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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Fragilidade" | Paula Bastiaansen



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Fragilidade”,
de Paula Bastiaansen
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística Aveiro 2025
Museu Arte Nova
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


Há artistas cuja obra nasce de um instante inaugural, uma epifania silenciosa que se prolonga no tempo. No caso de Paula Bastiaansen, esse momento foi o encontro com uma pequena taça de porcelana chinesa, cuja delicadeza extrema parecia contrariar a ideia de fragilidade. A partir daí, a ceramista holandesa construiu um corpo de trabalho onde a porcelana é menos matéria do que estado: leve, translúcida, resistente ao tempo. A natureza surge como aliada conceptual - os ritmos das marés, os padrões repetidos, a força invisível dos fenómenos naturais -, traduzida não por imitação, mas por ressonância. Em “Fragilidade”, patente no Museu Arte Nova no âmbito da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, essa memória primeira reaparece como fio condutor: objectos que parecem ter sempre existido, suspensos entre permanência e desaparecimento, convocam o olhar para uma atenção lenta, quase meditativa.

A exposição revela a evolução profunda do pensamento espacial de Bastiaansen. Taças, fragmentos, volumes reconhecíveis, aquilo que começou por ser forma, foi progressivamente cedendo lugar ao espaço enquanto matéria central. A artista desloca o foco do objecto para o vazio que o atravessa, até ao ponto em que o centro desaparece e o próprio espaço se torna protagonista. Esta viragem, intuitiva mas inevitável, marca a maturidade de um trabalho que se recusa a fixar-se. Em Aveiro, a porcelana não se impõe; expande-se, instala-se, respira, embrenha-se na arquitectura de um edifício singular. As obras deixam de ser apenas tridimensionais para se tornarem experiência sensorial e corpórea, ocupando as superfícies e dialogando com a luz e com o silêncio. A fragilidade aqui não é fraqueza, mas tensão, esse equilíbrio subtil entre risco e permanência.

Nos desenvolvimentos mais recentes, a cor introduz uma nova pulsação na obra de Bastiaansen. Vermelhos intensos, amarelos vivos e azuis delicados atravessam a porcelana, não como ornamento, mas como energia vital. O processo técnico - folhas finíssimas de porcelana colorida enroladas até quase se confundirem - reforça a ideia de camadas de tempo e de gesto. A cor amplia o campo semântico da obra, acrescentando-lhe força emocional sem lhe retirar contenção. Em “Fragilidade”, essa expansão cromática convive com a delicadeza estrutural, criando um paradoxo fértil em torno de objectos que parecem prestes a quebrar, mas que afirmam a sua presença com convicção. Paula Bastiaansen lembra-nos que a verdadeira fragilidade é, afinal, uma forma elevada de resistência, uma arte de permanecer leve num mundo pesado.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Paraíso Frágil"



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Paraíso Frágil”,
de Ellen van der Woude
XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Museu Arte Nova
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


Ceramista holandesa a viver e a trabalhar no Luxemburgo há três décadas, Ellen van der Woude tem na criatividade um dos elementos-chave da sua existência. Desde criança que se viu rodeada de papel, lápis e tinta que lhe permitiam explorar as mais diversas formas de expressão. Quando foi apresentada ao barro, no início do seu percurso artístico, a ilimitada capacidade de expressão deste material fascinou-a a ponto de o ter achado incomparavelmente mais versátil, profundo e desafiante do que qualquer outro com o qual tivesse trabalhado anteriormente. O que se seguiu foi uma viagem contínua de exploração e pesquisa que alimentou a sua paixão crescente pela cerâmica e que faz dela, hoje, uma das mais reputadas ceramistas a nível mundial. A sua ligação à cidade de Aveiro não é de agora - com a peça “Big Smile I”, ela foi a grande vencedora do Concurso Internacional da anterior edição da Bienal - e este é um regresso em grande, trazendo desta vez consigo uma exposição individual e dando-nos a ver a maravilha que se abriga nos seus “paraísos frágeis”.

“Paraíso Frágil” explora a beleza única da natureza, a rica variedade de texturas e formas, o seu ritmo e composição, a sua vulnerabilidade. Refere-se também à frágil relação do mundo com a natureza e à nossa interdependência e dependência da biodiversidade. Assusta-a a perspetiva de que a humanidade possa vir a destruir uma só que seja das muitas maravilhas que se abrigam no nosso planeta. Daí que as suas peças reflictam a sua enorme ligação ao mundo natural, uma observação cuidada e íntima, a constatação da resiliência e fragilidade dos ecossistemas, ao mesmo tempo que evidenciam os laços entre a humanidade e a natureza. Uma ligação que tem vindo a perder-se e para cuja importância de uma maior compreensão e respeito pelo mundo natural a artista chama a nossa atenção, mostrando ser essa uma forma de promover o nosso bem-estar psicológico e físico. Esta visão é particularmente inspiradora e convida a abrandar, a reconectarmo-nos com a natureza e, acima de tudo, a contribuir para a sua preservação.

É bom ver Ellen van der Woude e o seu trabalho de novo em Aveiro, uma cidade com uma profunda ligação à ria e ao mar. O mundo aquático no seu respirar e na sua extraordinária biodiversidade surge aqui numa dimensão artística de enorme beleza e simbolismo. Detemo-nos nas suas borboletas azuis, nas memórias quebradas, na dança das ondas ou nos sonhos florescentes e parece-nos vê-la a misturar e combinar os materiais, servindo-se de texturas, óxidos, pigmentos e barro colorido. Adivinhamos a ternura com que manuseia o barro, na ânsia de recriar as formas naturais, tornadas ainda mais fascinantes graças ao prolongamento da sua imaginação. Entre a vulnerabilidade e a euforia, assim nascem as mais belas e delicadas peças, oferecendo-se à nossa fruição como um regalo para os sentidos. Uma exposição imperdível, para ver no espaço único do Museu Arte Nova até ao dia 28 de Janeiro de 2024.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

EXPOSIÇÃO: "Morada Temporária" | Marzia Bruno


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO: “Morada Temporária”,
de Marzia Bruno
Museu Arte Nova, Aveiro
01 Ago > 27 Set 2020


Pelo curto tempo de dois meses, Marzia Bruno apossa-se dos espaços da Casa do Major Pessoa, Museu Arte Nova desde 2008, fazendo deles a sua morada temporária. Consigo traz objectos com histórias dentro, dispondo-os ao sabor das suas memórias e afectos. Dos caprichos, também, esses biombos permeáveis ao nosso olhar e aos nossos corpos, que desajeitadamente atravessamos, como que de olhos vendados, para nos entregarmos confiadamente nas mãos do desconhecido.

Rodeados de cores e pétalas, subimos em espiral ao encontro de lugares que nos são familiares, tornados outros pela presença de um conjunto de utensílios improváveis mas facilmente reconhecíveis, em combinações decorativas que são um desafio à sensibilidade do visitante. Olhando em volta, percebemos que não é apenas o espaço que se transmuta. Também os objectos adquirem outra significância, despidos desse cunho de banalidade que o quotidiano lhes impõe e assumindo-se como obras de arte. É esse “estatuto” que um vaso, uma mala de viagem, uma mesa posta, um par de cabides ou um conjunto de garrafas reclama. Pela postura que assumem. Pelas narrativas que criam. Pelas questões que convocam.

O branco toma conta de tudo, dando cor à cor. Distrai-nos do acessório, pede-nos que atentemos no essencial apenas. O essencial são agora uns degraus numa passagem estreita, que se sobem pé ante pé, ansiosamente, interessadamente. Essencial é também essa espécie de púlpito que, dominando o espaço, nos oferece novas visões, novas perspectivas. Essencial é ainda a multiplicidade de perspectivas que um espelho pode oferecer. O que nele vemos reflectido – o nosso rosto – é acessório.