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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Paulo M. Morais



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Paulo M. Morais
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Jan 2026 | qui | 17:00


À entrada de um novo ano, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para mais um momento de pura magia à roda dos livros e da leitura. Numa sessão aguardada com enorme expectativa, Paulo M. Morais foi um interlocutor perfeito, trazendo para a tertúlia uma coloquialidade rica e sedutora e uma generosa partilha de histórias e memórias. Numa mesa onde pontificou grande parte da obra do autor, a primazia foi dada a “A Glória Efémera”, a sua última publicação. Biografia do Nobel da Medicina Egas Moniz, o livro e a conversa proporcionada geraram no público uma admiração e cumplicidade imediatas. Para os presentes, escapar a uma rotina que vive de e para a pessoa doente, e ter a possibilidade de, ainda que por um curto espaço de tempo, mergulhar no mundo das letras e seguir os caminhos da arte e da ciência de mãos dadas com Egas Moniz e o seu tempo - entre uma conturbada carreira política, os desafios da investigação científica e uma riquíssima vida interior – revelou-se precioso. Daí que todos tenham deixado a sessão de coração cheio e, estendendo a vista até ao horizonte, sentissem que, por um momento, o cinzentismo da doença se viu vestido de tantas quantas as cores de que a vida é feita.

“Eu, que já passei muito tempo num contexto hospitalar a ser tratado a um cancro, devo dizer que a leitura foi das coisas que mais me ajudou a ultrapassar esse período”, começou por referir Paulo M. Morais ao dirigir-se aos presentes a quem saudou de forma calorosa, realçando a importância de existirem espaços como este, dedicados aos livros e à leitura em ambientes improváveis. Falando de “A Glória Efémera”, o escritor lembrou a relutância que teve em aceitar o desafio do editor Rui Couceiro e o reconhecimento de alguma “dose de loucura”, no momento de dar o sim a tão grande empreitada. Ter tido um avô médico pesou certamente na decisão: “Sempre falei muito com o meu avô sobre Medicina, mais no sentido da humanidade que o médico teria que ter, do tempo a dispensar aos seus doentes e de como isso se estava a perder. Acho que o legado dessas conversas e a memória do meu avô acabou por ser muito importante, até para me identificar com o biografado e meter-me na loucura de escrever o livro.”

O trabalho de investigação tomou conta do escritor ao longo de três anos, entre 2020 e 2023, com o labor da escrita a estender-se pelos dois anos seguintes. Entretanto, uma constatação antes de arregaçar as mangas: “Tinha de analisar o que já estava escrito [sobre Egas Moniz] para ver se havia espaço para uma coisa diferente. Li a biografia escrita pelo João Lobo Antunes e achei que era uma biografia feita por um médico. Percebi que, no que respeita à parte médica, nunca conseguiria fazer melhor do que aquilo, mas também percebi que havia outras partes da vida de Egas Moniz que não estavam tão bem exploradas.” Agora que o livro já passeia pelas mãos dos leitores, importa dizer que o resultado é pautado por um notável equilíbrio, revelador do cuidado em ir ao encontro de Egas Moniz na sua vertente de investigador e médico, mas também de um aguerrido e astuto político, um tribuno vibrante, um coleccionador, escritor e empresário, um amante da tranquilidade do lar e das coisas boas da vida.

“O que senti ao avançar com a biografia é que, provavelmente, o Egas Moniz ficou demasiado afunilado ao Nobel que lhe calhou, entre aspas. Porque poderia ter ganho o Nobel pela descoberta da angiografia e, neste caso, talvez a glória não fosse tão efémera”, referiu o convidado ao explicar o porquê do título do livro. Foi o momento de falar das questões éticas relacionadas com a leucotomia, do contexto de toda uma época na qual a Psiquiatria tentava fugir ao estigma de ser o “parente pobre” das especialidades médicas, mas também de que “o próprio Egas Moniz, no final da sua vida, terá percebido que a descoberta que lhe tinha dado o Nobel já estava a cair em desuso, levando-o a temer que já não fosse ficar para a história da forma como gostaria.” De romancista a biógrafo adivinha-se um processo de transição quase natural: “O romancista está habituado a urdir a sua trama de forma prática e fluida”, diz Paulo M. Morais, acrescentando que “ajuda escrever romances e depois adoptar o princípio de ver o biografado como se fosse uma personagem e nunca lhe perder o centro. Importa dar um contexto histórico, naturalmente, mas sobretudo não nos esquecermos de que o centro é aquele homem. A premissa que utilizei foi a mesma, com a diferença de que numa biografia não se pode inventar, os factos não podem ser alterados”, disse.

Da Fundação Mário Soares à Biblioteca Nacional, dos arquivos municipais à Casa do Marinheiro e ao legado escrito do Nobel, o trabalho de pesquisa bibliográfica foi-se adensando: “Começamos a meter canas de pesca em tudo quanto é sítio. De repente percebe-se que aquela picou qualquer coisa, aquela também já deu qualquer coisa, que esta é para esquecer…”. Fruto dessa recolha, o escritor destaca a surpresa de se ter visto confrontado com os excessos da vida política nos finais da monarquia e primeira república, “a linguagem bélica dos debates parlamentares”, fazendo com que os políticos de hoje, se comparados com os de ontem, pareçam “meninos de coro”. Ainda que as qualidades de Egas Moniz enquanto homem político se pautassem pela combatividade, argúcia, capacidade de argumentação e calculismo - e Paulo M. Morais demonstra à saciedade todas essas qualidades, apoiando-se na imprensa da época -, há um particular momento da vida política do Nobel que surpreendeu o biógrafo: “A relação de Egas Moniz com Salazar nunca foi fácil e o Nobel acabou por servir de capa para as posições que viria a tomar de oposição ao Estado Novo. As entrevistas que fui encontrando de Egas Moniz são de alguém que diz abertamente que vivíamos num estado sem liberdade de expressão, que as eleições eram uma fantochada e que se sentia preso no seu próprio país.”

Aberta a tertúlia às questões do público, foi tempo de falar do processo de investigação e de um hipotético recurso à Inteligência Artificial, tentação à qual Paulo M. Morais resistiu. Caso para dizer que “A Glória Efémera” foi “o último livro que o escritor Paulo M. Morais escreveu sem recorrer à Inteligência Artificial”. Só quando o livro já estava na gráfica se permitiu o biógrafo explorar questões tão banais como “livros escritos por Egas Moniz” e enumerados pelo chat gpt, percebendo, com grande alívio, que os livros que desconhecia afinal nunca existiram. Foi também tempo de abordar as questões que envolveram a justiça do Nobel, com o escritor a lembrar o grande problema social e de saúde pública que os doentes do foro psiquiátrico representavam na altura - com oito tiros desferidos por um louco à queima-roupa, nem o próprio Egas Moniz terá sabido muito bem como escapou com vida -, as terríveis condições de internamento dos alienados em asilos, os tratamentos “horripilantes” a que eram sujeitos, aos quais se deve acrescentar o pioneirismo da Psicocirurgia, o que cauciona, na opinião de Paulo M. Morais, a atribuição do Prémio Nobel. “Uma coisa tenho a certeza: Egas Moniz era um médico profundamente humanista e eu acho que nunca teria avançado para uma intervenção se não tivesse a certeza absoluta de que aquela era a melhor solução ao seu alcance”, conclui.

Já na recta final, a conversa olha agora Egas Moniz no ambiente íntimo do lar e da família. Mas antes, uma questão “provocadora” a uma participante muito especial nesta sessão das Tertúlias Literárias, a escritora Isabel Rio Novo. Foi ela a primeira leitora de “A Glória Efémera” - “nós somos sempre o primeiro leitor um do outro” - e deixou-nos uma opinião que considera isenta: “Escrever uma biografia não é pegar em tudo aquilo que já se escreveu, ler muito bem, baralhar de novo e voltar a escrever. E o Paulo não se conformou com o muito que já existia, com o muito que já se sabia, e aí ele foi original ao descobrir coisas que ainda não tinham sido vistas.” Referindo que o livro “não é um romance, mas lê-se como um romance”, Isabel Rio Novo remata com o melhor elogio que um escritor pode receber: “Sou uma grande leitora de biografias e esta é a melhor biografia que eu já li”. Paulo M. Morais falou então do ambiente da Casa do Marinheiro - “quando todos estiverem melhor, aconselho muito uma visita à Casa-Museu Egas Moniz, em Avanca” -, de um bucolismo romântico muito presente e cuja ruralidade servia de contraponto ao cosmopolitismo das vivências sociais do médico.  Enfim, a partilha de uma última revelação: “No meio de tanta correspondência que faz parte do seu espólio não se encontra uma carta entre marido e mulher. Mesmo nos escritos autobiográficos, a relação com a Dona Elvira, companheira de uma vida, é tratada em dois ou três parágrafos. Embora, como biógrafo, consiga perceber a intenção de Egas Moniz de preservar uma certa intimidade, acho estranho que alguém que guarda tanto não tenha encontrado uma ou outra carta que valesse a pena deixar para a posteridade.”

domingo, 28 de dezembro de 2025

LIVRO: "A Glória Efémera - Biografia de Egas Moniz" | Paulo M. Morais



LIVRO: “A Glória Efémera - Biografia de Egas Moniz”,
de Paulo M. Morais
Edição | Rui Couceiro e Marta Mesquita
Ed. Contraponto Editores, Novembro de 2025


“O jornalista pediu, então, um comentário às eleições que se aproximavam. Para Egas Moniz, a palavra mais exata seria ‘nomeações’. O uso da fórmula democrática das eleições consistia numa ‘camuflagem’ a que as ditaduras recorriam. ‘Não vale a pena lutar sem haver iguais meios de propaganda, recenseamentos honestos dos eleitores, intervenção da oposição nas mesas primárias e nas subsequentes operações eleitorais. Sem isso não há luta, há… imolação.’ A frase seguinte seria puxada pelo jornalista para título: ‘A COMÉDIA VAI REPETIR-SE!’ ”.

Escrevo esta recensão sob o signo do entusiasmo, começando por dizer que “A Glória Efémera”, de Paulo M. Morais, é talvez a mais extraordinária biografia que li até hoje. Página após página, assiste-se à construção de um vasto fresco humano, intelectual e histórico, onde a figura do Nobel da Medicina surge em permanente diálogo com o seu tempo. A escrita, elegante e segura, revela um autor que domina as fontes, cruza saberes e encadeia episódios biográficos e bibliográficos com conta, peso e medida. O resultado é um livro que se lê como fonte de investigação e como narrativa, o prazer da descoberta de mãos dadas com a solidez do método. Ao enumerar e contextualizar feitos e datas, Paulo M. Morais faz emergir um homem inteiro, contraditório e fascinante, cuja glória - científica, política e social - se revela sempre transitória, sujeita ao desgaste do tempo, das circunstâncias e das paixões humanas. Essa consciência atravessa toda a obra, conferindo-lhe uma densidade reflexiva que vai muito além do mero registo celebratório.

Uma das dimensões mais marcantes do livro é a atenção dedicada ao Egas Moniz político, figura central dos conturbados anos da Primeira República - e, mais tarde, voz desassombrada contra a ditadura do Estado Novo. Paulo M. Morais evidencia a inteligência estratégica, o calculismo frio e a notável capacidade de intervenção de um homem que fez da política um jogo complexo, de avanços e recuos, de alianças provisórias e rupturas calculadas. O autor recorre de forma particularmente feliz à imprensa nacional e, sobretudo, regional, usando-a como espelho do País e instrumento de análise do seu pulsar político, económico, social e moral no primeiro quartel do século XX. Esse trabalho minucioso permite reconstituir não apenas os debates e as crises, mas também o ambiente, os humores e as expectativas de uma sociedade em permanente sobressalto, dando à biografia uma espessura coletiva que a embeleza e engrandece.

No plano científico, “A Glória Efémera” acompanha com rigor e clareza o percurso do descobridor da arteriografia cerebral e, mais tarde, da leucotomia pré-frontal, técnica cirúrgica distinguida com o Prémio Nobel. O autor descreve o labor persistente face à escassez de meios, o método, as dúvidas e as certezas, bem como a teia de amizades, cumplicidades e rivalidades que rodearam Egas Moniz. À medida que o reconhecimento internacional cresce, avoluma-se também a montanha de detratores, invejosos e caluniadores, num ambiente onde a ciência se cruza com vaidades, interesses e ressentimentos. O momento do Nobel surge como ápice e viragem. A consagração individual transforma-se em palco para a visibilidade da ciência portuguesa, mas também em objecto de um aproveitamento político descarado e vergonhoso por parte do regime de Salazar, que a seu bel-prazer fez questão de instrumentalizar a glória alheia para legitimar a sua própria narrativa.

O livro acompanha o progressivo isolamento do homem, mas também o regresso do político que ousou bater-se na defesa do livre pensamento e que disse sentir-se prisioneiro na sua própria terra, tornando-se símbolo involuntário do protesto contra a ditadura do fascista Salazar. Os últimos anos, marcados pelo intensificar das crises de gota e pela reclusão na Casa do Marinheiro, em Avanca, são narrados com sobriedade e humanidade. Pelo caminho, surgem apontamentos de múltiplos registos, dos menus opíparos de recepções e jantares de gala aos oito tiros disparados sobre si no consultório lisboeta, dos passeios de moliceiro na Ria de Aveiro à correspondência com sábios ilustres e cidadãos anónimos, do apreço pelos nossos maiores escritores, com destaque para Júlio Dinis, aos prazeres simples da vida no campo. Expressões de época ou palavras grafadas no original acrescentam verdade e oferecem textura e calor ao retrato do biografado, lembrando-nos que, para lá da glória efémera, permanece o homem, com as suas fragilidades, paixões e desejos de permanência.

terça-feira, 27 de junho de 2023

LIVRO: "A Boneca Despida"



LIVRO: “A Boneca Despida”,
de Paulo M. Morais
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Casa das Letras, Maio de 2023


“A entrada custava um escudo e os Silva, se não jantaram no recinto do marialva a ouvir fado, tiveram moedas suficientes para comprar cinco farturas, umas senhas para a tômbola que dava prémio de tacho e panelas e um bilhete de carrossel para Margarida. Noutro dia, quem sabe, talvez houvesse largueza para andarem nos barcos a pedal do laguinho, que ainda embelezara mais o Lugar, novamente asseado e chique como na época do casino e das big bands, a convidar a visita das gentes da cidade, já sem necessidade de olhares desviados dos mendigos que, durante anos, pediam esmola junto à Alameda. No pós-guerra, o país compunha-se. Aprumava-se.”

Quantos pedaços de vida cabem em cem anos? Quantas sonhos, quantas ilusões? Quanto raiva? Quanta dor? Podemos multiplicá-los por mil, que todos eles caberão na longa história de uma vida secular, a de Julieta, grande protagonista deste “A Boneca Despida”. Maltratada por uma avó, discriminada em relação ao irmão, impedida de prosseguir os estudos, submissa a um marido que nunca a soube fazer feliz, em dedicação exclusiva aos filhos que tantos desgostos lhe trouxeram, Julieta é bem o espelho da condição da mulher portuguesa, em particular no período anterior ao 25 de Abril. Num tempo em que campeiam as desigualdades, a discriminação e a violência, ela personifica o elo mais fraco de uma cadeia que se prolonga no tempo, atravessando gerações e constituindo-se em herança disciplinadora e castradora. Ocupar o seu lugar num plano inferior, ser “mãe extremosa, esposa dedicada, uma verdadeira fada do lar”, obedecer sempre e deixar-se violentar sempre, tal é o desígnio desta e de tantas outras mulheres que, contra ventos e marés, tudo suportaram, a tudo resistiram.

A leitura de “Pratas Conquistador - A história desconhecida de um Charlot português”, o anterior romance de Paulo M. Morais, fornece-nos pistas preciosas para adentrarmos este seu novo trabalho, compreendermos a sua dimensão pessoal e a história familiar que se insinua na obra do autor. É lá que vamos encontrar Julieta, a avó Palmira, o tio Emídio e outras personagens comuns a ambos os romances, tal como encontramos o piano da sala de estar ou a escrivaninha chinesa, os álbuns com fotografias de Macau, as cartas provenientes da América. Mas é, sobretudo, o próprio autor que se revela por detrás da sua escrita - como havia feito, de forma tão vívida, em “Uma Parte Errada de Mim” e “Seja Feita a Tua Vontade” -, prolongando a tarefa de esvaziar uma casa, ser juiz da memória e concluir que nada é supérfluo ou irrelevante. São os traços distintivos da escrita de Paulo M. Morais a virem, de novo, ao de cima: a sua honestidade e generosidade, a sua enorme verdade. Por isso, as suas personagens se colam a nós tão solidamente, se fazem aconchego ou desconforto de tão humanas que são.

Expressivo e intenso retrato de vida, “A Boneca Despida” é, igualmente, um extraordinário retrato de época. Julieta é ela mesma e a sua circunstância num país onde, há menos de cinquenta anos, ainda era impensável discutir Deus e a virtude, a Pátria e a sua História, a autoridade e o seu prestígio, a família e a sua moral, a glória do trabalho e o seu dever. Entre 1915 e 2016, Paulo M. Morais faz de cada ano uma espécie de novo capítulo, servindo-se de citações ou referências de época à laia de epígrafe a cada um deles. Para além do interesse dos assuntos abordados, aprecia-se o engenho na relação que o autor estabelece entre a citação e o conteúdo do capítulo. Da proibição de fatos de banho “imorais pela sua transparência ou pela excessiva elasticidade do tecido” aos conselhos para viver cem anos, da “descoberta” de Salazar nos painéis de S. Vicente à receita do Bolo da Felicidade, da nota da partida de um contingente militar para Angola à linha “S.O.S. espiritual”, do pó de arroz ao Veramon “que faz desaparecer as doenças próprias do sexo feminino”, são muitas e saborosas as anotações que nos lembram o que fomos e o que somos.


domingo, 11 de abril de 2021

LIVRO: "Uma Parte Errada de Mim"



LIVRO: “Uma Parte Errada de Mim”,
de Paulo M. Morais
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Casa das Letras, Setembro de 2016


“Traçar objetivos, definir rumos, inventar caminhos, sim. Mas percorrê-los hoje. Se hoje precisares de chorar, chora. Se hoje precisares de rir, ri. Se hoje precisares de descansar, descansa. Se hoje precisares de amar, ama. Se hoje precisares de cumprir tarefas, cumpre. Se hoje precisares de mudar algo, muda. Faz o que tiveres de fazer hoje, mas tenta evitar o dramatismo patético do “viver-cada-dia-como-se-fosse-o-último”. Os falhanços são tão relevantes como os sucessos; os passos minúsculos são tão importantes como os gigantes. Ambos formam o caminho, validam a certidão de renascido, enunciam o aqui e agora.”

“Annus horribilis” foi a expressão encontrada por Paulo M. Morais para descrever um tempo de incertezas, revoltas, angústia e dor. Chegava ao fim uma união de doze anos, o trabalho teimava em não aparecer, a casa fora posta à venda, a guarda da filha regia-se por um “semana sim semana não”. O cansaço aumentava, as dores à volta da cintura também. Os sinais de que algo de errado se passava avolumavam-se. O diagnóstico não tardaria a surgir. Um linfoma. O escritor torna-se, oficialmente, um doente oncológico. Um novo período da sua vida está prestes a começar. Ele propõe-se aceitá-lo, vivê-lo, relatá-lo. Partilhá-lo. O resultado é “Uma Parte Errada de Mim”, a vida feita de ciclos a dizer-nos que o dia especial é sempre aquele em que estamos.

Fecho o livro com um estrondo abafado. Agora que termino a sua leitura, faço um rápido balanço destas pouco mais de trezentas páginas lidas em dois dias e percebo os comos e os porquês de ter visto alterar-se a minha perspectiva enquanto leitor. Profissional de saúde há mais de três décadas, o meu “eu-enfermeiro” abraçou os primeiros capítulos vendo a doença e não o doente: Um linfoma não-Hodgkin e não propriamente um Paulo. No meu mundo de hospitais feito, o olhar deu preferência ao “conforto” dos intermináveis corredores, da tinta a descascar, das salas inóspitas, das longas esperas, das palavras dos médicos, dos gestos dos enfermeiros. Quis evitar o incómodo de tudo o resto. Aos poucos, porém, fui escutando aquilo que a princípio não passava de um sussurro, para acabar por se impor num grito surdo: “ – Olha para mim, porra!”

Despojada de artifícios, tornada sólida pela verdade que dela se derrama, a escrita de Paulo M. Morais atinge-nos em cheio com a força de um veredicto para o qual ninguém está preparado, de um dreno que trespassa o peito e se dispõe a extrair o máximo de líquido de um pulmão, das incontáveis horas em solidão ao longo dos ciclos de quimioterapia, dos líquidos cor de laranja que invadem as veias, das náuseas e vómitos dos dias seguintes. Mas o tempo da sua escrita é também o tempo de um enleio. É o braço sobre o ombro ao mostrar-nos o quão importante é o presente. É uma frase, num túnel, a traçar o destino. É o silêncio denso de uma noite estrelada no Talasnal. É a avó Nana a dizer-nos o quanto gostou e gosta de viver. É um pessegueiro chamado Maria. Resta a esperança de poder cruzar-me com Paulo M. Morais, “algures no tempo e no espaço, extirpados de pedaços errados, numa existência mais leve e mais serena. E possamos então trocar nomes e dar um abraço digno de velhos amigos.”