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sábado, 13 de junho de 2026

LIVRO: “Os Armários Vazios” | Annie Ernaux



LIVRO: “Os Armários Vazios”,
de Annie Ernaux
Título original | “Les Armoires vides” (© Éditions Galimard, Paris, 1974)
Tradução | Tânia Ganho
Ed. Livros do Brasil, Abril de 2024


“ … Eu já devia comparar, devia querer ignorar a bata branca da minha mãe, manchada de ferrugem em baixo, ‘é vinagre’, diz ela, cinzenta acima e abaixo do cinto, de roçar nas caixas, ou o bater da faca do meu pai na ponta da mesa quando acaba de comer, o sorver da sopa, os bêbados nojentos à noite… Talvez nunca tenha havido equilíbrio entre os meus mundos. Foi preciso escolher um, como ponto de referência, acabamos por ser obrigados a isso. Se tivesse escolhido o dos meus pais, o da família Lesur, pior ainda, a metade movida a vinhaça, não teria querido ser boa aluna, não me teria importado de vender batatas atrás do balcão, não teria ido para a faculdade. Era preciso odiar a mercearia inteira, o café, a clientela desprezível que vivia a fiado.”

Romance de estreia de Annie Ernaux, “Os Armários Vazios” anuncia já todos os grandes temas que atravessariam a obra futura de Annie Ernaux e permanece, décadas depois da sua publicação, uma impressionante demonstração de coragem literária e de honestidade intelectual. A narrativa acompanha Denise Lesur, jovem estudante que recorre a uma “fazedora de anjos” para um aborto clandestino na Paris dos anos 60. Enquanto aguarda o desfecho deste “acontecimento” decisivo e íntimo, revisita as recordações da infância passada no café-mercearia dos pais, na Normandia. O acto que enquadra o romance funciona menos como centro da acção do que como detonador de uma reflexão devastadora sobre a vergonha social. A autora disseca com precisão quase cirúrgica o sentimento de desenraizamento que acompanha a ascensão de classe, revelando o elevado preço da mobilidade social. O percurso escolar, tradicionalmente celebrado como instrumento de emancipação, surge aqui como um processo ambíguo: ao mesmo tempo que permite escapar às limitações impostas pelas origens da jovem Denise, exige uma ruptura dolorosa com o seu mundo. O resultado é uma narrativa marcada pela tensão constante entre gratidão e ressentimento, amor e repulsa, orgulho e culpa.

A força de “Os Armários Vazios” reside igualmente na sua escrita. Muito antes da chamada “escrita neutra” que viria a caracterizar parte da obra posterior da escritora, este primeiro livro apresenta uma linguagem incandescente, nervosa, por vezes brutal. Annie Ernaux alterna registos linguísticos com notável mestria, transitando da oralidade popular ao discurso erudito sem jamais comprometer a unidade narrativa. Cada frase parece escrita sob o signo da urgência, como se a verdade devesse ser arrancada à força antes que o pudor ou a complacência a pudessem suavizar. Essa ausência de auto-censura confere ao romance uma autenticidade rara. Denise não procura justificar-se nem conquistar a simpatia do leitor; expõe-se sem ornamentos, revelando a crueldade de quem aprende a desprezar aquilo que constitui o seu mais íntimo. A vergonha dos pais, do seu modo de falar, dos seus gestos e hábitos, transforma-se numa forma de auto-aversão. A autora mostra que a violência social produz inevitavelmente violência emocional e, por isso, recusa qualquer sentimentalismo. O que emerge destas páginas não é um relato de superação, mas antes o retrato impiedoso de uma fractura interior que nenhuma conquista académica ou cultural consegue verdadeiramente reparar.

Não são muitos os romances que conseguem captar com semelhante lucidez a violência silenciosa do determinismo social e a forma como este se infiltra nos afectos mais elementares. Lido hoje, “Os Armários Vazios” impressiona não apenas pela sua dimensão autobiográfica, mas também pela extraordinária actualidade das questões que levanta. Romance social, feminista e de formação, a obra articula o “ser mulher” com a experiência das diferenças de classe, mostrando como ambas implicam processos de ruptura, perda e reinvenção. Mais do que um episódio dramático, o aborto clandestino que abre e fecha a narrativa torna-se no símbolo máximo de uma luta contra os constrangimentos impostos pelo meio social, pela moral católica e pelas expectativas de género. Ao mesmo tempo, a autora evita transformar a protagonista numa heroína exemplar. Denise permanece uma figura contraditória, frequentemente ingrata e cruel, mas profundamente humana. É nessa recusa da idealização que reside grande parte da força do romance. Mais do que denunciar injustiças ou reivindicar identidades, “Os Armários Vazios” interroga o que significa escolher um mundo sem conseguir abandonar completamente outro.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

LIVRO: "O País dos Outros" | Leïla Slimani



LIVRO: “O País dos Outros”,
de Leïla Slimani
Título original | “Le Pays des Autres” (© Éditions Gallimard, 2020)
Tradução | Tânia Ganho
Ed. Alfaguara, Maio de 2021 (6.ª reimpressão, Janeiro de 2024)


“Chegaram ao carro e atiraram-se para o interior. Aïcha começou a chorar. Reclamava o colo da mãe, perguntou se o irmão ia morrer e Amine e Mathilde, em coro, mandaram-na calar-se. A turba alcançara-os e Amine não pôde fazer marcha-atrás. Os rostos enraiveceram-se contra os vidros. O queixo de um rapaz deixou na janela um longo rasto gorduroso. Olhos desconhecidos inspeccionavam aquela estranha família, aquela criança que tinham dificuldade em distinguir a que campo pertencia. Um rapaz desatou aos gritos, de braço esticado para o céu, e a multidão inflamou-se. Não tinha mais de quinze anos e deixara crescer uma barbinha de adolescente. A voz grave e carregada de ódio chocava com a doçura do olhar. Aïcha fixou-o e soube que aquele rosto lhe ficaria para sempre gravado na memória.”

Depois de “Canção Doce” e “No Jardim do Ogre”, Leïla Slimani muda radicalmente de registo com “O País dos Outros”. Obra inaugural de uma trilogia que abraça a história da família Belhaj, de 1944 em diante, o livro é também um retrato de Marrocos sob dominação francesa e das tensões nacionalistas que levaram à independência em 1956. “O País dos Outros” narra a história de Mathilde, uma jovem alsaciana que se apaixona por um marroquino, Amine Belhaj, combatente do exército francês durante a segunda Guerra Mundial. Terminado o conflito, o casal estabelece-se em Meknès, nuns terrenos isolados deixados em herança a Amine. Transformar uma terra árida e inóspita numa fértil e produtiva quinta ocupará o homem anos a fio, desviando as suas atenções das mudanças que estão a ocorrer na sociedade marroquina, mas sobretudo dentro da sua própria casa, com Mathilde confrontada com um brutal choque de culturas e dividida entre as obrigações familiares e a necessidade de preservar a sua independência.

Com o subtítulo “A guerra, a guerra, a guerra”, este primeiro volume permite a Leila Slimani fazer um ponto da situação das suas personagens, bem como dos principais temas a abordar no romance e, certamente, ao longo da trilogia. Numa visão intimista e impressionista, a autora privilegia as personagens em detrimento dos acontecimentos, embora a situação política do país, na viragem da década de 1940, se faça presente, contextualizando a sociedade e a forma como são condicionadas as acções dos protagonistas. No retrato que faz de Mathilde, mais apurado à medida que o romance avança, Leïla Slimani tem o cuidado de evitar arquétipos e caricaturas, mostrando um carácter intrinsecamente rebelde que se vai deixando tomar por uma série de sentimentos mistos e contraditórios e se vê obrigado a fazer opções. O mesmo se verifica com as personagens de Aïcha, a sua filha, e Selma, a cunhada, divididas nos seus desejos e interesses, entre a castradoras convenções sociais e o sonho de liberdade.

A personagem de Mathilde é a grande responsável pela textura romanesca do livro, mas a ausência de profundidade no tratamento dado pela autora deixa no leitor uma nota de frustração. O mesmo acontece com os numerosos “papéis” secundários, como o de Omar, cunhado de Mathilde, envolvido na luta pela independência de Marrocos e que gostaríamos de poder acompanhar mais de perto. O lugar da mulher na sociedade marroquina, a marcha rumo à independência, o crescimento da família, o vínculo com o país ocupante, tudo isso surge no livro, mas sem profundidade real. À medida que se avança na leitura, mais a frustração toma conta de nós. Há passagens realmente bem escritas, sobretudo na parte inicial do livro, mas lutar contra a vontade de pôr de parte a leitura e levá-lo até ao fim exigiu um esforço quase hercúleo. Perder o fio à meada é a nota dominante, enchendo de tédio momentos que deveriam ser prazerosa. Resta a esperança de que os restantes volumes da trilogia possam trazer à saga o que “O País dos Outros” apenas esboçou.

domingo, 22 de dezembro de 2024

LIVRO: "O Meu Pai Voava"



LIVRO: “O Meu Pai Voava”,
de Tânia Ganho
Edição | Carmen Serrano
Ed. Publicações Dom Quixote, Julho de 2024


“A rapariga da agência perguntou se ele tinha um pacemaker. Se tivesse, seria preciso abri-lo, desligar não sei o quê, uns fios?, porque podia explodir, será que foi explodir que ela disse? Estávamos à mesa. Abri-lo? O corpo? Por instantes, não compreendi o que o meu irmão dizia. Mas abriram-no? Ele não tinha um pacemaker, pois não? Confusa, revendo os meus ficheiros mentais para perceber a que procedimentos o meu pai se sujeitara depois do enfarte. Há partes da minha vida que apaguei ou que são turvas, desfocadas. Quando o meu pai foi operado à coluna, onde é que eu estava, que não me lembro de o ter visitado no hospital? A ausência de recordações choca-me. Como é que eu, a filha querida, a menina do papá, não me recordo de ter estado à cabeceira dele quando o operaram à coluna?”

Tânia Ganho perdeu o pai no dia 24 de Fevereiro de 2024. O óbito foi declarado às 11 horas e 11 minutos. Chamava-se Edmiro e era urologista. Dizia a brincar que passava o dia “a ver pilas” e, nas impressões que trocava com a filha, a autora deste livro, tratava o corpo por tu, estabelecendo com ele “uma familiaridade saudável, sem tabus”. Tinha fama de despistado, mas gabava-se de nunca se ter esquecido de uma compressa dentro de um doente. Foi cinturão negro de karaté, astrónomo amador, inventor medalhado. Fazia pequenas reparações em casa, desmontava electrodomésticos, soldava peças, era um exímio arrombador de fechaduras. Ouvia Maria Callas em altos berros, sabia a “Tabacaria” de cor, louvava Zeca Afonso, idolatrava Salgueiro Maia. Escalava montanhas, dava pontapés na lua e voava. A memória começou a traí-lo alguns anos antes da sua morte, o Alzheimer a “fincar as gavinhas” na sua mente, o seu “lado cru, tão feio, tão triste” a tomá-lo aos poucos. Morreu sem conhecer ninguém, sem se conhecer a si próprio. Tânia Ganho quis que permanecesse vivo, que o conhecêssemos.

Adeus e encontro, distância e abraço, luto e celebração da vida. “O Meu Pai Voava” é um mergulho no mais fundo do eu, nesse território habitado por emoções desiguais e sentimentos contraditórios, no momento em que tudo se afigura “triste e ermo” com a partida do pai da escritora. “É o meu pai em cada palavra, e a realidade da sua ausência engole-me e revolve-me, sou roupa aos tombos no tambor de uma máquina de lavar”, lê-se nas páginas iniciais, o tom confessional posto em cada frase, a intimidade e cumplicidade com o leitor a revelar-se necessária e urgente. Nesta súmula de reflexões assente em (muitas) dúvidas e (poucas) certezas, Tânia Ganho porfia na busca de apaziguamento e reconciliação consigo própria: “Será possível falarmos de luto sem falarmos de nós?”, interroga-se. Dedica o livro à mãe, a mulher que do pai cuidou ao longo de seis décadas de vida em comum e que terá, como ninguém, sofrido com a perda, o não ter mais de lhe indicar onde estavam as camisas, as calças, o escolher de véspera o fato, a gravata, os sapatos, o acordar antes dele para lhe fazer um pequeno-almoço de café com leite, torradas e um ovo estrelado.

“Não sei para quem escrevo estas palavras. Para ele, talvez”. Mergulhada na dúvida, tendo como certo apenas o facto de se ter lançado num processo ininterrupto de escrita desde a morte do pai, Tânia Ganho perdoar-me-á a ousadia de lhe dizer que é para mim - para a pessoa que há em mim, não para o leitor que sou - que escreve. Demorei muito tempo, não a chegar a esta conclusão, mas a ter a certeza de que poderia, sem perda de outras reflexões que o livro suscita, partilhar com a autora e com os leitores do blogue este meu sentir. Ao abraçar a memória deste pai, vejo nele o meu próprio pai. Ao acompanhar Tânia Ganho na sua ânsia “para recuperar o fulgor com que ele viveu”, sinto essa mesma vontade de guardar ainda mais fundo as memórias de uma história de muitas décadas, certo do carácter finito da nossa existência. É nesta relação de proximidade com o leitor que as palavras de Tânia Ganho se erguem em amor e verdade, em humanidade e dádiva. No que encerra de conhecimento e experiência partilhada, “O Meu Pai Voava” revela-se fundamental no processo de preparação para o dia em que serei confrontado com a notícia da morte do meu próprio pai. Daí não haver limites para a admiração e profunda gratidão que devo à autora, pela sua coragem e generosidade, pelos caminhos que abre. Tânia Ganho sou eu e eu sou Tânia Ganho.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

LIVRO: "Nas Suas Mãos"



LIVRO: “Nas Suas Mãos”,
de Leïla Slimani
Título original | “À Mains Nues” (Edition Les Arènes, Paris, 2020-2021)
Ilustrações | Clément Oubrerie
Tradução | Tânia Ganho
Edição | Amaia Iglesias
Ed. Iguana, Abril de 2024


“Ao Hospital do Val-de-Grâce, chegam cada vez mais soldados com ferimentos no rosto. Isolamo-los dos outros doentes, por causa do terror que suscitam e do cheiro pestilento que se solta dos seus ferimentos. / As más-línguas chamam-nos o ‘serviço dos babam-se todos’, por causa dos ferimentos terríveis que fazem com que os soldados fiquem sem maxilares. / Na sala enorme onde eles estão fechados, ecoam os gritos de dor e de desespero. Escondemos todos os espelhos e tememos suicídios… / O Morestin já nem dorme, trabalha dia e noite para desenvolver novas técnicas de enxerto e lhes devolver uma aparência humana. / Dizias que ele era um velho louco. Ai, querido André, talvez tenhas razão. Volta depressa.”

Pese embora o seu pioneirismo na cirurgia estética e reconstrutiva, a História parece ter-se esquecido de Suzanne Noël (1878-1954). E, todavia, ela foi uma verdadeira percursora daquilo a que mais tarde viríamos a conhecer como lipoaspiração, devolvendo beleza – e anos –, tanto a mulheres que não se sentiam bem com o seu corpo (a actriz francesa Sarah Bernhardt terá sido um dos seus casos de maior sucesso), quanto aos muitos sobreviventes da I Guerra Mundial que, com o “rosto quebrado”, beneficiaram dos seus conhecimentos na recuperação da imagem e consequente possibilidade de uma reintegração social plena. Mas não foi apenas no campo das ciências que Suzanne Noël se notabilizou. Dedicando grande parte da sua vida à defesa dos Direitos Humanos, fundou o primeiro clube soroptimista francês, abraçando o movimento sufragista e lutando pelo direito ao voto das mulheres. Hoje, as cartas constitutivas dos novos clubes soroptimistas são concedidas em nome de Suzanne Noël e existe uma bolsa de estudos com o seu nome, contribuindo para a especialização médica em Cirurgia Plástica.

Resgatar a figura de Suzanne Noël, a sua influência no seio da academia e o muito que acrescentou a uma especialidade mal vista pelos pares e cuja vertente estética chegou a ser proibida por lei, terá sido um dos valores que levou Leïla Slimani a escrever sobre esta mulher de uma forma tão próxima. O outro terá tido a ver com o seu pendor de feminista convicta, aí se revendo na luta de Suzanne Noël contra o preconceito e pelo reconhecimento do seu trabalho numa sociedade particularmente misógina. Do nascimento de Suzanne Noël em Laon, no seio de uma família burguesa, à divulgação empenhada dos princípios do soroptimismo que mobilizaram todas as suas forças numa fase mais avançada da sua vida, passando pelo seu casamento e posterior divórcio com o dermatologista Henri Pertat, os trabalhos com o Dr. Morestin em Val-de-Grâce e com o Professor Brocq no Hospital Saint-Louis, um segundo casamento com André Noël, a morte da sua filha Jacqueline e posterior suicídio de André, a sua entrega à causa feminista e as múltiplas solicitações para palestrar em todo o mundo, de tudo isto Leïla Slimani dá conta com rigor biográfico e uma enorme sensibilidade.

Não deixa de ser surpreendente que Leïla Slimani tivesse optado por uma banda desenhada para falar de uma das suas heroínas, demonstrando que a sua escrita pode afastar-se dos tons carregados que a povoam e que tão bem se distinguem em livros como “O Perfume das Flores à Noite”, “No Jardim do Ogre” ou “Canção Doce”. A escritora mostra um apurado domínio dos tempos inerentes ao desenho, deixando espaço aberto à imaginação, só em parte preenchida pelo trabalho de ilustração de Clément Oubrerie. Se, com frequência, “tropeçamos” em momentos narrativos brilhantes e plenos de humor- a conferência de Raymond Passot face a uma plateia hostil, os primeiros dias de Suzanne e Jacqueline no apartamento de Montmartre, as recomendações à Dra. Irène Duval antes de Suzanne partir em viagem -, não menos frequentemente damos conta de “cartões” de uma enorme expressividade e beleza - uma aula do Dr. Brocq no teatro anatómico, Suzanne e os colegas a atravessarem a praça de um quarteirão de Paris, uma panorâmica do “serviço dos babam-se todos”. Um livro que se lê com redobrado interesse e que, combinando a arte da escrita e a arte da ilustração, recupera a imagem de uma mulher muito à frente do seu tempo, cujo exemplo de coragem e empenho é um farol nos dias que correm.

domingo, 31 de março de 2024

LIVRO: "No Jardim do Ogre"



LIVRO: “No Jardim do Ogre”,
de Leïla Slimani
Título original | “Dans le jardin de l’ogre” (Éditions Gallimard, 2014)
Tradução | Tânia Ganho
Ed. Alfaguara, Maio de 2018 (3ª republicação, Junho de 2023)


“Adèle está arrependida de ter sido imprudente. Nunca deveria ter dançado, ter-se mostrado tão acessível. Não se deveria ter sentado nos joelhos de Laurent e contado, com uma voz trémula e completamente embriagada, uma soturna recordação de infância. Viram-na atacar o rapaz atrás do bar. Viram e não a julgam. É bem pior do que isso. A partir de agora, vão pensar que é possível uma cumplicidade, que a familiaridade é admissível. Vão querer rir-se com ela. Os homens vão pensar que é malandra, leviana, fácil. As mulheres vão rotulá-la de predadora, as mais indulgentes dirão que é frágil. Todos estarão enganados.”

Porque corre Adèle? Porque razão vai de Pigalle aos Campos Elísios, do Museu de Orsay a Bercy, trinta e dois quilómetros em quatro dias, nas margens desertas do rio pela manhã, à noite no Boulevard Rochechouart e na Praça de Clichy? Porque razão, durante uma semana, se impede de beber álcool e faz questão de se deitar mais cedo? Uma semana em que foi capaz de resistir, de não fraquejar. Agora, porém, acordada a meio da noite, vê que os seus fantasmas voltaram e sente-se incapaz de obedecer à sua própria vontade, de se controlar. Os mesmos fantasmas que a obrigam a levantar-se, a beber um café muito forte na casa adormecida, a fumar um cigarro e a entrar no duche com a “vontade de se arranhar, de rasgar o corpo em dois”. Não acorda ninguém. Veste-se no escuro e não se despede. Sai para a manhã que apenas se insinua com um só objectivo. No Metro folheia o jornal sem conseguir concentrar-se. Sente o coração a martelar-lhe no peito, sente que lhe falta o ar. Sabe que o dique rebentou, que “já está tudo lixado”. Sai do Metro e desata a correr. Porque corre Adèle?

Com a perícia de um taxidermista e a precisão de um cirurgião plástico, Leïla Slimani constrói, ao longo de um pouco menos de duzentas páginas, o retrato de uma mulher tomada pela solidão, a angústia e a culpa. Sentimentos que arrasta consigo sem comoção ou arrependimento, como uma ferida impossível de sarar. Adèle é uma mulher que sofre e isso o leitor percebe logo no segundo parágrafo. Pouco a pouco irá dar conta, pelo olhar de outras personagens, que “tem uns olhos bonitos e um certo ar misterioso”, que é casada com um gastroenterologista “que ganha bem”, que tem um filho com quase três anos. Tomará nota da idade, 35 anos, “cortou os cabelos curtos, (…) as suas feições endureceram, mas o seu olhar deslavado ganhou em pujança”. Mais tarde saberá que tem olhos verdes e, mais tarde ainda, que o pai tem igualmente olhos verdes. Tudo isto é revelado a conta-gotas, a narrativa a rejeitar quaisquer tentações voyeuristas, o objecto do livro centrado na mente desta mulher, no que a domina, no que é nervo e instinto, no que a faz olhar para si e sentir-se desprezível.

Romance de estreia da escritora e activista marroquina Leïla Slimani, “No Jardim do Ogre” é um livro que impressiona vivamente. Em chamada de capa, o The New Yorker refere que a autora “é extraordinária a escrever sobre o corpo das mulheres”, mas penso que a afirmação lavra em dois erros. Desde logo, porque não é o corpo que está em causa neste livro, antes o que se faz do corpo, mero objecto, mudo e submisso. E, depois, porque, apesar de Sophie, Odile ou Lauren, só há Adèle nesta história profundamente triste, o seu desejo insaciável, a pulsão impossível de conter, a aflição por não lhe conseguir pôr fim. Os homens são os únicos pontos de referência da sua existência, princípio e fim daquilo que a faz correr (para responder à pergunta enunciada no início desta recensão). Todo o livro é precioso, mas há imagens que são verdadeiramente avassaladoras, sobretudo aquelas que se passam no seio conjugal. E digo “imagens” porque lemos o livro como quem vê um filme, a luz fora de campo, o centro da acção na penumbra, feito desespero, ausência, agonia. Comovente, perturbador, é um livro que entra em nós com a força de uma gazua e promete não se ir embora tão cedo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

LIVRO: "O Olhar Mais Azul"



LIVRO: “O Olhar Mais Azul”,
de Toni Morrison
Título original | “The Bluest Eye” (1970)
Tradução | Tânia Ganho
Ed. Editorial Presença, Março de 2023


“Quando a minha mãe estava virada para a cantoria, a coisa não era assim tão má. Cantava sobre os tempos difíceis, tempos maus, tempos de abandono. Mas a sua voz era tão doce e os olhos cantarolantes tão derretidos, que eu dava por mim a ansiar esses tempos difíceis, desejosa de crescer “sem um único tostão em meu nome”. Tinha vontade de viver o momento delicioso em que “o meu homem” me abandonaria, em que eu “detestaria ver o sol-poente…”, porque então saberia que “o meu homem deixou a gente”. A infelicidade tingida pelos verdes e azuis da voz da minha mãe retirava às palavras todo o sofrimento e convencia-me de que a dor não só era suportável, mas também doce.”

Quem conhece um pouco da vida e obra de Toni Morrison, galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1993, sabe que ela sabe o que é ser odiado. Odiado por coisas que não se controlam e que não podem ser alteradas, coisas injustas, indevidas. A experiência ensinou-a a entender essas coisas como parte da vida de um ser humano e a usar a força emocional e o apoio dos que lhe são mais queridos para minimizar ou fazer desaparecer os danos. O problema está naqueles que “se desmoronam, silenciosamente, anonimamente, sem voz para o exprimir ou reconhecer.” Livro de estreia da autora, “O Olhar Mais Azul” nasce da vontade de entrar na vida daqueles que mostram ter menos probabilidades – pela sua idade, género e raça – de resistir a forças tão maléficas, e apontar-lhes caminhos que os levem a rejeitar a via da autoaversão racial e a não sucumbir face às adversidades de uma conjuntura francamente hostil.

Publicado em 1970, “O Olhar Mais Azul” é um clássico da literatura afro-americana que explora as consequências do racismo sistémico na América dos anos 40. Viagem ao mais profundo da alma humana, o livro aborda a forma como mulheres de todas as idades se relacionam com a comunidade, com as famílias, com os homens e entre si. Em particular, chama a atenção para o modo como os ideais e símbolos da beleza branca distorcem e condicionam a imagem que a mulher negra tem dela própria. No centro do romance está Pecola Breedlove, uma criança de onze anos que vive no seio de uma família disfuncional, “uma família aleijada e incapaz”, que além de pobres e negros também são feios, ou melhor, passaram a acreditar que o são. A interiorização deste pressuposto molda a infância de Pecola que, segura da sua fealdade, deseja ardentemente ter olhos azuis. A menina está certa de que serão eles a libertá-la da vergonha e da escravidão implacáveis da sua negritude, fonte de desprezo e escárnio de que é vítima.

Este mundo cruel e insensível situa-se em Lorain, Ohio - onde nasceu a autora do livro -, e é-nos mostrado por Pecola e pelas suas amigas, Frieda e Cláudia, esta última com 9 anos e e a narradora do romance. É nela que Toni Morrison encarna, oferecendo-nos, num discurso isento de eufemismos, uma visão objectiva da brutalidade do racismo, da pobreza, das relações de classe, da dominação masculina e da estreiteza de vistas de uma comunidade mergulhada no preconceito e na exclusão. Mas todas as personagens do romance estão, de alguma forma, desfiguradas pelas relações de poder entre o senhor e o seu criado, no seio das quais nasceram e tentam sobreviver. Este facto torna-as ambíguas e contraditórias, mas Morrison, muito elegantemente, obriga a que os nossos juízos de valor, enquanto leitores, abracem essas complexidades. Obra de enorme alcance, “O Olhar Mais Azul” permanece pleno de actualidade nos dias de hoje. Pode não ser de leitura fácil, certamente não é agradável, mas é obrigatório lê-lo.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

LIVRO: "A Liberdade É Uma Luta Constante"



LIVRO: “A Liberdade É Uma Luta Constante”,
de Angela Davis
Texto original | “Freedom Is a Constant Struggle - Ferguson, Palestine, and the Foundations of a Movement” (2015)
Organização e introdução | Frank Barat
Tradução | Tânia Ganho
Ed. Antígona, Junho de 2020

“Eu diria que, à medida que amadurecem, as nossas lutas geram novas ideias, novas questões e novos terrenos nos quais nos empenhamos na demanda pela liberdade. Tal como Nelson Mandela, devemos estar dispostos a abraçar o longo caminho para a liberdade.”

Inscrita no título do livro, primeira de uma série de ideias-chave que o preenchem, “a liberdade é uma luta constante” representa um verdadeiro dogma para todos aqueles que, na sua grande maioria pobres e pessoas não-brancas, se bateram e batem contra a discriminação e o preconceito de raça, género, classe, sexualidade, nacionalidade ou capacidade. Evocando questões como a militarização das forças policiais, o aparelho prisional-industrial ou as redes de vigilantes de bairro, Angela Davis junta-se-lhes, mergulhando bem fundo na raiz dos vários problemas, lembrando que o uso da violência contra os negros - contra os não-brancos em geral - tem as suas origens na colonização e na escravatura. É hora de evocar a violência estatal, a violência policial, a violência militar e todos aqueles que delas foram vítimas, de Martin Luther King Jr. a Nelson Mandela, de Michael Brown a Trayvon Martin, de Malcolm X a Assata Shakur ou à própria Angela Davis.

Expondo os principais factores de divisão das nossas sociedades, Angela Davis dá-nos uma verdadeira lição de História ao trazer para os nossos dias o Ku Klux Klan e o movimento pelos Direitos Civis, o Black Power, o Programa dos Dez Pontos dos Panteras Negras ou a luta levada a cabo pelo ANC durante a longa noite do apartheid sul-africano, fundindo-os com a hegemonia do Group 4 Security, o maior grupo privado de segurança do mundo, os confrontos de Charleston e Ferguson, a causa Palestiniana ou a presença de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos da América. Neste livro a autora reclama o fim do encarceramento em massa e da pena de morte, chama a atenção para a forma como o racismo estrutural está profundamente enraizado nas nossas sociedades e lembra que, em muitos sentidos, a luta dos negros nos Estados Unidos serve como emblema da luta pela liberdade. O apelo à acção é uma constante, com a autora a entregar-se a um verdadeiro exercício de interseccionalidade: “Quando vemos a polícia a reprimir manifestações em Ferguson, temos de nos lembrar também da polícia israelita e do exército israelita a reprimirem manifestações na Palestina ocupada”, diz.

Repartindo-se entre as entrevistas que Angela Davis concedeu a Frank Barat, alguns dos seus discursos proferidos em contexto académico ou conferências públicas e ainda um artigo de opinião publicado no The Guardian, “A Liberdade É Uma Luta Constante” é um livro intenso e poderoso. Diabolizada pelo governador da Califórnia Ronald Reagan, demitida do cargo de professora auxiliar de Filosofia por ser filiada no Partido Comunista, número 1 na Lista dos Mais Procurados pelo FBI e presa, depois julgada num processo que se tornou histórico, Angela Davis revela uma enorme determinação em manter-se fiel à sua vocação revolucionária e é, por isso, uma inspiração para aqueles que reconhecem em si a vontade e a capacidade de agir como parte de uma crescente comunidade de resistentes. Martin Luther King Jr. dizia que “a injustiça em qualquer parte do mundo é uma ameaça à justiça em todo o mundo” e é nessa linha que converge o pensamento de Angela Davis. As suas palavras, as suas acções, obrigam-nos a estender o olhar para bem longe de nós próprios e desafiam-nos a abraçar a luta pela liberdade.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

LIVRO: "Notas sobre Um Naufrágio"



LIVRO: “Notas sobre Um Naufrágio”,
de Davide Enia
Texto original | “Appunti per un naufragio” (2017)
Tradução | Tânia Ganho
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Setembro de 2021


“Mas como se deixa morrer uma criatura acussì nica, uma coisinha tão pequenina? Nós, que mandamos gente para a Lua, temos mesmo de deixar morrer assim as pessoas? Não podemos fazer nada para ir buscá-las e trazê-las para cá? São ou não são seres humanos? Quanto tempo mais vai durar esta vergonha? Como se pode deixar morrer no mar uma coisinha tão pequena?”

O Mediterrâneo está hoje no topo da lista das rotas migratórias mais perigosas do mundo e isto não apenas pelo número de vidas perdidas no mar - estimadas em mais de vinte mil desde 2014 -, mas também pela violência exercida sobre migrantes e refugiados. Isto prova o quanto a Europa é um destino apetecido para quem foge da guerra e das perseguições em países como a Síria, a Eritreia, o Afeganistão, o Mali, a Gâmbia, a Nigéria, a Somália ou a Palestina, mas prova também a ausência de uma política de imigração consistente e de respostas rápidas aos pedidos de asilo, alimentando assim as redes de tráfico de seres humanos que, quando não morrem, chegam em profunda miséria às costas europeias. É com esta culpa e esta vergonha a pesar sobre todos nós, Europeus, que leio “Notas sobre Um Naufrágio”, do dramaturgo, actor e romancista italiano Davide Enia. Leio em sobressalto, como parte do drama que sou, as histórias de resgates e naufrágios vividas e sentidas com o coração apertado, uma raiva tão maior que uma mágoa, os nervos à flor da pele, as lágrimas a rebentar nos olhos.

Centrado em Lampedusa, “Notas sobre Um Naufrágio” dá-nos a ver a amálgama sem interpretação clara ou forma reconhecível que cabe naquela que é a mais meridional ilha europeia, a menos de trezentos quilómetros das costas da Líbia. É nessa “ilha-contentor” que palavras como migração, fronteira, naufrágio, solidariedade, marginalidade, resgate, milagre, heroísmo, desespero, suplício, morte e renascimento se revelam em toda a sua dimensão. Com este imenso drama em pano de fundo, Davide Enia convida-nos a conhecer aqueles que convivem com um quotidiano feito de dor e desespero, do pessoal de saúde à guarda costeira, dos voluntários das ONG aos simples pescadores. Rapidamente percebemos que todos eles carregam dentro de si um cemitério inteiro. Prepare-se o leitor para se tornar numa testemunha directa da parte obscura da história, para a quantidade de morte que irá ler na cara de quem menos se fala, para o desafio que o combate diário encerra: Não contra o mar, não contra o tempo, mas contra a própria morte.

E, no entanto, apesar de todo este sofrimento que nos é mostrado, continuamos incapazes de perceber o que está a acontecer. No fim de contas, o que é que mudou? Sabemos bem que nada mudou. Que a ascensão dos nacionalismos e dos populismos fazem com que se ergam mais barreiras e se reforcem mais muros num território que devia ser exemplo de paz e concórdia para o mundo. Importa, pois, olhar para esse símbolo no imaginário global que é Lampedusa, olhando para o mais fundo de nós mesmos em busca daquilo que podemos melhorar nas nossas vidas. Entramos aqui na segunda dimensão do livro, uma história onde o autor reinventa a relação com o próprio pai, um médico aposentado que testemunha, também ele, o drama que se desenrola debaixo dos seus olhos. Testemunharem juntos a tragédia dos migrantes irá ajudá-los a construir um diálogo de aproximação que substituirá todos os silêncios do passado. Profundamente humano, “Notas sobre Um Naufrágio” é um grito de revolta contra as injustiças e a maldade que campeiam neste mundo, mas é, sobretudo, um hino de exaltação à vida. A ler, absolutamente!

sábado, 28 de agosto de 2021

LIVRO: "As Coisas Que os Homens Me Explicam"



LIVRO: “As Coisas Que os Homens Me Explicam”,
de Rebecca Solnit
Texto original | “Men Explain Things To Me” (2014)
Tradução | Tânia Ganho
Ed. Quetzal Editores, Abril de 2016


“Uma cultura da violação é um meio onde a violação é prevalecente e onde a violência sexual contra as mulheres é considerada normal e desculpabilizada nos media e na cultura popular. A cultura da violação é perpetuada pelo uso de linguagem misógina, pela objetificação do corpo da mulher e a glamorização da violência sexual, criando assim uma sociedade que ignora os direitos e a segurança das mulheres. A cultura da violação afeta todas as mulheres. A maior parte das mulheres e raparigas limita o seu comportamento por causa da existência da violação. A maior parte das mulheres e raparigas vive com medo da violação. Os homens, em geral, não.”

Há livros assim, que parecem ter sido escritos para nos lembrar quem somos, de onde viemos e para onde vamos (ou para onde queremos ir). “As Coisas Que os Homens Me Explicam” é um desses livros. Profundamente irónico, o título deixa subentender um olhar atento sobre as questões de género, por trás do qual descobrimos uma autora segura e inteligente, apostada em cruzar a realidade que nos rodeia com os números assustadores inscritos à margem dos direitos das mulheres, da violência doméstica, da violação conjugal ou do assédio e dos abusos sexuais, por exemplo - “nos Estados Unidos, cerca de três mulheres são assassinadas por dia pelos cônjuges ou ex-cônjuges”, pode ler-se neste ensaio, bem como o facto de a violência doméstica ser “uma das principais causas de morte de mulheres grávidas neste país”. Face à verdade dos factos, a pergunta impõe-se: “Onde é que os homens aprenderam que as mulheres não têm direitos?”

Com muita investigação pelo meio e muitos factos correctamente alinhados, Rebecca Solnit desenvolve um conjunto de nove textos orquestrados de forma a responder a um conjunto de questões pertinentes em matéria de (des)igualdade de género, mas que levantam, eles mesmos, muitas outras questões que importa perceber e resolver. Na mesma semana em que escutamos António José Saraiva “queixar-se” de se ter perdido “a diferença entre homem e mulher, cuja união permite a reprodução da espécie e cuja associação estável possibilita uma sociedade organizada”, daí advindo uma sociedade que se aproxima da barbárie, uma “sociedade doente, que esqueceu as regras e os princípios que lhe deram superioridade”, ler que “a libertação das mulheres tem com frequência sido descrita como um movimento decidido a usurpar ou retirar o poder e os privilégios aos homens, como se, num qualquer jogo de vencedores e vencidos, só um sexo de cada vez pudesse ser livre e poderoso” mostra o quão importante é haver pessoas que se empenham em pôr o dedo na ferida e em mostrar que há ainda um longo caminho a percorrer em matéria de direitos das mulheres, ao encontro dessa verdade única, a de que “somos livres juntos ou escravos juntos”.

Escrito como uma resposta às notícias que envolveram Dominique Strauss-Kahn, Director do FMI à data, numa série de escândalos de cariz sexual, este ensaio de Rebecca Solnit vem dizer-nos que o acesso à justiça e a luta para fazer valer os direitos individuais é muito mais difícil para as mulheres do que para os homens. A violação e assassínio em Nova Deli de Jyoti Singh, uma estudante de fisioterapia de vinte e três anos, surge neste livro como um dos muitos exemplos da pretensa superioridade masculina e da forma como se verte em actos repugnantes. Este e muitos outros factos comprovam que “as vidas de metade da humanidade continuam a ser acossadas, enfraquecidas e por vezes destruídas por este tipo de violência generalizada”. Entre Virginia Woolf, Susan Sontag, Bill Clinton ou Woody Allen, alguns deles figurando aqui pelos piores motivos, “As Coisas Que os Homens Me Explicam” é um forte abanão nas consciências e um marco importante num caminho sem fim à vista.

sábado, 17 de julho de 2021

LIVRO: "Notas Sobre o Luto"



LIVRO: “Notas Sobre o Luto”,
de Chimamanda Ngozi Adichie
Texto original | “Notes on Grief”
Tradução | Tânia Ganho
Edição | Carmen Serrano
Ed. Publicações Dom Quixote, Maio de 2021


“Um dia, estou na casa de banho, completamente sozinha, e chamo o meu pai pela alcunha carinhosa com que o tratava - “o papá original” - e um breve manto de paz envolve-me. Demasiado breve. Sou uma pessoa pouco dada a lamechices, mas tenho a certeza deste momento recheado com a presença do meu pai. Se foi uma alucinação, então quero mais, mas não voltou a acontecer.”

No dia 10 de Junho de 2020, a multi-premiada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie recebeu, com espanto e revolta, a notícia da morte do seu pai, o académico James Nwoye Adichie. Três dias antes, na habitual chamada por zoom que, aos domingos, por momentos felizes, unia a família (os pais e os cinco filhos), tudo estava, aparentemente, normal. Mais tarde a notícia, como que um desenraizamento brutal, o ser “arrancada à força do mundo que conhecia desde a infância.” Da incredulidade à aceitação, o luto revela-se como “uma forma cruel de aprendizagem”. A escritora quis partilhar connosco as fases dessa aprendizagem. O resultado é este pequenino “Notas Sobre o Luto”, uma pérola doce e terna que é, em si mesma, um acto de coragem e de amor.

Versão aumentada de um ensaio publicado por Chimamanda Ngozi Adichie na revista “New Yorker”, “Notas Sobre o Luto” retrata a dor da perda no que ela tem de mais fundo e amargo. Carregado de verdade, o livro reflecte a experiência da escritora de forma particularmente intensa, as emoções à flor da pele, os sentimentos em estado bruto, despojada das todas as couraças, sem sombra de retraimento em revelar-se nas suas pulsões mais íntimas, nos seus ímpetos mais agudos, na sua mais exaltada fúria. Pondo por palavras o sentir mais extremo, Adichie mostra-nos o quanto a ausência responde a um presente cujo sentido nos escapa. Nesse lugar sem nome, no deve e haver que só o definitivo põe em causa, a questão torna-se legítima: “Como é que as pessoas andam por aí no seu dia a dia normal depois de terem perdido um pai adorado?”

Ao mostrar-nos que uma grande parte do processo de luto se prende com a linguagem, com o fracasso da linguagem e a busca de linguagem, Chimamanda Ngozi Adichie estabelece laços fortes com o leitor, independentemente de este ter passado ou não por momentos tão traumatizantes. No seu testemunho há ensinamentos a retirar de como podemos ver e entender a pessoa enlutada, ao mesmo tempo que são propostas estratégias para falarmos com aqueles que vivem a dolorosa situação da perda. Só saberemos como faremos o luto quando o fizermos, mas entretanto temos a mão que nos estreita num abraço e nos prepara para algo que devemos ter como certo. As memórias de Adichie convocam as nossas memórias. A sua verdade será a nossa verdade. Também um dia escreveremos sobre o pai no passado sem conseguir acreditar que escrevemos sobre o pai no passado.

terça-feira, 1 de junho de 2021

LIVRO: "Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola"



LIVRO: “Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola”,
de Maya Angelou
Texto original | I Know Why the Caged Bird Sings (1969)
Tradução | Tânia Ganho
Posfácio | Diana V. Almeida
Ed. Antígona, Setembro de 2017


“Em seguida pôs-se a elogiar-nos. Contou o quanto enaltecera o facto de ‘um dos melhores jogadores de basquetebol da Universidade de Fisk ter encestado a sua primeira bola aqui mesmo, na Escola Profissional do Condado de Lafayette’. Os miúdos brancos iam poder tornar-se Galileus e Madames Curies e Edisons e Gaugains, e os nossos rapazes (as raparigas nem sequer eram incluídas nos planos) tentariam ser Jesse Owens e Joe Louises.”

Escritora e activista americana nascida em St. Louis, Missouri, em 1928, Maya Angelou andou em bolandas nos seus primeiros anos de vida. Entregue, com três anos apenas, aos cuidados da avó paterna, foi numa pequena aldeia do Arkansas que começou a perceber o modo como a mulher negra podia existir no mundo. Desde muito cedo foi construindo, laboriosa e perseverantemente, uma personalidade de sobrevivente, acabando por se tornar numa figura fundamental da cultura afro-americana e da luta pelos direitos civis no seu país. Incentivada pelo seu grande amigo e escritor James Baldwin, aos 40 anos começou a escrever “Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola”, relato inspirador das suas memórias de infância e juventude, através do qual nos oferece o olhar de uma extraordinária criança sobre a violência inexplicável do mundo dos adultos e a crueldade do racismo.

Autobiografia de uma enorme coragem e honestidade, “Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola” é um convite à viagem aos Estados Unidos dos anos 30 e 40 do século passado, ao longo da qual nos é dada a ver a forma como as comunidades negras lidavam com o segregacionismo e a exclusão racial. Narrado na primeira pessoa, o livro escreve-se com a palavra verdade, a inocência de ser criança estilhaçada pela crueldade e iniquidade dos homens, o questionamento dos conflitos de raça e de género a penderem como uma dupla ameaça permanente sobre a vida da autora. Com as avós como referentes fundamentais, Maya Angelou vê crescer em si um conjunto de inquietações assentes em questões dicotómicas do tipo “homem-mulher”, “branco-negro”, “rico-pobre”, “norte-sul” e tantas outras, a partir das quais forja um compromisso pessoal com os ideais de justiça e liberdade.

Ao leitor não escapa a força que Maya Angelou coloca na sua escrita, ainda que essa tomada de consciência seja baseada numa sucessão de murros no estômago. Olhando nos olhos a desconfiança e o preconceito, a autora não se esquiva a falar de si, mesmo que o assunto toque no seu mais íntimo. Tal como uma moeda, cada situação narrada abre-se em duas faces opostas, o problema de mãos dadas com a solução. Seduzidos pela força de carácter de Maya Angelou, pela forma como constrói as suas ideias e as põe em prática - aos 16 anos, foi a primeira mulher negra revisora nos eléctricos de S. Francisco -, esquecemos facilmente que estamos perante uma criança, com as suas fragilidades e os seus medos, os seus desejos e fantasias. Uma criança de ontem que nos obriga a olhar para um tempo hoje, de tal forma o livro se mostra actual. Livros assim são de leitura obrigatória.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

LIVRO: "Apneia"



LIVRO: “Apneia”,
de Tânia Ganho
Editor | Francisco Camacho
Ed. Casa das Letras, Julho de 2020


“O que a chocava, mais do que a possibilidade da perfídia de Alessandro, era a sua própria capacidade de imaginar essa perfídia. O instinto de sobrevivência obrigara-a a identificar e antecipar os esquemas mentais perversos de Alessandro, para se proteger e defender deles, e afligia-a a dúvida se essa sua capacidade significaria que era igual a ele. Se seriam um monstro com duas cabeças, enredando o filho nas suas tramas de ódio e subjugação, até se tornarem um mítico cérbero.”

“Triângulo tóxico”. A expressão não é minha, vem no livro. Mas é, de facto, de um triângulo tóxico que falamos quando falamos de “Apneia”, a história de um casal que disputa a guarda do filho, num moroso processo de divórcio litigioso do qual todos sairão a perder. De forma detalhada, Tânia Ganho vai revelando os contornos de uma história que se adensa e ensombra página após página, acabando por mergulhar nas motivações de um dos progenitores para nos dar a perceber que o sistema tem tanto de burocrático como de falível, o dedo apontado a psicólogos, advogados, investigadores e magistrados. O dedo apontado, de um modo mais vasto, a todos quantos “lavam as mãos, relativizam, mentem ou se deixam levar por pré-juízos”.

Esta breve nota serve para dizer que reconheço algum mérito no romance de Tânia Ganho. Ele funcionará, sobretudo, como alerta para as falhas do sistema no seu todo, a começar na família e a terminar na justiça. Isto não significa, porém, que tivesse gostado do livro. Não gostei. Neste pai não se vislumbra nada de aceitável, da mesma forma que a mãe é boazinha até dizer basta. Reduzidas à condição de estereótipos, as duas personagens principais do livro tornam-se totalmente previsíveis. Com a autora enredada na teia que ela própria criou, a acção vê-se resumida a uma insuportável sucessão de clichés que se repetem de forma exaustiva. A narrativa estende-se, tendenciosa, não havendo como escapar ao sentimento de manipulação. Aquilo que se pretendia um tempo de prazer torna-se em desconforto. O divórcio entre autor e leitor é uma questão de tempo.

Ainda o livro vai no seu início e já não se atura tanta passagem em Monsanto, os vidros do carro sempre abertos, as lágrimas misturadas com a chuva que fustiga o rosto da mulher. Olho para a lombada do livro e nem quero acreditar que me espera mais do mesmo na infinidade de páginas que se abrem à minha frente. O filho continuará um sininho quando vai passar o fim de semana com o pai e regressará ao lar materno transformado em demónio furibundo. A mãe não levantará nunca a mão ao filho porque é, de facto, uma riqueza de mãe. Já o homem é mesmo mau e sê-lo-á cada vez mais. Sabemos que tanta maldade deverá ter uma justificação e Tânia Ganho não se faz rogada. A corda esticada ao máximo resulta num anti-climax. O desfecho desta história é inenarrável. Pelo menos, “Apneia” ensinou-me que talvez deva começar a repensar esta minha teimosia em não pôr de parte um livro, por mais enfadonho que ele possa ser. Nunca o fiz e também não foi desta. Mas esteve quase.