“Ao lembrar-me dele, ocorre-me que este país com a geografia fácil de um rectângulo, mais a porção das ilhas, não tem os quilómetros quadrados necessários para mistérios ou descobertas. Falta-nos espaço para estendermos os braços de lés-a-lés e, quando tentamos levantar-nos, batemos com a cabeça - só gente baixa consegue levantar-se num país de tecto baixo. Todavia, apesar de claustrofóbico, ainda tem dimensão para segredos: é que Portugal esconde um exército, o exército dos ex-combatentes.”
Li “O Último Avô” como uma demonstração do próprio processo de escrita, quase como se de um laboratório narrativo se tratasse. Nele Afonso Reis Cabral expõe, com notável segurança, os mecanismos da ficção, tornando o livro, de forma implícita, numa espécie de “manual”, menos no sentido didáctico ou prescritivo, mas como afirmação prática de como pode construir-se um livro a partir da dúvida, da ausência ou da obsessão. A ideia de um manuscrito perdido — talvez queimado, talvez não — funciona como motor simbólico da narrativa, colocando o leitor perante a instabilidade da verdade literária e biográfica. O confronto entre avô e neto, ambos escritores em estadios diferentes e com motivações muito distintas, ultrapassa o mero conflito geracional para se tornar num embate entre diferentes concepções da literatura, da memória e do poder. O jovem narrador escreve porque é empurrado para isso, quase coagido por uma herança que não pediu, e essa tensão inicial contamina todo o romance, fazendo dele uma reflexão subtil sobre o peso das expectativas e sobre a escrita como fardo e como vocação.
Afonso Reis Cabral opta por uma construção paciente, que entrega a história a conta-gotas, obrigando o leitor a avançar num terreno onde certezas e suspeitas se confundem. A guerra colonial surge menos como tema frontal e mais como presença fantasmática, alojada nos silêncios, nos gestos, nas personagens ocasionais e inocentes e na tirania doméstica de quem nunca saiu verdadeiramente de África. O autor mostra-se particularmente eficaz na representação da vida “dentro de portas”, num espaço familiar corroído por traumas não resolvidos, onde orbitam figuras que se aproximam por interesse, dependência ou admiração cega. Essa galeria de personagens contribui para um ambiente de permanente desconforto, no qual o afecto se mistura com a repressão e a devoção com a violência simbólica. Sem recorrer a excessos melodramáticos, o romance revela como a intimidade pode ser o palco mais cruel da memória histórica e sentimental, e como a literatura, longe de redimir, pode também servir para perpetuar feridas.
A arquitectura narrativa de “O Último Avô” revela um rigor que impressiona: cada fragmento parece colocado para preparar os momentos de revelação, culminando num desfecho que reconfigura tudo o que o leitor julgava saber. A ideia de um livro que nasce dentro do próprio livro — alimentando a narrativa e sendo por ela questionado — acrescenta densidade e confirma a ambição literária do projecto. Afonso Reis Cabral confirma a escrita madura, segura e inventiva dos anteriores “O Meu Irmão” e “Pão de Açúcar”, capaz de aliar criatividade formal a uma observação psicológica precisa. Sem depender do choque fácil, o romance constrói a sua força na acumulação e no detalhe, reservando para o final uma surpresa que é menos um truque do que uma consequência lógica do percurso traçado. “O Último Avô” afirma-se, assim, como uma obra de grande valor, que pensa a literatura num patamar de conflito e risco, e consolida o autor como uma das vozes mais consistentes e exigentes da ficção portuguesa contemporânea.
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