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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Imagens Cativas” | Daniel Mordzinski



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Imagens Cativas”,
de Daniel Mordzinski
Curadoria | Patrícia Reis
Centro Português de Fotografia
25 Jun > 05 Out 2026


Entre os dias 24 e 29 de Junho, o Porto viveu uma relação particularmente feliz com a literatura. O BABELL, evento que chamou à cidade escritores, leitores, ideias e diferentes formas de pensar a literatura, revelou-se muito mais do que uma sucessão de encontros ou uma circunstância de calendário: foi, sobretudo, uma proposta cultural de inequívoco alcance, pela dimensão da programação e, sobretudo, pela qualidade e refinamento das propostas. Numa cidade que tem sabido afirmar-se como território de cultura, a literatura encontrou aqui uma casa aberta, capaz de acolher vozes, geografias e sensibilidades muito distintas, aproximando autores e públicos sem abdicar da variedade, qualidade e exigência. É num vasto programa paralelo, feito de exposições, conversas e outras derivações da palavra escrita, que vamos encontrar “Imagens Cativas”, exposição de fotografia que, até 05 de Outubro, toma conta de uma das salas do Centro Português de Fotografia. Num edifício onde a imagem se cruza historicamente com a ideia de memória, o fotógrafo argentino Daniel Mordzinski propõe-nos uma galeria de rostos que nos vêm dizer que a literatura, quando aberta a outras linguagens, pode ganhar novas formas de presença, de diálogo e de descoberta.

É a segunda vez que me encontro diante das fotografias de Daniel Mordzinski. A primeira foi em Lisboa, em Fevereiro de 2022, na exposição “Navegantes da Jangada de Pedra”, integrada nas “Correntes d’Escritas”. Se então a impressão dominante era a de uma extraordinária viagem pela literatura ibero-americana, “Imagens Cativas” confirma e aprofunda aquilo que torna Mordzinski um fotógrafo singular: a sua capacidade de fazer do retrato muito mais do que um registo documental. Há uma técnica apurada, naturalmente, um domínio admirável da luz, do enquadramento, do espaço e do instante, mas é na relação com o retratado que a sua arte verdadeiramente se cumpre. O artista não parece fotografar escritores; parece conversar com eles através da câmara. Dessa conversa nasce uma cumplicidade que lhes permite abandonar, por instantes, a pose previsível do autor consagrado. É então que surgem o gesto inesperado, o olhar oblíquo, o sorriso suspenso, a expressão de inquietação ou de ironia. Pequenos sinais que, nas suas mãos, deixam de ser acaso para se transformarem em narrativa. O fotógrafo dos escritores é, afinal, também um fotógrafo das suas máscaras e das personagens que por detrás delas se escondem.

A força de “Imagens Cativas” reside precisamente nesta ligação tão especial entre fotógrafo e fotografado. Diante de Gabriel García Márquez, Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Margaret Atwood, Isabel Allende ou Mario Vargas Llosa, entre tantos outros, não estamos apenas perante retratos de homens e mulheres que a literatura tornou célebres. Estamos perante uma espécie de prolongamento visual das suas obras. Mordzinski possui o raro dom de encontrar, no corpo do escritor, qualquer coisa da criatura que este criou, como se uma personagem pudesse, por instantes, atravessar a fronteira da ficção e instalar-se no rosto, no gesto ou na postura do seu criador. São pequenas narrativas, quase contos comprimidos no instante de um click, que fazem com que cada retrato contenha uma pergunta sobre o autor e a sua obra. Daniel Mordzinski fotografa pessoas, mas procura personagens; fotografa rostos, mas interroga imaginários. Fá-lo com uma delicadeza reveladora, conseguindo que aqueles que tantas vezes vimos como nomes nas capas dos livros regressem, por um instante, à condição humana de quem nos olha nos olhos e, através desse olhar, se revelem nas personagens que aprendemos a amar.

terça-feira, 8 de março de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Navegantes da Jangada de Pedra"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Navegantes da Jangada de Pedra”,
de Daniel Mordzinski
Instituto Cervantes de Lisboa
28 Fev > 13 Mai 2022


Há fotógrafos que dedicam toda a sua vida a um tipo único de fotografia. Em muitos casos, esta “extravagância” torna-os únicos e reconhecíveis nos seus mundos, sejam eles a micropaisagem ou a fotografia astronómica, a fotografia subaquática ou as séries “mesma hora, mesmo lugar”, todos os dias, anos a fio. No mundo dos livros, Daniel Mordzinski é “o fotógrafo”. Tudo começou em 1978 quando, na sua Buenos Aires natal, fotografou Jorge Luis Borges a propósito de um documentário sobre o escritor. Estaria então, certamente, muito longe de imaginar que, quatro décadas volvidas, teria reunido um espólio de imagens absolutamente notável em torno dos maiores vultos da literatura contemporânea, deles recebendo notoriedade e apreço. De Garcia Márquez a Jorge Amado, de Sepúlveda a Saramago.

José Saramago e as imagens recolhidas “em Paris, Lanzarote e em várias geografias” são o ponto de partida para a exposição “Navegantes da Jangada de Pedra”, que até ao dia 13 de Maio pode ser vista no Instituto Cervantes de Lisboa. A mostra surge no âmbito das comemorações do Centenário de José Saramago e reúne uma centena de fotografias de autores e autoras ibero-americanos. Paredes de diferentes cores fazem a distinção entre diferentes salas, “como capítulos de um livro”. No primeiro desses capítulos, é profunda e sentida a homenagem a Luís Sepúlveda e Almudena Grandes, enormes escritores que nos deixaram muito recentemente. Por lá deparamo-nos, também, com Inês Pedrosa, Francisco José Viegas ou Lauren Mendinueta. A sala seguinte é consagrada, essencialmente, aos retratos de uma carreira a dar os primeiros passos, ainda a preto e branco, neles avultando as figuras de Jorge Luís Borges, Júlio Cortazar, Jorge Amado, Osvaldo Soriano, Juan Goytisolo, Cristina Peri Rossi, Nelida Piñon e muitos outros.

Plenas de cor e vida, as imagens mais recentes trazem-nos os escritores da “nova vaga”. Percebe-se a importância crescente do enquadramento no trabalho de Mordzinski, a ligação entre o escritor e o meio, cada vez mais uma extensão de si mesmo e não mero pano de fundo. É lá que encontramos Manuel Vilas e Ondjaki, Filipa Leal e Paulina Chiziane, José Luís Peixoto e Yara Monteiro, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Mia Couto, Milton Hatoun. Por fim, Saramago. Junto ao Sena, na aridez de Lanzarote, em casa com os cães ou correndo para a fotografia, o disparo em contagem decrescente. Sereno e solidário, sempre vibrante, o seu legado de ficções e utopias a surpreender-nos ao envolver num abraço tantos e tão extraordinários navegantes desta jangada de pedra. Literatura e fotografia de mãos dadas. Porque ver é (também) escrever!