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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

LIVRO: "Museu da Revolução"



LIVRO: “Museu da Revolução”,
de João Paulo Borges Coelho
Ed. Editorial Caminho, Julho de 2021 (2ª edição, Julho de 2022)


“Mariamo, Mariamo. Alguém conhece Mariamo? Partem por aqueles caminhos antes amplos e perfeitamente esquadriados para neles circularem as máquinas da guerra e as ordens emanadas dos altifalantes que encimavam as torres de vigia, caminhos cujas margens o tempo foi esboroando até acabar por transformar nestes carreiros afeiçoados ao andar humano, aos pés rodados e aos rodados das bicicletas. Mariamo? Alguém conhece Mariamo?”

“Museu da Revolução” convoca uma série de reflexões em torno da escrita, essa arte de tecer histórias e de dá-las a ver. Foi esse o motivo - quiçá o único - que me fez não desistir do livro e aguentar estoicamente um virar de página sem fim à vista. Começo por falar de “economia narrativa”, conceito que o autor faz questão de ignorar, de tal forma se estende em descrições que confundem as noções de essencial e acessório e que nada acrescentam à história. Não exagero se disser que metade das páginas são supérfluas, o que faz com que o interesse se dilua e o tédio se instale com frequência. Mas há, depois, essa intensa corrente que percorre a linha do pensamento e se derrama em palavras que, alinhadas, mostram de que forma se ergue um livro. Um livro que é, em si mesmo, um “museu” feito de objectos raros ou banais, tornados únicos pelas histórias que encerram e que vão muito além de uma simples legenda na vitrina.

“Museu da Revolução” possui as particularidades de um livro de viagens. De Maputo a Vila de Sena, nas margens do Rio Zambeze, não muito longe da fronteira com o Malawi, cinco pessoas viajam numa carrinha Toyota Hiace, uma “chapa”, verdadeiro símbolo de movimento e de liberdade para os moçambicanos. Na necessidade de recuperar histórias que conhecem apenas pela metade, memórias prestes a desvanecer-se, retalhos de vida que importa reconstruir, reside o sentido da viagem. O percurso leva-os a atravessar a história recente de Moçambique, o estigma de sucessivas guerras sempre presente, a paisagem transformada por décadas de destruição e incúria. Do Chokwé a Vilanculos, do Chimoio a Maringue, a mesma realidade: Pessoas conformadas com uma situação de abandono, a desigualdade e as assimetrias cada vez mais presentes, os dilemas adensados pelo sofrimento anónimo. O final trará com ele algumas certezas, mas muitas dúvidas permanecerão.

Assente no diálogo entre narrador e um dos viajantes da carrinha, “Museu da Revolução” tem no real o seu ponto de partida. Nele, a ficção assume-se como um espaço de liberdade onde se forjam novas histórias destinadas a unir as pontas deixadas soltas por acaso ou porque sim. João Paulo Borges Coelho faz questão de assumir o jogo da escrita: “Se não sabes, inventa.” Narrador e “informador” trocam frequentemente impressões quanto à plausibilidade e adequação dos episódios ficcionados, moldados à medida das necessidades. Este “turismo da memória”, esta viagem a um passado que ecoa no presente, remete para a noção de museu a que o título do livro alude, obrigando-nos a ver cada uma das peças como parte de um todo. Um todo desagregado, imprestável, à semelhança do Museu da Revolução, privatizado e depois encerrado. O tom metafórico torna-se dominante, permitindo realçar os fundamentos da escrita de ficção. A arte de escrever “segura” o livro. No demais, estamos conversados.

domingo, 17 de janeiro de 2021

LIVRO: "O Olho de Hertzog"



LIVRO: “O Olho de Hertzog”,
de João Paulo Borges Coelho
Ed. Leya, Março de 2010


“Lembrou-se daquela tarde composta como um cenário para que, no meio dela, Wally pudesse sentar-se a desenhar. A seu lado, um saco com pequenas pedras de carvão. Uma delas brilhava mais do que as outras, tocada por um último raio de Sol. Se encontrasse agora a rapariga, recuaria um pouco no tempo, pedir-lhe-ia ainda uma última história, a mais complexa de todas; não as costumeiras histórias em que se vão retirando véus até ficar desnudado por completo o acontecido, mas uma história nova, toda ela virada para diante.”

Professor de História Contemporânea na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, e investigador em questões que relacionam a história, o poder e a memória, sobretudo em regiões como a África Austral e o Oceano Índico, João Paulo Borges Coelho publicou em 2010 “O Olho de Hertzog”. O livro vencera a segunda edição do Prémio Leya e surgia com essa chancela de prestígio, obrigando o leitor a elevar a fasquia em matéria de expectativas. E começo precisamente por aqui, pela enorme frustração que foi a sua leitura, um romance com muito pouco para oferecer, que avança a conta-gotas e que resulta num infindável bocejo.

As páginas iniciais são prometedoras. A chegada de Hans Mahrenholz a Lourenço Marques, a bordo do “Ferreira”, outrora a embarcação mais veloz a sulcar os mares do mundo sob o nome de “Cutty Sark”, vem carregada de mistério. Estamos no rescaldo da I Guerra Mundial e para trás este oficial germânico tem um ano de campanha militar nas florestas austrais, no corpo e na mente as marcas da chuva e da lama, da malária, dos perigos que a selva esconde e dos confrontos com tropas portuguesas e britânicas. Aqui chegado, porém, a sua missão é uma incógnita. Na sua busca, Hans guiará o leitor através de uma cidade desconcertante, à descoberta das profundas brechas que o conflito abriu numa sociedade onde a supremacia branca é ainda avassaladora.

Seria um livro empolgante, caso João Paulo Borges Coelho tivesse alguma noção dos tempos com que se coze um romance de acção. É que não basta ter uma boa ideia, é preciso saber desenvolvê-la, alimentando-a com novos factos, dispensados com critério e parcimónia. E é isso que o autor não faz. Pior: O seu sentido de “economia narrativa” é nulo, enrolando o leitor num conjunto de apontamentos repetidos até à exaustão – veja-se o caso dos anúncios nos comércios ou nas salas de cinema da cidade –, levantando a ponta do véu apenas nas derradeiras páginas, numa altura em que todo o interesse pelo livro há muito se desvaneceu. O resultado é desconsolador, a inabilidade do autor em manter o leitor preso à história como a sua principal marca, o retrato desta Lourenço Marques de inícios do século XX pouco vivo, desinteressante.