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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Do Vermelho ao Vermelho" | Heitor Figueiredo



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Do Vermelho ao Vermelho”,
de Heitor Figueiredo
Curadoria | Patrícia Sarrico, Heitor Figueiredo
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística Aveiro 2025
Galeria da Antiga Capitania
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


A Casa de Heitor Figueiredo é um território habitado por estórias, sonhos e objectos que parecem ter encontrado ali um lugar provisório antes de se tornarem escultura. Entre brinquedos usados, fragmentos de ferro, madeira e palavras inscritas, constrói-se um universo onde o sonhado parece surgir em busca de uma fissura para se evadir. É dessa tensão entre o íntimo e o material, entre o jogo e a construção, que nasce a sua obra. Tal como Jorge Vieira desenhava os sonhos para que não se perdessem, Heitor trabalha a partir da imaginação como quem brinca seriamente: modela, cola, grava, equilibra volumes frágeis que se erguem no espaço com o mínimo apoio. As suas peças não imitam o real, antes o insinuam, convocando torres, casas, naves ou seres indefinidos que existem num limiar poético, onde ver é já um acto sensorial pleno, uma circulação de emoção.

A cerâmica é o eixo primordial deste trabalho, entendida não apenas como técnica, mas como herança viva. O barro vermelho, rude e pesado, aprendido com os mestres da Asseiceira e de Beringel, ou nos cursos de férias do CENCAL com ceramistas estrangeiros, é trabalhado com a liberdade de quem conhece profundamente a tradição e por isso a pode subverter. O trabalhar o “barro rude e pesado, cheio de areia”, a impressão de texturas encontradas, as palavras fragmentadas, os desenhos esgrafitados e os vidrados desenhados, compõem um léxico visual que se completa com títulos irónicos e sugestivos, abrindo a obra à interpretação do espectador. Após secagens e cozeduras sucessivas, a montagem final integra restos de ferro, paus, arames, tubos de plástico ou objetos banais, num jogo de associações imprevistas que dá sentido ao desperdício e transforma o efémero em permanência poética.

Com um percurso sólido e discreto, Heitor Figueiredo afirma-se como uma das vozes mais singulares da cerâmica contemporânea portuguesa. Formado no Porto, profundamente ligado ao Alentejo, percorreu centros fundamentais da cerâmica internacional - de Sargadelos a La Bisbal, de Faenza à Dinamarca - sem nunca perder a modéstia nem o espírito colectivo. A sua obra, eclética e multifuncional, estende-se para além da cerâmica, incorporando fotografia, instalação e gesto crítico, muitas vezes atravessado por humor e ironia. Prémios, exposições e a integração na Academia Internacional de Cerâmica confirmam um percurso que não se impôs pelo aparato, mas pela consistência. Em “Do Vermelho ao Vermelho”, a terra regressa à terra, lembrando-nos que, sendo finitos, é na arte e na argila moldada pela mão que deixamos vestígios duradouros do que fomos e do que sonhámos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

INSTALAÇÃO: “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo” | Lisa Barbosa



INSTALAÇÃO: “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”,
de Lisa Barbosa
Curadoria | Lisa Barbosa, Patrícia Sarrico
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025
Estação de Aveiro
18 Out 2025 > 18 Jan 2026

Vestido de branco e pintado de azulejos, o edifício da antiga Estação dos Caminhos de Ferro de Aveiro acolhe, por estes dias, “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”, instalação de Lisa Barbosa que se integra na XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025. Numa sala envolta em penumbra, um conjunto de girassóis atrai o olhar e a reflexão do visitante. A artista parte das memórias de infância, dos lugares campestres, do barro, para reconstruir um território onde gesto e emoção se fixam e desmultiplicam. Aqui, cada pétala endurecida pelo fogo guarda a vulnerabilidade daquilo que nasce para desaparecer, lembrando-nos que a beleza é sempre, tal como a flor, uma aparição fugaz, uma forma de luz ancorada na experiência humana. Nesse encontro entre tradição e escultura contemporânea, a flor não é ornamento, antes veículo: Condensa afectos, traduz ausências, transporta o peso simbólico de celebrações, lutos e renascimentos. Como quem reaviva um vocabulário esquecido, Lisa Barbosa convoca a flor como testemunho da nossa busca insistente pelo belo, uma busca que, longe de ser superficial, é a forma mais honesta de manter vivo aquilo que em nós insiste em florescer.

Núcleo visceral da instalação, o campo de girassóis negros prolonga esta reflexão e desloca-a para o território da comunidade e do cuidado. A cor do carvão, onde tudo termina e tudo recomeça, acolhe hastes firmes que perseguem a luz sabendo que só o confronto da sombra lhes permite erguer-se e perseverar. A artista reinscreve o heliotropismo como metáfora ética, dizendo-nos que crescer é procurar a claridade, mas também reconhecer o lado oculto que sustenta o movimento. Na rigidez suspensa das flores, há um eco de brisa que perpassa, fricção que desinquieta e se oferece ao olhar para desmontar certezas e guiar o espectador aos lugares da sua própria interioridade. O amarelo vibrante que vemos com a imaginação no topo de cada uma das flores ressoa como promessa de alegria, de partilha, de pertença, enquanto o negro que se impõe ao nosso olhar devolve à obra a sua dimensão cíclica e trágica. Aqui, cada caule é uma biografia em construção no amparo das raízes entrelaçadas, prova de que a flor só se cumpre plenamente quando é, também, comunidade.

A instalação avança então para o terreno íntimo da semente, esse lugar onde origem, aposta e risco coabitam. Em cada girassol, Lisa Barbosa expõe a fragilidade das relações humanas, o semear no outro o que temos a mais, mas também o que nos falta. Ali, as sementes repousam sobre um solo incapaz de nutrir, espelhando a tentação de investir afectos em terras inférteis, num gesto de devoção cega que desfaz o equilíbrio do dar e receber. A cerâmica, ao fixar esse instante de falha e de esperança, afirma a semente como território ético. Germinar implica humildade, aceitar a espera, resistir com coragem. A artista utiliza a cerâmica para materializar esse instante crítico, tornando visível o que normalmente permanece abstracto: A escolha dos solos afectivos onde investimos, a linha ténue entre generosidade e devoção cega, a exaustão de quem se oferece de forma desmedida. As sementes pousam sobre um solo de carvão estéril, imagem que sintetiza o perigo de esquecer o próprio centro e de ignorar as necessidades internas. Ao reencenar este ciclo com precisão escultórica, Lisa Barbosa amplia o alcance ético da instalação: O crescimento emocional não depende apenas da luz que procuramos, mas da lucidez com que escolhemos onde semear e da coragem de reconhecer terrenos estéreis.