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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

LIVRO: "O Filho de Mil Homens" | Valter Hugo Mãe



LIVRO: “O Filho de Mil Homens”,
de Valter Hugo Mãe
Ed. Porto Editora, Setembro de 2011 (14.ª edição, Abril de 2018)


“Ele sentia como se procurasse uma criança que lhe pertencesse, e como se a tivesse perdido algures num passeio por distracção e faltasse apenas reencontrá-la. Era como se essa criança o pudesse quase prever, ansioso na busca, ansiosos no amor. Sentia-se mal com a demora, porque o seu filho poderia estar com fome, poderia estar com medo ou cansado, a precisar de ajuda para o rio ou para o escuro da noite. O Crisóstomo pensava que o seu filho também só poderia ser inteiro quando estivessem juntos os dois. Perguntava-se que pai seria, assim a perder-se de uma criança tanto tempo. Que pai seria se chegasse tarde de mais. Cada segundo a menos no tempo de um filho era para um pai uma trágica perda, e nada haveria de o compensar.”

Romance de Valter Hugo Mãe publicado em 2011, “O Filho de Mil Homens” nasce de uma falta. Crisóstomo, pescador de quarenta anos, vive como quem perdeu metade de si e procura intuir, no rumor do mar, a explicação para um vazio que o perpassa como vento através de uma casa sem portas nem janelas. O homem sabe que é da queda que nasce a busca e a aparição de Camilo, menino órfão do avô, responderá às suas preces. Luminosa e ferida, a escrita do autor acompanha Crisóstomo, esse homem que decidiu afrontar o ridículo e declarar ao mundo que buscava um filho, não para o salvar, mas para se completar através do gesto de proteger, transmitir, perpetuar. À medida que o romance avança, porém, a tessitura poética transforma o que poderia ser miséria num campo fértil onde germina a esperança mais improvável. Metáfora da solidão contemporânea, a história mais não é do que a constatação de que a vida, acumulada sem partilha, é apenas peso. Crisóstomo passa de personagem a fábula, de homem partido a início de comunidade, caminhando entre o sonho e a realidade como figura bíblica que carrega sobre os ombros a urgência de inventar um destino novo.

Regressemos à história de Camilo e Crisóstomo, ao filho tão desejado e ao pai enfim inteiro. Os dois reconhecem-se como se o acaso tivesse resolvido um teorema antigo. A partir daqui, o romance torna-se num laboratório de afectos: a família deixa de ser fatalidade biológica para se tornar construção artesanal, dilatada por camadas sucessivas de escolha e risco. A mulher que amará ambos não tardará em chegar, uma mulher cansada do amor possível, mas disponível para o amor verdadeiro, esse que aceita a fatalidade da dor como parte do ofício quotidiano. Valter Hugo Mãe abandona aqui qualquer tentação de doçura ingénua. Mesmo se terna, a sua escrita nunca cede ao fácil: o amor exige trabalho e persistência, remodelação constante, a coragem de enfrentar o que fere. O autor dá-nos personagens marcadas por cicatrizes que não pedem piedade, mas tempo para respirar. São seres que transportam fragilidades e grandezas em igual medida, e é essa densidade humana, tão concreta e tão lírica, que impede o romance de deslizar para a fábula moralista. Em vez disso, compõe uma cartografia da coragem íntima, onde cada gesto de cuidado expande a família como círculos sobre a água.

No seu todo, “O Filho de Mil Homens” funciona como uma celebração indócil da possibilidade de reconfigurar o mundo pela ternura. Há no livro algo de epopeia doméstica, de fábula luminosa erguida sobre ruínas. Um texto assombroso, capaz de unir o orgânico ao fantástico, o quotidiano ao onírico. Precisa, rendilhada, visceral, a linguagem conduz o leitor com a delicadeza de quem segura uma vida frágil na palma da mão. Estamos aqui perante um romance que aborda a filiação não como destino, mas como acto de liberdade. A paternidade não como herança, mas como ofício. O amor não como epifania, mas como decisão. O milagre literário de Valter Hugo Mãe está na forma como transforma essas ideias em matéria palpável, quase pictórica, como se cada personagem emergisse de um quadro de Schiele, as suas linhas cruas, directas e honestas como evidência da sua enorme fragilidade, desejo, angústia, humanidade. É por isso que o livro se lê de um fôlego: não pela leveza, mas pela força que dele irradia. Ao terminar, percebe-se que este é menos um romance sobre um homem que deseja um filho e mais um tratado sobre a construção do humano, esse trabalho lento, imperfeito e infinito onde, apesar da sombra, a esperança aprende sempre a voltar.

domingo, 10 de agosto de 2025

LIVRO: “A Chuva Pasmada” | Mia Couto



LIVRO: “A Chuva Pasmada”,
de Mia Couto
Ilustrações | Danuta Wojciechowska
Ed. Editorial Caminho, 2004 (4.ª edição, Agosto de 2024)


“Estanquei as pernas, sacudi a cabeça. Tudo aquilo me surgia sem a devida realidade. O avô, por exemplo, segurava uma cana de pesca. O fio pequeno e o anzol ficavam suspensos a uns palmos do chão. Pescava no ar. Haveria, dizia ele, sempre um peixe que não saberia separar as águas. O avô, mais os seus ditos. Enquanto fingia pescar, os olhos fixavam um inexistente horizonte. Pensava no nascimento da bezerra?”

Os livros de Mia Couto são sempre um milagre. Profundamente enraizados na cultura moçambicana, têm para oferecer as cores, os sons, os aromas e os sabores dessa porção oriental de uma África que o viu nascer há 70 anos. Tal como acontece com o conjunto da sua obra, a prosa está envolta numa sonoridade única que lhe acrescenta autenticidade e lirismo. Vestido de poesia, “A Chuva Pasmada” é um primor de realismo mágico, onde o natural e o quotidiano se mesclam com o fantástico e o sobrenatural. Também aqui vamos encontrar um significativo conjunto de elementos místicos, espirituais e fantásticos, em convivência estreita com o dia a dia simples, no qual a inocência das crianças e o conhecimento milenar dos anciãos ganham expressão e ajudam a reflectir sobre as questões universais da humanidade. Daí que não seja estranho que avô e neto se assumam como os pilares desta história, fazendo girar à sua volta os mundos do saber e da descoberta em matérias que cruzam identidade e memória, conhecimento e afirmação, representação pessoal e condição humana.

Um avô e um neto, sim. Mas também um pai e uma mãe, uma tia e… Ntoweni. Seis personagens que, tal como Neruda, irão “saltar para a água para cair no céu”, ante um gotejar sem chuva, um cacimbo sonolento e espesso, uma chuva pasmada. Chamar-lhe-ão chuvilho e rirão muito, para logo perceberem que a indecisão da chuva não é motivo de alegria e que a diferença entre andar e nadar são duas letrinhas apenas. Feitiço, maquinação de quem queira mal aos habitantes da aldeia, obra dos fumos da nova fábrica ou castigo de Deus, a inundação sem chão faz com que histórias adormecidas rompam à superfície: O homem morto num abraço, um barco que desce até ao mar largo, um rio que nasce de uma cabaça quebrada no chão, roupa lavada solta na corrente, um filho que se vê numa gota de chuva. Tudo muito bem arrumado numa mesma gaveta onde cabem milhares de arco-íris a luzinhar à volta de uma nuvem, um português falado com mais ondas que curvaturas, a certeza de que antes ao sol do que mal acompanhado, uma cadeira sagrada ou uma tia a rezar na pequenina igreja: “Pai nosso, cristais no Céu, santo e ficado seja o vosso nome.”

O leito seco de um rio, uma ponte em ruínas, um punhado de casas pobres, uma tabuleta de letras indistintas onde outrora estivera gravado “Sembora”, o nome da aldeia que os habitantes esqueceram. Também uma fábrica, com o seu ruído constante, os seus fumos, o seu patrão branco. Mundo deste nosso mundo, a aldeia e os seus habitantes parecem reger-se por leis diferentes, do domínio do sobrenatural, servindo de modelo ao olhar de Mia Couto e à sua necessidade de contrapor as realidades mais divergentes. Na representação dessas identidades, o autor questiona a visão sobre o homem africano, sobretudo os arquétipos de pureza ou autenticidade ainda presentes, bem como os lugares-comuns da sua representação: as crendices, a feitiçaria ou a sexualidade. Conceitos como a identidade cultural ou o conflito entre o olhar europeu e o periférico num contexto pós-colonial fazem vir ao de cima os estigmas supremacistas que persistem numa lógica colonizadora. É Moçambique ainda a encontrar o melhor rumo, toda uma sociedade em contínua construção, cinquenta anos volvidos sobre a independência.

domingo, 27 de julho de 2025

LIVRO: "Manual para Andar Espantada por Existir" | Patricia Portela



LIVRO: “Manual para Andar Espantada por Existir”,
de Patrícia Portela
Ed. Editorial Caminho, Junho de 2025


“Aqui é uma vergonha passar a todas as disciplinas na escola. Quem faz isso nunca terá sucesso. Os líderes deste lugar só podem ganhar eleições se os seus discursos só tiverem disparates, e não podem ter uma única boa ideia senão, esquece, ninguém vota neles. Consegues imaginar? Um mundo inteiro governado por idiotas? Estás a dizer que sim com a cabeça, mas não fazes ideia nenhuma do que aqui se passa!”

“O tempo tem lá dentro uma espiral / uma espiral que se chama história / e que num andar natural / e por força de vontade / resolveu ter um capricho / chamado liberdade”. Quando o poema foi escrito (e cantado), os seus versos exprimiam um tempo de exaltação, em que dava vontade de abraçar, sorrir, viver e gritar “somos livres, não voltaremos atrás.” A espiral do tempo, porém, tem no seu mecanismo um pequeno botãozinho que, quando accionado, faz com que tudo rode tão depressa que rapidamente a transforma em espiral do medo. Terá sido assim em 1933, quando José Gomes Ferreira olhou em volta e viu um senhor que usava sempre os mesmos sapatos, a clamar “que [o País] obedeça quando se chegar à altura de mandar”. Daí nasceu o folhetim “As Aventuras de João Sem Medo”, dedicado aos seus dois filhos, alertando-os para aqueles que “sujam o mundo e odeiam a Imaginação”. Quase um século depois, Patrícia Portela encontra inspiração no livro de José Gomes Ferreira e oferece-nos um “Manual para Andar Espantada por Existir”, assumindo o seu espanto por uma estranha forma de vida e lembrando que “ter medo é ter coragem e que só tem coragem quem tem medo”.

“Perfilados de medo, sem mais voz / O coração nos dentes oprimido / Os loucos, os fantasmas somos nós / Rebanho pelo medo perseguido / Já vivemos tão juntos e tão sós / Que da vida perdemos o sentido”. A história que Patrícia Portela nos conta tem o seu início em Antuérpia, mas poderia ser em Rabo de Peixe, no Fundão, em Ovar ou em Chora-Que-Logo-Bebes, como a terra do herói das aventuras sem medo que inspiraram este livro. É lá que a vamos encontrar, João Medrosa que é, juntamente com “um amigo de longa data, uma espécie de cara-metade belga, de seu nome Peter De Bie (parece Pedro, A Abelha, mas Bie não quer dizer abelha, é pena!)”, João Sem Medo no gesto e na pose. Gostam de conversar, de passear, de inventar coisas juntos e de se desafiar um ao outro. Daí que um estranho muro altíssimo que topam numa rua da cidade seja motivo de espanto, até porque nas suas pedras está gravada a frase: “Proibida a entrada a quem não andar espantado por existir”. Começa aqui uma enorme aventura no seio da Floresta Branca, depois de ambos se atreverem a saltar o muro. Saltar o muro? Que digo? Saltar era no “João sem Medo”, do José Gomes Ferreira. Os tempos agora são outros e se o Harry Potter consegue atravessar o muro, como que por pura magia, os nossos heróis não lhe ficarão atrás.

“Viva, viva o cão raivoso / Tem o pelo eriçado / Seu dente é guloso / E o seu faro ajustado / Cão raivoso, cão raivoso, cuidado”. Estamos no interior da Floresta Branca e João Medrosa perdeu de vista o Abelha. Instada a escolher o caminho a seguir, opta pelo da Felicidade, como, aliás, qualquer um de nós optaria. Mas a felicidade que lhe querem impingir tem razões que a razão de João Medrosa despreza, a começar por uma personagem que parece saída de uma tela de Magritte e que apregoa que para se ser feliz é necessário perder a cabeça. Ou por um “par de sapatos de estilo inglês, de cabedal italiano, com excelente dentadura a apertar o tornozelo, também conhecidos por Sapatos de Salazar”, e que apregoa o andar, o pensar e o viver em círculos como único caminho para a felicidade. Entre paredes que se sentem sozinhas, colheres que piscam os olhos, fontes no meio do deserto, varinhas mágicas prontas a satisfazer todos os desejos e a casa da mariquinhas, o que Patrícia Portela nos diz é que tudo é possível no reino da imaginação. Deixemo-nos guiar por ela através de um mundo às avessas, dispostos a fazer algo tão necessário como enfrentar o medo. Imaginativo, irreverente, hilariante, visionário, delirante, inspirador, eis o Manual certo para quem acredita que “o sonho comanda a vida”. Ele leva-nos ao encontro desse outro botãozinho que permite inverter a espiral do medo e incita a lutar por igualdade e justiça, por uma “cidade sem muros nem ameias / gente igual por dentro, gente igual por fora”.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

LIVRO: "Pés de Barro" | Nuno Duarte



LIVRO: “Pés de Barro”,
de Nuno Duarte
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. LeYa, Abril de 2025


“Oito horas durava o turno, oito duras horas até voltarem pelo mesmo caminho, mas agora mais arrastados, mais sujos, mais suados, com os corpos sovados por um gigante de aço, à noite ninguém precisaria de encolher as pernas para caber no colchão, encolhidas estavam elas, dobradas pelo peso da jorna, e mesmo assim houve quem preferisse o álcool ao descanso, muitos foram às tascas, a maioria não tinha ninguém a espera, só um quarto e uma cama vazia, é destas solidões que se faz a camaradagem, anda, Tirapicos, anda, disseram-lhe, mas ele recusou, não recusaria sempre, mas naquele primeiro dia sim, queria estar com a Dália, contar-lhe como tinha sido, explicar-lhe como se fazia a maior ponte suspensa da Europa e depois adormecer-lhe ao colo, sabê-la a entrelaçar os dedos no seu cabelo, a fazer-lhe festas como se fosse uma criança pequena, hon, no fundo é isso que todos os homens são, crianças pequenas, e as mulheres suas mães. Freud explica e Édipo também. Amanhã há mais.”

O livro de Nuno Duarte leva-nos ao início da década de 1960, a um tempo em que o regime ditatorial de Oliveira Salazar começava a mostrar-se um gigante com pés de barro. A capitulação de Goa, Damão e Diu rompia com o Império uno e indivisível, “do Minho a Timor”, e a Guerra do Ultramar, com início em Angola e que, “rapidamente e em força”, alastrou à Guiné e a Moçambique, abria brechas que já nenhuma cosmética permitia disfarçar. Orgulhosamente só, exaurido de recursos, o governo compensava um esforço de guerra que consumia quase 10% do PIB com mais carestia, mais intolerância e mais repressão. Neste contexto, era urgente encontrar um bom motivo para desviar as atenções da população e nada melhor do que a construção de uma ponte sobre o Tejo, um gigante de aço com 2277 metros de comprimento e um vão livre de 1013 metros, ainda hoje a maior ponte suspensa da Europa. Uma ponte que pretendia ser um símbolo do esforço para a modernização do país e de uma suposta maior abertura ao mundo, mas que não conseguia disfarçar o número crescente de bairros de lata à volta da capital, as elevadas taxas de analfabetismo e de mortalidade infantil, ou os muitos milhares de portugueses que saltavam diariamente a fronteira em busca de uma vida melhor. Hon.

Fazendo oscilar a acção entre o Pátio do Cabrinha, conjunto de habitações modestas na zona de Alcântara, e o estaleiro das obras da Ponte sobre o Tejo, Nuno Duarte oferece-nos um retrato intenso e vivo de um Portugal de dias sempre iguais, sempre cinzentos, cingido a Fátima, ao Fado e ao Futebol, com um Estado securitário, um aparelho de vigilância e repressão política cada vez mais feroz e os seus melhores filhos a serem dizimados aos milhares em África, em nome de uma visão imperialista cega e surda aos novos ventos da História. Ao longo das pouco mais de trezentas páginas do livro, vamos acompanhando um conjunto de personagens cuidadosamente desenhadas, tocantes de humanidade no seu viver resignado, sedentas de liberdade e de justiça. Com tanto de verdade como de ironia, Nuno Duarte pousa o braço sobre o nosso ombro, ao mesmo tempo que mantém uma animada conversa com o Lúcio da tasca que dizia as coisas duas vezes, o Ângelo que ensinava a ler ao mesmo tempo que aprendia a desler, a Cordália que estava sempre doente, ou era da cabeça ou era das pernas ou era das costas ou era do peito, a Helena das serenatas, a Adélia que cantava o fado na Cesária e tinha um rapaz em Angola, o Manel Cheirinho que tinha um filho desertor, o Quim que veio de Moçambique só com metade do corpo, o Fernando da guarda e até os bêbados, o Ti Zé Maria e o Tibúrcio, mais a Odete peixeira e a sua língua afiada. E, claro está, o Victor Tirapicos e a Dália, os grandes protagonistas do romance. Hon.

Há livros que valem todo o tempo que com eles despendemos, de tal forma abrem em nós o desejo de querermos saber rapidamente o final da história e, ao mesmo tempo, pretendermos que as páginas não cheguem ao fim. “Pés de Barro” é disso um bom exemplo, embrenhando o leitor num conjunto de narrativas sabiamente entretecidas e que, no seu conjunto, passam a pente fino a História de um país e mostram o que de bom e de mau há nesta espécie de sortilégio de ser português. No seu estilo peculiar de contar uma história, o autor vai extraindo do leitor a necessária cumplicidade com as principais figuras do romance, fazendo-o sentir a tristeza e as humilhações dos explorados e oprimidos, a sua impossibilidade de erguer a voz contra as injustiças, e o secreto desejo de uma revolução que acabe com tudo e um novo dia - inicial inteiro e limpo - possa erguer-se da mais escura noite. Saúde-se Nuno Duarte e a sua escrita, o seu gosto em dar um segundo sentido às palavras, a forma como replica as expressões de um alentejano ou de um americano, como incorpora o vernáculo nos diálogos, como faz uso de um extraordinário sentido de humor. Fortemente visual, a narrativa põe à prova os sentimentos e emoções do leitor, sendo capaz de o levar às lágrimas com a mesma facilidade com que lhe arranca uma saborosa gargalhada. Uma surpreendente primeira obra, muito justamente merecedora do Prémio LeYa 2024. Hon, hon.

domingo, 6 de abril de 2025

LIVRO: “É jazz quando me chegam lágrimas aos olhos”



LIVRO: “É jazz quando me chegam lágrimas aos olhos”,
de Hélder Bruno Martins
Ed. Cordel D’ Prata, Maio de 2024


“Foi em Londres, numa noite em que Miles Davis, esse génio comercial, abria o concerto, e que o fechava era um tipo do free jazz, o Archie Shepp (…). Assisti à atuação do Shepp sentado na fila da frente, a levar com o free na cara. Pensava: ‘Só sais daqui quando gostares disto.’ Lutei muito contra mim mesmo, contra o meu organismo. Até que, de repente, me dei a entender esse jazz novo, com novas regras e novas sonoridades.”

“Um… dois… um, dois, três, quatro, Cinco Minutos de Jazz”. Se, numa roda de amigos, alguém se lembrar de dizer esta frase, com as pausas no devido lugar, é certo que logo um ou mais convivas trautearão os acordes de uma música que marcou gerações graças a um programa de rádio. A grande maioria não saberá que se trata de “Lou’s Blues”, um tema interpretado pelo sexteto de Lou Donaldson, da mesma forma que terão dificuldade em dizer que é do programa mais antigo de sempre da rádio portuguesa que se fala, no ar entre 21 de Fevereiro de 1966 e 2023. Mas estou certo que, independentemente do gosto que cada um possa nutrir por este género musical, todos associarão o nome de José Duarte a um extraordinário momento de rádio, a face mais visível de uma vida dedicada ao jazz e à sua mediação enquanto produtor de programas, concertos e edições discográficas (foi o responsável pela gravação do primeiro disco de jazz em Portugal), jornalista, escritor de livros, curador de exposições, conferencista e, mais recentemente, professor auxiliar convidado da Universidade de Aveiro, instituição à qual legou uma parte do seu arquivo pessoal e contribuiu para a criação do Centro de Estudos de Jazz.

“É jazz quando me chegam lágrimas aos olhos” resulta de um exercício colaborativo de escrita biográfica, assente em oito horas de entrevistas transcritas e trabalhadas por Hélder Bruno Martins em parceria com José Duarte, e no trabalho de investigação do imenso acervo de um colecionador impulsivo. No livro avultam algumas facetas curiosas da sua vida, nomeadamente as superstições, a “mania” de Santo António, o amor às palavras, [Álvaro Cunhal] o maior em “swing”, um tio que lia Heráclito e esteve preso no Tarrafal, a viagem a Houston para acompanhar a queda da missão Apolo 13, uma decepcionante primeira ida ao Hot Club de Portugal, a declaração política de Charlie Haden contra o colonialismo, o convite do José Cardoso Pires para escrever no Diário de Lisboa, a importância de Raul Calado na sua vida, a recusa em assessorar Louis Armstrong, uma ida com o Dizzy Gillespie “ver o Eusébio”, um copo com Mário Soares, uma conversa com Betty Carter. Já no tocante aos Cinco Minutos de Jazz, as curiosidades começam logo com a edição inaugural do programa a ir para o ar no preciso momento em que pisava pela primeira vez as tábuas do mítico Village Vanguard de Nova Iorque e estendem-se a uma “gaffe” que mete John Coltrane e um Monsenhor ao barulho, à sua discografia particular que alimentou o programa na íntegra ou ao salário sempre baixíssimo na rádio.

A leitura pessoal deste trabalho de Hélder Bruno Martins não ficaria completa sem uma abordagem à segunda parte do livro, seu complemento e contextualização. “É jazz quando me chegam lágrimas aos olhos” nasce da tese de doutoramento que o autor apresentou em 2020, desenvolvida no âmbito da etnomusicologia, sob a orientação de Susana Sardo, Professora Catedrática da Universidade de Aveiro. Ao abordar questões e conceitos relacionados com identidade, emoções, história de vida, arquivos e colecções, Hélder Bruno Martins mergulhou a fundo na vida e obra de José Duarte, um dos divulgadores e mediadores de jazz mais influentes em Portugal desde a segunda metade do século XX e cuja acção foi especialmente importante durante o período do Estado Novo, quando o contexto social, cultural e político, relegava o jazz para um plano de marginalidade. Combinar a coloquialidade de um registo biográfico assente em conversas ou mensagens escritas, com o cânone académico foi o grande desafio que o autor se colocou a si próprio, daí resultando um livro de enorme valor e interesse, com uma escrita elegante e fluida, riquíssimo em informação nos domínios teórico e prático sobre a pessoa biografada e o universo do jazz no nosso país. Um livro que importa, muito em particular, aos fãs de José Duarte. Que, afinal, somos todos.

quarta-feira, 26 de março de 2025

LIVRO: "Kairos" | Jenny Erpenbeck



LIVRO: “Kairos”, de Jenny Erpenbeck
Texto original | “Kairos”, 2021
Tradução | António Sousa Ribeiro
Ed. Relógio D’Água Editores, Dezembro de 2024


“A ordem é o medo da desordem. Quer dizer que é medo. Também o seu medo. Será que, porventura, criou simplesmente para si uma imagem de espelho mais bela na carne jovem dela? Alguém que, na sua solidão, pode responder-lhe? Ou foi realmente por amor que partilhou tudo aquilo com ela? De todo o modo, fora ela a razão do seu banimento. Amor, amor, amor, diz ele de si para si, de súbito, a palavra parece-lhe absolutamente oca”.

Na estrutura semântica, temporal e simbólica das civilizações modernas, empregamos geralmente uma só palavra para definir a noção de tempo. Na antiga Grécia, porém, eram duas as palavras para o tempo: “chronos” e “kairos”. Enquanto a primeira se referia ao tempo cronológico ou sequencial (o tempo que se mede), Kairos possuía uma natureza qualitativa, o momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece: a experiência do momento oportuno. A mitologia mostra-nos Kairos, “o deus do momento oportuno”, com uma madeixa de cabelo na testa, que é a única forma de ser agarrado. Vemos que a parte de trás da sua cabeça é lisa e sem cabelo, e não há onde o agarrar. Quando passa perto de nós, deslizando sobre as suas pernas aladas, percebemos que se abrem três possibilidades. Ou não o vemos, o que simplifica as coisas. Ou vemo-lo, mas não fazemos nada, o que acaba por ir dar ao mesmo. Ou então, ao passar, estendemos a mão e “agarramos a ocasião pelos cabelos”, arcando com as consequências.

“Kairos”, romance de Jenny Erpenbeck que acaba de ser galardoado com o International Booker Prize 2024, conta a história de Katharina e de como, casualmente, conheceu Hans. Ela tem 19 anos e é estudante, ele é escritor, tem 53 anos e é casado. O encontro tem lugar num dia de chuva copiosa, a 11 de Julho de 1986, num autocarro na parte de Berlim ocupada pela antiga República Democrática Alemã. Passarão os anos seguintes juntos, vivendo de início uma relação apaixonada, mas que muito rapidamente irá decair a ponto de se tornar doentia. Uma relação na fronteira entre a verdade e a mentira, a obsessão e a violência, o ódio e a esperança, à semelhança dessa Estação Friedrichstrasse de onde partem os comboios com destino ao Ocidente, que Katharina vê da janela do seu apartamento e sobre a qual se interroga se não será, no rigor com que faz a ponte entre dois blocos antagónicos, capaz de conter dois tempos diferentes, dois presentes concorrentes, duas realidades quotidianas, uma servindo de inferno para a outra.

O espaço onde a acção decorre e o ambiente social e político não são puras metáforas. O declínio do regime, impulsionado pela Perestroika, era então uma realidade palpável e levantava as maiores dúvidas no Bloco de Leste. Jenny Erpenbeck socorre-se dessa verdade histórica para estabelecer um paralelismo com a vida amorosa e descrever os diferentes aspectos da felicidade através do percurso dos dois amantes. Em poucas palavras, esta é a história de um grande amor e da sua queda, mas é também a história da dissolução de todo um sistema político, o que conduz a uma questão muito simples: Como é que algo que se afigura certo e firme de início, pode vir a revelar-se tão errado? Dona de uma escrita original, extraordinariamente precisa e atenta ao detalhe, a autora mergulha o leitor na intimidade do casal, obrigando-o a seguir uma linha turtuosa de fortes emoções, sem lhe exigir que tome partidos. Nas constantes interrogações que cada um se coloca reside o fascínio do livro, ele próprio um modelo de grande literatura cuja oportunidade importa agarrar. Ainda que pelo cabelo.

terça-feira, 19 de abril de 2022

LIVRO: "O Desassossego da Noite"



LIVRO: “O Desassossego da Noite”,
de Marieke Lucas Rijneveld
Texto original | “De avond is ongemak” (2018)
Tradução | Patrícia Couto
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Maio de 2021


“O pai está a recolher as últimas vacas, bate-lhes nas ancas com a palma da mão e tranca o portão grande da vacaria. Não estou a perceber nada. A porta só é aferrolhada no inverno ou quando não há ninguém na quinta. Não é inverno e estamos todos em casa. Agora atira as forquilhas para um monte na secção da alimentação e cobre-as com o plástico que sobrou de uma embalagem de ração. Levanta os olhos em direção ao céu. Reparo que ainda não fez a barba. Ampara o rosto com as mãos, os maxilares estão tensos. Só lhe quero dizer que a mãe está em casa à espera, que não está zangada, que ainda não perguntou se gostamos dela, portanto também ainda não duvidou da resposta, e que preparou a sua sanduíche no seu prato preferido, aquele decorado na borda com motivos de pele de vaca. Que eu e a Hana ensaiámos os Salmo 100 esta manhã, o salmo desta semana, e que era puro como leite.”

A trágica morte de Matthies veio pôr a nu a fragilidade das relações no seio da conservadora família Mulder. Sendo o mais velho dos quatro filhos do casal, a sua presença e atitude tinham uma importância vital na coesão familiar, segurando as pontas entre os pais, completamente absorvidos pelas actividades agrícolas, e os irmãos mais novos, dois deles com um pé na adolescência. Cas, com os seus doze anos e uma imaginação transbordante, vive a perda do irmão com um profundo sentimento de culpa. Afinal, ele não a quisera levar a patinar sobre a superfície gelada do lago e ela pedira a Deus que o levasse. Agora que a presença de Matthies deu lugar a uma memória, o luto espalha-se pela quinta e adquire uma dimensão avassaladora, apoderando-se do quotidiano da família. É tempo de encontrar um novo significado para as coisas: o amor e a dor, a posse e a perda, a escola, a igreja, a sociedade, Deus.

É num ambiente marcadamente rural que tem lugar a acção do livro. Estamos no primeiro ano do novo milénio e objectos do quotidiano, influências, comportamentos e demais factores que consubstanciam a vida em sociedade estão a mais no ambiente fechado e rude dos Mulder. Marcado pela curiosidade e pela desconfiança, o olhar de Cas vai avaliando os elementos que a atraem ou que, muito simplesmente, vêm ao seu encontro, identificando o quanto neles há de “pernicioso” mas também de sedutor. É preciso afastá-los da vista e do coração. O combate que trava é feroz, balizado por rígidos preceitos religiosos que remetem para os Estados Gerais e para o protestantismo da primeira metade do século XVII. Nesta luta constante entre o bem e o mal, Cas apenas busca um pouco de amor. Tal como os irmãos, vê-se entregue a si própria. Cada vez mais afundados na sua dor, os pais não são a resposta. Só mesmo o casaco vermelho, que enverga como se fosse uma segunda pele, parece trazer-lhe um pouco de conforto.

Não foi por acaso que Marieke Lucas Rijneveld conquistou com “O Desassossego da Noite” o Man Booker International Prize em 2020. A sua escrita poderosa rejeita liminarmente quaisquer eufemismos, não recuando perante a abjecção ou a imoralidade. De uma crueza que nos agarra pelas tripas, o livro escreve-se com sangue e lágrimas, mas também com merda, ranho, sémen e pús. Se há gestos que são animalescos, se a linguagem pode surgir carregada de obscenidades, o que é isso comparado com a violência de alguém não se sentir amada? Impressiona a forma como a autora é capaz de verter por palavras os sentimentos de uma criança, a pureza dos seus sentimentos, a inocência na forma de se relacionar com o mundo e, ao mesmo tempo, a crueldade de que é capaz quando, à sua frente, percebe fraqueza e vulnerabilidade. Colocar o dedo na ferida e remexer bem fundo, até nos ouvir gritar nesta dor que é também nossa, tal é o desígnio de Marieke Lucas Rijneveld e deste seu livro. De leitura obrigatória!

sábado, 16 de abril de 2022

LIVRO: "Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina"



LIVRO: “Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina”,
de Mário de Carvalho
Ed. Editorial Caminho, 2003 (Março de 2004, 3ª edição)


“Vá, senhores prelados, respondam, digam aos coronéis se estão de acordo com as opiniões que, tão generosamente, nos dispensaram. Ou então, por favor, contrariem, dêem razões, expliquem-se, digam-lhes que, a não existir a Igreja, os claquistas seriam ainda muito piores, mais alarves, mais propensos à ululação, à devastação e aos bacanais homicidas. Se os coronéis estão errados convém não os deixar persistir no erro. Se estão certos, há que apoiá-los, com coragem e desassombro. E não se diga que são dois militares na reserva, já com a sua idade, que não têm influência. É falso: eles agem e manifestam-se neste livro, e se ele conseguir vender 2000 exemplares, chegará ao mesmo número de portugueses. É obra: comporta dez companhias, dois batalhões, já dá para sublevar.”

É num monte alentejano, nas imediações de Serpa, que o coronel Maciel Bernardes decide instalar-se para gozar as virtudes da reforma. Ao pé da casa, entre altos castelos, menires e cromeleques, “destoa azulínea, e sobressalta, com a transparência, a piscina, moderna e tratada a poder de fluidos caros e especiosos”. No monte vizinho, quis o acaso que se viesse instalar Amílcar Lencastre, também ele coronel e reformado, combatente de áfricas e 25 de abris. Com o inevitável copo de uísque novo na mão, carregado de pedras de gelo, os dois coronéis vão matando o tempo à beira da piscina, lembrando glórias passadas e futuras e comentando um presente onde cabem, entre outros, um xadrezista e vedor de águas que cruza as estradas do Alentejo num estafado Renault 4, um sujeito debruado de piercings que não resiste em deixar a sua “tag” na mais remota placa de trânsito e uma arrebatada Soraia Marina, cantora pimba, autora do estrondoso “Sonhei Ter Ternura a Mais” e atracção maior das festas de Grudemil.

Mais do que as expressões idiomáticas, as frases com segundo sentido, o vernáculo, os neologismos, a própria língua, o que sobressai em “Fantasia Para Dois Coronéis e Uma Piscina” é a coloquialidade, a linguagem do quotidiano despida de formalismos, desembaraçada das amarras gramaticais, fluindo de forma intensa e livre. Num sempre curioso jogo de certezas e enganos, esta é uma arte em que os portugueses são mestres e o autor mais não faz do que render, à língua e à pátria, uma significativa homenagem em forma de romance. Com enorme sentido de humor, Mário de Carvalho reproduz fielmente o linguajar da caserna entre os dois velhos coronéis cujo vernáculo castrense “costuma designar todos os objectos por cabrões sendo masculinos e putas sendo femininos”. Mas não se fica por aqui e, da beira do passeio à mesa do café, do banco de jardim ao interior de uma autocaravana, trata as conversas com igual cuidado e enlevo, sejam elas mais banais ou mais formais, o “conto do bandido” ou a “canção de engate”.

Inteligente e sensível, a escrita de Mário de Carvalho volta-se uma vez mais para aquilo que fomos e somos, neste pequeno país à beira-mar plantado. Salvaguardando a evolução tecnológica, o retrato que faz da “moderna” sociedade portuguesa do início do século XXI não é muito diferente daquele que Eça ou Ramalho Ortigão terão traçado há cem anos atrás. Com tanto de sociológico como de político, a análise de Mário de Carvalho realça as contradições em que lavra a nossa sociedade, o apego a um passado colonialista, o preconceito de classe reinante, a chico-espertice quase como um desígnio, seguramente um modo de vida para muitos. É um livro desopilante, extraordinariamente divertido, que confronta o leitor com um quotidiano dúbio e o convida a visitar uma galeria de personagens onde, eventualmente, se reconhecerá. E é, enfim, o desabafo do escritor, daquele a quem é devida a artesania da escrita, o trabalho de minuciosa lavra, que “havia de ser, não principescamente, não regiamente, mas imperialmente pago”.

domingo, 26 de setembro de 2021

LIVRO: "Felicidade"



LIVRO: “Felicidade”,
de João Tordo
Edição | Clara Capitão
Ed. Companhia das Letras, Outubro de 2020


“Quando saímos do Condes, Esperança fez o caminho até casa muito calada, a carteira ao colo, os olhos postos na janela do carro. Enquanto eu estacionava o Opel, ela perguntou: Acreditas em fantasmas? Puxei o travão de mão; reparei nas pernas nuas da minha mulher a emergirem da saia de xadrez. Apeteceu-me tocá-las; apeteceu-me levá-la para Monsanto, mas havia alguns anos que não o fazíamos. Claro que não, acabei por responder, os fantasmas não existem.”

Mesmo correndo o risco de me repetir, João Tordo e a sua escrita ocupam um lugar muito especial nas minhas preferências de leitura. A fórmula infalível de entremear o certo com o incerto, o palpável com o etéreo, convidando o leitor a seguir até ao fim os caminhos da dúvida com as certezas possíveis, são nele uma marca distintiva muito forte e que faz com que cada um dos seus livros seja uma viagem de busca e descoberta, de prazer sempre renovado. “Felicidade”, romance que conta praticamente um ano desde que foi publicado, é disso um dos mais acabados exemplos. Nele se condensam, em doses generosas e perfeitamente equilibradas, aquilo que admitimos como sendo real e o seu ficcionado contraponto, o que é consubstanciável e o que pertence ao domínio do oculto, as geografias precisas (e reconhecíveis) e os lugares sem nome que a mente constrói e alimenta. Nele estão, num processo de continuidade com os seus anteriores livros, a existência enquanto passagem sem propósitos claros, o prazer e o sexo como meios dos quais nem sempre se percebem os fins e o medo e a morte como verdadeiros motores do acto de existir.

Nesta história de um rapaz que, aos dezassete anos, vê a sua vida ligar-se irrevogavelmente à de três irmãs gémeas, “bonitas, seguras, determinadas, fonte de desejos e fantasias inalcançáveis”, aquilo que verdadeiramente conta é o imponderável, o destino e as suas partidas, o riso descarado de um deus manipulador que puxa os cordelinhos a seu bel-prazer para nos ver “às aranhas” numa vida a descambar para a morte. João Tordo fala-nos daquilo que tanto gosta de falar, das encruzilhadas que se abrem à existência de cada um, de um certo livre-arbítrio que na sua origem tem muito pouco a ver com a razão e tudo a ver com o “pathos”, a sua ferida mais primordial. Daí que não seja difícil para o leitor colar-se à personagem deste rapaz, identificar-se com ela, viver a sua aventura naquilo que tem de bom, mas também no que de funesto e desditoso vem a afligi-lo, intuindo que nesta coisa de sortes e azares cada um terá guardado o seu próprio bocado.

Nascida de um sonho que o autor teve na sua adolescência tardia, “Felicidade” é mais um exemplo de ficção com traços autobiográficos, a componente imaginária fortemente esotérica ou não fosse este sonho a história de um jovem casal em que a mulher morre em pleno acto sexual. Este é o gatilho para uma série de peripécias que acabam por condicionar toda a existência do parceiro sobrevivente, mergulhando-o numa espiral auto-destrutiva, o seu mundo a ruir aos bocadinhos, as forças para torcer a desdita a deixarem-no para trás e a fitarem-no do outro lado da rua. Mestre na arte da escrita, João Tordo leva ao extremo a condição deste homem, fazendo-o derrapar em ambientes manhosos, a roçar o absurdo e o non sense. No limite, o autor deixa cair a máscara, revelando um lado omnipotente e omnisciente que o torna no deus de que falava há pouco. Repleto de tiradas hilariantes, misturadas com outras bem negras, “Felicidade” oferece momentos de deliciosa leitura, sem, contudo, deixar de nos convidar a reflectir naquilo que somos.

domingo, 6 de dezembro de 2020

LIVRO: "O Beco da Liberdade"



LIVRO: “O Beco da Liberdade”,
de Álvaro Laborinho Lúcio
Edição | Lúcia Pinho e Melo
Ed. Quetzal Editores, Setembro de 2019


“Maria Cacilda levantou-se para esperar o vento. Sabia que vinha lá e que trazia desgraça. Deixou a roupa que pespontava espalhada pelo chão e chegou-se à porta. Ficou de pé. Hirta. E o vento veio. Em rajada. Fustigou-lhe o corpo, os olhos, os cabelos. Trazido pelo vento, veio o cunhado. Dobrou a esquina e estacou a olhá-la ainda ao longe. Aproximou-se. Parou à frente dela.
– Bom dia, cunhada.
– Quem o matou?”

Três anos depois do inaugural “O Homem Que Escrevia Azulejos”, Álvaro Laborinho Lúcio regressa ao romance com este “O Beco da Liberdade”. Mais do que um crime, nele se narram os seus contornos, se revelam as figuras próximas da vítima, se dão a ver jornalistas e investigadores, notários e juízes. Tudo isto numa pequena comarca do interior Norte onde todos se conhecem, os contos e ditos são uma forma de estar e há sempre uma explicação para aquilo que acontece. Entre uma certa forma de ser português e os tiques do Estado Novo, é todo um microcosmos social que vamos desvendando à medida que avançamos na leitura, ao mesmo tempo que percebemos que as coisas não mudaram assim tanto neste quase meio século que levamos de liberdade.

Quem lê os dois romances de Álvaro Laborinho Lúcio não pode deixar de notar a enorme evolução no tratamento que o autor dá às personagens, aproximando-as do leitor, tornando-as mais humanas, clamando a nossa compreensão e, mais do que isso, a nossa conivência. É, pois, um livro que nos suga para o seu interior, mobilizando-nos pela beleza dos seus quadros realistas e pela força de uma escrita que combina, na dose certa, a inteligência e a elegância. Daí que a leitura se faça no espaço de um fôlego, tamanho o interesse da história, tão grande a dimensão íntegra de figuras como a do subinspector Gervásio Ventura, do jornalista Floriano Antunes ou do juiz Guilherme Augusto Marreiro Lessa.

Mas “O Beco da Liberdade” é também, ou sobretudo, uma reflexão muito pessoal sobre a própria condição humana. É na figura do juiz – na qual não podemos deixar de ver o próprio autor –, que aos poucos abandonamos o beco da liberdade em que toda a vida nos movemos e nos embrenhamos no caos, “em busca de nós mesmos, desafiando aí, nesses domínios do absoluto, os poderes da liberdade, da consciência e talvez até de Deus”. Sem abandonar o tom do romance, o autor reclama para si as derradeiras páginas, através das quais mergulha na própria vaidade, nas traições que a realidade encerra, no risco do livre arbítrio e na sua causa maior, a ignorância. Será menos o romancista e mais o professor de Direito a falar-nos, propondo-nos uma exemplar lição, intensa, eloquente, inspiradora.

sábado, 4 de abril de 2020

LIVRO: "Deus-dará"



LIVRO: “Deus-dará”, 
de Alexandra Lucas Coelho 
Ed. Tinta-da-china, Novembro de 2016


“Alô, você aí dentro da nuvem, não finge que não escuta, sabia que já não tenho saco para essa pose de me-crucifiquem, essa cara de bondade eterna, esse cabelo? Por acaso você conhece alguém na Galileia com esse cabelo? Aliás, por acaso você conhece alguém na Galileia ainda? E aqui, vai-me dizer que conhece alguém? Minha mãe, por exemplo, você conhece? É que ela conhece muito bem você, mas eu ainda não vi uma prova de que você mereça. Está-me escutando, seu filho de Deus? ALÔÔÔÔÔÔÔ?” 

Começo a ler “Deus-dará” e, como de costume, a tirar algumas notas. Cedo, porém, me dou conta de que a informação é tanta e tão valiosa que prosseguir com esta tarefa se afigura empresa impossível. Por um lado, corro o risco de transcrever quase na íntegra o livro para o caderno; mas, sobretudo, percebo que, a continuar assim, irei rapidamente perder o fio à meada desta chuva em catadupa de palavras, cores, sons e perfumes, aglutinadas no viver e sentir das gentes em permanente ebulição e adoçada com o cheiro gostoso da canela que se desprende de cada gesto, de cada fala, de cada mensagem. Melhor mesmo é entregar-me por inteiro a esta estonteante canção que tem como ponto de partida o encontro entre o Velho e Novo Mundo a atar portugueses e brasileiros, gente cruzada com gente gerando gente, e que transforma cada página num grito de amor e dor, de liberdade e opressão, de beijo e agressão, de luta e de luto.

Como se quisesse contrariar a “Felicidade” de António Carlos Jobim, a autora elege a quarta-feira como o primeiro destes “sete dias na vida de São Sebastião do Rio de Janeiro”. Sete dias e sete céus, sete sóis, sete luas, sete curvas, sete chakras da energia. Sete vidas, sete dores. Sete milhões de amores, tantos quantos os habitantes da segunda cidade mais populosa do Brasil. Contando a história de Lucas, Judite, Zaca, Tristão, Inês, Gabriel e Noé, Alexandra Lucas Coelho toma-nos pela mão e faz-nos descer o Cosme Velho até aos bairros de Jacarepaguá, Água Santa, Inhaúma ou Engenho de Dentro, ao Complexo do Alemão, da Maré ou da Cidade de Deus, à ilha de Paquetá, à praia de Copacabana ou ao Corcovado, cruzando vidas e sortes que mostram até que ponto tudo muda para que tudo fique na mesma. Um “requiem tropical” que, com mais ou menos açúcar, nos vem lembrar que alguém permanece livre porque nasceu branco e exerce o poder sobre alguém escravo porque nasceu negro. 

Recorrendo ao olhar do cinema, direi que ler “Deus-dará” é assistir a um documentário ficcionado onde a maioria das sequências são filmadas num único plano, a câmara à mão, frenética, nervosa, em sobressalto constante. Há depois o zoom in e o zoom out, um olhar que pousa sobre a Serra dos Orgãos, que se abate sobre a floresta, entra no terreiro e depois na casa até se centrar em cada uma das figuras que, vestidas de branco, participam no rito da ayahuasca. Ou sobre Inês sentada à janela da Charutaria Syria, depois do plano se fechar sobre o espaço da loja, mais ainda sobre a pracinha em triângulo da Rua Buenos Aires com a estátua do Mascate, e sobre o Saara, o maior shopping a céu aberto do mundo, com as suas mais de 1200 lojas. Finalmente, o grande plano, olhos nos olhos com figuras tão distantes e distintas como Pedro Álvares Cabral ou Dirk Van Hogendorp, Machado de Assis ou Jaime Cortesão, o padre jesuíta José de Anchieta ou o imã Abdurrahman al-Baghdadi, Pêro Vaz de Caminha ou Rafael Bordalo Pinheiro, Garrincha ou o rinoceronte Ganda. Ainda Nicolau Coelho.

Com um olho na moral e outro no malandro, o que Alexandra Lucas Coelho faz é misturar a História, a Política, a Sociologia, a Etnologia e todas as restantes ciências sociais e humanas nesse enorme caldeirão fumegante que é a Cidade Maravilhosa, a pior cidade do mundo à excepção de todas as outras. Daí resulta um milhão de leituras possíveis, uma das mais claras dando conta que Portugal continua a mostrar-se incapaz de olhar o seu passado além da aventura e de reconhecer as consequências dos seus actos, persistindo em ignorar a violência do colonialismo nos discursos que produz sobre os “Descobrimentos” e em reduzir a história à auto-estima. Complementarmente, é-nos proposta uma sensacional playlist onde cabem Carmen Miranda e Jards Macalé, Luís Gonzaga e Vinicius de Moraes, João Bosco e Tom Jobim, Adriana Calcanhotto e Seu Jorge, Caetano Veloso e Chico Buarque, MC Funkero e MC Pensador, gravações feitas no Alto Rio Negro, “cosmogonias, cosmologias” e uma Avé Maria de Schubert, ao meio dia, “oferecimento altifalante da Igreja de São Judas Tadeu”. À qual acrescentaria o “irmão do meio” que, com Gabriel o Pensador, nos diz que isto anda tudo ligado. 

Não gostaria de terminar esta (anormalmente longa) recensão sem transcrever mais um excerto do livro, demonstrativo da sua força visual e da mensagem política que lhe subjaz em cada página, em cada frase: “Conforme as incursões da polícia, a cracolândia pode mover-se de quadra ou para outra favela, mas hoje não tem novidade. A kombi avança ao longo da Maré, vira à direita, estaciona. De um lado da rua, armazéns, caminhões parados; do outro, papelões, colchões, plásticos, trapos, lixo, e gente saindo de tudo isso, a ver quem chega. Cheira a podre, um funk brada: QUEM PODE ACABAR COM A GUERRA / NÃO QUER QUE A GUERRA ACABE.” Talvez porque a selva seja tão perto, talvez porque o morro seja tão alto, talvez porque a vida seja tão perigosa, talvez porque se possa pedir tudo ao Cristo, menos que ele seja o grande guarda-nocturno desta Sodoma incorrigível, parece-me não haver outra forma de o dizer: “Deus-dará” é foda!

sábado, 28 de março de 2020

LIVRO: "O Diabo Foi Meu Padeiro"



LIVRO: “O Diabo Foi Meu Padeiro”, 
de Mário Lúcio Sousa 
Edição | Maria do Rosário Pedreira 
Ed. Publicações Dom Quixote, Setembro de 2019


“Amanheço no Mindelo, S. Vicente. Está um crepúsculo tão boreal que só me apetece despir, abraçar o mar, ver a orla azul e amar ela. A brisa manhaneira salpica meu rosto, e os meus olhos de água abaixo estão. Passamos pelo Porto Grande, pela linda baía, subimos uma ladeira e parámos. Chegamos à cadeia. Dois guardas fisgam-me com cara de porcos amigos. Hirtos diante deles estão dois agentes da PIDE com cara de cães.”

Gabriel Pedro, Edmundo Pedro, Pedro Santos Soares, Pedro José da Conceição, Pedro Benge, Pedro Pacavira, Pedro Chimbinda, Preto Mancanha e Pedro Martins. A coincidência no nome e as histórias que se descobrem por detrás de cada uma destas figuras são o fio condutor de “O Diabo Foi Meu Padeiro”, romance centrado no viver e sentir dos presos políticos que, ao longo de quase quatro décadas, passaram pelo Campo de Concentração do Tarrafal, aí deixando a saúde e, em muitos casos, a vida. Centrado nos Pedros que, no “campo da morte lenta”, comeram o pão que o diabo amassou, o livro oscila entre o real e o ficcionado, convergindo na história dos perto de 340 antifascistas portugueses e dos 226 nacionalistas africanos (106 angolanos, 100 guineenses e 20 cabo-verdianos) que, por seu livre pensamento, enfrentaram condições de reclusão bárbaras e desumanas.

Preservar a memória e passar o testemunho. Tal será, porventura, a maior virtude de “O Diabo Foi Meu Padeiro”, visto os crimes cometidos no Tarrafal permanecerem como um dos mais fortes libelos acusatórios contra o regime fascista de Salazar e Caetano. O ignominioso tem como marco fatídico o dia 29 de Outubro de 1936, com a primeira leva de 152 presos políticos a inaugurarem formalmente o Campo de Concentração do Tarrafal e o seu brutal reduto: uma vasta área cercada de arame farpado e fortemente vigiada, numa zona inóspita, com condições climáticas adversas, sem água potável e cujos princípios orientadores estabelecidos para o seu funcionamento eram marcados pela violência e arbitrariedade permanentes. “Daqui ninguém sai com vida... quem vem para o Tarrafal vem para morrer”, diziam os responsáveis do Campo, sentença complementada pela afirmação do médico de que a sua função não era tratar da saúde dos presos, antes passar certidões de óbito.

Numa altura em que se cumprem 45 anos do fecho do Campo de Concentração do Tarrafal, Mário Lúcio Sousa presta, com este livro, uma sentida homenagem a todos quantos passaram pela mais sombria prisão do Estado Novo, recuperando histórias e memórias que dizem muito do engenho e da coragem, da solidariedade e da resiliência, destes homens que aqui cumpriram penas elevadas, muitos deles sem sequer terem sido julgados, e que, nalguns casos, lá permaneceram para além das penas determinadas. Da infame frigideira aos livros que Luandino Vieira aqui escreveu e que saíram da prisão graças à cumplicidade de uma mulher analfabeta, do fel constante na boca por conta da biliosa às “notícias da retrete” que chegavam via Rádio Moscovo, são infindáveis as histórias narradas neste livro que nos falam duma verdade que alguns teimam em querer ver apagada. Mário Lúcio Sousa é disto o oposto. Nascido no Tarrafal há 55 anos, no seio de uma família praticamente analfabeta, aprendeu a viver com parcos recursos, a conviver com a morte desde muito pequeno e a escrever histórias desde cedo. A sua escrita, forte, emotiva, visceral, é o reflexo das suas vivências e da sua forma de estar, comprometida com a justiça e a liberdade. Ler “O Diabo Foi Meu Padeiro” é percorrer, com a razão e o coração, caminhos de luta e resistência.

segunda-feira, 23 de março de 2020

LIVRO: "Essa Dama Bate Bué!"



LIVRO: “Essa Dama Bate Bué!”, 
de Yara Monteiro 
Ed. Guerra e Paz Editores, Setembro de 2018


“De quando em quando, o aroma intenso a leite azedo aflora. Junta-se a ele o gosto a suor salgado que sobrevive na minha língua. Parte de mim conforta-se nestas sensações. A outra parte inquieta-se com o vazio de ser só isto tudo o que tenho de recordação da minha mãe. A verdade mais íntima é não a poder reclamar como sendo minha. Sei-o. Rosa Chitula, minha mãe, mais do que a mim, amou Angola e por ela combateu. Chamo-me Vitória Queiroz da Fonseca. Sou mulher. Sou negra.” 

Talvez esta história não comece propriamente nas primeiras memórias de Vitória quando, aos dois anos de idade, foi deixada ao cuidado dos avós, da sua mãe biológica guardando apenas “o aroma intenso a leite azedo” e “o gosto a suor salgado”. Talvez devamos recuar aos idos de 1482 e ao achamento de Angola, para percebermos a essência de “Esta Dama Bate Bué!”, penetrarmos no seu âmago e vermos o absurdo e as contradições incrustados nos genes de um povo com uma história de cinco séculos de opressão, submissão e aviltamento. Talvez aí se estabeleça a verdadeira dimensão deste livro, naquilo que a política colonialista portuguesa representou para o povo angolano, explorado e vilipendiado na sua própria terra, o acesso a matérias tão essenciais como a cultura e a educação sonegados. 

Mas regressemos a Vitória e àquilo que Yara Monteiro tem para nos contar. Apanhados na voragem duma guerra civil fratricida que viria a saldar-se em mais de meio milhão de mortos, o avô António, a avó Elisa e a pequenina Vitória vêem-se, como tantos outros, obrigados a deixar para trás o trabalho de uma vida e fogem para Portugal com pouco mais do que a roupa que têm no corpo. Entretanto, 23 anos são passados desde esse sombrio 1º de Agosto de 1980, quando Vitória decide regressar a Angola à procura da mãe. Para trás ficam os avós, o seu lugar de bibliotecária e um noivo entre o atarantado e o aliviado. À sua frente abrem-se caminhos tortuosos nessa imensa metrópole que é Luanda, cidade dos excessos e dos esquemas, das longas esperas e da burocracia, das economias paralelas e da corrupção, dos bairros das elites e dos musseques, dos ritmos quentes e da morte que espreita a cada esquina. 

Não se pode qualificar de aprimorada a escrita de Yara Monteiro, mas é inegável a sua tremenda eficácia. Com frases curtas, estilo jornalístico, monólogos que são letra de rap, a escritora embrenha-nos no caos deste mundo à parte, da miséria de quem vive da zunga aos podres da alta-sociedade mwangolé, para nos dizer que a luta continua – “luta contra a barriga vazia, contra o mosquito, o lixo, a insegurança e a morte.” Enquanto isso, Vitória persegue o seu único objectivo, mas não será por mim que saberão do sucesso ou não desta sua empresa. Entre uma Cuca gelada e o canto dos katuites, vão ter de ler o livro. Então, para além de descobrirem como tudo acaba (se é que tudo acaba) perceberão também como da desgraça da vida brotam as oportunidades ou de como o pior lugar da Terra é ser-se mulher negra.

domingo, 22 de março de 2020

LIVRO: "A Educação dos Gafanhotos"



LIVRO: “A Educação dos Gafanhotos”, 
de David Machado 
Edição | Maria do Rosário Pedreira 
Ed. Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2020


“Às vezes perguntam-me onde é que eu estava no dia 11 de Setembro de 2001. Eu estava na Flórida, tinha passado a noite no carro ao lado do meu amigo Marco e ia a caminho de Key West para visitar a casa do Hemingway, acreditando que em breve seria livre.
Nenhuma dessas coisas veio a acontecer.”

Nesta aldeia a que chamamos mundo, cada vez mais pequenina por força das novas tecnologias e por aquilo a que damos o nome de progresso, querer conhecê-la de ponta a ponta é, hoje em dia, uma aspiração quase natural. No caso de David e Marco, dois amigos recém-licenciados, não será tanto um ponta a ponta mas mais um costa a costa, já que o seu projecto de aventura, descoberta e libertação, tem como destino os Estados Unidos. Com o Verão a despedir-se, entre Nova Iorque a Miami, somos convidados a sentar no banco de trás de um Ford Escort e a seguir estrada fora, ao encontro da América profunda. Embarcados numa espiral sem fim à vista, alimentada pela força da sua imaginação e capacidade de improvisação, os dois amigos acabam por “descer à terra” - e nós com eles - quando a realidade se impõe abruptamente, sob a forma de dois aviões colidindo com as torres gémeas.

Lançado estrada fora, entre o cliché turístico e a revelação mais surpreendente, “A Educação dos Gafanhotos” é um livro desempoeirado e muito divertido, que nos diz que é imperioso afastar o cinzentismo em que estamos mergulhados e dar mais cor às nossas vidas, mesmo que para isso tenhamos de correr riscos. David Machado volta a abrir mão do seu enorme talento e a tecer um conjunto de histórias que nos convidam à viagem e ao sonho, seja a ouvir jazz num bar do French Quarter, em Nova Orleães, de amarelo vestido em fila para visitar as Cataratas do Niagara ou confrontados com um jacaré de nome Wally à entrada do quarto de um Motel em Pensacola.

Embora o tom possa parecer demasiado ligeiro – aqui residindo, porventura, a sua maior fraqueza -, “A Educação dos Gafanhotos” oferece um ângulo de leitura extremamente interessante e que tem a ver com o exercício da escrita. Para lá da sua formação de base, Marco e David são amantes da boa literatura e aspiram, eles mesmos, a puderem tornar-se escritores. Tomando como modelos William Faulkner e Ernest Hemingway, os dois amigos aproveitam todas as oportunidades para se fazerem passar por quem não são, trazendo a ficção para o real, fazendo dos interlocutores as suas cobaias e dos bares, das estações de gasolina, dos motéis e das praças e ruas o seu laboratório. De tentativa em tentativa, entre o ensaio bem sucedido e a experiência frustrada, com um olho negro à mistura, o que David Machado nos diz é que não importa a viagem em si, mas a viagem depois da viagem.

sexta-feira, 6 de março de 2020

LIVRO: "A Noiva do Tradutor"



LIVRO: “A Noiva do Tradutor”, 
de João Reis 
Ed. Elsinore, Fevereiro de 2018


“Assino, a mão treme-me misteriosamente, é um efeito dos suores frios, fosse o dinheiro roubado e não estaria em pior estado, levo uma vida degradada e degradante, sem Helena pereço no fogo eterno que consome o mundo, sou arrastado pelos turbilhões de chamas alimentadas por carne humana, os gritos são ensurdecedores, a caneta foge-me das mãos, as assinaturas foram feitas sem esmero, pode ser fraqueza, faria melhor se comesse alguma coisa, porém, não consigo, pensar em comida é secundário, um ser indestrutível não deveria necessitar dela, no entanto, sou um mísero tradutor, não valho o ar que respiro, (...)”.

Uma tremenda ironia percorre as páginas deste livro, a começar pelo título, essa “noiva do tradutor”, de quem saberemos apenas chamar-se Helena e que, a bordo de um navio, segue rumo ao norte, deixando o “noivo” com o pedido de não a procurar nunca mais. Desfeito com a separação, angustiado, desnorteado, mas acreditando sempre que a sua noiva voltará, o tradutor encara o futuro com as devidas reservas, procurando agarrar-se a algo que possa justificar a sua actual situação. Ao longo de pouco mais de 24 horas, o leitor é convidado a acompanhá-lo, seguindo os seus passos, assistindo às suas conversas, partilhando as suas emoções e mergulhando no mais fundo dos seus pensamentos. No final restará a certeza de que, por maiores que possam ser os problemas, haverá sempre forma de os resolver.

Tal como em “A Devastação do Silêncio” e “Eu Servi Gil Vicente”, João Reis reflecte neste livro sobre a condição humana, devolvendo-nos um retrato pormenorizado deste tradutor naquilo que verdadeiramente é: um idiota, de mal consigo e com o mundo, a não valer o ar que respira, as suas convicções a terem como único destino o fracasso. O eléctrico no qual viaja é um antro de bestialidade, a senhoria é uma megera, os amigos uns interesseiros, os editores uns cabeças de jerico, os críticos literários uns impotentes, todos vivem de aparências, têm traumas mal resolvidos. O próprio país “é uma pocilga, nem um Estado consegue ser, é um remendo, um trapo desgastado pelo tempo que vive de ilusões sobre uma passada grandeza, habitado por um povo que mais depressa parte do que muda”. Tudo é grotesco, obsceno, absurdo!

Fazendo-nos recuar no tempo, “A Noiva do Tradutor” marca encontro com uma sociedade repleta de contradições, empenhada em adaptar-se aos novos ditames da modernidade. Entre as ruas enlameadas e o macadame, a luz das velas e a electricidade, a charrete e o automóvel, o dinheiro no banco ou guardado na almofada, o livro traz-nos um retrato de época contundente, marcado pelo sarcasmo e por um sentido de humor refinado, que nos vem provar que, no espaço de um século, esta peculiar maneira de “ser português” pouco ou nada mudou. Aproximando-se em demasia do objecto da sua escrita, João Reis mostra-se exímio na composição de figuras sórdidas e distorcidas, as quais percebemos por inteiro se guardando a devida distância. Povoado de imagens, sons e cheiros (!) – hilariante a passagem do cheiro a queimado durante a consulta com Madame Rasmussen – “A Noiva do Tradutor” é a afirmação de que leitura é sinónimo de prazer. E, no demais, kartofler, kartofler, kartofler!