A Casa de Heitor Figueiredo é um território habitado por estórias, sonhos e objectos que parecem ter encontrado ali um lugar provisório antes de se tornarem escultura. Entre brinquedos usados, fragmentos de ferro, madeira e palavras inscritas, constrói-se um universo onde o sonhado parece surgir em busca de uma fissura para se evadir. É dessa tensão entre o íntimo e o material, entre o jogo e a construção, que nasce a sua obra. Tal como Jorge Vieira desenhava os sonhos para que não se perdessem, Heitor trabalha a partir da imaginação como quem brinca seriamente: modela, cola, grava, equilibra volumes frágeis que se erguem no espaço com o mínimo apoio. As suas peças não imitam o real, antes o insinuam, convocando torres, casas, naves ou seres indefinidos que existem num limiar poético, onde ver é já um acto sensorial pleno, uma circulação de emoção.
A cerâmica é o eixo primordial deste trabalho, entendida não apenas como técnica, mas como herança viva. O barro vermelho, rude e pesado, aprendido com os mestres da Asseiceira e de Beringel, ou nos cursos de férias do CENCAL com ceramistas estrangeiros, é trabalhado com a liberdade de quem conhece profundamente a tradição e por isso a pode subverter. O trabalhar o “barro rude e pesado, cheio de areia”, a impressão de texturas encontradas, as palavras fragmentadas, os desenhos esgrafitados e os vidrados desenhados, compõem um léxico visual que se completa com títulos irónicos e sugestivos, abrindo a obra à interpretação do espectador. Após secagens e cozeduras sucessivas, a montagem final integra restos de ferro, paus, arames, tubos de plástico ou objetos banais, num jogo de associações imprevistas que dá sentido ao desperdício e transforma o efémero em permanência poética.
Com um percurso sólido e discreto, Heitor Figueiredo afirma-se como uma das vozes mais singulares da cerâmica contemporânea portuguesa. Formado no Porto, profundamente ligado ao Alentejo, percorreu centros fundamentais da cerâmica internacional - de Sargadelos a La Bisbal, de Faenza à Dinamarca - sem nunca perder a modéstia nem o espírito colectivo. A sua obra, eclética e multifuncional, estende-se para além da cerâmica, incorporando fotografia, instalação e gesto crítico, muitas vezes atravessado por humor e ironia. Prémios, exposições e a integração na Academia Internacional de Cerâmica confirmam um percurso que não se impôs pelo aparato, mas pela consistência. Em “Do Vermelho ao Vermelho”, a terra regressa à terra, lembrando-nos que, sendo finitos, é na arte e na argila moldada pela mão que deixamos vestígios duradouros do que fomos e do que sonhámos.
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