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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

LIVRO: "A Cinco Palmos dos Olhos" | Carlos Campaniço



LIVRO: “A Cinco Palmos dos Olhos”,
de Carlos Campaniço
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Casa das Letras, Outubro de 2025


“Era neles que pensava quando saiu de diante da casa do Falcão. Caminhava rasgando a claridade como um gume quando se cruzou com José Catarino, mesmo à porta da casa do autarca. Ia deixar-lhe carta debaixo da porta mas não precisou de o fazer, entregando-lha em mão. Não trocaram palavra. Também não eram dias para esconderem ressentimentos. Sabiam bem que os tempos vindouros os oporiam ainda mais no que concernia a devolução da propriedade da terra aos seus antigos donos. O carteiro prosseguiu, enquanto Catarino o olhou vagarosamente, vendo-lhe a magreza debaixo da farda espessa, apetecendo-lhe chamá-lo, gritar para que escutasse o que tinha para lhe dizer. A ele, um reaccionário do piorio. Mas um gole de tristeza levou-lhe as palavras de novo para o fundo da barriga. Deixou-o ir, mas àquele teria sido justo cantar-lhas bem cantadas.”

“A Cinco Palmos dos Olhos”, o mais recente romance de Carlos Campaniço, faz-nos regressar a um território que o autor bem conhece: O Alentejo profundo, olhado no rescaldo imediato da Revolução dos Cravos. Aldeia Velha, espaço ficcional mas reconhecível, funciona como microcosmos de um país em convulsão e onde a Reforma Agrária irrompe como força histórica e trauma colectivo. A ocupação das terras, a perda súbita de privilégios dos grandes proprietários e a lenta reorganização do trabalho agrícola abrem feridas profundas no tecido social da aldeia. Entre saudosistas e revolucionários, instala-se um clima de confronto latente, alimentado por discursos políticos inflamados ante o olhar de uma Guarda Republicana agora mais distante e permissiva. A chegada da chamada “Lei Barreto” arrefecerá os ânimos, mas não apagará ressentimentos nem desigualdades, apenas os acomodará num quotidiano tenso, onde a convivência se constrói mais por desgaste do que por reconciliação.

Mas se a política divide, é a vida miúda que verdadeiramente cose a aldeia. O romance encontra o seu nervo na espuma dos dias: no mexerico, no boato, na calúnia que circula de boca em boca com a rapidez de um incêndio em restolho seco. A galeria de personagens - quase caricaturais, mas nunca vazias - constrói um retrato coral onde todos vêem e são vistos. Do latifundiário arruinado ao trabalhador rural remediado, do padre ao autarca, da amante discreta à esposa traída, cada figura contribui para essa música de fundo que faz da aldeia a verdadeira protagonista do livro. Nesse emaranhado de vozes, destaca-se o carteiro Boca-Viúva, personagem sinistra e central, elo de ligação entre casas e segredos, portador de informações sussurradas que tanto revelam como distorcem a realidade. Curiosamente, é também no silêncio deste homem - no que escolhe calar - que o romance sugere a sua dimensão mais profunda, lembrando que nem toda a verdade circula à vista de todos.

Carlos Campaniço evita leituras maniqueístas e prefere mostrar a complexidade humana por trás das posições ideológicas, revelando como as grandes mudanças históricas se infiltram, de forma imperfeita, nas vidas pequenas e concretas. Com uma escrita leve, fluida e de grande eficácia narrativa, o autor confirma em “A Cinco Palmos dos Olhos” a maturidade já evidenciada em “As Viúvas de Dom Rufia” e “Velhos Lobos”. A prosa é quase táctil, colando o leitor às paisagens, aos corpos cansados, às emoções contraditórias de um tempo em transformação. Sem ceder ao didatismo, o autor levanta questões duras: a exploração histórica dos trabalhadores rurais, as sequelas da Guerra Colonial, a violência doméstica, os abusos sexuais, as pequenas e grandes crueldades quotidianas. Tudo isto integrado num retrato social rigoroso, contraditório e profundamente humano. A força do romance reside precisamente nessa capacidade de envolver o leitor, de o fazer tomar partido, de o conduzir sem esforço por uma narrativa que se lê de um fôlego. No final, fica-nos a sensação de que, mais do que uma história sobre uma aldeia e as suas gentes, se leu um capítulo essencial da memória colectiva portuguesa.

quarta-feira, 27 de março de 2024

LIVRO: "A Vida Airada de Dom Perdigote"



LIVRO: “A Vida Airada de Dom Perdigote”,
de Paulo Moreiras
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Casa das Letras, Fevereiro de 2023


“ - Quer sua mulher enganá-lo, senhor, além das aleivosias saídas de sua boca tudo o que ela acabou de proferir são esfarrapadas mentiras - retorqui, em minha defesa. - Nunca atentaria contra sua esposa, senhor, antes pelo contrário, Fuji dela como o Diabo da cruz, justamente para evitar este género de acusação. As luvas foram roubadas, são um estratagema que ela inventou para concretizar os seus maléficos intentos. Foi Dona Serafina quem me procurou na minha pousada e me assaltou no enxergão, pedindo que dormisse com ela, mas neguei-me e enxotei-a…”

De origem espanhola, a novela picaresca é um género literário que não caiu no olvido e continua a ser cultivado nos dias de hoje por um conjunto de autores que encontram nos seus pressupostos motivos de interesse suficientes para o manterem vivo e de boa saúde. Adaptando, reescrevendo e interpretando, fazem da sua prosa um exercício de imaginação loquaz e de bem humorada criatividade, ao mesmo tempo que prestam homenagem à originalidade e engenho de autores como Francisco de Quevedo, Mateo Alemán, Juan Martí, Francisco López de Úbeda, Juan Cortés de Tolosa e outros. Está nesta linha Paulo Moreiras, autor de “A Vida Airada de Dom Perdigote”, um livro extraordinariamente bem escrito, que traz a lume uma profusão de vocábulos e de expressões há muito caídas em desuso, adequando-as com mestria e rigor às aventuras e desventuras de um fidalgote mil vezes erguido e outras tantas desvalido, entre folguedos e degredos, mesa farta e rijas côdeas, ricos brocados e os mais esfarrapados trapos.

“A Vida Airada de Dom Perdigote” narra a história de Tanganho Perdigão Fogaça, resgatado, como Moisés, do interior de uma pequena balsa de madeira encontrada nas margens de um rio e registado em Olivença, no ano em que morreu Camões. “Petiz mal-amanhado, carão de fome, olhos de sôfrego e certezas de chamiço”, vê-lo-emos nas idas à escola, em demanda de ofício ou nas visitas à bruxa, até deixar em definitivo a casa dos pais adoptivos para estudar em Badajoz, no Colégio del Señor Jesús de la Piedra, “para mal dos seus pecados e das suas alegrias”. A partir daqui, as histórias sucedem-se a um ritmo frenético, dando conta de misérias e perseguições, infortúnios e desastres, mas também de sucessos e conquistas, graças aos seus extraordinários dotes de espadachim. De Sevilha a Trujillo, de Toledo a Valladolid, sede da corte e umbigo do mundo, acompanharemos as mil e uma peripécias de quem dormiu com a sorte e acordou com o azar, esbarrou com a desgraça em forma de gente, acompanhou bolónios e mentes brilhantes e fez amizade com El Greco, Cervantes, Quevedo e Jacquespêra (!).

Divertido, engenhoso, é um livro pleno de erudição, mas sem ser pesado ou pretensioso. O seu lado aventureiro, audacioso e arrebatado, tem o condão de cativar o leitor e fazê-lo prosseguir nesse sôfrego virar de página em busca de novas peripécias. Mas é no seu cerne que se concentra todo um manancial de ensinamentos que encantam pela variedade e riqueza, ao mergulharem nas raízes da nossa língua materna, dando achegas à forma como cresceu e se afirmou. É delicioso ver como Paulo Moreiras recupera palavras como sastre, chufleta, pantorrilha, madrigueira, alicantina, manustérgio, párvulo ou pringar, fazendo brilhar o texto. Ou a adequação que faz de expressões como “escarvou o galo e descobriu o cuchilho”, “ainda não assamos e já pingamos”, “dar nas matorrangas” ou “viemos pelo mosto e levámos com o bagaço”. O autor tem o cuidado de partilhar um conjunto de passagens de obras seminais do género picaresco e das quais se apropriou, levantando a ponta do véu sobre alguns dos seus mais significativos exemplares. Há, enfim, um enorme cuidado na reconstituição histórica, oferecendo ao leitor um retrato político, económico e social de Espanha à época da Dinastia Filipina. 

terça-feira, 27 de junho de 2023

LIVRO: "A Boneca Despida"



LIVRO: “A Boneca Despida”,
de Paulo M. Morais
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Casa das Letras, Maio de 2023


“A entrada custava um escudo e os Silva, se não jantaram no recinto do marialva a ouvir fado, tiveram moedas suficientes para comprar cinco farturas, umas senhas para a tômbola que dava prémio de tacho e panelas e um bilhete de carrossel para Margarida. Noutro dia, quem sabe, talvez houvesse largueza para andarem nos barcos a pedal do laguinho, que ainda embelezara mais o Lugar, novamente asseado e chique como na época do casino e das big bands, a convidar a visita das gentes da cidade, já sem necessidade de olhares desviados dos mendigos que, durante anos, pediam esmola junto à Alameda. No pós-guerra, o país compunha-se. Aprumava-se.”

Quantos pedaços de vida cabem em cem anos? Quantas sonhos, quantas ilusões? Quanto raiva? Quanta dor? Podemos multiplicá-los por mil, que todos eles caberão na longa história de uma vida secular, a de Julieta, grande protagonista deste “A Boneca Despida”. Maltratada por uma avó, discriminada em relação ao irmão, impedida de prosseguir os estudos, submissa a um marido que nunca a soube fazer feliz, em dedicação exclusiva aos filhos que tantos desgostos lhe trouxeram, Julieta é bem o espelho da condição da mulher portuguesa, em particular no período anterior ao 25 de Abril. Num tempo em que campeiam as desigualdades, a discriminação e a violência, ela personifica o elo mais fraco de uma cadeia que se prolonga no tempo, atravessando gerações e constituindo-se em herança disciplinadora e castradora. Ocupar o seu lugar num plano inferior, ser “mãe extremosa, esposa dedicada, uma verdadeira fada do lar”, obedecer sempre e deixar-se violentar sempre, tal é o desígnio desta e de tantas outras mulheres que, contra ventos e marés, tudo suportaram, a tudo resistiram.

A leitura de “Pratas Conquistador - A história desconhecida de um Charlot português”, o anterior romance de Paulo M. Morais, fornece-nos pistas preciosas para adentrarmos este seu novo trabalho, compreendermos a sua dimensão pessoal e a história familiar que se insinua na obra do autor. É lá que vamos encontrar Julieta, a avó Palmira, o tio Emídio e outras personagens comuns a ambos os romances, tal como encontramos o piano da sala de estar ou a escrivaninha chinesa, os álbuns com fotografias de Macau, as cartas provenientes da América. Mas é, sobretudo, o próprio autor que se revela por detrás da sua escrita - como havia feito, de forma tão vívida, em “Uma Parte Errada de Mim” e “Seja Feita a Tua Vontade” -, prolongando a tarefa de esvaziar uma casa, ser juiz da memória e concluir que nada é supérfluo ou irrelevante. São os traços distintivos da escrita de Paulo M. Morais a virem, de novo, ao de cima: a sua honestidade e generosidade, a sua enorme verdade. Por isso, as suas personagens se colam a nós tão solidamente, se fazem aconchego ou desconforto de tão humanas que são.

Expressivo e intenso retrato de vida, “A Boneca Despida” é, igualmente, um extraordinário retrato de época. Julieta é ela mesma e a sua circunstância num país onde, há menos de cinquenta anos, ainda era impensável discutir Deus e a virtude, a Pátria e a sua História, a autoridade e o seu prestígio, a família e a sua moral, a glória do trabalho e o seu dever. Entre 1915 e 2016, Paulo M. Morais faz de cada ano uma espécie de novo capítulo, servindo-se de citações ou referências de época à laia de epígrafe a cada um deles. Para além do interesse dos assuntos abordados, aprecia-se o engenho na relação que o autor estabelece entre a citação e o conteúdo do capítulo. Da proibição de fatos de banho “imorais pela sua transparência ou pela excessiva elasticidade do tecido” aos conselhos para viver cem anos, da “descoberta” de Salazar nos painéis de S. Vicente à receita do Bolo da Felicidade, da nota da partida de um contingente militar para Angola à linha “S.O.S. espiritual”, do pó de arroz ao Veramon “que faz desaparecer as doenças próprias do sexo feminino”, são muitas e saborosas as anotações que nos lembram o que fomos e o que somos.


sábado, 5 de fevereiro de 2022

LIVRO: "Um Amigo Para o Inverno"



LIVRO: “Um Amigo Para o Inverno”, 
de José Carlos Barros
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Casa das Letras, Junho de 2013


“E também ele, portanto, se atirou ao chão ao ecoar na parada o primeiro silvo das balas; ao sentir-se
          (ao ouvir-se)
          o varrer da primeira rajada de metralhadora. Mas foi o primeiro a regressar a si e à realidade concreta da cerimónia solene: no meio de gritos e correrias, desmaios e uma confusa movimentação de agentes a puxarem das espingardas e a procurarem máscaras inexistentes no terreiro franco. Leãozinho voou para o gira-discos, bateu descuidadamente no eixo do braço e ouviu-se no altifalante a estridência da agulha a cortar as estrias numa elipse apertada. Um silêncio de manhã imensa poisou então nos telhados, nas ruas, no pequeno largo. Tudo o tempo de um fósforo. Leãozinho assomou de novo à porta, estava branco como a cal da parede do Posto da Guarda, todos o olhavam. E nunca conseguiria explicar a razão de se terem escutado os primeiros acordes do Tango dos Barbudos (precedidos, abrindo a faixa, do silvo das balas de uma revolução distante) quando se esperava que o Hino Nacional
          (A Portuguesa)
          enchesse a manhã de cerimónia e majestade.”

Até ao anúncio do vencedor do Prémio Leya 2021, há dois meses atrás, o nome do escritor José Carlos Barros era-me completamente desconhecido. À surpresa somou-se a curiosidade aguçada quando percebi que “Um Amigo Para o Inverno”, trabalho de 2013 dado à estampa pela Casa das Letras, fora finalista do Prémio Leya no ano anterior. Assim, enquanto aguardamos o lançamento de “As Pessoas Invisíveis”, tive vontade de conhecer melhor o autor, licenciado em Arquitectura Paisagística, ex-director do Parque Natural da Ria Formosa e ex-deputado da Assembleia da República, através da escrita deste que é o seu segundo romance. E que belo romance. Uma escrita elegante, um vocabulário riquíssimo e um enorme labor descritivo, abrem ao leitor uma sucessão de quadros de enorme beleza visual, centrados no essencial, mas pedindo atenção ao detalhe. Se fosse um filme, seria num preto e branco luminoso. Um filme português, bem entendido!

Fintando linhas cronológicas, a acção atravessa um arco temporal que vai desse longínquo 16 de Maio de 1948 a Outubro de 2011, altura em que “Maria do Rosário conta ao narrador a história da sua vida”. Várias “pistas” levam-nos até Boticas, terra que viu nascer o autor nos idos de 1963. O tempo é o do Estado Novo e da resistência à ditadura, atenta e vigilante mesmo nos meios mais pequenos e afastados dos centros do poder. Onde correligionários das duas facções se acolitam em distintos cafés ou casas de pasto. Onde forçoso se torna tomar partido e onde todos sabem de todos. Onde o longo braço da polícia política chega graças ao bufo de serviço. É neste ambiente de uma tensão constante que vem cair o Sargento Francisco Aniceto Gonçalves, indigitado para chefiar o Posto da Guarda. Naquilo que o militar parecia ver um retiro tranquilo, onde “quase nada acontecia que fosse digno dos livros de registo”, há vultos que se movem a coberto das sombras, manobras intimidatórias, gestos de coragem, conspirações. A solução de um crime em que um homem é brutalmente assassinado pode encontrar-se muito além dum simples ajuste de contas por questões relacionadas com as águas de aviação.

Seguindo os passos de uma dúzia de personagens, misturando-os e confundindo-os, afastando-os entre si para logo os aproximar, José Carlos Barros mostra-nos as linhas com que se cose um romance. Na posição privilegiada do narrador, é dele a responsabilidade de “partir e voltar a dar”, deixando o leitor (apetece-me escrever “o espectador”) suspenso dos lances de sorte e azar a que chamamos destino. Nesta revisitação de um lugar e de um tempo que muito deve às suas memórias, adivinha o leitor uma singela homenagem aos valores da tradição, mas também àqueles que se bateram pelos ideais da liberdade e da democracia. Com um sentido do ritmo verdadeiramente notável, o autor guia-nos através de um verdadeiro labirinto, começando pelas ruas e praças, pelas casas, até se instalar no interior de cada um, com tudo aquilo que mostra e o muito mais que procura esconder. O final, de uma beleza imensa, vem dizer-nos que há marcas que não se apagarão nunca, mas que o amor triunfa sobre todas as coisas. Uma absoluta surpresa e um excelente livro para fechar da melhor forma um Janeiro farto em leituras.

domingo, 11 de abril de 2021

LIVRO: "Uma Parte Errada de Mim"



LIVRO: “Uma Parte Errada de Mim”,
de Paulo M. Morais
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Casa das Letras, Setembro de 2016


“Traçar objetivos, definir rumos, inventar caminhos, sim. Mas percorrê-los hoje. Se hoje precisares de chorar, chora. Se hoje precisares de rir, ri. Se hoje precisares de descansar, descansa. Se hoje precisares de amar, ama. Se hoje precisares de cumprir tarefas, cumpre. Se hoje precisares de mudar algo, muda. Faz o que tiveres de fazer hoje, mas tenta evitar o dramatismo patético do “viver-cada-dia-como-se-fosse-o-último”. Os falhanços são tão relevantes como os sucessos; os passos minúsculos são tão importantes como os gigantes. Ambos formam o caminho, validam a certidão de renascido, enunciam o aqui e agora.”

“Annus horribilis” foi a expressão encontrada por Paulo M. Morais para descrever um tempo de incertezas, revoltas, angústia e dor. Chegava ao fim uma união de doze anos, o trabalho teimava em não aparecer, a casa fora posta à venda, a guarda da filha regia-se por um “semana sim semana não”. O cansaço aumentava, as dores à volta da cintura também. Os sinais de que algo de errado se passava avolumavam-se. O diagnóstico não tardaria a surgir. Um linfoma. O escritor torna-se, oficialmente, um doente oncológico. Um novo período da sua vida está prestes a começar. Ele propõe-se aceitá-lo, vivê-lo, relatá-lo. Partilhá-lo. O resultado é “Uma Parte Errada de Mim”, a vida feita de ciclos a dizer-nos que o dia especial é sempre aquele em que estamos.

Fecho o livro com um estrondo abafado. Agora que termino a sua leitura, faço um rápido balanço destas pouco mais de trezentas páginas lidas em dois dias e percebo os comos e os porquês de ter visto alterar-se a minha perspectiva enquanto leitor. Profissional de saúde há mais de três décadas, o meu “eu-enfermeiro” abraçou os primeiros capítulos vendo a doença e não o doente: Um linfoma não-Hodgkin e não propriamente um Paulo. No meu mundo de hospitais feito, o olhar deu preferência ao “conforto” dos intermináveis corredores, da tinta a descascar, das salas inóspitas, das longas esperas, das palavras dos médicos, dos gestos dos enfermeiros. Quis evitar o incómodo de tudo o resto. Aos poucos, porém, fui escutando aquilo que a princípio não passava de um sussurro, para acabar por se impor num grito surdo: “ – Olha para mim, porra!”

Despojada de artifícios, tornada sólida pela verdade que dela se derrama, a escrita de Paulo M. Morais atinge-nos em cheio com a força de um veredicto para o qual ninguém está preparado, de um dreno que trespassa o peito e se dispõe a extrair o máximo de líquido de um pulmão, das incontáveis horas em solidão ao longo dos ciclos de quimioterapia, dos líquidos cor de laranja que invadem as veias, das náuseas e vómitos dos dias seguintes. Mas o tempo da sua escrita é também o tempo de um enleio. É o braço sobre o ombro ao mostrar-nos o quão importante é o presente. É uma frase, num túnel, a traçar o destino. É o silêncio denso de uma noite estrelada no Talasnal. É a avó Nana a dizer-nos o quanto gostou e gosta de viver. É um pessegueiro chamado Maria. Resta a esperança de poder cruzar-me com Paulo M. Morais, “algures no tempo e no espaço, extirpados de pedaços errados, numa existência mais leve e mais serena. E possamos então trocar nomes e dar um abraço digno de velhos amigos.”

terça-feira, 3 de novembro de 2020

LIVRO: "Apneia"



LIVRO: “Apneia”,
de Tânia Ganho
Editor | Francisco Camacho
Ed. Casa das Letras, Julho de 2020


“O que a chocava, mais do que a possibilidade da perfídia de Alessandro, era a sua própria capacidade de imaginar essa perfídia. O instinto de sobrevivência obrigara-a a identificar e antecipar os esquemas mentais perversos de Alessandro, para se proteger e defender deles, e afligia-a a dúvida se essa sua capacidade significaria que era igual a ele. Se seriam um monstro com duas cabeças, enredando o filho nas suas tramas de ódio e subjugação, até se tornarem um mítico cérbero.”

“Triângulo tóxico”. A expressão não é minha, vem no livro. Mas é, de facto, de um triângulo tóxico que falamos quando falamos de “Apneia”, a história de um casal que disputa a guarda do filho, num moroso processo de divórcio litigioso do qual todos sairão a perder. De forma detalhada, Tânia Ganho vai revelando os contornos de uma história que se adensa e ensombra página após página, acabando por mergulhar nas motivações de um dos progenitores para nos dar a perceber que o sistema tem tanto de burocrático como de falível, o dedo apontado a psicólogos, advogados, investigadores e magistrados. O dedo apontado, de um modo mais vasto, a todos quantos “lavam as mãos, relativizam, mentem ou se deixam levar por pré-juízos”.

Esta breve nota serve para dizer que reconheço algum mérito no romance de Tânia Ganho. Ele funcionará, sobretudo, como alerta para as falhas do sistema no seu todo, a começar na família e a terminar na justiça. Isto não significa, porém, que tivesse gostado do livro. Não gostei. Neste pai não se vislumbra nada de aceitável, da mesma forma que a mãe é boazinha até dizer basta. Reduzidas à condição de estereótipos, as duas personagens principais do livro tornam-se totalmente previsíveis. Com a autora enredada na teia que ela própria criou, a acção vê-se resumida a uma insuportável sucessão de clichés que se repetem de forma exaustiva. A narrativa estende-se, tendenciosa, não havendo como escapar ao sentimento de manipulação. Aquilo que se pretendia um tempo de prazer torna-se em desconforto. O divórcio entre autor e leitor é uma questão de tempo.

Ainda o livro vai no seu início e já não se atura tanta passagem em Monsanto, os vidros do carro sempre abertos, as lágrimas misturadas com a chuva que fustiga o rosto da mulher. Olho para a lombada do livro e nem quero acreditar que me espera mais do mesmo na infinidade de páginas que se abrem à minha frente. O filho continuará um sininho quando vai passar o fim de semana com o pai e regressará ao lar materno transformado em demónio furibundo. A mãe não levantará nunca a mão ao filho porque é, de facto, uma riqueza de mãe. Já o homem é mesmo mau e sê-lo-á cada vez mais. Sabemos que tanta maldade deverá ter uma justificação e Tânia Ganho não se faz rogada. A corda esticada ao máximo resulta num anti-climax. O desfecho desta história é inenarrável. Pelo menos, “Apneia” ensinou-me que talvez deva começar a repensar esta minha teimosia em não pôr de parte um livro, por mais enfadonho que ele possa ser. Nunca o fiz e também não foi desta. Mas esteve quase.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

LIVRO: "Os Fios"



LIVRO: “Os Fios”,
de Sandra Catarino
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Casa das Letras, Agosto de 2018


“Isto é um pássaro do Japão. Se fizerem mil pássaros destes, podem pedir um desejo”.

Feita de histórias e memórias, a aldeia deste romance não será diferente de muitas aldeias do interior. Isolada do mundo, para além das pedras grandes, é no Fundo do Lugar que vamos encontrar Antónia, Violeta e Emília, três mulheres que guardam viva a identidade da aldeia e se aprestam a vir ao nosso encontro para, na primeira pessoa, nos mostrarem as linhas com que se coze toda uma ruralidade em estado bruto. Numa noite de temporal, ao Fundo do Lugar chegam Francesco e a pequenina Maddalena. Consigo carregam um passado do qual nada se sabe e, com ele, um emaranhado de fios que se irão juntar à vasta malha de acasos que – assim o quer o destino – liga os poucos que ainda restam àqueles que partiram.

Da imensa ternura que Sandra Catarino coloca na construção das suas personagens – do “homem de outra língua” aos “velhos mais velhos”, passando por essas três mulheres únicas, cujo saber e experiência faz delas os oráculos da aldeia –, recolhem os fios deste romance a necessária robustez com que constroem uma ponte a unir as suas páginas ao coração do leitor. Compondo as emoções de forma apaixonada, a autora dá-nos a ver um trabalho de filigrana em cuja textura assentam o luto e a solidão, a dor e a culpa, o orgulho e o preconceito, a imensa saudade que podemos sentir até das coisas mais simples, mas também os risos e as lágrimas de felicidade, os jogos e as brincadeiras, o muito querer e o muito amar.

Livro que se saboreia em estado de permanente encantamento, “Os Fios” é uma primeira obra delicada como o voo de um pássaro de papel do Japão ou uma melodia que se derrama das cordas de um violino. Através dele, Sandra Catarino mergulha no mais fundo da alma humana, oferecendo ao leitor um longo poema em prosa, que seduz pela escrita engenhosa e comove pela subtileza da mensagem. Associações de ideias, reflexões, o que sabemos (ou julgamos saber) dos outros e de nós mesmos, tudo são fios que nos envolvem e nos provam a sua real natureza. Macios e aconchegantes ou ásperos e desagradáveis, grossos como os cabos de um navio ou finos como a teia de uma aranha, são eles que determinam aquilo que fomos e somos, que asseguram a nossa identidade e nos ligam uns aos outros, como Sandra Catarino tão bem demonstra e que o leitor, com enorme prazer, comprovará.