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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

CINEMA: "Miroirs nº 3" | Christian Petzold



CINEMA: “Miroirs nº 3”
Realização | Christian Petzold
Argumento | Christian Petzold
Fotografia | Hans Fromm
Montagem | Bettina Böhler
Interpretação | Paula Beer, Philip Froissant, Barbara Auer, Enno Trebs, Matthias Brandt, Hendrik Heutmann, Christian Koerner, Victoire Laly, Yee Him Wong, Sascha Eichenauer, Christoph Glaubecker, Marcel Heuperman, Mehmet Kucak
Produção | Anton Kaiser, Florian Koerner von Gustorf,Michael Weber, Julius Windhorst
Alemanha | 2025 | Drama, Thriller | 86 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
05 Jan 2026 | seg | 16:35


“Miroirs nº 3” marca o regresso de Christian Petzold a um território que lhe é familiar, o da intimidade ferida, dos corpos suspensos entre passado e presente, dos espaços por onde ecoam os traumas de cada um. O ponto de partida é abrupto - um acidente de viação numa Alemanha rural, não muito longe de Berlim - e instala desde cedo um desajuste entre o cenário campestre e os estados emocionais. Laura, jovem estudante de piano interpretada por Paula Beer, sobrevive incólume ao choque físico, mas entra num estado de suspensão psíquica que o filme regista com precisão. Acolhida por Betty, uma mulher solitária que vive numa casa isolada, Laura encontra um abrigo que rapidamente se revela ambíguo. Petzold não está interessado no suspense narrativo clássico: o mistério que envolve Betty e a sua família torna-se cedo legível para o espectador atento. O que importa não é o “quê”, mas o “como”: Como o luto se infiltra nos gestos quotidianos, como a perda se transforma em rotina, como o silêncio se instala entre as personagens. A casa, fora do tempo, funciona como um espaço de quase fábula, onde todos parecem deslocados, à procura de um papel que já não sabem desempenhar.

Essa sensação de deslocamento é reforçada por uma encenação austera e por uma dramaturgia feita de ausências. “Miroirs nº 3” é um filme sobre a tentativa de tratar os sintomas sem nunca tocar verdadeiramente na ferida. Objectos que se avariam, máquinas que são consertadas apenas para voltarem a falhar, conversas interrompidas, tudo aponta para uma ideia de incompletude estrutural. A referência ao ciclo de Ravel não se traduz numa omnipresença musical, mas antes numa atenção aos sons mínimos, ao vento, aos ruídos do quotidiano, como se o filme escutasse aquilo que sobra quando a música - ou a vida “normal” - se interrompe. Petzold trabalha a narrativa como se seguisse o rasto de um fantasma, deixando que a sensação de perda anteceda qualquer explicação. No entanto, essa contenção tem um preço. A psicologia das personagens, embora coerente com a proposta, raramente ganha densidade suficiente para surpreender, e o processo de cura sugerido parece, para alguns olhares, demasiado rápido ou excessivamente elíptico. A catarse é recusada, mas o vazio que fica nem sempre se transforma em verdadeira inquietação.

É também nessa zona de indefinição que o filme se fragiliza e se afirma. As interpretações de Paula Beer e, sobretudo, de Barbara Auer sustentam grande parte da carga emocional, ainda que marcadas por uma rigidez que tanto pode ser lida como opção estética quanto como limitação expressiva. Visualmente, “Miroirs nº 3” é irrepreensível nos seus enquadramentos precisos, no ritmo lento em sintonia com o ambiente pastoral e numa atmosfera de permanente estranheza silenciosa. Ainda assim, o filme parece carregar um peso conceptual que os próprios personagens não conseguem encarnar por completo. Em comparação com obras mais marcantes do realizador, como “Phoenix” ou o mais recente “Céu em Chamas”, não será este novo título a acrescentar uma camada decisiva à sua filmografia. Antes funciona como uma variação menor, correcta e por vezes tocante, sobre temas revisitados frequentemente no cinema contemporâneo. Vê-se com interesse, aprecia-se no momento. Mas, qual reflexo no espelho, tende a esbater-se pouco após as últimas imagens desfilarem no ecrã.

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