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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo” | Carlos Olivera



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”,
de Carlos Olivera
Curadoria | Saúl Ponce Valdivia
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025
Museu de Aveiro / Santa Joana
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


“Abordei a cerâmica com o entusiasmo de uma criança, o mesmo entusiasmo que me move em todos os processos criativos nos vários suportes que utilizo no meu trabalho; claro que recebi bons conselhos dos meus amigos ceramistas sobre o comportamento dos materiais minerais a mais de mil graus e estou-lhes grato. Deixo os rigores factuais da química pura para os especialistas e não me envergonho de ser um questionador constante. Não faço cerâmica por opção, apenas gosto de brincar e tento não perder a frescura. Para mim, será sempre uma questão de magia.”
Carlos Olivera

Desde tempos imemoriais que a argila tem sido cúmplice das mãos humanas, encontrando nelas o gesto de quem procura traduzir o caos natural em formas elementares. Exemplos desta realidade não faltam, cabendo-me hoje traduzir por palavras uma exposição fantástica do ceramista peruano Carlos Oliveira, intitulada “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”. Aquilo que as peças expostas exprimem é o regresso de Olivera a esse ponto zero da criação, a uma cerâmica que emerge da ancestralidade cósmica e que faz do barro matéria e metáfora: Corpo frágil, ventre criador, espelho de um universo em perpétua mutação. Cada peça é a prova de que o barro é uma entidade viva, dócil e sagrada, que aceita estiletes, cicatrizes, pigmentos e estados de alma, como se cada intervenção estabelecesse um pacto com forças invisíveis. O artista faz do barro um ser mediúnico, capaz de incorporar espiritualidades andinas, memórias do fogo, respirações do vento e gestos humanos que procuram a catarse, a cura ou a revelação. Nesse território táctil, onde a matéria absorve emoções com uma clareza quase mística, o barro deixa de ser simples recurso para se tornar em agente de transfiguração. E o olhar que nos devolve é duplo: mostra-nos tanto o esplendor quanto a sombra que transportamos, lembrando, a cada forma, que também nós somos seres de terra amassada, dependentes de uma mão que nos sustém e de um fogo que nos completa.

Em “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”, o gesto cerâmico de Olivera encontra um prolongamento vital na experiência vivida na Fábrica Grestel, em Vagos, onde o artista e o assistente Wilfredo Cruz se viram como “duas crianças numa fábrica de brinquedos”. Ali, no seio de uma comunidade de artesãos hábeis, atentos e disponíveis, a matéria voltou a surpreender, abrindo caminhos inesperados. O ambiente fabril — monumental, disciplinado e tecnicamente exigente — funcionou como laboratório alquímico onde as altas temperaturas e os processos coloidais redefiniram a forma e a identidade das peças. Para Olivera, que sempre cultivou a vertigem criativa, o risco e a imprevisibilidade foram combustíveis do fogo criador: cada fornada foi uma iniciação, cada falha um desvio fértil, cada descoberta um pacto silencioso entre o artista, o barro e a chama. Dessa convivência de dois meses nasceram objectos híbridos, marcados pela cumplicidade com os trabalhadores e pelo entendimento de que a cerâmica pode ser simultaneamente disciplina e desobediência. A residência artística, enraizada na tradição industrial mas atravessada por pulsões espirituais andinas, tornou possível um conjunto de obras que parecem carregadas de uma certa aura benjaminiana — uma aparição irrepetível que se mantém à distância, mesmo quando está ao alcance da mão. É nesse encontro entre técnica rigorosa e imaginação indomada que se consolida a poética de Olivera: um modo de criar que aceita o abismo e que transforma o ofício em ritual.

A compreensão deste universo exige que atentemos no percurso do escultor peruano, cuja biografia revela uma constância rara. Desde a infância em Cusco, com exposições de plasticina aos dez anos, até às grandes esculturas em pedra instaladas em Lima e Barranco, o seu trabalho estabeleceu desde sempre um diálogo entre tradição, espiritualidade e experimentação formal. Olivera atravessou formações em restauro, conviveu com comunidades artísticas norte-americanas, participou em simpósios internacionais e criou obras monumentais que hoje habitam espaços públicos do Peru. Essa multiplicidade de vivências ecoa directamente no que agora apresenta: figuras em transe, rostos desdobrados, criaturas que parecem moldadas tanto pelo gesto humano quanto por forças telúricas. Em “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”, a cerâmica torna-se síntese desta trajectória, um palco onde se misturam a disciplina industrial aveirense e os espíritos dos Andes, a memória das rochas que esculpiu e a vontade incessante de se colocar “à beira do precipício”. A exposição não é apenas um conjunto de peças: É um campo sensorial onde matéria, história e ritual se interligam, convidando o espectador a entrar num jogo lúdico e iniciático. Aqui, Olivera parece dissolver-se no próprio barro, como se devolvesse à matéria aquilo que a matéria sempre lhe ofereceu, a possibilidade infinita de renascer.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Fragilidade" | Paula Bastiaansen



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Fragilidade”,
de Paula Bastiaansen
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística Aveiro 2025
Museu Arte Nova
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


Há artistas cuja obra nasce de um instante inaugural, uma epifania silenciosa que se prolonga no tempo. No caso de Paula Bastiaansen, esse momento foi o encontro com uma pequena taça de porcelana chinesa, cuja delicadeza extrema parecia contrariar a ideia de fragilidade. A partir daí, a ceramista holandesa construiu um corpo de trabalho onde a porcelana é menos matéria do que estado: leve, translúcida, resistente ao tempo. A natureza surge como aliada conceptual - os ritmos das marés, os padrões repetidos, a força invisível dos fenómenos naturais -, traduzida não por imitação, mas por ressonância. Em “Fragilidade”, patente no Museu Arte Nova no âmbito da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, essa memória primeira reaparece como fio condutor: objectos que parecem ter sempre existido, suspensos entre permanência e desaparecimento, convocam o olhar para uma atenção lenta, quase meditativa.

A exposição revela a evolução profunda do pensamento espacial de Bastiaansen. Taças, fragmentos, volumes reconhecíveis, aquilo que começou por ser forma, foi progressivamente cedendo lugar ao espaço enquanto matéria central. A artista desloca o foco do objecto para o vazio que o atravessa, até ao ponto em que o centro desaparece e o próprio espaço se torna protagonista. Esta viragem, intuitiva mas inevitável, marca a maturidade de um trabalho que se recusa a fixar-se. Em Aveiro, a porcelana não se impõe; expande-se, instala-se, respira, embrenha-se na arquitectura de um edifício singular. As obras deixam de ser apenas tridimensionais para se tornarem experiência sensorial e corpórea, ocupando as superfícies e dialogando com a luz e com o silêncio. A fragilidade aqui não é fraqueza, mas tensão, esse equilíbrio subtil entre risco e permanência.

Nos desenvolvimentos mais recentes, a cor introduz uma nova pulsação na obra de Bastiaansen. Vermelhos intensos, amarelos vivos e azuis delicados atravessam a porcelana, não como ornamento, mas como energia vital. O processo técnico - folhas finíssimas de porcelana colorida enroladas até quase se confundirem - reforça a ideia de camadas de tempo e de gesto. A cor amplia o campo semântico da obra, acrescentando-lhe força emocional sem lhe retirar contenção. Em “Fragilidade”, essa expansão cromática convive com a delicadeza estrutural, criando um paradoxo fértil em torno de objectos que parecem prestes a quebrar, mas que afirmam a sua presença com convicção. Paula Bastiaansen lembra-nos que a verdadeira fragilidade é, afinal, uma forma elevada de resistência, uma arte de permanecer leve num mundo pesado.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Do Vermelho ao Vermelho" | Heitor Figueiredo



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Do Vermelho ao Vermelho”,
de Heitor Figueiredo
Curadoria | Patrícia Sarrico, Heitor Figueiredo
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística Aveiro 2025
Galeria da Antiga Capitania
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


A Casa de Heitor Figueiredo é um território habitado por estórias, sonhos e objectos que parecem ter encontrado ali um lugar provisório antes de se tornarem escultura. Entre brinquedos usados, fragmentos de ferro, madeira e palavras inscritas, constrói-se um universo onde o sonhado parece surgir em busca de uma fissura para se evadir. É dessa tensão entre o íntimo e o material, entre o jogo e a construção, que nasce a sua obra. Tal como Jorge Vieira desenhava os sonhos para que não se perdessem, Heitor trabalha a partir da imaginação como quem brinca seriamente: modela, cola, grava, equilibra volumes frágeis que se erguem no espaço com o mínimo apoio. As suas peças não imitam o real, antes o insinuam, convocando torres, casas, naves ou seres indefinidos que existem num limiar poético, onde ver é já um acto sensorial pleno, uma circulação de emoção.

A cerâmica é o eixo primordial deste trabalho, entendida não apenas como técnica, mas como herança viva. O barro vermelho, rude e pesado, aprendido com os mestres da Asseiceira e de Beringel, ou nos cursos de férias do CENCAL com ceramistas estrangeiros, é trabalhado com a liberdade de quem conhece profundamente a tradição e por isso a pode subverter. O trabalhar o “barro rude e pesado, cheio de areia”, a impressão de texturas encontradas, as palavras fragmentadas, os desenhos esgrafitados e os vidrados desenhados, compõem um léxico visual que se completa com títulos irónicos e sugestivos, abrindo a obra à interpretação do espectador. Após secagens e cozeduras sucessivas, a montagem final integra restos de ferro, paus, arames, tubos de plástico ou objetos banais, num jogo de associações imprevistas que dá sentido ao desperdício e transforma o efémero em permanência poética.

Com um percurso sólido e discreto, Heitor Figueiredo afirma-se como uma das vozes mais singulares da cerâmica contemporânea portuguesa. Formado no Porto, profundamente ligado ao Alentejo, percorreu centros fundamentais da cerâmica internacional - de Sargadelos a La Bisbal, de Faenza à Dinamarca - sem nunca perder a modéstia nem o espírito colectivo. A sua obra, eclética e multifuncional, estende-se para além da cerâmica, incorporando fotografia, instalação e gesto crítico, muitas vezes atravessado por humor e ironia. Prémios, exposições e a integração na Academia Internacional de Cerâmica confirmam um percurso que não se impôs pelo aparato, mas pela consistência. Em “Do Vermelho ao Vermelho”, a terra regressa à terra, lembrando-nos que, sendo finitos, é na arte e na argila moldada pela mão que deixamos vestígios duradouros do que fomos e do que sonhámos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

INSTALAÇÃO: “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo” | Lisa Barbosa



INSTALAÇÃO: “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”,
de Lisa Barbosa
Curadoria | Lisa Barbosa, Patrícia Sarrico
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025
Estação de Aveiro
18 Out 2025 > 18 Jan 2026

Vestido de branco e pintado de azulejos, o edifício da antiga Estação dos Caminhos de Ferro de Aveiro acolhe, por estes dias, “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”, instalação de Lisa Barbosa que se integra na XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025. Numa sala envolta em penumbra, um conjunto de girassóis atrai o olhar e a reflexão do visitante. A artista parte das memórias de infância, dos lugares campestres, do barro, para reconstruir um território onde gesto e emoção se fixam e desmultiplicam. Aqui, cada pétala endurecida pelo fogo guarda a vulnerabilidade daquilo que nasce para desaparecer, lembrando-nos que a beleza é sempre, tal como a flor, uma aparição fugaz, uma forma de luz ancorada na experiência humana. Nesse encontro entre tradição e escultura contemporânea, a flor não é ornamento, antes veículo: Condensa afectos, traduz ausências, transporta o peso simbólico de celebrações, lutos e renascimentos. Como quem reaviva um vocabulário esquecido, Lisa Barbosa convoca a flor como testemunho da nossa busca insistente pelo belo, uma busca que, longe de ser superficial, é a forma mais honesta de manter vivo aquilo que em nós insiste em florescer.

Núcleo visceral da instalação, o campo de girassóis negros prolonga esta reflexão e desloca-a para o território da comunidade e do cuidado. A cor do carvão, onde tudo termina e tudo recomeça, acolhe hastes firmes que perseguem a luz sabendo que só o confronto da sombra lhes permite erguer-se e perseverar. A artista reinscreve o heliotropismo como metáfora ética, dizendo-nos que crescer é procurar a claridade, mas também reconhecer o lado oculto que sustenta o movimento. Na rigidez suspensa das flores, há um eco de brisa que perpassa, fricção que desinquieta e se oferece ao olhar para desmontar certezas e guiar o espectador aos lugares da sua própria interioridade. O amarelo vibrante que vemos com a imaginação no topo de cada uma das flores ressoa como promessa de alegria, de partilha, de pertença, enquanto o negro que se impõe ao nosso olhar devolve à obra a sua dimensão cíclica e trágica. Aqui, cada caule é uma biografia em construção no amparo das raízes entrelaçadas, prova de que a flor só se cumpre plenamente quando é, também, comunidade.

A instalação avança então para o terreno íntimo da semente, esse lugar onde origem, aposta e risco coabitam. Em cada girassol, Lisa Barbosa expõe a fragilidade das relações humanas, o semear no outro o que temos a mais, mas também o que nos falta. Ali, as sementes repousam sobre um solo incapaz de nutrir, espelhando a tentação de investir afectos em terras inférteis, num gesto de devoção cega que desfaz o equilíbrio do dar e receber. A cerâmica, ao fixar esse instante de falha e de esperança, afirma a semente como território ético. Germinar implica humildade, aceitar a espera, resistir com coragem. A artista utiliza a cerâmica para materializar esse instante crítico, tornando visível o que normalmente permanece abstracto: A escolha dos solos afectivos onde investimos, a linha ténue entre generosidade e devoção cega, a exaustão de quem se oferece de forma desmedida. As sementes pousam sobre um solo de carvão estéril, imagem que sintetiza o perigo de esquecer o próprio centro e de ignorar as necessidades internas. Ao reencenar este ciclo com precisão escultórica, Lisa Barbosa amplia o alcance ético da instalação: O crescimento emocional não depende apenas da luz que procuramos, mas da lucidez com que escolhemos onde semear e da coragem de reconhecer terrenos estéreis.

sábado, 6 de dezembro de 2025

CERTAME: XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025



CERTAME: XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025
Vários locais
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


Com um percurso iniciado em 1989, a Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro tem sabido afirmar-se como uma referência mundial na criação contemporânea, ao mesmo tempo que demonstra a sua vocação enquanto pilar estratégico da política cultural da cidade. A presente edição confirma a projecção global do evento, traduzida na recepção de 488 candidaturas e 782 obras provenientes de 62 países, implicando um processo de escolha que se pautou pelo rigor e diversidade. Composto por especialistas nacionais e internacionais, o júri desta edição da Bienal seleccionou 110 peças de 96 artistas e atribuiu três prémios e seis menções honrosas, reflectindo a amplitude estética e geográfica dos participantes. Como corolário deste processo, entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 Aveiro transforma-se num palco internacional da cerâmica contemporânea, com doze exposições distribuídas por museus, galerias e espaços urbanos, onde propostas conceptuais, experimentações vanguardistas e revisitações técnicas enraizadas na tradição dialogam entre si. Esta dimensão é sustentada por uma vasta rede de parceiros institucionais, bem como pelo trabalho especializado das equipas municipais, que muito têm contribuído para revitalizar um certame que, há pouco mais de uma década, se encontrava deveras fragilizado.

As obras seleccionadas para esta edição da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro dão prova da sua qualidade, mas são também reveladoras da maturidade institucional do processo, marcado por debates intensos e por uma dinâmica de diálogo que reflectiu a pluralidade cultural dos jurados. O debate aberto entre os jurados reforçou a legitimidade das decisões e espelhou o carácter democrático do concurso, sublinhando o nível de profissionalismo que hoje distingue a Bienal. Para organizadores e participantes, o evento já não é apenas uma competição, mas um espaço de encontro global que promove inovação, capacitação e partilha de conhecimento, afirmando Aveiro como plataforma internacional de criação contemporânea. O consenso alcançado pelo júri permitiu apurar os resultados com confiança, consolidando uma edição considerada exemplar pela diversidade e pelo rigor técnico apresentados. Com o reconhecimento crescente e com uma estratégia cultural que encara a cerâmica como motor de desenvolvimento territorial, a Bienal prepara-se para continuar a fortalecer redes, atrair artistas de todos os continentes e afirmar, ano após ano, o seu contributo para a celebração da arte cerâmica e da diversidade cultural.

É no Museu de Aveiro Santa Joana que o visitante pode encontrar a Exposição do Concurso Internacional desta edição da Bienal, mostra incontornável das tendências da cerâmica artística contemporânea. Cor, forma, textura, conceito e expressão são o mote para uma exposição que reúne os trabalhos escolhidos pelo júri, com destaque para os premiados “Rainy Day”, da polaca Hanna Miadzvedzeva, “White Flowers Still Life”, do espanhol Fernando Garcés, e “Hybrid #9”, do chinês Shiyuan Xu. O Museu de Aveiro Santa Joana acolhe ainda “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo, do ceramista peruano Carlos Olivera, trazendo-nos um vislumbre das culturas peruanas pré-incas. Paula Bastiaansen, a grande vencedora da anterior edição da Bienal, mostra-nos a sua “Fragilidade” no espaço superior do Museu Arte Nova. Quase paredes meias com este espaço, o Museu da Cidade acolhe outra exposição imperdível, na qual os membros da Academia Internacional de Cerâmica, sediados na Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, mostram à sua arte. É lá que podemos reencontrar Ellen van der Woude, grande vencedora do Concurso Internacional em 2021 e que na anterior edição da Bienal nos brindou com o seu “Paraíso Frágil”, contendo peças de rara beleza que estiveram patentes ao público no Museu Arte Nova.

“Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”, magnífica instalação de Lisa Barbosa, justifica bem a subida da Lourenço Peixinho, ao encontro da Estação de Aveiro e desse “campo negro” como ideia de comunidade e pertença através de um grupo de girassóis que coabitam. Outra exposição que merece observação cuidada e atenta, porquanto mergulha o visitante numa autêntica “casa das estórias” tem a assinatura de Heitor Figueiredo, intitula-se “Do Vermelho ao Vermelho” e está patente na Galeria da Antiga Capitânia. A participação activa das escolas dos Municípios da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro traduziu-se no trabalho “Poesia da Forma. Sonhos”, de Núria Figueiredo, e que pode ser vista no espaço Atlas. O périplo pela Bienal deste ano termina em beleza na Praça do Rossio com a exposição “Múltiplos”, que reúne os trabalhos de alunos da Escola de Arquitectura, Arte e Design da Universidade do Minho, da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Mas a Bienal não de fica por aqui. Da colecção Bienal nos Hotéis de Aveiro, com o título “Atmosfera Distinta!” aos objectos chineses em barro da colecção Carlos Xavier Reis, patente no Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro, muito há ainda para ver. Uma última nota para a programação cultural, rica e variada - performances, concertos, visitas guiadas, poesia e dança - e que culminará com o concerto de encerramento da Bienal pela Orquestra das Beiras no próximo 18 de Janeiro.

sábado, 13 de janeiro de 2024

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Paisajes Entretejidos”



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Paisajes Entretejidos”,
de Juana Fernandez
XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Estação
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


A presente edição da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro está a chegar ao fim, mas é tempo ainda de apreciar o trabalho da artista galega Juana Fernandez, no espaço da antiga Estação da CP. Distribuídas por duas salas, as peças são significativas do trabalho mais recente da ceramista, nomeadamente as pertencentes às séries “Vaivenes” e “Medidas Variabiles” e ainda trabalhos de joalharia da série “Constelaciones”. Passear pelo mundo de Juana Fernandez é perceber na natureza a origem do seu trabalho, o quanto o vento ou uma paisagem servem de inspiração e ponto de partida de novas formas, estruturas ou processos de crescimento. É deixar fluir os sentidos ao encontro de reflexões, emoções e memórias, experiências vitais que se materializam na argila.

O processo de trabalho de Juana Fernandez é intuitivo. Partindo de elementos simples, neles são perceptíveis a repetição do gesto e a impressão dos dedos como registos do processo. As peças nascem da reunião desses elementos, da forma como são agrupados, como se da construção de um puzzle se tratasse. O tempo lento e pausado que o trabalho implica faz também parte do produto final, integrando as formas e fazendo-se adivinhar em cada estrutura. Da exploração das propriedades da argila, do grés ou da porcelana nascem arquitecturas efémeras, pequenos habitats, abrigos, ninhos, conchas, peças compostas por finas lâminas de aspecto frágil e delicado. Óxidos e pigmentos acrescentam novos matizes às superfícies, elevando a capacidade de provocar e o poder de comunicar sensações de cada uma das peças.

Mas nem só de argila se faz o trabalho de Juana Fernandez. A incorporação do têxtil na cerâmica, mediante a construção de uma trama, acrescenta textura às superfícies, desenha um jogo de contrastes que resulta numa percepção mais sensorial e táctil, oferecendo ao conjunto novos significados e ressonâncias. A expressão, a intenção e a plasticidade tornam-se evidentes, convidam o visitante a experimentar, ele mesmo, o impulso criador, a energia, o gesto, a força, o impulso. O caminho é reflexivo e íntimo, tão próximo como uma carícia na nossa própria pele. Nalgumas obras encontramos uma inocente atitude naif, noutras é a cor a trazer ao nosso encontro o valor das coisas mais simples. Vale a pena mergulhar na poesia que cada trabalho de Juana Fernandez encerra, deixarmo-nos dominar pela música que deles se derrama e passear pelos mais ínfimos detalhes da sua obra.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Paraíso Frágil"



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Paraíso Frágil”,
de Ellen van der Woude
XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Museu Arte Nova
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


Ceramista holandesa a viver e a trabalhar no Luxemburgo há três décadas, Ellen van der Woude tem na criatividade um dos elementos-chave da sua existência. Desde criança que se viu rodeada de papel, lápis e tinta que lhe permitiam explorar as mais diversas formas de expressão. Quando foi apresentada ao barro, no início do seu percurso artístico, a ilimitada capacidade de expressão deste material fascinou-a a ponto de o ter achado incomparavelmente mais versátil, profundo e desafiante do que qualquer outro com o qual tivesse trabalhado anteriormente. O que se seguiu foi uma viagem contínua de exploração e pesquisa que alimentou a sua paixão crescente pela cerâmica e que faz dela, hoje, uma das mais reputadas ceramistas a nível mundial. A sua ligação à cidade de Aveiro não é de agora - com a peça “Big Smile I”, ela foi a grande vencedora do Concurso Internacional da anterior edição da Bienal - e este é um regresso em grande, trazendo desta vez consigo uma exposição individual e dando-nos a ver a maravilha que se abriga nos seus “paraísos frágeis”.

“Paraíso Frágil” explora a beleza única da natureza, a rica variedade de texturas e formas, o seu ritmo e composição, a sua vulnerabilidade. Refere-se também à frágil relação do mundo com a natureza e à nossa interdependência e dependência da biodiversidade. Assusta-a a perspetiva de que a humanidade possa vir a destruir uma só que seja das muitas maravilhas que se abrigam no nosso planeta. Daí que as suas peças reflictam a sua enorme ligação ao mundo natural, uma observação cuidada e íntima, a constatação da resiliência e fragilidade dos ecossistemas, ao mesmo tempo que evidenciam os laços entre a humanidade e a natureza. Uma ligação que tem vindo a perder-se e para cuja importância de uma maior compreensão e respeito pelo mundo natural a artista chama a nossa atenção, mostrando ser essa uma forma de promover o nosso bem-estar psicológico e físico. Esta visão é particularmente inspiradora e convida a abrandar, a reconectarmo-nos com a natureza e, acima de tudo, a contribuir para a sua preservação.

É bom ver Ellen van der Woude e o seu trabalho de novo em Aveiro, uma cidade com uma profunda ligação à ria e ao mar. O mundo aquático no seu respirar e na sua extraordinária biodiversidade surge aqui numa dimensão artística de enorme beleza e simbolismo. Detemo-nos nas suas borboletas azuis, nas memórias quebradas, na dança das ondas ou nos sonhos florescentes e parece-nos vê-la a misturar e combinar os materiais, servindo-se de texturas, óxidos, pigmentos e barro colorido. Adivinhamos a ternura com que manuseia o barro, na ânsia de recriar as formas naturais, tornadas ainda mais fascinantes graças ao prolongamento da sua imaginação. Entre a vulnerabilidade e a euforia, assim nascem as mais belas e delicadas peças, oferecendo-se à nossa fruição como um regalo para os sentidos. Uma exposição imperdível, para ver no espaço único do Museu Arte Nova até ao dia 28 de Janeiro de 2024.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “A Poética da Erosão. A Obra Cerâmica de Cecília de Sousa”



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “A Poética da Erosão. A Obra Cerâmica de Cecília de Sousa”
XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Galeria da Antiga Capitania
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


Cecilia de Sousa nasceu em Lisboa em 1937. Aos 13 anos de idade, o pai inscreveu-a num curso de lavores femininos na prestigiada Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, mais adequada aos destinos domésticos tradicionais que eram então consagrados às mulheres, mas Cecilia rejeitou obstinadamente esta hipótese e conseguiu ser matriculada no Curso de Cerâmica. Esta impertinência juvenil, associada ao facto de ter tido como professor Manuel Cargaleiro, seria fundamental para a sua vida, revelando desde logo um temperamento afirmativo e perseverante que, como veremos, permitiu estruturar uma continuada carreira como ceramista. Concluído o Curso de Cerâmica em 1955, realizou no ano seguinte uma viagem a França e à Suiça, aí tomando conhecimento da obra de Rouault Modigliani e Vieira da Silva, facto assinalado com peso biográfico pela autora e que articula directamente com as suas escolhas estéticas. Ainda em 1956, mantém a colaboração com Manuel Cargaleiro na produção dos azulejos da fachada da Igreja de Santo António em Moscavide.

Em 1957, foi aceite a sua participação na Exposição de Artes Plásticas da recém-criada Fundação Calouste Gulbenkian. O primeiro reconhecimento do seu trabalho, mais do que serenar, estimulou ainda mais a inquietação e curiosidade em conhecer o que de melhor se fazia na disciplina que elegera como sua, a Cerâmica. Este facto levou-a a cumprir, no mesmo ano, uma breve passagem pelo Estúdio SECLA nas Caldas da Rainha, referência para a cerâmica moderna em Portugal, principalmente porque nesse Estúdio trabalhava a ceramista húngara Hansi Stael, tendo ficado como documento desta incursão de Cecília de Sousa uma pequena travessa com gestos caligráficos imbricados contra um fundo texturado. Ao fim de 11 anos de intenso trabalho, Cecilia participou em vinte e três exposições, cinco das quais no estrangeiro, e três individuais; recebeu quatro prémios nacionais em 1957, 1962, 1964 e 1965; executou encomendas para espaços públicos em Portugal e Espanha e colaborou com alguns dos nossos melhores arquitectos e decoradores.

Homenageada pela Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, Cecília de Sousa dá-nos a ver “A Poética da Erosão”, através da qual revela a forma como explora todas as potencialidades da cerâmica, quer na concepção de painéis, quer de peças avulsas que tiram partido das texturas, dos brilhos e de todos os recursos técnicos que individualizam esta expressão artística. A sua obra é dotada de uma expressão poética, da linha e da cor, que ganha cada vez maior identidade e se acentua no contraste progressivamente matérico dos seus objetos. Num projecto de fachada para um hall de hotel, um salão de bowling, um refeitório de uma fábrica, uma estação de metro ou um cinema, como em peças de singular beleza como o “Disco” ou a “Placa”, as “Camarinhas Azuis” ou os “Sinais de Lisboa”, é visível a intenção com que a artista introduz nas suas criações o tempo, a erosão, a memória de criações e civilizações arcaicas, construindo peças que parecem quase arqueológicas, testemunhos de idades esquecidas e culturas ignoradas.

Não obstante o brutalismo evidente de alguns objetos, a desmesura das suas dimensões, todas são pontuadas por uma subtileza, uma doçura que nos cativa, não no imediato, mas quando nos perdemos observando-as, sentindo os acidentes e o desgaste a que foram sujeitas, um pouco como o rosto pode testemunhar uma existência feita de muitos momentos, traçado por inúmeras experiências, burilado pela vida. Assim é a obra de Cecília de Sousa, uma ceramista que partindo da lógica e estética do seu tempo descobriu, no seu percurso, o caminho da intemporalidade e que agora se dá a conhecer na Galeria da Antiga Capitania de Aveiro, integrada na XVI Bienal Internacional de Cerâmica de Aveiro. Exposição em cooperação com o Museu Nacional do Azulejo.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: Artistas Portugueses AIC 



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: Artistas Portugueses AIC
Ana + Betânia, Carlos Enxuto, Heitor Figueiredo, João Carqueijeiro, Sofia Beça, Xana Monteiro, Yola Vale
XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2023
Galeria Morgados da Pedricosa 
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


A Cerâmica Artística tem, por estes dias, o seu epicentro em Aveiro. É lá que, num conjunto selecionado de espaços expositivos, o visitante pode apreciar o que de mais engenhoso, criativo e belo se abriga em cada uma destas peças, pequenos pedaços de barro feitos Arte pelas mãos do Homem. Entre a abstração e o figurado mais realista, as peças distribuem-se por géneros, motivos, formas e suportes os mais diversos, fonte de admiração e fascínio de todos os públicos, independentemente dos seus conhecimentos e interesses nestas matérias. A exposição de Artistas Portugueses AIC – Academia Internacional de Cerâmica, que pode ser vista na Galeria Morgados da Pedricosa até ao dia 28 de Janeiro, é disso um bom exemplo. A mostra apresenta um conjunto de trabalhos com assinatura de Ana + Betânia, Carlos Enxuto, Heitor Figueiredo, João Carqueijeiro, Sofia Beça, Xana Monteiro e Yola Vale, firmando a sua identidade de cada um dos criadores num espaço desafiante e exigente, na sua dupla dimensão: Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro e Galeria Morgados da Pedricosa.

“Será o Vazio algo a evitar ou será o vazio uma parte integrante do nosso caminho que nos leva a descobrir a profundidade da nossa existência enquanto seres.” Parecendo encerrar em si uma questão, a frase é de Carlos Enxuto e leva-nos ao encontro de uma peça enigmática, espécie de trilho interrompido por um vasto portão, espaço limite que determina um antes e um depois para aqueles que se dispuserem a franqueá-lo. Na mesma sala, Heitor Figueiredo conta-nos, em peças delicadas que parecem inspiradas num conto infantil, o mito da criação, “a história do princípio, quando não existia nenhum pássaro, nenhuma montanha. Apenas o céu. Apenas o mar. Não existia mais nada, nenhum som, ou movimento. Apenas o Coração-do-Céu, sozinho.” Numa sala contígua, Sofia Beça mostra-nos “Ilhas” (2022) e “És como as Ondas” (2023), duas peças simultaneamente delicadas e rudes, pelo modo sensível de trabalhar a matéria e pelas suas características de terra-rocha. Aqui, como escreve Helena Mendes Pereira, “o mar e os seus pontos flutuantes de vida humana são um moto de pensamento, de reflexão: não seremos todos ilhas, mergulhados que estamos nas nossas profundezas, à deriva, ainda que capazes de flutuação sem pressa.”

Xana Monteiro apresenta “Valsa Lenta”, instalação impactante que nos leva ao encontro dos obstáculos (pedras) que se atravessam no nosso caminho ao longo da vida. Ana + Betânia prestam um tributo sentido à beleza e complexidade dos nossos habitats naturais e ao poder regenerador da natureza face à agressão levada a cabo pelo Homem. De Yola Vale podemos ver “mare MEDITERRANEUM mortis”, uma peça que nos fala de deslocação, de separação, de migração e de travessia da rota marítima mais perigosa do mundo. Uma peça que representa “um mar revolto, um caminho sinuoso, um labirinto de subterfúgios, um apelo à consciência.” Deixo para o fim, propositadamente, a peça que mais me chamou à atenção neste espaço tão especial. “Floresta”, de João Carqueijeiro, é uma instalação que responde à reflexão do autor “sobre os efeitos devastadores do fogo: a desolação da paisagem, os tons de cinzento queimado, a dor da natureza e a dor humana… quando tudo se descontrola, desmorona e finalmente se extingue e se apaga.” Face a uma “floresta” de troncos temperados pelo fogo vivo, o visitante é convidado a deambular por entre os elementos, interiorizando a catástrofe e ponderando o dia seguinte. Genial!

sábado, 9 de dezembro de 2023

CERTAME: XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2023



CERTAME: XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2023
Vários locais
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


No reino do génio, do engenho e da criatividade. É desta forma que podemos classificar a Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, evento a cumprir a sua décima sexta edição e que serve de prólogo ao Aveiro 2024 - Capital Portuguesa da Cultura. Repartido por onze pólos distintos, o Programa da Bienal oferece, para além do Concurso Internacional cuja exposição reúne 98 trabalhos de 80 artistas, várias exposições individuais e colectivas, uma das quais “Corrente Báltica”, resulta de uma parceria com a Bienal de Cerâmica da Letónia. A ligação à comunidade escolar exprime-se através do projecto “Bienal vai à Escola. A Poesia da Forma”, com a proposta de trabalhar o tema “A Viagem da Palavra”. Masterclasses, workshops, actividades participativas, programas para as famílias, visitas orientadas, oficinas, conferências e jornadas técnicas, acrescentam qualidade e diversidade ao programa, tornando-o rico e apelativo. Acrescente-se um conjunto de eventos culturais que incluem visitas encenadas, dança, novo circo, conversas, poesia e muita música e torna-se claro que esta Bienal tem tudo para agradar a todos.

Falando da minha própria experiência, direi que a imersão na Bienal tomou-me praticamente uma tarde inteira (as visitas terminam às 18h00), oferecendo a possibilidade de visitar sete polos expositivos. A aquisição do Passaporte para visita aos vários núcleos é mandatária e tem o custo de € 2,00. Começando pelo Museu de Aveiro / Santa Joana, é lá que se encontram expostos os trabalhos do Concurso Internacional, seleccionados de um universo de 915 peças, de 565 artistas representando 63 nacionalidades, naquela que constitui a maior participação de sempre. No seu conjunto reflectem a diversidade nas abordagens dos artistas ao nível das técnicas, dos materiais, das formas e dos conceitos e, simultaneamente, expressam as diferentes geografias resultando num exercício de experimentação, inovação e criatividade em cerâmica. Para além da obra vencedora, “Balance in Red”, da neerlandesa Paula Bastiaansen, e de outras obras premiadas, como “Grow”, da nipónica Hidemi Tokutake, “Ming-Miao Ko”, do artista de Taiwan com o mesmo nome ou “Que nasçam flores”, da portuguesa Lisa Barbosa, é possível apreciar interessantes trabalhos de artistas de países tão diversos como a Itália ou os Estados Unidos, a Argentina ou a Turquia, a Suíça ou o Irão.

Paragem seguinte, a Galeria Morgados da Pedricosa, a dois passos do Museu Santa Joana, alberga uma exposição colectiva de ceramistas portugueses onde se incluem Carlos Enxuto, João Carqueijeiro e Sofia Beça, entre outros. A mostra é imperdível e tem a particularidade de reunir pela primeira vez, numa exposição única, artistas / ceramistas portugueses com o carimbo AIC - Academia Internacional de Cerâmica. No caminho para a baixa da cidade, paragem nos Claustros da Igreja da Misericórdia para apreciar “Binómio”, colectiva da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, com obras cujo diálogo assenta nas ideias de interioridade, exterioridade, verticalidade ou horizontalidade. Segue-se a Galeria da Antiga Capitania e a obra cerâmica de Cecília de Sousa, subordinada ao título “A Poética da Erosão”, exposição que, pelo seu valor, será alvo de um apontamento individualizado aqui no blogue. O mesmo acontecerá com o extraordinário trabalho “Paraísos Frágeis”, de Ellen Van Der Woude, patente no Museu Arte Nova. O Museu da Cidade acolhe “Corrente Báltica”, onde se mostra a corrente criativa dos países bálticos, à boleia da Bienal de Cerâmica da Letónia. Percorrer a Avenida Lourenço Peixinho em toda a sua extensão, ao encontro da Estação de Caminhos de Ferro. pode ser desmotivador, mas “Paisagens Entrelaçadas”, de Juana Fernández, vale mesmo a pena.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Aqua +32" | Carlos Enxuto



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Aqua +32”,
de Carlos Enxuto
XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Museu da Cidade de Aveiro
30 Out 2021 > 30 Jan 2022


Carlos Enxuto nasceu nas Caldas da Rainha no ano de 1963. Tinha aqui início uma viagem onde o artista e a cerâmica se cruzaram repetidamente, das visitas à olaria no velho moinho ao cimo da rua, às muitas oficinas e olarias que existiam na sua cidade ou à “sala de visitas” em que o Museu Malhoa acabaria por se transformar. Sem dar por isso, seguiu o ramo das ciências no Ensino Secundário”, a matemática, a física e a química a surgirem como fontes de inquietação para acabarem por se transformar na base interdisciplinar de conhecimentos que aplica hoje na sua cerâmica. Incessante busca pelo equilíbrio das formas e das cores, tendo na representação da água uma constante, a viagem de Carlos Enxuto no mundo da cerâmica toma forma numa nova exposição intitulada “Aqua +32”, integrada na programação da XV Bienal Internacional de Cerâmica Artista de Aveiro e que, até ao próximo dia 30 de Janeiro, pode ser vista no Museu da Cidade.

“Aqua” pretende constituir-se num momento de reflexão, de sentir o significado da água na vida de cada um de nós, tal como Carlos Enxuto a sente. Numa cidade banhada por água, os canais como veias que percorrem o corpo da cidade, a obra do ceramista adquire a dimensão do real, a força das suas mãos como as correntes que fluem ao sabor das marés. O objecto que nasce do barro banhado pela água vem contar uma história, olhando o tempo que traz e leva, momentos de vida das gentes da Água. Ora orgânicas, ora geométricas, as formas onde essa água continua a sua viagem transportam a um movimento onde o ceramista procura o equilíbrio na sua criação, como o intervalo entre as marés onde a luz na água reflecte o que a envolve. Nelas percebemos diálogos, narrativas, matéria-criador, objecto-observador, algo só possível porque resultado da união das águas com a matéria.

Em “+32”, os tempos de criação do objecto cerâmico são debatidos através das peças que acompanham a exposição. A caixa conta a história de quem trabalhou o bloco de grés, o vidrado que a cobre a deixar à vista as cicatrizes deixadas no barro pelas mãos do Homem e da Natureza. Transportado para um bailado entre o ocidente e o oriente, o visitante vê em “Bules” um convite à celebração da cerimónia do chá, à comunhão e à partilha. A porcelana aparece numa viagem em “Timeline”, mostrando a sua força como matéria enquanto percorre um rio negro. A instalação “À mesa” é uma história contada com milhares de anos, desde a primeira tigela em simples argila vermelha, até à delicada tijela de porcelana. O térmico da exposição é marcado pelo início da cerâmica, acentuando a viagem pela criação, onde o artista encontra o prazer de criar o arquétipo da cerâmica – a tigela -, o objecto cuja beleza e estética nos transporta para casa, cuja forma nos dá prazer e conforto e cuja função alimenta as gentes do mar e as gentes da terra.

sábado, 11 de dezembro de 2021

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "L'Empreinte du Geste" | Jean-François Fouilhoux



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “L’Empreinte du Geste”,
de Jean-François Fouilhoux
XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Galeria da Antiga Capitania do Porto de Aveiro
30 Out 2021 > 30 Jan 2022


“Gosto da argila. Comovo-me sempre quando vejo a marca dos meus dedos no barro. A argila memoriza o mínimo toque, guardando o movimento que lhe transmitimos. É imediato; a mais pequena variação e até hesitação deixam a sua marca.”
Jean-François Fouilhoux

À semelhança do pigmento e da parede da caverna, ou do lápis e do papel, o barro alia-se primeiro à mão, depois, ao corpo e a todo o tipo de ferramentas. O trabalho de Jean-François Fouilhoux desenvolve esta ideia: ele escreve no barro. Tudo começa com a criação de uma parede de argila na qual irá desenhar. O seu lápis? Uma lâmina flexível que vai curvando à sua vontade para desenhar um volume. Depois movimenta-o no interior da parede de argila que vai cortando ao mesmo tempo que desenha na sua superfície. No interior do barro o volume forma-se às cegas, apenas imaginado à medida que vai sendo criado. O artista vive esse volume, fruto de um traço de energia, de tensão, levado a cabo por um caligrafia, para, num gesto meditado, o sacrificar. Enfim livre, a marca do gesto reduz o todo à sua superfície, como se fosse pele ou uma folha.

A relação de Jean-François Fouilhoux com a argila é mais uma história entre o cheio e o vazio, recorrente na cerâmica. É isso que podemos constatar, apreciando os seus trabalhos agora expostos na Galeria da Antiga Capitania, peças obtidas a partir da moldagem e cozedura de grés branco e esmalte “celadon”. Criados ao sabor do gesto, arcadas, volutas, arabescos e muitas outras formas de variada complexidade encontram-se e travam entre si diálogos eloquentes, como elementos de uma coreografia cósmica única e irrepetível. Na sua busca pelo momento determinante, Jean-François Fouilhoux faz da sua uma obra de oposições e contrastes: a profundidade do “celadon” e a sua transparência, a forma como o esmalte trata a luz, a oposição entre o macio e o áspero, a leveza da argila, o finito e o inacabado, a curva e o ângulo recto. Feita de poesia, espanto, emoção, de rupturas inesperadas que despertam a suavidade da cor, as peças parecem existir para mergulhar o visitante no abismo do prazer.

Num movimento ascendente cuja origem se encontra no mais fundo da terra, “L’Empreinte du Geste” é um convite a uma viagem sensorial entre dobras, transparências e fissuras, sinclinais e anticlinais que abrigam a força do gesto que os determinou. O “celadon” funciona como um complemento perfeito na obra de Fouilhoux, conferindo-lhe uma sensação de doçura, uma impressão de profundidade infinita. Esta serenidade permite-lhe exaltar as tensões, uma certa dramaturgia em esculturas de linhas complexas, vivas e por vezes atormentadas. Perante cada uma das peças, percebemos esse ímpeto vibratório, o encontro do cheio e do vazio, de definido e do indefinido, um equilíbrio frágil que encontra eco na nossa condição humana. Como um elo que finalmente podemos tecer entre culturas, uma linguagem que cabe a cada um de nós decifrar e partilhar. A arte como linguagem universal. Que melhor coisa podemos querer?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

CERTAME: XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro



CERTAME: XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Vários Locais
30 Out 2021 > 30 Jan 2022


A Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro constitui uma das mais relevantes manifestações culturais em Portugal e a nível internacional, no âmbito da produção de cerâmica artística. Através do estímulo à experimentação e à criatividade, o certame visa contribuir para a produção de cerâmica artística contemporânea, constituindo-se como um polo dinamizador de novas tendências da cerâmica e contribuindo para uma formação didática e para o desenvolvimento de carácter cultural. Centro de diálogo e partilha, age como disseminador de correntes e conceitos, abrindo caminhos no campo da cerâmica artística contemporânea, actuando no âmbito da renovação estética e, igualmente, dando a conhecer novos materiais e técnicas.

Contemplando 128 obras de 113 artistas de 58 nacionalidades diferentes, a exposição principal está sediada no Museu de Aveiro / Santa Joana. Os trabalhos foram seleccionados entre 477 obras a concurso de um total de quase três centenas de artistas (individuais e colectivos) que se candidataram. Esta exposição destaca-se pela diversidade e pelo carácter inovador, explorando a riqueza plástica da matéria cerâmica. Nela podemos ver as peças vencedoras do concurso internacional, com destaque para “Big Smile”, de Ellen van der Woude, a obra vencedora. Marie-Josée Comello, com “ETA 24.06”, e Andri Ioannou, com “Nereide”, alcançaram as posições imediatas. É lá que encontramos também as menções honrosas atribuídas a Anima Roos, Cheng-Chung Yu, Chin-Wang Chen, Filipe Faleiro, Lara De Sio, Olga Simonova, Rita Gonçalves, Sunbin Lim e Yukiko Kitahara.

Integrando o vasto programa, há um conjunto de exposições que ocupam alguns dos mais importantes equipamentos culturais da cidade e que vale a pena visitar. No Museu da Cidade de Aveiro, Carlos Enxuto expõe “Aqua + 32”. As imagens de Celine Marie dão lugar a “A Metamorfose do Corpo” e ocupam o lindíssimo espaço da Estação de Aveiro. “L’Empreinte du Geste”, de Jean-François Fouilhoux, toma conta da Galeria da Antiga Capitania. Ícone do figurado de Barcelos, Rosa Ramalho tem expostas uma colecção das suas mais representativas peças na Galeria Morgados da Pedricosa. Parte do projecto “A Bienal vai à Escola - A Poesia da Forma”, Anabela Soares expõe “Quarto Escuro” no ATLAS Aveiro - Edifício Fernando Távora. Finalmente, no Museu Arte Nova, podemos encontrar “Argila que nos Une. Bienal em Movimento”, exposição itinerante que integra obras das últimas edições do concurso da Bienal e que permite a revisitação de algumas das peças vencedoras. Para se ter uma ideia, excluindo o edifício da Estação, diria que é possível visitar todos os pólos da Bienal em duas a três horas. Para o púbico em geral há um “passaporte” que tem o custo de dois euros e dá acesso a todos os espaços.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "O Poder das Mãos: O Extraordinário Imaginário de Rosa Ramalho"



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “O Poder das Mãos: O Extraordinário Imaginário de Rosa Ramalho”
XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Galeria Morgados da Pedricosa, Aveiro
30 Out 2021 > 30 Jan


“Figura franzina, sempre de escuro vestida, lembrando uma viuvez de muitos anos, iletrada, de uma inteligência e sensibilidades fulgurantes, de linguagem brejeira mas comedida, olhos vivos e penetrantes que, só por si falavam, temente a Deus que, na sua pobre oficina de Galegos S. Martinho, mais lembrando um presépio, projectou o nome de Barcelos e de Portugal pelas quatro partidas do Mundo. Rosa Ramalho foi rica de tudo... pobre só no dinheiro…”
Vasco de Faria, Jornal de Barcelos, 25 de Janeiro de 1990

A arte e a cultura populares têm, em Barcelos, uma expressão única e de grande riqueza, formada na vida do seu próprio povo: o artesanato em barro. Desta matéria prima apanhada da terra para sustento das famílias saiu o figurado de Barcelos, autêntica expressão artística das pessoas simples que saltou das rudes oficinas e do espaço rural do concelho, onde se confinava, para o infinito mundo urbano pela mão de intelectuais e artistas. Foi este o percurso feito por Rosa Ramalho, há pouco mais de 50 anos. Ao preterir o ofício da mãe tecedeira, metendo as mãos no barro na casa de uma vizinha, a artesã de S. Martinho de Galegos deu início, ainda criança, a uma verdadeira saga, um modo de vida que, muitos anos mais tarde, levaria à descoberta da sua obra por determinados círculos académicos, processo que culminaria com a elevação do artesanato anónimo e pobre ao estatuto de arte com assinatura reconhecida.

Verdade ou lenda, consta que a menina nem teria muito jeito para os bonecos. Diziam os pais e vizinhos que ela não ia “encarreirar na arte”, mas a jovem não desistiu do sonho e continuou a fazer os bonecos que lhe dava gosto modelar. Até que um dia, no S. João das Fontaínhas, no Porto, um contacto fortuito com o professor António Quadros mudaria radicalmente a popularidade da Ti Rosa e dos seus bonecos. Estava-se em meados da década de 50. O marido tinha morrido em junho de 1956 e Rosa começa a receber a visita, na Feira de Barcelos e em sua casa de S. Martinho, de comitivas de estudantes de Belas Artes, atraídos pela motivação do seu mestre e pela peculiariedade da sua obra. Conhecida e famosa, a sua arte começa a ser requisitada, cobiçada, idolatrada. A fama da artesã rapidamente atingiu tal dimensão que é consensual dizer-se que no figurado de Barcelos há um antes e um pós Rosa Ramalho: o figurado sortido, arte menor, dá lugar ao figurado de autor.

Senhora de uma criatividade única, inspirada pela lacónica realidade que a envolvia, modelou peças que retratavam as cenas do quotidiano popular, da matança do porco, mulheres em carros de bois, pombas e músicos, ao mundo místico das procissões, santos e anjos. Para além destas, produziu uma vasta obra imbuída de um universo que, enquanto criança, a perturbava – “o mundo dos monstros”. Lobisomens, feiticeiras, diabos, bichos informes, entre outras figuras, marcaram um imaginário enigmático e original. Esta vertente da sua obra, fantasmagórica e inimaginável, distinguiu-a de tantos outros barristas desta região, dando-lhe um reconhecimento público que, ainda hoje é notório pelo mundo fora. A XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro presta-lhe uma sincera e justíssima homenagem, expondo um conjunto de trabalhos com a sua assinatura, bem representativos do seu mundo das formas. A Galeria Morgados da Pedricosa, a dois passos do Museu de Aveiro / Santa Joana, acolhe a exposição e é local de visita obrigatória. Só até 30 de Janeiro.