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sábado, 24 de maio de 2025

LUGARES: Museu Cerralbo



LUGARES: Museu Cerralbo
Calle de Ventura Rodríguez, 17, Moncloa - Aravaca, Madrid
Horários | De terça-feira a domingo, das 09h30 às 15h00 (quinta-feira, também das 17h00 às 20h00)
Ingressos | € 3,00 (bilhete normal)


O Museu Cerralbo apresenta a singularidade de ser um dos escassos exemplares de palacete madrileno do século XIX a conservar a sua decoração original. Como palácio-museu é uma referência obrigatória para conhecer a forma de vida da aristocracia de finais do século XIX e início do século XX. Além disso, como museu de coleccionador, reflecte o gosto artístico da sua época, com um conjunto de peças que o tornavam, à época, numa das colecções privadas mais importantes de Espanha e, sem dúvida, a mais completa do seu tempo. O edifício, construído entre 1883 e 1893, foi concebido, num primeiro momento, como moradia espaço onde expor de forma harmoniosa as obras de arte, antiguidades e curiosidades reunidas pelo afã colecionador dos seus proprietários. A inalterabilidade à passagem do tempo é apenas aparente, uma vez que às lógicas mudanças realizadas na casa por vários motivos, juntaram-se, primeiro, o terrível acontecimento da Guerra Civil (1936-39) e, depois, as reformas museológicas do século XX. Desde 2002, o palácio vem sendo alvo de um minucioso trabalho de recuperação dos seus ambientes originais, o que significa o sacrifício da apreciação individualizada das obras de arte, em favor da leitura global de uma sala, considerada, em si mesma, uma peça de valor artístico.

Antes da visita ao palácio, visitemos o Jardim, cuja aparência actual é uma recriação de 1995. A intervenção realizada permite desfrutar hoje de um espaço de recorte clássico-romântico, com um singelo espelho de água ao centro, no qual se reflectem diversas esculturas ao jeito italiano, enquanto os caminhos encurvados e a vegetação densa o aproximam do jardim melancólico ao estilo inglês. O andar térreo, onde eram recebidas as visitas de confiança, sofreu sucessivas transformações, a maior das quais realizada na década de 40 do século XX, com o sacrifício dos quartos e outras salas de serviço em favor de umas galerias nas quais expor, de modo desafogado e didáctico, as colecções artísticas. Essa é a razão pela qual a apresentação expositiva da Ala de Verão tem por base a recriação e não a recuperação fidedigna dos espaços, como acontece no andar principal. Já na Ala de Inverno, esta recriação de ambientes fez-se, quando foi possível, com peças que originalmente se encontravam nas várias dependências.

Com vista para o Jardim, o Salão Vermelho, o Salão Amarelo e a Saleta Cor-de-Rosa guardam um conjunto de peças importantes, das quais se destacam um óleo com assinatura de Valentín Carderera e que retrata Fernando de Aguilera y Contreras, XV Marquês de Cerralbo, e a pintura “Anjos Cantores”, de Ludovico Carracci (1600-1610). Ainda no espaço térreo importa atentar no óleo “A Virgem com o Menino”, de Antoon Van Dyck (c. 1621-1622), patente no Oratório, o magnífico espelho oscilante da Fábrica de Meissen (c. 1885), presente na Sala de Confiança, ou o piano vertical Worms Ainé (Paris, século XVIII), no Quarto do Mirador. Espaço cenográfico do maior interesse, a escada de honra através da qual se acede ao andar principal guarda o grande brasão com as armas do casal Cerralbo, encaixado entre duas tapeçarias do século XVII, uma de Bruxelas e outra de Pastrana, com as armas de importantes famílias da nobreza espanhola.

São muitos os aposentos do andar principal a merecer a mais viva atenção, a começar pela Sala de Armas, lugar destinado à recepção dos convidados onde se celebrava a cerimónia do beija-mão,  e cuja ambientação evoca as salas de armas medievais, transportando-nos ao marco das nobres gestas nas quais participaram os antepassados da família. A Sala das Colunetas vai buscar o nome ao conjunto de pequenas figuras procedentes da cultura egípcia, grega, etrusca e romana, em terracota, mármore e bronze, erigidas sobre pequenas colunas de ágata, alabastro, mármores de cores e madeira dourada e dispostas sobre a mesa central. A Sala de Jantar de Gala é dominada pela enorme mesa onde terão sido servidos esplêndidos buffets nas noites de festa e de baile. Atente-se nos aparadores onde repousam peças de serviço de louça em metal prateado, entre as quais se destacam os samovares e os curiosos  pratos cobertos, bem como o aquecedor para manter a temperatura dos alimentos. No Salão Bilhar, para além da espectacular mesa de bilhar francesa do século XIX, avulta o “Retrato de um cavalheiro”, de Tintoretto (c. 1555).

O Escritório é o aposento mais estreitamente ligado à personalidade do Marquês de Cerralbo, concebido como sala de recepção de ilustres visitas, sem qualquer sentido utilitário. Precisamente aqui encontramos algumas das obras que o Marquês considerava das mais importantes de toda a sua coleção pictórica, como o retrato de Alexandre de Médicis, da oficina de Bronzino ou o retrato de Maria de Médicis, da oficina de Van Dyck. Perante a sumptuosidade do Escritório, a Biblioteca é um lugar de estudo e de concentração intelectual, o que se percebe pela sobriedade que envolve uma sala que abriga cerca de dez mil volumes, nomeadamente manuscritos de grande valor artístico, literário e científico. Ponto final do percurso expositivo, o Salão de Baile tem nas decorações com painéis de ágata de Granada, nos mármores dos Pirinéus e nos grandes espelhos venezianos, as notas de maior esplendor. A ideia de “templo da dança” é sublinhada pela incorporação de bustos ao estilo romano, distribuídos entre os assentos. Neste salão tiveram lugar, além dos bailes sempre grandiosos, importantes exposições de Arqueologia e Numismática e saraus literários.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO: “At-Tāriq - Uma viagem pelas tradições musicais rurais do norte de África e do mundo árabe” | Tarek Atoui



EXPOSIÇÃO: “At-Tāriq - Uma viagem pelas tradições musicais rurais do norte de África e do mundo árabe”,
de Tarek Atoui
Curadoria | Daniela Zyman
Museo Nacional Thyssen-Bornemisza
18 Fev > 18 Mai 2025


O “majlis” é o espaço onde tradicionalmente se recebem os convidados nas casas árabes e norte-africanas. É o local onde o abrigo e o convívio são oferecidos aos que chegam de longe. Este espírito de hospitalidade anima o novo projeto de investigação e exposição de Tarek Atoui, “At-Tāriq”, que significa “aquele que chega à noite” ou “a estrela da madrugada”. Inspirado pela associação da noite com o antigo e o desconhecido, “At-Tāriq” convida-nos a reunir, a ouvir e a mergulhar numa experiência partilhada de som e reflexão. Ao longo dos anos, Atoui desenvolveu uma prática artística profundamente enraizada na investigação e no trabalho de campo, tendo viajado em numerosas ocasiões para abordar o casamento musical de diferentes culturas. Projeto em constante evolução, “At-Tāriq”, apresenta-nos as histórias sonoras e as tradições artesanais do povo berbére da região marroquina do Atlas, ao encontro da ancestralidade das suas formas musicais. A exposição inclui cerâmicas, tapetes, instrumentos e missangas coloridas feitas por artesãos locais, todos com os vestígios do conhecimento e da sensibilidade material de muitas gerações.

Partindo da abordagem composicional de Atoui, que funde formas tradicionais e contemporâneas de som, performance e artesanato, “At-Tāriq” é activada por um conjunto de objectos sonoros experimentais. Suspensos do tecto em camadas sobrepostas, estes objectos-instrumentos cinéticos produzem tonalidades texturadas que parecem emanar dos núcleos minerais e dos materiais recolhidos nas montanhas do Atlas. Ao mexerem, vibrarem ou ressoarem, transformam o movimento físico e a fricção em som. Os conjuntos de fragmentos de argila, cestos, tambores, contas e metais funcionam como fontes sonoras, gerando ressonâncias subtis nos limites do audível. Algumas destas obras incorporam sensores e motores que respondem a ritmos e vozes berberes. Por exemplo, estes sons controlam o gotejar da água, a intensidade da luz e do calor, e até a fricção entre certos materiais. Tudo isto afecta as propriedades acústicas e a propagação do som no espaço de exposição.

“At-Tāriq” é também um repositório vivo de música árabe e berbére, traduzida numa “banda sonora” electroacústica composta e interpretada por Atoui e pelos seus muitos colaboradores. Desenvolvida durante uma residência de uma semana em Córdova com a percussionista Susie Ibarra, a musicólogas Nancy Mounir e o DJ e compositor Ziur - e posteriormente expandida com outros colaboradores - esta composição multi-camadas circula através dos objectos e reverbera através das salas “majlis” que integram a exposição. Nelas reside o convite a que o visitante se descalce e penetre em cada um dos espaços, disponível para escutar sons e silêncios. Mais do que uma instalação, a arte de Atoui expande a experiência do som em encontros multi-sensoriais, sintonizando o espectador com legados culturais e ecológicos que ressoam no presente. Em última análise, a exposição apresenta um encontro sempre instável entre sensibilidades tradicionais e estética contemporânea, convidando a uma conversa sobre memória, hospitalidade e o acto poético da escuta.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO: “A Life in a Few Lines” | Huguette Caland



EXPOSIÇÃO: “A Life in a Few Lines”,
de Huguette Caland
Curadoria | Hannah Feldman
Centro de Arte Reina Sofia, Madrid
19 Fev > 25 Ago 2025


“The media I used for art is mostly my own life.”
Huguette Caland

“A Life in a Few Lines”, é a primeira grande retrospectiva na Europa dedicada a Huguette Caland (Beirute, 1931-2019), uma artista cuja vida e obra atravessaram décadas e continentes, desafiando as convenções estéticas e sociais do seu tempo. Através de quase trezentas obras, incluindo desenhos, pinturas, esculturas, colagens e criações multimédia, esta exposição oferece uma narrativa completa e exaustiva baseada na linguagem artística e na história de vida de Caland, ambas intimamente ligadas através da preocupação que está no centro da sua obra: a experiência do eu no encontro com os outros e com os lugares que conheceu. As suas obras dão testemunho de um trajecto que a levou do seu Líbano natal à utopia de Paris e, mais tarde, à cena artística de Venice, Califórnia, antes do definitivo regresso a Beirute. Ao mergulhar nestes diferentes ambientes, Caland criou o seu próprio vocabulário de configurações e formas pictográficas, desafiando tanto a estabilidade do signo linguístico e as oposições binárias fundamentais da arte e do pensamento ocidentais, como a abstração e a figuração, o masculino e o feminino, a imagem e o contexto, o singular e o coletivo.

Filha de Bechara El Khoury, primeiro presidente do Líbano após a independência do país em 1943, Caland iniciou a sua carreira artística aos 33 anos com a tela monocromática “Soleil rouge / Cancer”, cujo título reflecte a representação simultânea de um novo e excitante começo mas também o cancro devastador que acabara de devorar o seu pai. As obras que criou durante esta primeira fase mostram já alguns dos motivos que apareceriam na sua pintura ao longo das décadas, das referências autobiográficas às formas que lembram letras árabes, dos fortes eixos verticais e horizontais aos pontos e linhas. Um exemplo notável é “Exit”, em que uma multidão heterogénea de rostos mais ou menos reconhecíveis do círculo da artista coexistem num mesmo espaço sem margem para respirar. Em 1970, Caland instala-se em Paris em busca de novos estímulos e de maior liberdade criativa. Aí desenvolveu aquela que é provavelmente a sua série mais célebre, “Bribes de corps”, onde erotiza fragmentos do corpo humano que compõem uma paisagem erótica de cores vibrantes e linhas delicadas. Na forma como se expandem, transbordam, retraem, mudam e contorcem, parecem reflectir sobre o género binário e as suas lógicas, mas que podem também ser entendidas como uma exploração de sistemas alternativos de identificação e referencialidade.

No final dessa década, a exuberância das obras anteriores é substituída por figuras mais sedutoras. Em “Madame e Monsieur” (1980), as ambivalências sexuais das séries anteriores cristalizam-se em formas faciais que se dirigem ao interior do corpo, por oposição às que se manifestam à superfície. Esta deriva para criações mais sombrias está relacionada com o agravamento da situação política no Líbano. Em “Guerre incivile” (1981), uma das poucas obras de Caland que faz referência explícita a factos históricos contemporâneos, vemos uma representação da Guerra Civil Libanesa onde as alusões ao corpo misturam o prazer e a sensualidade das obras anteriores com membros amputados e rostos agonizantes. Outro resultado notável da sua estadia em Paris foi a sua incursão no design de moda com a criação de “Nour” (“luz” em árabe), uma colecção para o atelier de Pierre Cardin que incluía vestuário de inspiração árabe, abayas e kaftans, bem como artigos domésticos inspirados na arte islâmica. Antes destas criações, já tinha desenhado os kaftans “Foule" (1974) e “Miroir” (1974), nos quais bordou bocas sensuais, seios provocantes e outras formas anatómicas dos seus quadros, ligando a sua vida - ela usava estes vestidos em público - à sua arte.

Ainda em Paris, Huguette Caland embarcou num projeto que se afastava das suas linguagens e preocupações habituais. A série “L’argent ne fait pas le bonheur, mais il y contribue largement” é composta por 366 pequenas telas quadradas pintadas entre 1994 e 1995. Nestas obras, Caland transforma a linearidade precisa dos seus desenhos eróticos e as superfícies polidas das suas pinturas sensuais em registos mais grosseiros, muitas vezes kitsch. Por detrás do humor, tanto da palavra escrita como da imagem, desvenda-se uma crítica política e económica ao papel desempenhado pela moeda no fracasso de tantas aspirações individuais e colectivas, bem como uma reflexão mais pessoal sobre a relação entre a prática artística e o dinheiro. Tendo-se estabelecido em Venice, Califórnia, no final da década de 1980, viu-se confrontada com a incompreensão e a indiferença de um meio artístico predominantemente masculino e a sua produção mudou de direção uma vez mais. Numa série de auto-retratos do início da década de 1990, dedicou-se à colagem para incorporar fragmentos de cartas dos seus arquivos, dando à linguagem escrita um lugar central e misturando de novo a esfera pessoal e a prática artística. A série “Silent Letters” pode ser lida como uma forma de a artista se reconciliar com uma cena artística que parecia ignorar os seus contributos e, num sentido mais geral, como uma forma de lidar com sistemas marcadamente patriarcais.

Caland foi prolífica até ao final da sua carreira: no início dos anos 2000, já com problemas de saúde, reflectiu sobre a velhice, identificando-se com Rocinante, o pobre cavalo de Dom Quixote, que retratou em telas cromaticamente explosivas. Nestas e noutras obras posteriores, as marcas da trama e as grelhas são utilizadas para dar aos fundos a aparência têxtil do tatreez, uma técnica de bordado palestiniano com o qual Caland contactou através da Inaash, ONG que ajudou a fundar em 1969, destinada a fornecer ajuda aos palestinianos, em particular às mulheres refugiadas no Líbano, oferecendo-lhes a possibilidade de um trabalho remunerado e, ao mesmo tempo, contribuindo para a preservação do seu património cultural. Antes de iniciar aquela que viria a ser a sua última viagem, de volta a Beirute, concebeu uma série de telas de grandes dimensões como que em resposta a uma premonição ou como a expressão de uma funda saudade. Aqui, as casas libanesas, com os seus inconfundíveis telhados vermelhos, tornam-se um motivo recorrente, habitando paisagens fantásticas que se situam a meio caminho entre a memória e a imaginação. Os barcos e o azul do mar também aparecem nas obras deste período final, como nas composições simples “One Boat and Two Boats” (2011) ou na tela de grandes dimensões “Le grand bleu” (2012), uma metáfora da morte entendida como simultaneamente uma viagem para fora e um regresso a casa.


segunda-feira, 28 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Carlos Muro Aguado" | Carlos Muro



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Carlos Muro Aguado”,
de Carlos Muro
Centro Cultural Casa de Vacas, Madrid
27 Mar > 27 Abr 2025

Chegou ontem ao fim “Carlos Muro Aguado”, a exposição de Carlos Muro que ao longo do último mês esteve patente no Centro Cultural Casa de Vacas, em pleno Parque do Retiro, pulmão verde da cidade de Madrid. Natural de Toledo e a residir em Madrid, Carlos Muro tem-se dedicado de forma intensa à pintura, dedicando-lhe oito a dez horas de trabalho diário, encerrado no seu atelier. O entusiástico acolhimento da grande exposição levada a cabo na medieval Pedraza, em Segóvia, no Verão passado, juntamente com o escultor José Manuel Belmonte, trouxe-lhe a certeza de que o tempo, o esforço, o sacrifício e a paixão colocada nos seus trabalhos teria valido a pena. Voltou a mostrar-se agora perante o público madrileno, numa mostra que não é retrospectiva nem se oferece como um projecto em si mesma. Antes pretende ser o resumo da sua filosofia de vida e de trabalho, o espelho fiel daquilo que Carlos Muro é, cada peça apresentada como totalmente intemporal, dispensando a colagem a modas ou tendências, dando a sensação de terem sido pintadas hoje, ainda que realizadas em momentos muito diferentes.

Em termos pessoais, a pintura é para Carlos Muro muito mais do que uma actividade profissional: É uma maneira de viver o representado, saber o porquê de pintar e poder transmiti-lo ao espectador. Um “sentir e fazer sentir” por parte de quem, ao longo de toda a sua vida, se mostrou uma pessoa aberta e afável, mas ao mesmo tempo ciosa da sua individualidade e auto-suficiência, fechada a influências externas e buscando ser única em cada uma das suas acções. Ao chegar à pintura, a solidão do atelier e o isolamento entre as telas e os pincéis fez com que se fechasse no desenho, onde acabaria por ver reconhecido o seu trabalho com a outorga de alguns prémios importantes. Mais tarde, com a mente cheia de luzes, sombras, formas, quimeras e a elegância da monocromia do desenho, abraçou a expressividade do cinza, voltando as costas à cor e tomando uma via particularmente recompensadora, ainda que divergente da dos seus pares. Esta exposição é o resultado de um trabalho que não dispensa o cunho experimentalista, mas que acaba por se inscrever numa linha pictórica herdeira do jogo impressionista, tanto implícita quanto explicitamente.

Retrato, natureza, paisagem urbana, busca, figura, naturezas mortas... A obra de Carlos Muro é muito heterogénea e reflecte a profundidade da sua vida, uma totalidade perante quase tudo, uma transmissão dos seus sentimentos perante o que pintou. Este é o fio condutor de uma exposição que representa a sua própria arte, os seus processos e a sua mente, capaz de transmitir imensidão e grandeza e de mostrar de que forma os sentimentos do artista transcendam a própria pintura. Artista solitário, viajante e investigador, é também um criador que conseguiu realizar-se através da experiência pessoal, apesar de conhecer e estudar grandes pintores. Este estudo está presente na sua obra sob a forma de homenagem a pintores como Goya, Rembrandt, Vermeer, Hopper ou Velasquez, baseando alguns dos seus trabalhos em obras-primas da pintura, de cuja matriz fez desaparecer a cor, a precisão e as pinceladas, para chegar a composições abstractas, num encontro pessoal com algo único e em direção à figuração extrema. A sua última exposição, a mais completa até à data, dá-nos a possibilidade de reflectir sobre a marcha do tempo, as diferentes atmosferas, as subtis nuances de rostos e paisagens, a elegância, sensibilidade e distinção dos seus cinzentos.

domingo, 27 de abril de 2025

TEATRO: "House"



TEATRO: “House”
Dramaturgia e encenação | Amos Gitai
Direcção musical | Richard Wilberforce
Figurinos | Marie La Rocca
Interpretação | Bahira Ablassi, Dima Bawab, Irène Jacob, Alexey Kochetkov, Micha Lescot, Pini Mittelman, Kioomars Musayyebi, Menashe Noy, Minas Qarawany, Mark Bonney, Danielle O’Neill, Nathan Mercieca, Ghassan Ashkar
Produção | La Colline – Théâtre National
150 Minutos (sem intervalo) | Maiores de 12 Anos
Teatros del Canal - Sala Roja Concha Velasco
25 Abr 2025 | sex | 20:00


Não é a primeira vez que Amos Gitai aborda o conflito israelo-palestiniano e as vias possíveis para o diálogo. Uma das peças marcantes da edição de 2016 do Festival de Avignon, “Yitzhak Rabin: Crónica de um Assassinato” inscrevia-se numa tradição crítica mais ampla de revolta contra o domínio nacionalista levado a cabo por Israel. Com “House”, Gitai denuncia as lógicas violentas do lar e das pátrias, mostrando a realidade concreta de uma casa em Jerusalém Ocidental e a forma como abriga a memória multi-direcional do confronto entre judeus e palestinianos. À medida que são extraídas, cinzeladas, rachadas, cimentadas e erguidas, as pedras tornam-se metáforas do conflito e testemunham a construção de casas que se transformam em ferramentas de destruição, expulsão e violência ontológica mútua. Importa lembrar que a peça estreou na Primavera de 2023, meio ano antes do 7 de Outubro e das atrocidades cometidas pelo Hamas que resultaram no genocídio palestiniano a que assistimos ainda hoje. Premonitória, a peça narra as historias de sucessivos habitantes - árabes e judeus, palestinianos e israelitas -, evocando o destino de cada um deles ao mesmo tempo que evidencia a violência gerada por situações de deslocamento e desapropriação que se tem intensificado na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Dois pedreiros palestinianos conduzem a peça. Enquanto cinzelam, fendem, cimentam e erguem os blocos de arenito uns sobre os outros, vão dando a conhecer as histórias dos habitantes, construtores e vizinhos desta casa, originalmente propriedade dos Dajani, uma poderosa família palestiniana que se viu forçada a abandoná-la em 1948, durante o Massacre de Deir Yassin, quando a milícia sionista expulsou os palestinianos das aldeias em redor de Jerusalém para fundar o Estado de Israel. A tentativa sionista de “devolver a nação judaica à sua terra natal” catalisou a expulsão de 750.000 palestinianos, cujas casas, confiscadas por meios legais tortuosos e variados - nomeadamente a chamada Lei de Propriedade Ausente, de 1949 -, serviram para abrigar duzentos mil imigrantes judeus de toda a diáspora. À sua volta, vão-se misturando os testemunhos da família Toboul, da Argélia, dos Cesaris, da Turquia e depois da Suécia, de Haïm Barkai, um rico negociante judeu que está a reformar a casa, ou do vizinho Michel Kishka, de Bruxelas, que dividiu a cozinha comum para criar uma forma de distanciamento. Mas é a voz dos pedreiros que se impõe, mostrando o porquê de estarem ali, a raiva que se alimenta de mágoa, o absurdo de verem demolidas as casas que ergueram com as próprias mãos, sob o pretexto de que foram construídas ilegalmente.

“House” resulta de um convite do dramaturgo canadiano de origem libanesa e director do La Colline - Théâtre Nacional ao cineasta e dramaturgo israelita Amos Gitai para levar à cena a sua trilogia documental “House”, censurada pelas autoridades israelitas. Ao quebrar todas as barreiras, este gesto mostra que, ainda que momentaneamente, as hostilidades geopolíticas podem ser ultrapassadas por meio de um acto de hospitalidade artística, que exige o reconhecimento do outro como irredutivelmente outro. Um gesto que se abre à alteridade e que torna possível uma relação ética que desafie a desumanização e a eliminação desenfreadas. “House” é a prova de que a barbárie pode ser superada através da criação de espaços onde os “inimigos” possam ainda dialogar e fazer ouvir em conjunto uma voz, mesmo que infinitamente pequena, que não seja a do ódio. Neste sentido, o teatro pode ser esse espaço, uma gota de água contra a corrente, uma tentativa de participar na costura do tecido da esperança, mil vezes rasgado, mil vezes despedaçado, feito em pedaços. Mostrar hospitalidade ao estrangeiro, ao artista convidado-estranho, da Síria, do Líbano, de Israel, da Palestina, do Irão, implica cruzar fronteiras ou limiares políticos que lutam contra a violência repressiva da “barbárie”. É através dessa lente oblíqua de hospitalidade distorcida na criação de uma pátria soberana que podemos ver “House”, corporizando relações transversais que vão muito além da política.

Ao atrair-nos para a teia emaranhada de violência ontológica por trás do projeto sionista de anexar lares palestinos, Gitai rejeita qualquer enquadramento dialético. A violência de construir uma casa sobre as ruínas de outra, ou de viver dentro da casa de outra pessoa, faz parte da identidade israelita, ao mesmo tempo que procura apagar da história qualquer traço de presença palestiniana. A dominação transversal do colonialismo de povoamento, que busca estabelecer uma pátria permanente por meio do deslocamento, é visceralmente sentida através do refrão percussivo dos dois pedreiros martelando blocos de arenito ao longo das duas horas e meia de duração da peça, os ritmos sincopados formando como que um coro pulsante de violência que abafa qualquer perspectiva de paz ou tranquilidade. Na peça, alguém faz a analogia da questão israelo-palestiniana como se fosse uma casa tomada pelos israelitas, os quais abrem uma pequena fresta na janela por onde gritam: “Vamos conversar e resolver o problema”. Mas os palestinianos dizem: “Se vocês querem resolver o problema, abram a porta para podermos entrar e sentar, e depois discutimos o problema”. A Palestina é uma casa em que, de repente, os donos mudam e os novos donos discutem com os antigos donos como resolver o problema, ainda que mantendo-os do lado de fora.