Há artistas cuja obra nasce de um instante inaugural, uma epifania silenciosa que se prolonga no tempo. No caso de Paula Bastiaansen, esse momento foi o encontro com uma pequena taça de porcelana chinesa, cuja delicadeza extrema parecia contrariar a ideia de fragilidade. A partir daí, a ceramista holandesa construiu um corpo de trabalho onde a porcelana é menos matéria do que estado: leve, translúcida, resistente ao tempo. A natureza surge como aliada conceptual - os ritmos das marés, os padrões repetidos, a força invisível dos fenómenos naturais -, traduzida não por imitação, mas por ressonância. Em “Fragilidade”, patente no Museu Arte Nova no âmbito da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, essa memória primeira reaparece como fio condutor: objectos que parecem ter sempre existido, suspensos entre permanência e desaparecimento, convocam o olhar para uma atenção lenta, quase meditativa.
A exposição revela a evolução profunda do pensamento espacial de Bastiaansen. Taças, fragmentos, volumes reconhecíveis, aquilo que começou por ser forma, foi progressivamente cedendo lugar ao espaço enquanto matéria central. A artista desloca o foco do objecto para o vazio que o atravessa, até ao ponto em que o centro desaparece e o próprio espaço se torna protagonista. Esta viragem, intuitiva mas inevitável, marca a maturidade de um trabalho que se recusa a fixar-se. Em Aveiro, a porcelana não se impõe; expande-se, instala-se, respira, embrenha-se na arquitectura de um edifício singular. As obras deixam de ser apenas tridimensionais para se tornarem experiência sensorial e corpórea, ocupando as superfícies e dialogando com a luz e com o silêncio. A fragilidade aqui não é fraqueza, mas tensão, esse equilíbrio subtil entre risco e permanência.
Nos desenvolvimentos mais recentes, a cor introduz uma nova pulsação na obra de Bastiaansen. Vermelhos intensos, amarelos vivos e azuis delicados atravessam a porcelana, não como ornamento, mas como energia vital. O processo técnico - folhas finíssimas de porcelana colorida enroladas até quase se confundirem - reforça a ideia de camadas de tempo e de gesto. A cor amplia o campo semântico da obra, acrescentando-lhe força emocional sem lhe retirar contenção. Em “Fragilidade”, essa expansão cromática convive com a delicadeza estrutural, criando um paradoxo fértil em torno de objectos que parecem prestes a quebrar, mas que afirmam a sua presença com convicção. Paula Bastiaansen lembra-nos que a verdadeira fragilidade é, afinal, uma forma elevada de resistência, uma arte de permanecer leve num mundo pesado.
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