que viram apagadas as suas vozes. Este “dar voz a quem não a tem” mostra a intencionalidade da artista e, ao mesmo tempo, a sua inteligência, na forma como desenvolve os seus trabalhos: Aqui uma piscadela de olho a Alberto Caeiro, ali um abraço a Mário Cesariny, mais além um passeio de braço dado com o Senhor Hulot. Há momentos felizes!

terça-feira, 27 de agosto de 2024

EXPOSIÇÃO: "Silvestre Pestana - Um Artista de Contraciclos"



EXPOSIÇÃO: “Silvestre Pestana – Um Artista de Contraciclos”,
de Silvestre Pestana
Curadoria | Joana Valsassina
Organização | Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, Porto
Galeria Solar da Porta dos Figos – Casa do Artista, Lamego
09 Jul > 13 Out 2024


Nascido no Funchal, Madeira, em 1949, Silvestre Pestana é uma das figuras mais radicais da arte contemporânea portuguesa. Poeta, artista plástico e performer, criou desde os finais dos anos 1960 uma obra singular através de uma grande diversidade de disciplinas, tendo-se revelado desde o final dos anos 1970 um agente fundamental do circuito artístico independente do Porto. A primeira grande exposição da sua obra foi realizada em 2016 no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. A partir de obras recentemente integradas na Coleção de Serralves, bem como obras pertencentes ao artista, a exposição que pode agora ser vista na Galeria Solar da Porta dos Figos – Casa do Artista, em Lamego, sublinha o seu uso pioneiro do desenho, da colagem, da fotografia, da escultura, da instalação, do vídeo e da performance, para um confronto entre sociedade, arte e tecnologia.

Distribuída por três espaços distintos, a exposição “Silvestre Pestana – Um Artista de Contraciclos” começa com a instalação “PO_gif_EMAS”, de 2019, conjunto de sete elementos (carros de compras, monitores, animações, gif, som) que dá a ver o artista na sua dimensão de utilizador das tecnologias mais recentes. No piso intermédio, importa atentar nos desenhos da série “Pautas” (1975), os quais funcionam como uma síntese do plano de acção e da pesquisa artística de Silvestre Pestana. Particularmente significativos, os dois trabalhos da série “Auto-estimulação”, apresentados como “meios de codificação”, remetem para essa aproximação inicial à tecnologia, relevando a ideia de um circuito eletrónico do qual o corpo também faz parte. “Geo-Psico-Verso” (1980) e “UNI VER SÓ” (1985), os dois vídeo-poemas apresentados, são exemplares notáveis do vanguardismo de Pestana nesta área no Portugal dos anos 1970 e 1980, utilizando-os como veículo em direto da prática poética e da acção performativa. São vídeos crus, não editados, que simultaneamente dessacralizam o processo artístico e refutam as convenções da videoarte e da imagem cinematográfica.

A relação entre a performance, os poemas gráficos e a escultura sai reforçada pela utilização de produtos industriais como instrumentos da problemática artística e como ferramentas para transmitir inquietações políticas e os dilemas da identidade nacional. Silvestre Pestana não se limita a explorar os vários meios que utiliza no seu trabalho. Vai mais além: procura, com eles, criar novas formas e enunciar uma nova linguagem, num constante sobressalto intelectual, num recorrente questionamento e compromisso político (“A cada etapa o seu medium, a cada tempo o seu instrumento, a cada saber a sua objetivação”). Inscreve-se nesta filosofia a obra “Radiologias” (1979), que ocupa o último piso do edifício, e que é composta por um conjunto de caixas de luz que apresentam poemas construídos sobre radiografias clínicas, revelando como a linguagem visual do artista é parte integrante do seu corpo. A intermitência da fonte de luz destas “Radiologias” parece apontar para a fragilidade do(s) sistema(s) em questão – físico, social, político, tecnológico – conferindo-lhes uma qualidade elegíaca, como “vanitas” do contemporâneo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

EXPOSIÇÃO: "Warhol, Pessoas e Coisas"


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EXPOSIÇÃO: “Warhol, Pessoas e Coisas”,
de Andy Warhol, Jonas Mekas, Pedro Magalhães, Sara Graça, Jeff Preis, Anna Ostoya, John Miller, Augusto Alves da Silva, Robert Mapplethorpe, Tony Cokes, Eileen Quinlan
Curadoria | Alaina Claire Feldman, Barbara Piwowarska
Casa São Roque Centro de Arte
22 Mai 2022 > 31 Jan 2023


“Warhol, Pessoas e Coisas” é uma extensa exposição dedicada a Andy Warhol e à sua influência sobre várias gerações de fotógrafos, cineastas, músicos e artistas multimédia. Inclui obras de Warhol, trabalhos dos seus amigos mais próximos, bem como encomendas e intervenções de artistas contemporâneos de Nova Iorque, Lisboa e Porto. Resultante da colaboração entre a Mishkin Gallery / Baruch College da City University of New York (CUNY) e a Casa São Roque, Porto, este projecto procura mostrar o legado menos conhecido de Andy Warhol: a importância do seu contributo para o desenvolvimento da media art, tratando de examinar como os seus métodos e gestos inspiraram a revisão do objecto e do sujeito, como redefiniram a relação entre as pessoas e as coisas e como expandiram o conhecimento sobre a vida social.

O núcleo da exposição da Casa São Roque consiste numa selecção das trinta e oito polaróides coloridas de Warhol, de 1972 a 1986, e quarenta impressões a preto e branco em prata coloidal de 1980–1986 pertencentes à colecção da Galeria Mishkin / Baruch College, City University of New York, doadas pela Andy Warhol Foundation for the Visual Arts para fomentar bolsas de estudo sobre o seu trabalho. A colecção de polaróides do Baruch College, CUNY, agora apresentada, inclui pessoas anónimas e objectos: adultos, crianças, sapatos, chaves; inclui também celebridades: a cantora Dolly Parton, o actor Sylvester Stallone, Maria Cooper Janis, Sean Lennon, a Princesa do Irão Ashraf Pahlavi ou Bracka Weintraub. As impressões íntimas e pouco conhecidas em prata coloidal incluem: Blondie Concert Backstage (1982), paisagens da cidade, naturezas mortas, nus masculinos e culturistas, Sylvester Stallone com uma desconhecida, amigos de Warhol: Margaux Hemingway com bolo de aniversário, Pia Miller fotografada numa recepção, o seu parceiro Jon Gould em vários locais e viagens, o fotógrafo Christopher Makos e trabalhadores fundamentais da Factory, como Fred Hughes e Sam Bolton.

“Warhol, Pessoas e Coisas” inclui filmes experimentais, obras-primas de Warhol: “Kiss” (1963–1964), retratando durante 58 minutos vários casais a beijarem-se e, em ecrã duplo, “The Chelsea Girls” (1966), gravado no Chelsea Hotel e na Factory, com Nico, Ondine, Gerard Malanga, entre outros, e música dos Velvet Underground. Este filme foi montado a partir de 12 bobinas (tanto a cores como a preto e branco) combinadas em ecrãs paralelos, com diferentes acções a decorrer em cada um deles, formando 204 minutos únicos, teatrais e hipnóticos. Nesta exposição, também é apresentado o episódio 9 da Andy Warhol TV Productions, de 1983. Mostra Jean-Michel Basquiat como um exemplo das suas colaborações intergeracionais. Herdeiro do cinema underground e do legado cinematográfico estrutural, Jeff Preiss contribui para esta exposição com três obras desenvolvidas a partir de registos analógicos transferidos para ficheiros digitais. Durante cerca de trinta anos, John Miller optou por fotografar entre o meio-dia e as 14h, tempo de pausa a meio do dia de trabalho. Iniciada em 1994, a série “The Middle of the Day” é um projecto documental contínuo, que reflecte a tensão entre a câmara enquanto apparatus e o desenrolar da vida quotidiana. Tony Cokes, especialista em música pop e nos seus efeitos na história e na sociedade, propõe “Untitled”, filme que acompanha o complicado legado de Michael Jackson.

Anna Ostoya contribui com “Memorabilia”, uma série contínua de fotomontagens realizadas a partir de imagens encontradas na internet. Trata-se de um diário associativo no qual a artista junta imagens que parecem iguais, mas que pertencem a contextos diferentes ou a visões do mundo opostas, criando um efeito de déjà vu. Em vez de retratar pessoas, Eileen Quinlan capta os brinquedos dos filhos em polaróides de fabrico caseiro, apresentando o processo de seriação, o acaso e a potencialidade artística característicos dos brinquedos populares, produzidos em massa, Magna-Tiles. Pedro Magalhães, conhecido pelos seus arquivos fotográficos analógicos e digitais que documentam a gentrificação do Porto durante várias décadas (desde 2008), contribui aqui com a instalação “I Don’t Speak Guitar”, um título que cita, ironicamente, Patti Smith e a sua reflexão sobre a capacidade de tocar um instrumento e o uso da guitarra como objecto comunicativo. Sara Graça, a mais jovem participante de “Warhol, Pessoas e Coisas”, contribui com uma instalação que consiste em “self-made” ímanes recortados no frigorífico e esculturas em cartão. A exposição apresenta ainda importantes fotografias da colecção da Casa São Roque, incluindo a série Ferrari (1999), de Augusto Alves da Silva, que retrata vários aspectos da mercadoria fetichista dos carros vermelhos, e, também, Ken Moody (1984), de Robert Mapplethorpe, um dos seus retratos íntimos, nus masculinos negros com a flor branca.

[Texto compilado a partir da Folha de Sala da exposição e que pode ser visto em https://www.casasroque.art/pt/exposicoes/warhol-pessoas-e-coisas/]

quarta-feira, 16 de março de 2022

EXPOSIÇÃO: "Signos e Figurações"


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EXPOSIÇÃO: “Signos e Figurações,
de Joan Miró
Curadoria | Robert Lubar Messeri
Casa de Serralves
09 Out 2021 > 06 Mar 2022


Pela segunda vez em cinco anos, Miró voltou a preencher de cor e vida os espaços nobres da Casa de Serralves. A primeira exposição, “Materialidade e Metamorfose”, teve lugar em 2016 e tratou-se de uma mostra temática. Desta vez, “Signos e Figurações”, que esteve patente até ao passado dia 06 de Março, permitiu apreciar na íntegra o conjunto de oitenta e cinco obras que integram a colecção do estado português, oferecida ao Município do Porto e cujo depósito de longo prazo compete ao Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Fazendo coincidir com o recente restauro da Casa de Serralves, segundo projecto de Álvaro Siza, a curadoria desta exposição optou por um tipo muito diferente de instalação, tendo por cenário o magnífico espaço da Casa e toda a sua verde envolvência. “Signos e Figurações” vive, em grande medida, desta relação simbiótica entre arquitectura, paisagem e a obra de Miró, permitindo ao visitante alargar os horizontes muito para além do simples espaço da tela.

Abrangendo seis décadas de trabalho intenso e profícuo, de 1924 até 1981, a colecção divide-se entre desenho, pintura, escultura e tecelagem, constituindo assim uma excelente introdução à obra e às principais preocupações artísticas de Joan Miró. Ao arrepio de qualquer formato cronológico ou linear, as obras estão agregadas tematicamente, tentando dar uma visão holística do percurso do mestre catalão. As várias salas abordam diferentes aspetos da sua arte: o desenvolvimento de uma linguagem de signos; o encontro do artista com a pintura abstracta que se fazia na Europa e na América; o seu interesse pelo processo e pelo gesto expressivo; as suas complexas respostas ao drama social dos anos 1930; a inovadora abordagem da colagem; o impacto da estética do sudoeste asiático na sua prática do desenho; e, acima de tudo, a sua incessante curiosidade pela natureza dos materiais.

“Criador de formas” por excelência, Joan Miró foi simultaneamente um “assassino” estético que desafiou os limites tradicionais dos meios em que trabalhou. Na sua arte, as diferentes práticas dialogam entre si, cruzando os meios: a pintura comunica com o desenho; a escultura seduz os objetos tecidos; e as colagens, sempre conjugações de entidades díspares, funcionam como princípio maior ou matriz para a exploração das profundezas do real. Um inventário dos suportes físicos usados pelo artista ao longo da sua carreira inclui materiais tradicionais como a tela, madeira ou cartão, mas também vidro, lixa, serapilheira, folha de alumínio ou papel alcatroado. Sempre em delicado equilíbrio com o suporte, os materiais vão desde óleo, tinta acrílica, giz, grafite, têmpera de ovo ou stencil, até ao uso inovador de bases menos ortodoxas, como gesso, caseína ou alcatrão. Numa exploração da materialidade talvez apenas rivalizada por Paul Klee, Miró expandiu decisivamente as fronteiras das técnicas da produção artística do século XX.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

EXPOSIÇÃO: "Red Light - Sexualidade e Representação na Colecção Norlinda e José Lima"


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EXPOSIÇÃO: “Red Light – Sexualidade e Representação na Colecção Norlinda e José Lima”
Vários artistas
Curadoria | Sandra Vieira Jürgens
Centro de Arte Oliva
26 Set 2020 > 14 Mar 2021


“Red Light” apresenta uma seleção de obras da Colecção de Arte Norlinda e José Lima, tendo como ponto comum a abordagem à sexualidade, desdobrada em múltiplos tópicos, tanto apresentados em complemento contrapontístico como em confronto dissonante: a representação do corpo, a nudez masculina e feminina, o erotismo, a fantasia, o desejo e a dor, o objecto e o sujeito, o prazer e a dominação, os lugares da representação feminina, o olhar masculino, o voyeurismo, o exibicionismo e a auto-representação na arte.

Falar de sexualidade e da relação entre corpos durante uma pandemia que obriga ao retraimento e mesmo à abstenção de contacto físico é também reflectir sobre as consequências do distanciamento enquanto ele se exerce. A fragilização simultânea do indivíduo e da comunidade, condicionados pelo medo do contágio, que espaço e que condições permite ao desejado encontro coletivo e individual dos corpos? E que papel pode ter a evocação do erotismo (ou a vocação erótica) da arte na reavaliação do desejo e do risco numa sociedade doravante mais atenta ao significado e implicações da proximidade física?

As obras expostas organizam-se à margem de uma visão monolítica do tema, da cronologia e da tentativa de categorização de movimentos, misturando diferentes origens e períodos. A exposição integra trabalhos de mais de setenta artistas, entre os quais Alberto García-Alix, Albuquerque Mendes, Álvaro Lapa, Andres Serrano, Eduardo Arroyo, Graça Pereira Coutinho, Gonçalo Pena, João Maria Gusmão + Pedro Paiva, João Penalva, Júlia Ventura, Pedro Casqueiro, Mauro Cerqueira, Muntean/Rosenblum, Nancy Spero, Rosa Carvalho, Ricardo Valentim, Vasco Barata e Sam Samore.

A partir deste panorama transgeracional, de múltiplas abordagens a uma dimensão essencial e fundamental da existência, “Red Light” cria um espaço liberto de convenções, moralismos e manifestos, que convida ao contacto sensitivo e intuitivo com as obras, reivindicando o prazer visual e assumindo a atracção do erotismo pictórico e fotográfico.

[Extraído do programa da exposição, em texto assinado por Sandra Vieira Jürgens]

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

EXPOSIÇÃO: "Morada Temporária" | Marzia Bruno


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EXPOSIÇÃO: “Morada Temporária”,
de Marzia Bruno
Museu Arte Nova, Aveiro
01 Ago > 27 Set 2020


Pelo curto tempo de dois meses, Marzia Bruno apossa-se dos espaços da Casa do Major Pessoa, Museu Arte Nova desde 2008, fazendo deles a sua morada temporária. Consigo traz objectos com histórias dentro, dispondo-os ao sabor das suas memórias e afectos. Dos caprichos, também, esses biombos permeáveis ao nosso olhar e aos nossos corpos, que desajeitadamente atravessamos, como que de olhos vendados, para nos entregarmos confiadamente nas mãos do desconhecido.

Rodeados de cores e pétalas, subimos em espiral ao encontro de lugares que nos são familiares, tornados outros pela presença de um conjunto de utensílios improváveis mas facilmente reconhecíveis, em combinações decorativas que são um desafio à sensibilidade do visitante. Olhando em volta, percebemos que não é apenas o espaço que se transmuta. Também os objectos adquirem outra significância, despidos desse cunho de banalidade que o quotidiano lhes impõe e assumindo-se como obras de arte. É esse “estatuto” que um vaso, uma mala de viagem, uma mesa posta, um par de cabides ou um conjunto de garrafas reclama. Pela postura que assumem. Pelas narrativas que criam. Pelas questões que convocam.

O branco toma conta de tudo, dando cor à cor. Distrai-nos do acessório, pede-nos que atentemos no essencial apenas. O essencial são agora uns degraus numa passagem estreita, que se sobem pé ante pé, ansiosamente, interessadamente. Essencial é também essa espécie de púlpito que, dominando o espaço, nos oferece novas visões, novas perspectivas. Essencial é ainda a multiplicidade de perspectivas que um espelho pode oferecer. O que nele vemos reflectido – o nosso rosto – é acessório.