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sábado, 5 de setembro de 2026

LIVRO: "Atos de Desobediência" | Helena Magalhães



LIVRO: “Atos de Desobediência”,
de Helena Magalhães
Edição | Carmen Serrano
Ed. Edições ASA, Setembro de 2025


“Ensinaram-nos a ter medo das bruxas, mas não dos homens que as queimavam vivas, era algo que a avó dizia constantemente na sua qualidade de feminista anciã, palavra que ela nem sabia pronunciar porque dizia femininista e eu não tinha coragem de a corrigir porque amava que ela se sentisse assim, empoderada, palavra que ela também não dizia, ela era mais pra-frentex, ouvira aquilo das bruxas em qualquer lado e repetia-o sempre que se lembrava, eles abrem a boca e queimam-nos com o seu silêncio, dizia, queimam-nos com a força das suas mãos e dos pés e dos braços e das pernas, queimam-nos com as suas políticas e as suas guerras e as suas leis, queimam-nos com facas e pistolas e bastões e pés de cabra, queimam-nos quando nos cortam a voz, quando nos violam, quando nos matam de fome, queimam-nos quando nos odeiam, mas sobretudo quando nos amam, não deixes que te queimem, Glória, presta atenção, Glória, estás a ouvir, Glória?”

“A maior desobediência que podes fazer é ser feliz” é uma frase que pode muito bem servir de chave a “Atos de Desobediência”. A partir dela, Helena Magalhães constrói um romance sobre o que fica quando uma mulher se recusa a continuar a viver segundo as formas de obediência que lhe foram ensinadas. Glória Brito, escritora em crise, aproxima-se dos quarenta anos carregando uma vida marcada pelo abuso, a família partida ao meio, a precariedade e uma sucessão de amores sem pernas para andar. Mas não é propriamente a soma destas feridas que a define, antes a dificuldade em deixar de as repetir. Um desejo quase patológico por homens casados não aparece apenas como transgressão sentimental, funcionando como reencenação de uma ideia de amor fundada na disputa, na falta e no sofrimento. Glória sabe-o, observa-se com uma lucidez quase cruel e, ainda assim, não consegue escapar. Glória não é uma santa laica ou uma vítima exemplar, antes uma mulher contraditória, por vezes desagradável, frequentemente vulnerável, que tenta descobrir se ainda pode inventar uma vida depois de tudo aquilo que aprendeu a aceitar.

A matéria do romance é íntima, mas a ambição é maior. A família, as amizades, o sexo, a violência, as diferenças de classe e a condição feminina são atravessados por uma outra pergunta: “Para que serve escrever?” Glória encontra na literatura a possibilidade de transformar aquilo que perdeu em alguma coisa que possa permanecer. A escrita surge como “máquina de salvação”, mas também como lugar de confronto consigo própria. Daí a presença salvífica de outras escritoras - Virginia Woolf, Emily Dickinson, Anaïs Nin, Joan Didion, Mary Shelley, Maria Judite de Carvalho, Natália Correia, Maria Teresa Horta, Adília Lopes -, convocadas não apenas como referências literárias, mas sobretudo como uma comunidade de mulheres que fizeram da experiência matéria artística. O procedimento tem força, embora por vezes se torne demasiado evidente: o romance explica a sua genealogia literária ao mesmo tempo que a constrói. O mesmo acontece com a crítica ao mercado editorial, às redes sociais e à transformação da literatura em produto. A sátira é mordaz e há prazer na insolência, tantas são as tiradas a ecoar fora do próprio livro, nos instantes em que a personagem cede momentaneamente o lugar à autora.

A prosa de Helena Magalhães é rápida, oral, confessional, construída sobre períodos extensos nos quais pensamento, memória e comentário se atropelam. Parênteses, enumerações, apartes e mudanças súbitas de direcção reproduzem uma consciência que não consegue - ou não quer - organizar o mundo antes de o dizer. Há um efeito de desabafo controlado, mas também uma deliberada aproximação ao ensaio, à crónica e mesmo à sátira. O recurso é particularmente feliz quando a linguagem deixa transparecer as contradições de Glória, menos quando o romance sente necessidade de sublinhar aquilo que era já um dado adquirido. “Atos de Desobediência” é, afinal, um livro que fala insistentemente de silêncio sem ser um livro silencioso. As personagens nomeiam as feridas, interpretam-nas, procuram-lhes causas e consequências. Por vezes, essa transparência reduz a zona de sombra que a ficção poderia explorar; noutras, produz uma espécie de urgência difícil de ignorar. A autora parece escrever como quem receia que calar uma frase seja, ainda uma vez, obedecer.

É essa urgência que melhor define o romance. O seu verdadeiro movimento não vai simplesmente do trauma à cura, mas do silêncio à possibilidade de uma voz. A avó, a mãe, Lúcia, Teresa, Ana Clara, Isabela, Beatriz Rosa e as outras mulheres formam uma espécie de coro imperfeito: não vivem sem conflitos, não se compreendem sempre, não são personagens de uma fraternidade idealizada, mas reconhecem umas nas outras uma experiência comum de perda e resistência. Quando Glória finalmente transforma os homens que a feriram em matéria de um livro, mais do que vencê-los retira-lhes o monopólio da narrativa. O que aconteceu passa a poder ser contado por quem o sofreu. É uma distinção importante. A literatura não restitui o que foi perdido, mas pode alterar o lugar que a perda ocupa dentro de nós. “Atos de Desobediência” faz dessa operação uma celebração colectiva que, por vezes, se aproxima perigosamente do manifesto. Ainda assim, é difícil não reconhecer a coragem de um livro que prefere o excesso à neutralidade e a exposição ao silêncio. A sua desobediência está menos naquilo que diz, do que na recusa em pedir licença para o dizer.

domingo, 22 de dezembro de 2024

LIVRO: "O Meu Pai Voava"



LIVRO: “O Meu Pai Voava”,
de Tânia Ganho
Edição | Carmen Serrano
Ed. Publicações Dom Quixote, Julho de 2024


“A rapariga da agência perguntou se ele tinha um pacemaker. Se tivesse, seria preciso abri-lo, desligar não sei o quê, uns fios?, porque podia explodir, será que foi explodir que ela disse? Estávamos à mesa. Abri-lo? O corpo? Por instantes, não compreendi o que o meu irmão dizia. Mas abriram-no? Ele não tinha um pacemaker, pois não? Confusa, revendo os meus ficheiros mentais para perceber a que procedimentos o meu pai se sujeitara depois do enfarte. Há partes da minha vida que apaguei ou que são turvas, desfocadas. Quando o meu pai foi operado à coluna, onde é que eu estava, que não me lembro de o ter visitado no hospital? A ausência de recordações choca-me. Como é que eu, a filha querida, a menina do papá, não me recordo de ter estado à cabeceira dele quando o operaram à coluna?”

Tânia Ganho perdeu o pai no dia 24 de Fevereiro de 2024. O óbito foi declarado às 11 horas e 11 minutos. Chamava-se Edmiro e era urologista. Dizia a brincar que passava o dia “a ver pilas” e, nas impressões que trocava com a filha, a autora deste livro, tratava o corpo por tu, estabelecendo com ele “uma familiaridade saudável, sem tabus”. Tinha fama de despistado, mas gabava-se de nunca se ter esquecido de uma compressa dentro de um doente. Foi cinturão negro de karaté, astrónomo amador, inventor medalhado. Fazia pequenas reparações em casa, desmontava electrodomésticos, soldava peças, era um exímio arrombador de fechaduras. Ouvia Maria Callas em altos berros, sabia a “Tabacaria” de cor, louvava Zeca Afonso, idolatrava Salgueiro Maia. Escalava montanhas, dava pontapés na lua e voava. A memória começou a traí-lo alguns anos antes da sua morte, o Alzheimer a “fincar as gavinhas” na sua mente, o seu “lado cru, tão feio, tão triste” a tomá-lo aos poucos. Morreu sem conhecer ninguém, sem se conhecer a si próprio. Tânia Ganho quis que permanecesse vivo, que o conhecêssemos.

Adeus e encontro, distância e abraço, luto e celebração da vida. “O Meu Pai Voava” é um mergulho no mais fundo do eu, nesse território habitado por emoções desiguais e sentimentos contraditórios, no momento em que tudo se afigura “triste e ermo” com a partida do pai da escritora. “É o meu pai em cada palavra, e a realidade da sua ausência engole-me e revolve-me, sou roupa aos tombos no tambor de uma máquina de lavar”, lê-se nas páginas iniciais, o tom confessional posto em cada frase, a intimidade e cumplicidade com o leitor a revelar-se necessária e urgente. Nesta súmula de reflexões assente em (muitas) dúvidas e (poucas) certezas, Tânia Ganho porfia na busca de apaziguamento e reconciliação consigo própria: “Será possível falarmos de luto sem falarmos de nós?”, interroga-se. Dedica o livro à mãe, a mulher que do pai cuidou ao longo de seis décadas de vida em comum e que terá, como ninguém, sofrido com a perda, o não ter mais de lhe indicar onde estavam as camisas, as calças, o escolher de véspera o fato, a gravata, os sapatos, o acordar antes dele para lhe fazer um pequeno-almoço de café com leite, torradas e um ovo estrelado.

“Não sei para quem escrevo estas palavras. Para ele, talvez”. Mergulhada na dúvida, tendo como certo apenas o facto de se ter lançado num processo ininterrupto de escrita desde a morte do pai, Tânia Ganho perdoar-me-á a ousadia de lhe dizer que é para mim - para a pessoa que há em mim, não para o leitor que sou - que escreve. Demorei muito tempo, não a chegar a esta conclusão, mas a ter a certeza de que poderia, sem perda de outras reflexões que o livro suscita, partilhar com a autora e com os leitores do blogue este meu sentir. Ao abraçar a memória deste pai, vejo nele o meu próprio pai. Ao acompanhar Tânia Ganho na sua ânsia “para recuperar o fulgor com que ele viveu”, sinto essa mesma vontade de guardar ainda mais fundo as memórias de uma história de muitas décadas, certo do carácter finito da nossa existência. É nesta relação de proximidade com o leitor que as palavras de Tânia Ganho se erguem em amor e verdade, em humanidade e dádiva. No que encerra de conhecimento e experiência partilhada, “O Meu Pai Voava” revela-se fundamental no processo de preparação para o dia em que serei confrontado com a notícia da morte do meu próprio pai. Daí não haver limites para a admiração e profunda gratidão que devo à autora, pela sua coragem e generosidade, pelos caminhos que abre. Tânia Ganho sou eu e eu sou Tânia Ganho.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

LIVRO: "Lições de Química"



LIVRO: “Lições de Química”,
de Bonnie Garmus
Título original | “Lessons in Chemistry” (2022)
Edição | Carmen Serrano
Ed. ASA, Junho de 2022


“A verdade é que ainda estava zangada com Calvin - por lhe ter mentido em relação ao financiamento da pesquisa dela, por o seu espermatozóide ter desafiado a probabilidades contracetivas, por ter a mania de correr ao ar livre quando toda a gente corria dentro de casa em sapatilhas de ballet. Sabia que era injusto estar zangada com ele, mas a dor é assim: arbitrária. De qualquer maneira, ninguém sabia como ela estava zangada; era algo que guardara para si. Bom, exceto durante o trabalho de parto, quando talvez tivesse gritado algumas coisas lamentáveis, possivelmente cravando as unhas no antebraço de alguma pessoa desconhecida durante as contrações mais fortes. Lembrava-se de haver mais alguém aos gritos e a praguejar. Parecera-lhe na altura estranho e muito pouco profissional.”

Parece-me difícil que possa haver quem não simpatize com Elizabeth Zott. Aluna de Química brilhante e investigadora meticulosa e exigente num Instituto de Pesquisa, vê-se confrontada com um mundo onde ser mulher é enfrentar os maiores obstáculos que um machismo sem limites impõe. É ser resiliente na luta constante contra a violência física ou psicológica. É apelar à sua integridade moral a fim de fazer valer uma posição que é sua por direito na sociedade e no mundo. E se isto é assim nos dias de hoje, imagine-se como seria nos anos 60, no fechado meio da investigação científica onde os homens eram reis e senhores. Empenhada num projecto sobre a abiogénese, nada mais nada menos do que as origens da vida, Elizabeth tem no namorado o seu grande (o seu único) suporte. Mas o drama instala-se e tudo muda. Grávida, vê-se forçada a mudar de vida e vai parar à televisão graças a um conjunto de circunstâncias absolutamente fortuitas. Em pouco tempo ela será a estrela revolucionária do programa de culinária mais amado dos Estados Unidos.

Divertido, imprevisível, inteligente, mordaz, “Lições de Química” é um livro empenhado em explorar as contradições que envolvem as questões de género e mostra-se fértil em situações rocambolescas, que nos fazem rir, mas dão igualmente que pensar. Fazendo incidir as atenções sobre esta mulher absolutamente invulgar, fiel aos seus padrões de conduta e irredutível naquilo que julga serem os melhores meios para alcançar os objectivos a que se propõe, Bonnie Garmus consegue o dois em um perfeito: Não só alimenta a cumplicidade do leitor com a jovem Elizabeth, como promove a ideia de que a libertação da mulher não surge por geração espontânea. Desarmante de naturalidade, intensa, segura de si, Elizabeth conquista rapidamente o leitor. Ela e “seis e meia”, um cão dotado de um forte espírito crítico, espécie de “anjo da guarda” da jovem mulher. Vê-lo assumir o controlo da narrativa e chamar a nossa atenção para os detalhes que porventura nos tenham escapado é delicioso. A leitura torna-se viciante.

Bonnie Garmus mostra-se particularmente talentosa na forma como apresenta as figuras desta reduzida comunidade, dispondo-as no tabuleiro das relações interpessoais com cuidado e sensibilidade. O artifício da escrita é suficientemente subtil para mostrar ao leitor aquilo que verdadeiramente interessa: que o alvorecer do feminismo moderno assenta, de facto, em pequenos grupos mais ou menos clandestinos de mulheres e homens que souberam libertar-se dos constrangimentos impostos pela sociedade, vencer os ditames culturais marcados pela arbitrariedade e o preconceito e colocar no topo das prioridades a aceitação mútua nos seus próprios termos. Foi gente à frente do seu tempo que soube manter-se firme e unida até que o mundo acabasse por assimilar a bondade e a justiça das suas causas. Devemos-lhes isso, tal como devemos a escritores como Bonnie Garmus este reavivar de memórias tão importantes na construção de uma sociedade melhor e mais justa.

domingo, 6 de março de 2022

LIVRO: "Uma Vida Assim-Assim"



LIVRO: “Uma Vida Assim-Assim”,
de Cláudia Araújo Teixeira
Edição | Carmen Serrano
Ed. Edições ASA II, Setembro de 2021


“Não havia reis ou rainhas, nem pessoas que tivessem influenciado a História, no máximo, teria familiares que fizeram limpezas nos castelos ou engomaram o fato dos militares de Abril. A sua família, porém, ocupava um lugar especial na hierarquia social do Bairro. Talvez não fossem como os vizinhos do bloco sete, que tinham carro e uma tenda avançada no parque de salgueiros, não frequentavam a Sede e almoçavam fora ao domingo. Ainda assim, todos trabalhavam, não se dedicavam a atividades ilícitas, os avós, tanto paternos como maternos, tinham fama de serem pessoas de bem, o que não se podia dizer da maioria dos vizinhos, que podiam não ser maus mas tinham dificuldade em perceber o que era o bem.”

Poderia ter sido Samanta, Luana ou Cátia Vanessa. A autora, porém, quis chamar-lhe Cristina Maria, naquilo que deve ser entendido como “um golpe de sorte”, espécie de “presságio do que estava para vir”. Cristina Maria nasceu no Bairro, construído em finais dos anos 60 para albergar os desalojados do progresso. Verdadeira microcidade, o Bairro contava, ao todo, com “quinhentas e vinte e duas casas, distribuídas por quinze blocos, quatro andares por entrada, três casas por andar que desaguavam num patamar que ligava a outros patamares, todos eles enrodilhados em escadas abertas com grades”. É lá que iremos conhecer a grande protagonista desta história, juntamente com os pais Fernando e Clara, os irmãos Marcelo e Lucas, a avó Fatinha e toda uma “fauna” onde se incluem o Sr. Alexandre, a D. Lídia, a Miquinhas, a Alexandrininha, o Zé das Vacas, o Chico da Tona, o Rui dos Índios, o Garageiro do quinze, o Quim maluco e muitos outros.

Romance de estreia de Cláudia Araújo Teixeira, “Uma Vida Assim-Assim” mergulha o leitor na vida de um bairro social do Porto, com as suas peculiaridades e organização, a sua estrutura e idiossincrasias. Um bairro que constitui um verdadeiro microcosmos, com uma dinâmica social própria, uma organização alternativa e uma economia paralela. Com escola, café, mercado, um ringue, uma infinidade de mercearias e uma Sede que, “para além de servir aquilo que um qualquer serve, era também poiso dos jogos de sueca, das festas populares e dos troféus de cicloturismo e atletismo dos habitantes do Bairro”. É aqui que, através de Cristina Maria, assistimos a uma novela da Globo depois do jantar, fugimos dos barulhos da vizinhança, vamos a um concerto no auditório ao ar livre do palácio de Cristal, gritamos “Soares é fixe” e votamos no “partido dos trabalhadores”.

Ainda que possa parecer excessivo, percebe-se o uso que Cláudia Araújo Teixeira faz do calão “à moda do Porto”, acentuado por aquilo a que chamaria a “pronúncia do Norte” e que a autora faz questão de grafar a rigor. Para o bem e para o mal, esta é uma marca identitária da cidade e das suas gentes, naquilo que têm de mais autêntico. É, se assim o quisermos, uma forma de trazer o leitor para o Bairro, de o condicionar numa cultura assaz peculiar, de o pôr a ver o mundo “do lado de dentro”, do lado onde as oportunidades são cada vez mais escassas e onde sobra, na melhor das hipóteses, “uma vida assim-assim”. Cristina Maria é a demonstração de que é possível escapar à força centrípeta que o bairro exerce, ainda que não consiga nunca livrar-se da vergonha com a qual nasceu. Uma vergonha que a acompanhará a vida inteira. “Vergonha da vida que teve, vergonha da vida que não teve, vergonha da vida que tem.” Um belíssimo tributo ao Porto e às suas gentes, no que têm de mais intrínseco e genuíno.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

LIVRO: "Americanah"



LIVRO: “Americanah”,
de Chimamanda Ngozi Adichie
Texto original / “Americanah” (2013)
Tradução | Ana Saldanha
Edição | Carmen Serrano
Ed. Publicações Dom Quixote, Setembro de 2013


“O taxista etíope que lhe calhou disse: - Não consigo identificar o seu sotaque. De onde é? 
- Da Nigéria. 
- Da Nigéria? Não parece nada africana. 
- Porque é que não pareço africana? 
- Porque a sua blusa é demasiado justa. 
- Não é nada demasiado justa. 
- Eu julguei que era de Trinidad ou de um desses sítios. - Ele estava a olhar pelo espelho retrovisor com uma expressão reprovadora e preocupada. - Tem de ter cuidado, se não a América corrompe-a.”

Espreito o sítio de Chimamanda Ngozi Adichie [AQUI], pouso o olhar no rosto sereno da escritora no cimo da página e um nome, apenas, me percorre a mente: Ifemelu. Chimamanda é Ifemelu, Ifemelu é Chimamanda e ambas são “Americanah”, romance fortemente autobiográfico escrito em 2013, com o qual a escritora conquistou o National Book Critics Circle Award e que foi selecionado pelo New York Times Book Review como um dos 10 Melhores Livros desse ano. Se dúvidas restassem, ali está o separador “Ifemelu’s Blog” no extremo direito da barra para as desfazer. Ou talvez não. Como em muitos outros livros, darmos livre curso à especulação e pormo-nos a adivinhar onde acaba a verdade e começa a ficção revela-se um exercício estéril. Aceitemos a verdade do livro tal como nos é apresentada e entreguemo-nos ao prazer da leitura. São mais de setecentas páginas, implica disponibilidade e tempo, mas acaba por trazer no seu âmago a devida recompensa.

A história começa com Ifemelu decidida a regressar à Nigéria, após treze anos de vida na América. Para trás ficou a amargura dos primeiros tempos em Filadélfia, a falta de dinheiro, a estranheza dos sítios e das gentes e uma traumatizante “experiência profissional”, o que acabará por ser largamente compensado com os êxitos académicos e o reconhecimento como destacada blogger. É sobre esses tempos enquanto imigrante, mulher e negra, três condições reunidas numa só como um ferrete, que o livro se oferece inteiro e livre, encerrando em si mesmo um conjunto de auto-reflexões que, se por um lado evidenciam a coragem e resiliência de Ifemelu, por outro abrem espaço a um conjunto de chamadas de atenção para algumas das maiores contradições dos nossos tempos, brancos e negros, americanos e não americanos, “jogando” em campos muito diferentes, quando não totalmente opostos.

A última parte do livro trata do regresso às origens e a uma cidade onde Ifemelu começou por se sentir agredida, “a pressa aturdida pelo sol, os autocarros amarelos cheios de braços e de pernas esmagados, os vendedores ambulantes suados a correrem atrás dos carros (…) e os montes de lixo que se erguiam nas bermas das estradas como uma provocação”. Em certa medida, o livro é também uma forma de evidenciar os contrastes entre os vários mundos que habitam este mundo, encontrando nos factores sociais, culturais, económicos e políticos as verdadeiras causas de tanta desigualdade. Numa escrita fluida, com uma bela história de amor pelo meio, “Americanah” é muito mais do que um simples romance. É a vida tal como ela é, ora delicada e sensível, ora tumultuosa e imoral, por vezes injusta, mas sempre intensa e demasiado breve face ao que dela esperamos.

sábado, 17 de julho de 2021

LIVRO: "Notas Sobre o Luto"



LIVRO: “Notas Sobre o Luto”,
de Chimamanda Ngozi Adichie
Texto original | “Notes on Grief”
Tradução | Tânia Ganho
Edição | Carmen Serrano
Ed. Publicações Dom Quixote, Maio de 2021


“Um dia, estou na casa de banho, completamente sozinha, e chamo o meu pai pela alcunha carinhosa com que o tratava - “o papá original” - e um breve manto de paz envolve-me. Demasiado breve. Sou uma pessoa pouco dada a lamechices, mas tenho a certeza deste momento recheado com a presença do meu pai. Se foi uma alucinação, então quero mais, mas não voltou a acontecer.”

No dia 10 de Junho de 2020, a multi-premiada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie recebeu, com espanto e revolta, a notícia da morte do seu pai, o académico James Nwoye Adichie. Três dias antes, na habitual chamada por zoom que, aos domingos, por momentos felizes, unia a família (os pais e os cinco filhos), tudo estava, aparentemente, normal. Mais tarde a notícia, como que um desenraizamento brutal, o ser “arrancada à força do mundo que conhecia desde a infância.” Da incredulidade à aceitação, o luto revela-se como “uma forma cruel de aprendizagem”. A escritora quis partilhar connosco as fases dessa aprendizagem. O resultado é este pequenino “Notas Sobre o Luto”, uma pérola doce e terna que é, em si mesma, um acto de coragem e de amor.

Versão aumentada de um ensaio publicado por Chimamanda Ngozi Adichie na revista “New Yorker”, “Notas Sobre o Luto” retrata a dor da perda no que ela tem de mais fundo e amargo. Carregado de verdade, o livro reflecte a experiência da escritora de forma particularmente intensa, as emoções à flor da pele, os sentimentos em estado bruto, despojada das todas as couraças, sem sombra de retraimento em revelar-se nas suas pulsões mais íntimas, nos seus ímpetos mais agudos, na sua mais exaltada fúria. Pondo por palavras o sentir mais extremo, Adichie mostra-nos o quanto a ausência responde a um presente cujo sentido nos escapa. Nesse lugar sem nome, no deve e haver que só o definitivo põe em causa, a questão torna-se legítima: “Como é que as pessoas andam por aí no seu dia a dia normal depois de terem perdido um pai adorado?”

Ao mostrar-nos que uma grande parte do processo de luto se prende com a linguagem, com o fracasso da linguagem e a busca de linguagem, Chimamanda Ngozi Adichie estabelece laços fortes com o leitor, independentemente de este ter passado ou não por momentos tão traumatizantes. No seu testemunho há ensinamentos a retirar de como podemos ver e entender a pessoa enlutada, ao mesmo tempo que são propostas estratégias para falarmos com aqueles que vivem a dolorosa situação da perda. Só saberemos como faremos o luto quando o fizermos, mas entretanto temos a mão que nos estreita num abraço e nos prepara para algo que devemos ter como certo. As memórias de Adichie convocam as nossas memórias. A sua verdade será a nossa verdade. Também um dia escreveremos sobre o pai no passado sem conseguir acreditar que escrevemos sobre o pai no passado.