Páginas

sábado, 5 de setembro de 2026

LIVRO: "Atos de Desobediência" | Helena Magalhães



LIVRO: “Atos de Desobediência”,
de Helena Magalhães
Edição | Carmen Serrano
Ed. Edições ASA, Setembro de 2025


“Ensinaram-nos a ter medo das bruxas, mas não dos homens que as queimavam vivas, era algo que a avó dizia constantemente na sua qualidade de feminista anciã, palavra que ela nem sabia pronunciar porque dizia femininista e eu não tinha coragem de a corrigir porque amava que ela se sentisse assim, empoderada, palavra que ela também não dizia, ela era mais pra-frentex, ouvira aquilo das bruxas em qualquer lado e repetia-o sempre que se lembrava, eles abrem a boca e queimam-nos com o seu silêncio, dizia, queimam-nos com a força das suas mãos e dos pés e dos braços e das pernas, queimam-nos com as suas políticas e as suas guerras e as suas leis, queimam-nos com facas e pistolas e bastões e pés de cabra, queimam-nos quando nos cortam a voz, quando nos violam, quando nos matam de fome, queimam-nos quando nos odeiam, mas sobretudo quando nos amam, não deixes que te queimem, Glória, presta atenção, Glória, estás a ouvir, Glória?”

“A maior desobediência que podes fazer é ser feliz” é uma frase que pode muito bem servir de chave a “Atos de Desobediência”. A partir dela, Helena Magalhães constrói um romance sobre o que fica quando uma mulher se recusa a continuar a viver segundo as formas de obediência que lhe foram ensinadas. Glória Brito, escritora em crise, aproxima-se dos quarenta anos carregando uma vida marcada pelo abuso, a família partida ao meio, a precariedade e uma sucessão de amores sem pernas para andar. Mas não é propriamente a soma destas feridas que a define, antes a dificuldade em deixar de as repetir. Um desejo quase patológico por homens casados não aparece apenas como transgressão sentimental, funcionando como reencenação de uma ideia de amor fundada na disputa, na falta e no sofrimento. Glória sabe-o, observa-se com uma lucidez quase cruel e, ainda assim, não consegue escapar. Glória não é uma santa laica ou uma vítima exemplar, antes uma mulher contraditória, por vezes desagradável, frequentemente vulnerável, que tenta descobrir se ainda pode inventar uma vida depois de tudo aquilo que aprendeu a aceitar.

A matéria do romance é íntima, mas a ambição é maior. A família, as amizades, o sexo, a violência, as diferenças de classe e a condição feminina são atravessados por uma outra pergunta: “Para que serve escrever?” Glória encontra na literatura a possibilidade de transformar aquilo que perdeu em alguma coisa que possa permanecer. A escrita surge como “máquina de salvação”, mas também como lugar de confronto consigo própria. Daí a presença salvífica de outras escritoras - Virginia Woolf, Emily Dickinson, Anaïs Nin, Joan Didion, Mary Shelley, Maria Judite de Carvalho, Natália Correia, Maria Teresa Horta, Adília Lopes -, convocadas não apenas como referências literárias, mas sobretudo como uma comunidade de mulheres que fizeram da experiência matéria artística. O procedimento tem força, embora por vezes se torne demasiado evidente: o romance explica a sua genealogia literária ao mesmo tempo que a constrói. O mesmo acontece com a crítica ao mercado editorial, às redes sociais e à transformação da literatura em produto. A sátira é mordaz e há prazer na insolência, tantas são as tiradas a ecoar fora do próprio livro, nos instantes em que a personagem cede momentaneamente o lugar à autora.

A prosa de Helena Magalhães é rápida, oral, confessional, construída sobre períodos extensos nos quais pensamento, memória e comentário se atropelam. Parênteses, enumerações, apartes e mudanças súbitas de direcção reproduzem uma consciência que não consegue - ou não quer - organizar o mundo antes de o dizer. Há um efeito de desabafo controlado, mas também uma deliberada aproximação ao ensaio, à crónica e mesmo à sátira. O recurso é particularmente feliz quando a linguagem deixa transparecer as contradições de Glória, menos quando o romance sente necessidade de sublinhar aquilo que era já um dado adquirido. “Atos de Desobediência” é, afinal, um livro que fala insistentemente de silêncio sem ser um livro silencioso. As personagens nomeiam as feridas, interpretam-nas, procuram-lhes causas e consequências. Por vezes, essa transparência reduz a zona de sombra que a ficção poderia explorar; noutras, produz uma espécie de urgência difícil de ignorar. A autora parece escrever como quem receia que calar uma frase seja, ainda uma vez, obedecer.

É essa urgência que melhor define o romance. O seu verdadeiro movimento não vai simplesmente do trauma à cura, mas do silêncio à possibilidade de uma voz. A avó, a mãe, Lúcia, Teresa, Ana Clara, Isabela, Beatriz Rosa e as outras mulheres formam uma espécie de coro imperfeito: não vivem sem conflitos, não se compreendem sempre, não são personagens de uma fraternidade idealizada, mas reconhecem umas nas outras uma experiência comum de perda e resistência. Quando Glória finalmente transforma os homens que a feriram em matéria de um livro, mais do que vencê-los retira-lhes o monopólio da narrativa. O que aconteceu passa a poder ser contado por quem o sofreu. É uma distinção importante. A literatura não restitui o que foi perdido, mas pode alterar o lugar que a perda ocupa dentro de nós. “Atos de Desobediência” faz dessa operação uma celebração colectiva que, por vezes, se aproxima perigosamente do manifesto. Ainda assim, é difícil não reconhecer a coragem de um livro que prefere o excesso à neutralidade e a exposição ao silêncio. A sua desobediência está menos naquilo que diz, do que na recusa em pedir licença para o dizer.

Sem comentários:

Enviar um comentário