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domingo, 28 de dezembro de 2025

LIVRO: "A Glória Efémera - Biografia de Egas Moniz" | Paulo M. Morais



LIVRO: “A Glória Efémera - Biografia de Egas Moniz”,
de Paulo M. Morais
Edição | Rui Couceiro e Marta Mesquita
Ed. Contraponto Editores, Novembro de 2025


“O jornalista pediu, então, um comentário às eleições que se aproximavam. Para Egas Moniz, a palavra mais exata seria ‘nomeações’. O uso da fórmula democrática das eleições consistia numa ‘camuflagem’ a que as ditaduras recorriam. ‘Não vale a pena lutar sem haver iguais meios de propaganda, recenseamentos honestos dos eleitores, intervenção da oposição nas mesas primárias e nas subsequentes operações eleitorais. Sem isso não há luta, há… imolação.’ A frase seguinte seria puxada pelo jornalista para título: ‘A COMÉDIA VAI REPETIR-SE!’ ”.

Escrevo esta recensão sob o signo do entusiasmo, começando por dizer que “A Glória Efémera”, de Paulo M. Morais, é talvez a mais extraordinária biografia que li até hoje. Página após página, assiste-se à construção de um vasto fresco humano, intelectual e histórico, onde a figura do Nobel da Medicina surge em permanente diálogo com o seu tempo. A escrita, elegante e segura, revela um autor que domina as fontes, cruza saberes e encadeia episódios biográficos e bibliográficos com conta, peso e medida. O resultado é um livro que se lê como fonte de investigação e como narrativa, o prazer da descoberta de mãos dadas com a solidez do método. Ao enumerar e contextualizar feitos e datas, Paulo M. Morais faz emergir um homem inteiro, contraditório e fascinante, cuja glória - científica, política e social - se revela sempre transitória, sujeita ao desgaste do tempo, das circunstâncias e das paixões humanas. Essa consciência atravessa toda a obra, conferindo-lhe uma densidade reflexiva que vai muito além do mero registo celebratório.

Uma das dimensões mais marcantes do livro é a atenção dedicada ao Egas Moniz político, figura central dos conturbados anos da Primeira República - e, mais tarde, voz desassombrada contra a ditadura do Estado Novo. Paulo M. Morais evidencia a inteligência estratégica, o calculismo frio e a notável capacidade de intervenção de um homem que fez da política um jogo complexo, de avanços e recuos, de alianças provisórias e rupturas calculadas. O autor recorre de forma particularmente feliz à imprensa nacional e, sobretudo, regional, usando-a como espelho do País e instrumento de análise do seu pulsar político, económico, social e moral no primeiro quartel do século XX. Esse trabalho minucioso permite reconstituir não apenas os debates e as crises, mas também o ambiente, os humores e as expectativas de uma sociedade em permanente sobressalto, dando à biografia uma espessura coletiva que a embeleza e engrandece.

No plano científico, “A Glória Efémera” acompanha com rigor e clareza o percurso do descobridor da arteriografia cerebral e, mais tarde, da leucotomia pré-frontal, técnica cirúrgica distinguida com o Prémio Nobel. O autor descreve o labor persistente face à escassez de meios, o método, as dúvidas e as certezas, bem como a teia de amizades, cumplicidades e rivalidades que rodearam Egas Moniz. À medida que o reconhecimento internacional cresce, avoluma-se também a montanha de detratores, invejosos e caluniadores, num ambiente onde a ciência se cruza com vaidades, interesses e ressentimentos. O momento do Nobel surge como ápice e viragem. A consagração individual transforma-se em palco para a visibilidade da ciência portuguesa, mas também em objecto de um aproveitamento político descarado e vergonhoso por parte do regime de Salazar, que a seu bel-prazer fez questão de instrumentalizar a glória alheia para legitimar a sua própria narrativa.

O livro acompanha o progressivo isolamento do homem, mas também o regresso do político que ousou bater-se na defesa do livre pensamento e que disse sentir-se prisioneiro na sua própria terra, tornando-se símbolo involuntário do protesto contra a ditadura do fascista Salazar. Os últimos anos, marcados pelo intensificar das crises de gota e pela reclusão na Casa do Marinheiro, em Avanca, são narrados com sobriedade e humanidade. Pelo caminho, surgem apontamentos de múltiplos registos, dos menus opíparos de recepções e jantares de gala aos oito tiros disparados sobre si no consultório lisboeta, dos passeios de moliceiro na Ria de Aveiro à correspondência com sábios ilustres e cidadãos anónimos, do apreço pelos nossos maiores escritores, com destaque para Júlio Dinis, aos prazeres simples da vida no campo. Expressões de época ou palavras grafadas no original acrescentam verdade e oferecem textura e calor ao retrato do biografado, lembrando-nos que, para lá da glória efémera, permanece o homem, com as suas fragilidades, paixões e desejos de permanência.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

LIVRO: "A Desobediente - Biografia de Maria Teresa Horta"



LIVRO: “A Desobediente - Biografia de Maria Teresa Horta”,
de Patrícia Reis
Edição | Rui Couceiro
Ed. Contraponto Editores, Março de 2024


“É uma poetisa tremenda. Falávamos muito sobre as mulheres, sobre o corpo e a sexualidade; sobre usarem o corpo como entendessem. Era uma altura, 1962, em que os preceitos relativos à honra das mulheres se situavam sobretudo na questão da virgindade. Transversal, era comum às várias ideologias, da direita à esquerda adoptava-se a moral dominante. Quando escreveu Minha Senhora de Mim, a Teresa foi a pessoa que, através da poesia, pôs a questão do corpo de uma forma directa. Antes da Teresa, as mulheres não tinham corpo da cintura para baixo. Eram como as sereias.”

Depois de Agustina Bessa-Luís, Manoel de Oliveira, José Cardoso Pires, Manuel António Pina e Natália Correia, chega-nos às mãos um novo volume da coleção “Biografias de Grandes Figuras da Cultura Portuguesa Contemporânea”, dedicado a Maria Teresa Horta e com a assinatura de Patrícia Reis. Trata-se de um livro fundamental de uma figura fundamental das nossas letras, cuja vida apaixonante é tratada pela biógrafa com imenso cuidado e afecto, elevando nela a verdade, a frontalidade e a coerência do seu carácter. Página após página, percorremos a história do país através do olhar e do sentir de Maria Teresa Horta, acérrima defensora dos ideais de justiça e liberdade, na sua luta contra o fascismo e, mais tarde, na defesa dos valores de Abril e dos princípios democráticos. A mesma pessoa que pautou a sua vida pelo posicionamento activista em favor dos direitos da mulher. Uma mulher para quem pôr em causa é como respirar.

Dividida em cinco partes, a obra explora a infância de Teresinha, marcada pela relação com uma mãe “complicada” e um pai demasiado rígido, uma certa errância, quotidianos instáveis e a influência da avó Camila na sua atracção pela escrita desde muito nova. Na juventude nasce a paixão pelo cinema (foi a primeira mulher cineclubista) e acontece, de forma casual, um primeiro acto político, ao qual muitos outros se seguirão pela vida fora, antes e depois do 25 de Abril. A sua necessidade de afirmação vê-se na recusa em continuar a assistir à missa e no casamento aos 18 anos, movida pela ânsia de ser livre, ela que “acreditava piamente que nunca se apaixonaria”. Apaixonou-se, sim, construindo um amor à prova de bala por Luís de Barros, com quem esteve casada durante 56 anos, até que a morte dele os separou fisicamente. Extensa e muito bem documentada, a primeira parte do livro “é o chão fundador de quem é a Teresa. Tudo se desenha a partir daí.”

As dimensões jornalística, feminista, escritora ou política de Maria Teresa Horta vão se abrindo como diques que se rompem. Não sendo excessiva, tudo nesta mulher parece brotar com a força de uma torrente, impressionando pela sua força e coragem. Recusando-se a encaixar na mentalidade vigente, aprendeu a sentir o dobro dos outros, a sofrer o dobro dos outros. Saber-se debaixo dos olhares da PIDE levou-a a escrever “Minha Senhora de Mim”, que viria a ser editado e rapidamente apreendido. “Para aprenderes a não escrever como escreves”, foi abordada na rua por dois homens que a espancaram, mas não lhe serviu de emenda. “Se uma mulher incomoda muita gente…”, é em parceria com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno que colabora na escrita de “Novas Cartas Portuguesas”, o que valeu às “três Marias” um processo judicial que só viria a ser encerrado após a Revolução de Abril de 1974. Fiel a si mesma e aos seus princípios, em 2011 recusou receber o Prémio D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, das mãos do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, alguém, nas palavras da escritora, “determinado em destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril”. Maria Teresa Horta fará 87 anos em Maio e vale a pena conhecê-la. De mão beijada, este trabalho de Patrícia Reis oferece-nos essa possibilidade.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

LIVRO: "O Dever de Deslumbrar"



LIVRO: “O Dever de Deslumbrar – Biografia de Natália Correia”,
de Filipa Martins
Edição | Rui Couceiro
Ed. Contraponto Editores, Março de 2023


“O arrebite irónico que Martins Gomes lhe imprimiu nos lábios serve de faísca à provocação: quem a via passar, julgava que as árvores ganhavam vida por se verem testemunhas da sua beleza de juventude; porém, foram as ideias e a poética de Natália que deram voz à floresta. Vaticinou, em A Vinha e a Lira, que “os sonhos vão erguer-se sobre as patas traseiras e as árvores vão gritar o seu direito ao voto”. Estávamos em 1966. A obra foi, naturalmente, censurada e recolhida pela PIDE, mas as ideias germinaram, não se ficando pelo cair da folha.”

Peguei no livro, tomei-lhe o peso, apreciei-lhe a capa e, antes de virar a primeira página, perguntei-me: Que sei eu de Natália Correia? Muito pouco, constatei à medida que a leitura avançava, a começar pela sua figura, feita daquele “tipo de beleza que atrai desgraças”. Conhecia-a enquanto escritora, dramaturga, poeta e ensaísta, mas não fazia ideia que a maior parte da sua obra, no período anterior ao 25 de Abril, sofrera tão duramente o peso da censura. Adivinhava-lhe as convicções políticas inabaláveis, mas estava longe de a ver empenhada em lutas duríssimas das quais não tinha como sair vencedora. Lembrava-me da sua língua afiada na tribuna da Assembleia da República, mas não a sabia “imatura no desamparo perante as coisas práticas da vida”. Por cima da voz de José Mário Branco, cantava a sua “Queixa das Almas Jovens Censuradas”, mas ignorava que ela própria, Natália, dera corpo a muitas outras “queixas” de muitas outras “almas”.

Estas e outras surpresas – muitas outras, devo dizer -, transformam a leitura de “O Dever de Deslumbrar” numa fascinante viagem ao encontro daquilo que Natália Correia soube (e quis) ser ao longo de quase sete décadas de vida. Uma vida intensamente vivida, que a levou a amar e a ser amada, na exacta medida em que foi odiada e odiou. Atenta, metódica, exímia na forma como soube tirar partido da sua enorme inteligência e perspicácia, “abominou a mediocridade, venerou a beleza, pugnou pela diferença e sacralizou a liberdade.” Em momentos da mais feroz repressão “deu o corpo às balas”, defendendo sempre que a intervenção política era uma “obrigação dos poetas”. Questionou, lutou, obstinou-se, porfiou, insultou, amuou. Insistiu, resistiu. Foi uma mulher de causas e fez da Cultura, da Mulher e dos Direitos Humanos, lutas maiores. Ganhou amigos para a vida, incompatibilizou-se irremediavelmente com outros, mas nunca se deixou surpreender por nada nem por ninguém. Ficamos com a recordação de uma mulher contundente, visceral, provocadora, mas de uma humanidade sem limites. E ficamos, também, com uma obra à sua imagem: Forte, generosa, talentosa e imensamente livre.

É neste inesgotável manancial de águas, entre o turvo e o cristalino, que Filipa Martins vai beber um conjunto de acontecimentos absolutamente extraordinários, cruzando-os com os lugares e os tempos do século XX português. É notável a forma como a biografia está construída, oferecendo múltiplas pistas para a compreensão da pessoa biografada. Apaixonada e apaixonante, a narrativa reflecte o apego da autora à sua biografada, a sua profunda admiração. São muitas as pontas deixadas propositadamente à solta, elementos criadores de tensão que tornam a leitura empolgante. Dou como exemplo o período entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro, narrado com um ritmo e uma intensidade alucinantes, a ponto de deixar o leitor sem fôlego. A elegância do fraseado, a ponta de ironia, o humor requintado, o aparte certeiro, a cadência certa no sequenciar da narrativa, colam Filipa Martins a Natália Correia no que tem de inteligência, combatividade e energia. Uma contaminação que gosto de ver no próprio título de um livro que me deixou deslumbrado. Uma e outra cumpriram bem o seu dever.