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segunda-feira, 23 de março de 2020

LIVRO: "Essa Dama Bate Bué!"



LIVRO: “Essa Dama Bate Bué!”, 
de Yara Monteiro 
Ed. Guerra e Paz Editores, Setembro de 2018


“De quando em quando, o aroma intenso a leite azedo aflora. Junta-se a ele o gosto a suor salgado que sobrevive na minha língua. Parte de mim conforta-se nestas sensações. A outra parte inquieta-se com o vazio de ser só isto tudo o que tenho de recordação da minha mãe. A verdade mais íntima é não a poder reclamar como sendo minha. Sei-o. Rosa Chitula, minha mãe, mais do que a mim, amou Angola e por ela combateu. Chamo-me Vitória Queiroz da Fonseca. Sou mulher. Sou negra.” 

Talvez esta história não comece propriamente nas primeiras memórias de Vitória quando, aos dois anos de idade, foi deixada ao cuidado dos avós, da sua mãe biológica guardando apenas “o aroma intenso a leite azedo” e “o gosto a suor salgado”. Talvez devamos recuar aos idos de 1482 e ao achamento de Angola, para percebermos a essência de “Esta Dama Bate Bué!”, penetrarmos no seu âmago e vermos o absurdo e as contradições incrustados nos genes de um povo com uma história de cinco séculos de opressão, submissão e aviltamento. Talvez aí se estabeleça a verdadeira dimensão deste livro, naquilo que a política colonialista portuguesa representou para o povo angolano, explorado e vilipendiado na sua própria terra, o acesso a matérias tão essenciais como a cultura e a educação sonegados. 

Mas regressemos a Vitória e àquilo que Yara Monteiro tem para nos contar. Apanhados na voragem duma guerra civil fratricida que viria a saldar-se em mais de meio milhão de mortos, o avô António, a avó Elisa e a pequenina Vitória vêem-se, como tantos outros, obrigados a deixar para trás o trabalho de uma vida e fogem para Portugal com pouco mais do que a roupa que têm no corpo. Entretanto, 23 anos são passados desde esse sombrio 1º de Agosto de 1980, quando Vitória decide regressar a Angola à procura da mãe. Para trás ficam os avós, o seu lugar de bibliotecária e um noivo entre o atarantado e o aliviado. À sua frente abrem-se caminhos tortuosos nessa imensa metrópole que é Luanda, cidade dos excessos e dos esquemas, das longas esperas e da burocracia, das economias paralelas e da corrupção, dos bairros das elites e dos musseques, dos ritmos quentes e da morte que espreita a cada esquina. 

Não se pode qualificar de aprimorada a escrita de Yara Monteiro, mas é inegável a sua tremenda eficácia. Com frases curtas, estilo jornalístico, monólogos que são letra de rap, a escritora embrenha-nos no caos deste mundo à parte, da miséria de quem vive da zunga aos podres da alta-sociedade mwangolé, para nos dizer que a luta continua – “luta contra a barriga vazia, contra o mosquito, o lixo, a insegurança e a morte.” Enquanto isso, Vitória persegue o seu único objectivo, mas não será por mim que saberão do sucesso ou não desta sua empresa. Entre uma Cuca gelada e o canto dos katuites, vão ter de ler o livro. Então, para além de descobrirem como tudo acaba (se é que tudo acaba) perceberão também como da desgraça da vida brotam as oportunidades ou de como o pior lugar da Terra é ser-se mulher negra.

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