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sábado, 12 de setembro de 2026

LIVRO: “A Sombra das Árvores no Inverno” | Carla Pais



LIVRO: “A Sombra das Árvores no Inverno”,
de Carla Pais
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Leya, Abril de 2026


“Eram bonitas as manhãs de domingo.
A mãe colhia margaridas brancas para enfeitar a mesa. Ajeitava sempre a jarra junto à cesta do pão que o pai comprava à saída da missa. A senhora Neyrolles, uma padeira velhota que gostava de servir os filhos de Deus ao domingo, guardava a baguete mais tostadinha para a mãe, hábitos antigos de quem conhece de cor as freguesas. A mãe regalava-se com o cheiro quente do pão e dizia-nos que uma mesa com pão e margaridas era uma mesa farta. O pai anuía e, por isso se esmerava com o jardim só para a ver feliz. Passava o sábado a regar os canteiros e a podar as rosas que trepavam as paredes. Às vezes chamava-nos para lhe empurrarmos a cadeira ou lhe apanharmos o boné que caía. A mãe espreitava pela janela e sorria, acho que eram os olhos do meu irmão que lhe davam aquele ímpeto de sorrir porque, depois de o meu irmão morrer, a mãe nunca mais sorriu. Até domingo passado: sorriu como se o meu irmão tivesse voltado a abrir os olhos.”

Bastam umas poucas páginas de leitura para nos darmos conta de que Carla Pais não é escritora de uma só história. Ela lembra-nos que cada vida traz consigo outras vidas e outras perdas, outras geografias, os silêncios que a antecedem, fazendo disso “santo e senha” de “A Sombra das Árvores no Inverno”, romance vencedor do Prémio LeYa 2025. Ao longo de quase trezentas páginas, a autora constrói um vasto território narrativo onde o íntimo e o histórico, o familiar e o geopolítico, Paris e a Síria, a infância e a devastação, se reflectem mutuamente, como espelhos partidos que, apesar de tudo, persistem em devolver alguma da imagem humana. O seu engenho reside na arte de cruzar narrativas sem lhes retirar singularidade, de fazer convergir destinos aparentemente remotos até compreendermos que - na ficção como na vida - isto anda tudo ligado. Céline, Aïsha, Nádia e as muitas personagens que gravitam em torno destas três mulheres não são peças de uma tese sobre a imigração, a guerra ou o extremismo: são pessoas às quais o discurso público tantas vezes concentra numa palavra ou numa categoria, mas a quem importa devolver um rosto, uma memória, o próprio nome.

Há uma dimensão decisiva na escrita de Carla Pais: a da recusa da desumanização. A confusão entre “refugiado” e “terrorista”, cujo crescimento um pouco por toda a Europa vemos acontecer, alimentado pela retórica do ódio tão querida aos movimentos de extrema-direita, não é apenas o ponto de partida do livro, antes transforma-se numa interrogação moral que atravessa todas as suas páginas: quem é esse outro que nos habituámos a não ver? A literatura surge então como arte do resgate, uma espécie de voz que chama por aqueles que ficaram para trás enquanto o grande comboio da humanidade avança cada vez mais rápido. Carla Pais não responde à questão de forma discursiva ou panfletária. Responde-lhe com a imaginação, com o gesto doloroso de entrar na pele de uma mãe que perde um filho para uma ideologia que nunca lhe ensinou ou de sentir como próprios os filhos que uma mãe sabe que não voltará a abraçar. Dessa forma, a dimensão social nunca esmaga a intimidade. A História chega sempre através de um corpo, de uma ausência, de uma criança escondida, de uma mesa onde alguém oferece café, de uma mão que acolhe outra mão.

Uma das qualidades maiores da autora é a habilidade para se mostrar contundente sem se tornar cruel, dolorosa sem condenar o leitor ao desespero. Carla Pais dá mostras de conhecer profundamente o inverno - um território atravessado pelo luto, injustiça, orfandade, abandono e culpa -, mas recusa tratá-lo como destino definitivo. Mesmo quando a narrativa nos leva aos lugares mais sombrios, permanece nela uma nota de bondade que não é ingénua, porque conhece o horror. Uma compreensão que não absolve a violência, mas procura perceber as suas feridas. Uma esperança que não chega como milagre, mas como cuidado paciente dos afectos. Há famílias que se desfazem e outras que se escolhem. Há crianças que testemunham aquilo que os adultos já não encontram palavras para descrever. Há quem sobreviva porque alguém acolhe. E, no centro desse movimento conjugado, dessa brutalidade lírica, o amor surge menos como abstracção do que como gesto salvífico concreto: cuidar, esperar, amparar, continuar. A ternura não é o contrário da tragédia, mas sim o que a torna suportável.

Também a linguagem participa plenamente nessa ética. Carla Pais, que se revela uma escritora de causas e uma mulher de emoções, transporta para a prosa a concentração, a musicalidade e o poder imagético da poesia, trabalhando a frase como quem sabe que nela pode caber tanto a denúncia como o abrigo. A língua é, em si, uma arma, mas é igualmente uma forma de reparação: pode nomear o horror sem o reproduzir, aproximar mundos sem os simplificar, fazer da dor uma matéria de pensamento e não apenas de comoção. Daí a sensação de que “A Sombra das Árvores no Inverno” é um romance feito de muitas camadas, que cresce na memória e pede releituras que têm essa capacidade de revelar novos sentidos nas suas ligações, repetições e ecos. Carla Pais reúne fragmentos, histórias, países, mães e filhos, mortos e sobreviventes, até lhes encontrar uma respiração comum. Quando o leitor fecha o livro, depois de atravessar tanta perda, permanece nele uma certeza discreta, quase sussurrada: há invernos que parecem intermináveis, mas à sombra das árvores há algo que persiste, obstinadamente, em preparar uma nova primavera.

sexta-feira, 4 de julho de 2025

LIVRO: "Pés de Barro" | Nuno Duarte



LIVRO: “Pés de Barro”,
de Nuno Duarte
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. LeYa, Abril de 2025


“Oito horas durava o turno, oito duras horas até voltarem pelo mesmo caminho, mas agora mais arrastados, mais sujos, mais suados, com os corpos sovados por um gigante de aço, à noite ninguém precisaria de encolher as pernas para caber no colchão, encolhidas estavam elas, dobradas pelo peso da jorna, e mesmo assim houve quem preferisse o álcool ao descanso, muitos foram às tascas, a maioria não tinha ninguém a espera, só um quarto e uma cama vazia, é destas solidões que se faz a camaradagem, anda, Tirapicos, anda, disseram-lhe, mas ele recusou, não recusaria sempre, mas naquele primeiro dia sim, queria estar com a Dália, contar-lhe como tinha sido, explicar-lhe como se fazia a maior ponte suspensa da Europa e depois adormecer-lhe ao colo, sabê-la a entrelaçar os dedos no seu cabelo, a fazer-lhe festas como se fosse uma criança pequena, hon, no fundo é isso que todos os homens são, crianças pequenas, e as mulheres suas mães. Freud explica e Édipo também. Amanhã há mais.”

O livro de Nuno Duarte leva-nos ao início da década de 1960, a um tempo em que o regime ditatorial de Oliveira Salazar começava a mostrar-se um gigante com pés de barro. A capitulação de Goa, Damão e Diu rompia com o Império uno e indivisível, “do Minho a Timor”, e a Guerra do Ultramar, com início em Angola e que, “rapidamente e em força”, alastrou à Guiné e a Moçambique, abria brechas que já nenhuma cosmética permitia disfarçar. Orgulhosamente só, exaurido de recursos, o governo compensava um esforço de guerra que consumia quase 10% do PIB com mais carestia, mais intolerância e mais repressão. Neste contexto, era urgente encontrar um bom motivo para desviar as atenções da população e nada melhor do que a construção de uma ponte sobre o Tejo, um gigante de aço com 2277 metros de comprimento e um vão livre de 1013 metros, ainda hoje a maior ponte suspensa da Europa. Uma ponte que pretendia ser um símbolo do esforço para a modernização do país e de uma suposta maior abertura ao mundo, mas que não conseguia disfarçar o número crescente de bairros de lata à volta da capital, as elevadas taxas de analfabetismo e de mortalidade infantil, ou os muitos milhares de portugueses que saltavam diariamente a fronteira em busca de uma vida melhor. Hon.

Fazendo oscilar a acção entre o Pátio do Cabrinha, conjunto de habitações modestas na zona de Alcântara, e o estaleiro das obras da Ponte sobre o Tejo, Nuno Duarte oferece-nos um retrato intenso e vivo de um Portugal de dias sempre iguais, sempre cinzentos, cingido a Fátima, ao Fado e ao Futebol, com um Estado securitário, um aparelho de vigilância e repressão política cada vez mais feroz e os seus melhores filhos a serem dizimados aos milhares em África, em nome de uma visão imperialista cega e surda aos novos ventos da História. Ao longo das pouco mais de trezentas páginas do livro, vamos acompanhando um conjunto de personagens cuidadosamente desenhadas, tocantes de humanidade no seu viver resignado, sedentas de liberdade e de justiça. Com tanto de verdade como de ironia, Nuno Duarte pousa o braço sobre o nosso ombro, ao mesmo tempo que mantém uma animada conversa com o Lúcio da tasca que dizia as coisas duas vezes, o Ângelo que ensinava a ler ao mesmo tempo que aprendia a desler, a Cordália que estava sempre doente, ou era da cabeça ou era das pernas ou era das costas ou era do peito, a Helena das serenatas, a Adélia que cantava o fado na Cesária e tinha um rapaz em Angola, o Manel Cheirinho que tinha um filho desertor, o Quim que veio de Moçambique só com metade do corpo, o Fernando da guarda e até os bêbados, o Ti Zé Maria e o Tibúrcio, mais a Odete peixeira e a sua língua afiada. E, claro está, o Victor Tirapicos e a Dália, os grandes protagonistas do romance. Hon.

Há livros que valem todo o tempo que com eles despendemos, de tal forma abrem em nós o desejo de querermos saber rapidamente o final da história e, ao mesmo tempo, pretendermos que as páginas não cheguem ao fim. “Pés de Barro” é disso um bom exemplo, embrenhando o leitor num conjunto de narrativas sabiamente entretecidas e que, no seu conjunto, passam a pente fino a História de um país e mostram o que de bom e de mau há nesta espécie de sortilégio de ser português. No seu estilo peculiar de contar uma história, o autor vai extraindo do leitor a necessária cumplicidade com as principais figuras do romance, fazendo-o sentir a tristeza e as humilhações dos explorados e oprimidos, a sua impossibilidade de erguer a voz contra as injustiças, e o secreto desejo de uma revolução que acabe com tudo e um novo dia - inicial inteiro e limpo - possa erguer-se da mais escura noite. Saúde-se Nuno Duarte e a sua escrita, o seu gosto em dar um segundo sentido às palavras, a forma como replica as expressões de um alentejano ou de um americano, como incorpora o vernáculo nos diálogos, como faz uso de um extraordinário sentido de humor. Fortemente visual, a narrativa põe à prova os sentimentos e emoções do leitor, sendo capaz de o levar às lágrimas com a mesma facilidade com que lhe arranca uma saborosa gargalhada. Uma surpreendente primeira obra, muito justamente merecedora do Prémio LeYa 2024. Hon, hon.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

LIVRO: "A Arte de Driblar Destinos"



LIVRO: “A Arte de Driblar Destinos”,
de Celso Costa
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. LeYa, Maio de 2023


“Retornei com vigor aos cálculos, manipulando de outros modos o problema já vencido. E, sem nem mesmo esperar o badalar dos sinos anunciando o fim da missa, de novo a deusa bailarina, em trajes cintilantes de estrelas, envolta em nebulosas, lantejoulas e arco-íris, rodopiava nas sapatilhas diante de mim, aconselhando: “Esse labirinto tem mais de uma saída, você venceu por pontos, mas pode vencer por nocaute!”, era a revelação. E foi como aconteceu o acesso a uma segunda via diferente, de outro modo, em quatro linhas curtas de cálculos, se revelava o valor singular da soma S de infinitas parcelas: uma manhã de domingo de ventos perfeitos, a drapejar as velas do meu pequeno barco no imenso oceano dos números, eu tinha chegado a uma outra solução simples, direta. Retornei para casa certo de que a matemática gostava de mim.”

Os mais familiarizados com o universo da Matemática – e, mais particularmente, com o da Geometria Diferencial –, sorrirão ao escutar o nome do brasileiro Celso Costa. Afinal, ele integra, juntamente com Euclides (plano), Euler (catenoide) e Meusnier (helicoide), o restrito clube de génios matemáticos a quem se deve a descoberta de superfícies mínimas, no caso concreto a Superfície Costa (Costa's surface). Com a publicação de “A Arte de Driblar Destinos”, o matemático (e escritor) vê crescer e expandir-se o número de pessoas que passaram a conhecê-lo, agora que a obra chega ao grande público e se mostra fadada para tocar os leitores. Repositório de momentos marcantes da infância, adolescência e juventude do autor, o livro é feito de histórias simples e francas, plenas de verdade, de uma quase inocência à qual o Júri do Prémio LeYa não se mostrou indiferente, reconhecendo-o como o grande vencedor da edição de 2022.

Romance inaugural escrito aos 74 anos, “A Arte de Driblar Destinos” integra um conjunto de memórias onde a ficção estreita o real de forma íntima, oferecendo uma imagem eloquente da precariedade e das adversidades que o autor teve de enfrentar até alcançar os seus objectivos. Celso Costa nasceu e viveu uma parte da sua infância em Ribeirão do Engano, uma fazenda do interior do Estado do Paraná. É lá que tem início um percurso de vida que se estenderá até à sua ida para a Universidade, cada episódio como parte de uma saga onde impera a destemperança de um pai que insistia em dar passos maiores do que a perna, a resiliência de uma mãe com a paciência nos limites e uma criança que, apaixonada por resolver problemas de matemática, fez de tudo um pouco: engraxou sapatos, vendeu bananas na rua, empilhou toros de madeira numa serração, foi servente de pedreiro e trabalhou na apanha de algodão e de café nas plantações da região.

Retrato social de um Brasil a várias velocidades, “A Arte de Driblar Destinos” cativa pela honestidade e generosidade da sua trama, onde não faltam as brincadeiras inocentes, uma emotiva tourada, um médico charlatão, uma troupe de circo, um coveiro sinistro ou um faquir sertanejo enterrado vivo. Onde não falta, também, uma professora primária que se torna decisiva na forma como incentiva esta criança a perseguir o sonho de vir a ser professor, driblando um destino medíocre ao qual parecia condenado. O exemplo de superação confere ao romance uma dimensão universalista, com o valor acrescentado de estarmos perante um conjunto de impressões marcadamente autobiográficas, vertidas directamente das memórias de Celso Costa ou apreendidas junto daqueles que lhe foram ou são mais próximos. Desengane-se o leitor que, ao sabor do Prémio Leya, busque no livro uma trama rebuscada, personagens elaboradas, uma escrita original. Aqui a narrativa flui ao sabor da memória, leve e livre, mostrando a vida tal como ela é. Um convite à viagem da qual saímos mais enriquecidos.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

LIVRO: "Lições de Química"



LIVRO: “Lições de Química”,
de Bonnie Garmus
Título original | “Lessons in Chemistry” (2022)
Edição | Carmen Serrano
Ed. ASA, Junho de 2022


“A verdade é que ainda estava zangada com Calvin - por lhe ter mentido em relação ao financiamento da pesquisa dela, por o seu espermatozóide ter desafiado a probabilidades contracetivas, por ter a mania de correr ao ar livre quando toda a gente corria dentro de casa em sapatilhas de ballet. Sabia que era injusto estar zangada com ele, mas a dor é assim: arbitrária. De qualquer maneira, ninguém sabia como ela estava zangada; era algo que guardara para si. Bom, exceto durante o trabalho de parto, quando talvez tivesse gritado algumas coisas lamentáveis, possivelmente cravando as unhas no antebraço de alguma pessoa desconhecida durante as contrações mais fortes. Lembrava-se de haver mais alguém aos gritos e a praguejar. Parecera-lhe na altura estranho e muito pouco profissional.”

Parece-me difícil que possa haver quem não simpatize com Elizabeth Zott. Aluna de Química brilhante e investigadora meticulosa e exigente num Instituto de Pesquisa, vê-se confrontada com um mundo onde ser mulher é enfrentar os maiores obstáculos que um machismo sem limites impõe. É ser resiliente na luta constante contra a violência física ou psicológica. É apelar à sua integridade moral a fim de fazer valer uma posição que é sua por direito na sociedade e no mundo. E se isto é assim nos dias de hoje, imagine-se como seria nos anos 60, no fechado meio da investigação científica onde os homens eram reis e senhores. Empenhada num projecto sobre a abiogénese, nada mais nada menos do que as origens da vida, Elizabeth tem no namorado o seu grande (o seu único) suporte. Mas o drama instala-se e tudo muda. Grávida, vê-se forçada a mudar de vida e vai parar à televisão graças a um conjunto de circunstâncias absolutamente fortuitas. Em pouco tempo ela será a estrela revolucionária do programa de culinária mais amado dos Estados Unidos.

Divertido, imprevisível, inteligente, mordaz, “Lições de Química” é um livro empenhado em explorar as contradições que envolvem as questões de género e mostra-se fértil em situações rocambolescas, que nos fazem rir, mas dão igualmente que pensar. Fazendo incidir as atenções sobre esta mulher absolutamente invulgar, fiel aos seus padrões de conduta e irredutível naquilo que julga serem os melhores meios para alcançar os objectivos a que se propõe, Bonnie Garmus consegue o dois em um perfeito: Não só alimenta a cumplicidade do leitor com a jovem Elizabeth, como promove a ideia de que a libertação da mulher não surge por geração espontânea. Desarmante de naturalidade, intensa, segura de si, Elizabeth conquista rapidamente o leitor. Ela e “seis e meia”, um cão dotado de um forte espírito crítico, espécie de “anjo da guarda” da jovem mulher. Vê-lo assumir o controlo da narrativa e chamar a nossa atenção para os detalhes que porventura nos tenham escapado é delicioso. A leitura torna-se viciante.

Bonnie Garmus mostra-se particularmente talentosa na forma como apresenta as figuras desta reduzida comunidade, dispondo-as no tabuleiro das relações interpessoais com cuidado e sensibilidade. O artifício da escrita é suficientemente subtil para mostrar ao leitor aquilo que verdadeiramente interessa: que o alvorecer do feminismo moderno assenta, de facto, em pequenos grupos mais ou menos clandestinos de mulheres e homens que souberam libertar-se dos constrangimentos impostos pela sociedade, vencer os ditames culturais marcados pela arbitrariedade e o preconceito e colocar no topo das prioridades a aceitação mútua nos seus próprios termos. Foi gente à frente do seu tempo que soube manter-se firme e unida até que o mundo acabasse por assimilar a bondade e a justiça das suas causas. Devemos-lhes isso, tal como devemos a escritores como Bonnie Garmus este reavivar de memórias tão importantes na construção de uma sociedade melhor e mais justa.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

LIVRO: "Debaixo de Algum Céu"



LIVRO: “Debaixo de Algum Céu”,
de Nuno Camarneiro
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Leya, Março de 2013 (5ª edição, Setembro de 2013)


“As primeiras mamas que vi foi atrás da sacristia, enquanto decorria a missa. Este é o meu corpo, tomai e comei, redondas e tão brancas que eu nem sabia para que serviam, olhei-as e se as toquei esqueci-me, eram só lindas as duas, com umas pontitas em bico que desafiavam todas as lógicas que eu conhecia. Este é o meu sangue, tomai e bebei. A rapariga chamava-se Teresa e tinha duas mamas lindas durante a homilia. Às vezes o padre falava de pecados e ficávamos todos cheios de tesão com a ideia disso. Por mim, pecava com todas as meninas da catequese, mesmo as feias com buço, tivessem elas mamas brancas como aquelas.”

Um Inverno pesado e frio, um prédio chegado à praia e, no seu interior, pessoas suficientes para contar uma história. David. Manuela. Daniel. Adriano. Joana. Constança. Bernardino. Frederico. Beatriz. Margarida. Marco Moço. Pessoas cujas vidas esticam e encolhem, se enchem de rugas, pregas no espaço e no tempo, no que pensam, no que sentem. Vidas que se encontram com outras, se fazem e desfazem, por coincidência ou sorte. Que buscam calor no que há, nas caldeiras e no fogo, nos alimentos, nos corpos. Sem passados nem futuros. O tempo medido em medos, entre um ano prestes a fechar-se e outro que desponta. Em fundo, “o mar ouve-se de bravo e, quando não é o mar, é o vento a imitar-lhe a raiva”.

Prémio Leya 2012, “Debaixo de Algum Céu” é a crónica de um espaço físico a que chamamos prédio, com gente dentro. Gente que é a sua razão de ser. Que nele se refugia para se libertar dos excessos trilhados na compostura, para poder ser quem é. Como se de um jogo de xadrez se tratasse, Nuno Camarneiro distribui as suas peças pelas várias casas, fazendo de cada lance uma prova de vida onde cabem a alegria e a indiferença, o desprezo e a resignação, o torpor e a euforia. Uma loucura fria e outra ardente. Num andar há silêncios que são como gritos, noutro passeia-se a morte, noutro ainda o bem e o mal, metidos à força numa porção ínfima de espaço, são como uma bomba prestes a explodir. Na cave acumulam-se objectos que contam histórias antigas. Os movimentos são calculados, um passo em falso tem o valor de um xeque-mate.

Análise e síntese da solidão, esse grande mal de que padecem as sociedades actuais, “Debaixo de Algum Céu” é um auspicioso primeiro contacto com a escrita de Nuno Camarneiro. Dele retenho a agilidade e a facilidade com que fragmenta a grande história, fazendo de cada parcela um constructo onde se abrigam ímpetos e vulnerabilidades. Fortemente visual, a narrativa leva-nos por caminhos onde as sombras se adensam e só muito pouco é aquilo que parece realmente ser. A vida é um jogo do faz-de-conta, o instinto toma conta dos gestos mais banais, o quotidiano transforma-se numa luta pela sobrevivência. Debaixo deste céu “um amor manso feito de dias simples e horas marcadas” é uma quimera. Restam as memórias, também elas longínquas, trazidas à tona por um órgão de ventos, de búzios e ervas que restolham, de garrafas que uivam, madeiras que chocam e água que se faz em espuma.

domingo, 17 de janeiro de 2021

LIVRO: "O Olho de Hertzog"



LIVRO: “O Olho de Hertzog”,
de João Paulo Borges Coelho
Ed. Leya, Março de 2010


“Lembrou-se daquela tarde composta como um cenário para que, no meio dela, Wally pudesse sentar-se a desenhar. A seu lado, um saco com pequenas pedras de carvão. Uma delas brilhava mais do que as outras, tocada por um último raio de Sol. Se encontrasse agora a rapariga, recuaria um pouco no tempo, pedir-lhe-ia ainda uma última história, a mais complexa de todas; não as costumeiras histórias em que se vão retirando véus até ficar desnudado por completo o acontecido, mas uma história nova, toda ela virada para diante.”

Professor de História Contemporânea na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, e investigador em questões que relacionam a história, o poder e a memória, sobretudo em regiões como a África Austral e o Oceano Índico, João Paulo Borges Coelho publicou em 2010 “O Olho de Hertzog”. O livro vencera a segunda edição do Prémio Leya e surgia com essa chancela de prestígio, obrigando o leitor a elevar a fasquia em matéria de expectativas. E começo precisamente por aqui, pela enorme frustração que foi a sua leitura, um romance com muito pouco para oferecer, que avança a conta-gotas e que resulta num infindável bocejo.

As páginas iniciais são prometedoras. A chegada de Hans Mahrenholz a Lourenço Marques, a bordo do “Ferreira”, outrora a embarcação mais veloz a sulcar os mares do mundo sob o nome de “Cutty Sark”, vem carregada de mistério. Estamos no rescaldo da I Guerra Mundial e para trás este oficial germânico tem um ano de campanha militar nas florestas austrais, no corpo e na mente as marcas da chuva e da lama, da malária, dos perigos que a selva esconde e dos confrontos com tropas portuguesas e britânicas. Aqui chegado, porém, a sua missão é uma incógnita. Na sua busca, Hans guiará o leitor através de uma cidade desconcertante, à descoberta das profundas brechas que o conflito abriu numa sociedade onde a supremacia branca é ainda avassaladora.

Seria um livro empolgante, caso João Paulo Borges Coelho tivesse alguma noção dos tempos com que se coze um romance de acção. É que não basta ter uma boa ideia, é preciso saber desenvolvê-la, alimentando-a com novos factos, dispensados com critério e parcimónia. E é isso que o autor não faz. Pior: O seu sentido de “economia narrativa” é nulo, enrolando o leitor num conjunto de apontamentos repetidos até à exaustão – veja-se o caso dos anúncios nos comércios ou nas salas de cinema da cidade –, levantando a ponta do véu apenas nas derradeiras páginas, numa altura em que todo o interesse pelo livro há muito se desvaneceu. O resultado é desconsolador, a inabilidade do autor em manter o leitor preso à história como a sua principal marca, o retrato desta Lourenço Marques de inícios do século XX pouco vivo, desinteressante.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

LIVRO: "O Teu Rosto será o Último"



LIVRO: “O Teu Rosto Será o Último”,
de João Ricardo Pedro
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Leya, Março de 2012

“E, enquanto o outro se mirava ao espelho, o ilustre médico descobria, naquele homem vindo sabem Deus e o Diabo donde, talvez das margens do Guadiana pela forma de falar, naquele desgraçado que não tinha onde cair morto e que talvez por isso mesmo caíra ali, um inesperado reflexo de si próprio. É que, enquanto Celestino se mirava ao espelho, de sorriso estampado no rosto, e dizia ‘Oh, doutor, até parece que já vejo melhor’, não era porque, graças ao olho postiço, tivesse passado a ver melhor, mas porque a imagem que o espelho lhe devolvia se assemelhava à lembrança que tinha de si próprio. Era, por isso, uma ilusão. Uma ilusão que tinha, por um lado, a capacidade de lhe restituir a identidade mas, ao mesmo tempo, a capacidade de lha ocultar.”

O Celestino não viera almoçar. Na pequena aldeia com nome de mamífero, encalacrada num sopé da serra da Gardunha, Ressurreição, vizinha de Celestino, foi quem deu o alarme, acrescentando que a espingarda também desaparecera. Foram dar com ele à tardinha, num ermo sem dono, tombado no chão, coberto por uma nuvem de moscas, a cara crivada de chumbos. Àquela hora precisa, em Lisboa, o professor Marcello Caetano, depois de se render ao Movimento das Forças Armadas, saía do quartel do Carmo dentro de uma chaimite rumo ao exílio no Brasil. Assim começa “O Teu Rosto Será o Último”, nele se anunciando um caso de polícia, ao mesmo tempo que se insinuam as cores da revolução dos cravos. Daí que a surpresa do leitor será enorme ao perceber que o capítulo seguinte nada tem a ver com o anterior. Pela frente terá uma sucessão de contos praticamente independentes entre si, embora se perceba haver ali um fio condutor capaz de validar a estrutura do romance. Ou não.

É com entusiasmo que nos agarramos às histórias que João Ricardo Pedro tão bem narra neste seu livro, dos trilhos minados no Norte de Angola, em plena Guerra de África, ao enorme salão do Museu de História de Arte, em Viena, onde se expõe “A Luta Entre o Carnaval e a Quaresma”, a obra-prima de Brueghel o Velho; de uma chegada em pelotão que permitiu ao Manuel Zeferino conservar a camisola amarela, a uma ida ao salão Playboy, a tesoura a bailar nas mãos de Alcino, o único barbeiro do mundo a proporcionar aos seus clientes a sensação de terem sobrevivido a um desastre. São, na verdade, deliciosas as peripécias que bebemos página após página, ora cómicas pela sua inverosimilhança, ora trágicas pela crueza e dureza na forma de narrar os factos. E todavia...

João Ricardo Pedro não quis fazer de “O Teu Rosto Será o Último” um livro de contos. Forçou uma linha narrativa coerente para nos oferecer um romance, mas fico na dúvida quanto ao resultado. Soçobro nesse esforço de detalhar os momentos mais significativos do livro em busca dos elos que possam dar corpo à grande história que nele teima em esconder-se. É nas pequenas histórias que encontro algum sentido, a dor e o amor como duas faces duma mesma moeda a que chamamos vida. O sofrimento moral e físico que se impõe na forma de um cancro em estado avançado, do napalm que se ergue da agitação do sono, da intolerável obrigação de fazermos o que de nós se espera, será o grande tema deste livro. Os pequenos nadas que povoam as nossas vidas e lhe colocam um pouco de colorido, o amor que se derrama de um gesto ou de um olhar, serve-lhe de contraponto. No final, é impossível disfarçar a sensação de frustração por um certo sabor a inacabado. Mas quantos livros tivemos a oportunidade de ler nos últimos tempos que nos convocassem tantas e tão boas histórias, tão gratas memórias, emoções tão delicadas, sensações tão intensas?

terça-feira, 9 de junho de 2020

LIVRO: "Uma Outra Voz"



LIVRO: “Uma Outra Voz”, 
de Gabriela Ruivo Trindade 
Edição | Maria do Rosário Pedreira 
Ed. Leya, Abril de 2014


“Saiu batendo com a porta, e eu, senhora, toda eu tremia, deixei-me cair em cima da cama e pela primeira vez, pela única vez, minha mãe, tive de cerrar os dentes com muita força para não me levantar e ir atrás dele dizer-lhe as palavras que me martelavam dentro do peito, sim, sim, sim, meu amor, quero casar-me contigo, é tudo o que quero nesta vida, meu amor, minha alma. Fartei-me de chorar, mas depois engoli as lágrimas e as palavras, as mesmas que ainda aqui guardo dentro de mim e são o que mais me pesa agora, na hora de morrer, porque nunca lhas disse. Não tive coragem.”


Não sei quanto tempo passou, mas estaremos a falar de três, quatro anos. Da leitura inicial de “Uma Outra Voz” tinham ficado as memórias de uma escrita cuidada e visualmente muito rica sobre o passado de uma família na pacatez de uma cidade Alentejana. Tinham ficado também as várias vozes que, em tempos diferentes, ofereciam uma multiplicidade de olhares sobre uma só paisagem, o real e a ficção amarrados num só. Finalmente, tinha ficado a certeza de que haveria de voltar a este livro, com outro conhecimento e outra disponibilidade, que isto de ler é ofício que cresce e se aprende. A oportunidade surgiu agora, como um desejo forte, uma quase necessidade, a percepção de que a grande história em torno da figura tutelar de João Francisco Carreço Simões (Ti Carreço) se revelaria mais viva e pujante, a convicção de que as pequenas histórias se imporiam com uma força e uma riqueza que não lhes adivinhara antes.

Começando por estas últimas, nelas descobrimos, desde logo, uma homenagem sincera e sentida a Estremoz, cidade da qual são oriundos os pais da autora e onde vive, ainda, grande parte da sua numerosa família. O Café Alentejano ou o Águias d’Ouro, o Teatro Bernardim Ribeiro, a Papelaria Tabaqueira ou a Filarmónica Artística Estremocense não são aqui meros ecos do passado. Atravessaram fomes e farturas, monarquias e repúblicas, ditaduras e revoluções, preservando uma aura que os eleva à categoria de símbolos, marcas vivas de uma cidade que se faz presente neste livro. A grande literatura insinua-se também nas pequenas histórias, quer fazendo de Sebastião da Gama uma das personagens do livro ao evocar a sua passagem pela Escola Industrial de Estremoz onde leccionou Português, quer nos breves apontamentos que remetem para a poesia de Álvaro de Campos ou de Cecília Meireles, quer ainda na forma como faz da Livraria Ulmeiro (e do Zé Ribeiro) um farol na longa noite do fascismo.

Finalmente a grande história, rematada em forma de diário pelo próprio João Francisco Carreço Simões, durante o seu exílio voluntário em Angola, nos alvores do Estado Novo. Escritas com o coração, as várias entradas respondem ao momento alto do livro, a “quinta e última voz”, a dessa mulher que nunca foi menina, corpo que a todos se deu, cabeça e coração em lados opostos, lágrimas de fel bebidas por um amor que nunca se permitiu inteiro e pleno. Numa escrita expressiva, feita de emoção e arrebatamento, Gabriela Ruivo Trindade faz-nos regressar à grande literatura romântica, levando-nos a recuperar o prazer sentido nas palavras de Garrett, Camilo ou Júlio Dinis. Importa dizer que o livro não é todo ele assim, absorvente e belo – sobretudo a “terceira voz”, a de Jorge Falcato, parece “fora da caixa” face ao conjunto de vozes que aqui se escutam -, mas as palavras que os dois amantes se dirigem e que ocupam o último terço do livro valem pelo todo.

terça-feira, 5 de março de 2019

LIVRO: "Torto Arado"



LIVRO: “Torto Arado”,
de Itamar Vieira Junior
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Leya, Fevereiro de 2019


De forma absolutamente casual, cruzei-me com Itamar Vieira Júnior na Póvoa de Varzim, numa livraria, o melhor dos sítios para um escritor e um leitor se encontrarem. Aí, falei-lhe com entusiasmo de “Torto Arado”, que começara a ler, e do quanto me impressionara a sua escrita vertida nas páginas iniciais com uma força e uma tensão absolutamente assombrosas. Contei-lhe, sobretudo, da viva impressão que me causara a descrição do traumático episódio inicial, dessa faca que parecia ter vida própria, longe de imaginar o quão solidamente irmanados o sangue e o oculto se iriam revelar ao longo da narrativa.

Desde o início, o livro segura-nos com força pelos ombros, só deixando de nos abanar quando é claro estarmos bem despertos e conscientes da maldade e injustiça que se escondem na ignominiosa exploração do homem pelo homem. Há toda uma força vital que emana da terra, do homem, da palavra, que leva o leitor a recolher-se no drama e na dor dos fracos e oprimidos, a mostrar-se solidário e cúmplice. Itamar Vieira Junior e “Torto Arado” são, nessa exacta medida, irmãos de Saramago e do sublime “Levantado do Chão”, de Manuel da Fonseca e do punjente “Seara de Vento” ou de Soeiro Pereira Gomes e de “Esteiros”, esse livro escrito “para os filhos dos homens que nunca foram meninos”.

Com uma trama solidamente construída, “Torto Arado” tem um cunho vincadamente humanista ao assumir a voz daqueles que a não têm. A faca que, a um tempo, separa e une, é a mesma que rasga a narrativa, deixando de um lado os que lutam pelo direito a não serem mais do que um número, a terem um salário, uma habitação condigna e acesso a cuidados de saúde e educação, e do outro os mais pobres dos pobres, os resignados e submissos, dispostos a tudo aceitar, escravos da sua própria miséria. Estes nada mais têm a esperar do que a morte, inelutável e libertadora. Aqueles sofrerão a perseguição e a dor – é impossível não ver nos oito tiros que mataram Severo os mesmos desferidos contra Marielle Franco -, mas as suas gargantas não se cansarão de cantar amanhãs gloriosos e fraternos, na certeza de que chegará o tempo em que a liberdade e a justiça prevalecerão. Porque sobre a terra há de viver sempre o mais forte!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

LIVRO: "Os Loucos da Rua Mazur"



LIVRO: “Os Loucos da Rua Mazur”,
de João Pinto Coelho
Editor | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Leya, Novembro de 2017


Algures, no Nordeste da Polónia, o horror acontece. Estamos em 1941 e um manicómio é transformado em forno crematório, não por obra do ocupante alemão mas de cristãos polacos. O nome da cidade é propositadamente omitido no livro, mas tanto pode ser Jedwabne como mais de uma vintena de outras localidades onde atrocidades do género foram cometidas, na mesma altura, contra os judeus. Caucionado pela História – que nos vem ensinando que os acontecimentos tendem, ciclicamente, a repetir-se -, “Os Loucos da Rua Mazur”, última obra de ficção de João Pinto Coelho e vencedor do Prémio Leya 2017, acaba por assumir uma faceta profundamente perturbadora, quase premonitória, numa altura em que a Velha Europa - para não irmos mais longe (!) - assiste ao recrudescer dum discurso xenófobo e populista, impulsionado pela ascensão dos partidos de extrema direita.

Toda esta “maquinação do Mal” é narrada a partir dos apontamentos pessoais de dois sobreviventes – um escritor de sucesso e um livreiro cego -, apelando no presente às respectivas memórias e completando os apontamentos um do outro, para que nada fique por contar. Mas a relação entre ambos é tudo menos fácil, como o não era à data dos trágicos acontecimentos. E é aqui que vem ao de cima o brilhantismo da escrita de João Pinto Coelho, abordando duas histórias em paralelo, separadas seis décadas no tempo, mostrando de que forma as tensões e conflitos pessoais se prolongam e acabam por repercutir, na exacta medida, no viver e no sentir duma sociedade cada vez mais dividida.

Este é um daqueles livros que se lêem em constante sobressalto. De cada vez que pensamos que o pior já passou, percebemos que, afinal, ainda está para vir. Aqui “as costas não folgam pelo vai e vem do pau”. Os momentos de trégua aparente desvendam, afinal, pequenas peças soltas dum puzzle que acabará por rebentar em mil estilhaços, de dor e raiva feitos. E porquê?, perguntar-se-á. Que gene é este que já nasce com o homem e o leva a atentar contra o seu semelhante da forma mais vil e cruel? Com que motivação? Em nome de quê? Entre todas as virtudes deste magnífico livro, talvez a forma como nos confronta com estas questões seja o mais relevante. Através dele, vamos ao encontro do que fomos para descobrirmos, em sobressalto, quem somos. Porventura, será este o grande argumento que faz de “Os Loucos da Rua Mazur” uma obra de leitura obrigatória!