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quinta-feira, 8 de agosto de 2024

LIVRO: "Mulher, Vida, Liberdade"



LIVRO: “Mulher, Vida, Liberdade”
Coordenação | Marjane Satrapi
Título original | “Femme, Vie, Liberté”, © Editions de l’Iconoclaste, Paris
Tradução | Sofia Fraga
Edição | Amaia Iglesias
Ed. Iguana, Outubro de 2023


“Mahsa Jinâ Amini foi atingida na cabeça com tanta força que entrou em coma… morreu três dias depois. A Polícia da República Islâmica declarou que Mahsa tinha morrido na sequência de uma “paragem cardíaca”. Os meios de comunicação social pró-regime afirmaram que a jovem tinha problemas de saúde desde a infância. Porém, a narrativa do regime foi rapidamente posta em causa pela família de Mahsa e por numerosas testemunhas, incluindo os médicos do Hospital. O pai de Mahsa afirmou: ‘A minha filha não tinha problemas de saúde, eles destruíram a minha filha. Conto-o a toda a gente. Eles têm de ser responsabilizados’. A mãe acrescentou: ‘Mataram o meu anjo’.”

Ao final da tarde do dia 13 de Setembro de 2022, Masha Amani foi detida pela polícia dos costumes do Irão por, alegadamente, “trazer o véu mal colocado”. Levada para a esquadra, foi brutalmente espancada ao ponto de não resistir às agressões e acabar por morrer três dias mais tarde. A notícia da morte da jovem de 22 anos espalhou-se rapidamente através das redes sociais. Algumas jornalistas mais corajosas partilharam imagens da família no Hospital onde Mahsa acabou por morrer ou do cortejo fúnebre em Saqquez, a sua cidade natal, que acabaria por se converter numa gigantesca manifestação contra o regime dos ayatollas. Estava em marcha o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”. Nesse e nos dias seguintes, os protestos repetiram-se em praticamente todas as cidades do Irão e a repressão não se fez esperar, acarretando um conjunto de violações graves dos direitos humanos. Uma investigação independente das Nações Unidas revela que o uso dessa força, “desnecessária e desproporcional” em protestos, em grande parte pacíficos, resultou em assassinatos ilegais e ferimentos de manifestantes, provocando 551 mortes, entre as quais pelo menos 49 mulheres e 68 crianças.

Incapazes de calar a revolta, também os iranianos da diáspora fizeram questão de juntar a sua voz à daqueles que corajosamente enfrentaram a polícia, tiraram os véus e gritaram “morte ao ditador”. Marjane Satrapi, autora da saga autobiográfica em banda desenhada “Persépolis”, foi uma das muitas personalidades empenhadas em denunciar o regime ditatorial e corrupto que dirige com mão de ferro os destinos do Irão, servindo-se daquilo que melhor sabe fazer: escrever e desenhar. Mas não esteve sozinha nesta visão histórica e política do país que a viu nascer. Pegando na ideia de Sophie de Sivry, alma da editora l’Iconoclaste, trabalhou directamente com o politólogo Farid Vahid, o jornalista Jean-Pierre Pérrin e com o historiador Abbas Milani. Entre si repartiram a responsabilidade pelos conteúdos, ficando o cuidadoso trabalho de edição a cargo de Alba Beccaria. Marjane Satrapi encarregou-se, ela própria, de desenhar a capa e um ou outro desenho no interior do livro, entregando a grande maioria das bandas desenhadas ou ilustrações a cerca de uma vintena de ilustradores iranianos, espanhóis e franceses. De forte impacto visual, o resultado é assombroso, elevando o valor do povo iraniano e pondo a nu a arbitrariedade, intolerância e brutalidade de uma minoria que o governa.

Dividido em três grandes capítulos, “Mulher, Vida, Liberdade” dedica uma parte importante dos seus conteúdos aos acontecimentos em torno da morte de Mahsa Amini, nomeadamente o surgimento do slogan e a forma como se espalhou e galgou as fronteiras do Irão. Outro capítulo importante prende-se com “Barâyeh”, o hino do movimento, da autoria de Shervin Hajipour, um jovem cantor iraniano. As ilustrações são de Shabnam Adiban, uma iraniana de 33 anos que vive em Toronto desde 2019 e que, ao mesmo tempo, realizou uma curta metragem de animação absolutamente maravilhosa. A vida na sinistra prisão de Evin, espelho do horror do regime, o massacre de Zahedan ou as execuções sem culpa formada de participantes nos movimentos de contestação, são alguns dos capítulos mais intensos e dramáticos do livro. Nos “rostos para a posteridade” rende-se homenagem aos “filhos da liberdade”, aos muitos que deram a sua vida ou sofreram horrores nas prisões do regime por exprimirem o seu desejo de um país justo e livre. Na sua forma simples de dizer as coisas as mais complexas, “Mulher, Vida, Liberdade” mostra ao mundo aquilo que se está a passar no Irão neste momento e representa um “humilde contributo pela liberdade que os iranianos tanto merecem”.

NOTA: Já depois do livro ter sido publicado, Mahsa Jinâ Amini e o Movimento Mulher Vida Liberdade foram galardoadas com o “Prémio Sakharov 2023 para a Liberdade de Pensamento”. Nomeado em homenagem ao físico e dissidente político soviético Andrei Sakharov e atribuído anualmente pelo Parlamento Europeu, o Prémio foi criado em 1988 para homenagear indivíduos e organizações que defendem os direitos humanos e as liberdades fundamentais.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

LIVRO: "Nas Suas Mãos"



LIVRO: “Nas Suas Mãos”,
de Leïla Slimani
Título original | “À Mains Nues” (Edition Les Arènes, Paris, 2020-2021)
Ilustrações | Clément Oubrerie
Tradução | Tânia Ganho
Edição | Amaia Iglesias
Ed. Iguana, Abril de 2024


“Ao Hospital do Val-de-Grâce, chegam cada vez mais soldados com ferimentos no rosto. Isolamo-los dos outros doentes, por causa do terror que suscitam e do cheiro pestilento que se solta dos seus ferimentos. / As más-línguas chamam-nos o ‘serviço dos babam-se todos’, por causa dos ferimentos terríveis que fazem com que os soldados fiquem sem maxilares. / Na sala enorme onde eles estão fechados, ecoam os gritos de dor e de desespero. Escondemos todos os espelhos e tememos suicídios… / O Morestin já nem dorme, trabalha dia e noite para desenvolver novas técnicas de enxerto e lhes devolver uma aparência humana. / Dizias que ele era um velho louco. Ai, querido André, talvez tenhas razão. Volta depressa.”

Pese embora o seu pioneirismo na cirurgia estética e reconstrutiva, a História parece ter-se esquecido de Suzanne Noël (1878-1954). E, todavia, ela foi uma verdadeira percursora daquilo a que mais tarde viríamos a conhecer como lipoaspiração, devolvendo beleza – e anos –, tanto a mulheres que não se sentiam bem com o seu corpo (a actriz francesa Sarah Bernhardt terá sido um dos seus casos de maior sucesso), quanto aos muitos sobreviventes da I Guerra Mundial que, com o “rosto quebrado”, beneficiaram dos seus conhecimentos na recuperação da imagem e consequente possibilidade de uma reintegração social plena. Mas não foi apenas no campo das ciências que Suzanne Noël se notabilizou. Dedicando grande parte da sua vida à defesa dos Direitos Humanos, fundou o primeiro clube soroptimista francês, abraçando o movimento sufragista e lutando pelo direito ao voto das mulheres. Hoje, as cartas constitutivas dos novos clubes soroptimistas são concedidas em nome de Suzanne Noël e existe uma bolsa de estudos com o seu nome, contribuindo para a especialização médica em Cirurgia Plástica.

Resgatar a figura de Suzanne Noël, a sua influência no seio da academia e o muito que acrescentou a uma especialidade mal vista pelos pares e cuja vertente estética chegou a ser proibida por lei, terá sido um dos valores que levou Leïla Slimani a escrever sobre esta mulher de uma forma tão próxima. O outro terá tido a ver com o seu pendor de feminista convicta, aí se revendo na luta de Suzanne Noël contra o preconceito e pelo reconhecimento do seu trabalho numa sociedade particularmente misógina. Do nascimento de Suzanne Noël em Laon, no seio de uma família burguesa, à divulgação empenhada dos princípios do soroptimismo que mobilizaram todas as suas forças numa fase mais avançada da sua vida, passando pelo seu casamento e posterior divórcio com o dermatologista Henri Pertat, os trabalhos com o Dr. Morestin em Val-de-Grâce e com o Professor Brocq no Hospital Saint-Louis, um segundo casamento com André Noël, a morte da sua filha Jacqueline e posterior suicídio de André, a sua entrega à causa feminista e as múltiplas solicitações para palestrar em todo o mundo, de tudo isto Leïla Slimani dá conta com rigor biográfico e uma enorme sensibilidade.

Não deixa de ser surpreendente que Leïla Slimani tivesse optado por uma banda desenhada para falar de uma das suas heroínas, demonstrando que a sua escrita pode afastar-se dos tons carregados que a povoam e que tão bem se distinguem em livros como “O Perfume das Flores à Noite”, “No Jardim do Ogre” ou “Canção Doce”. A escritora mostra um apurado domínio dos tempos inerentes ao desenho, deixando espaço aberto à imaginação, só em parte preenchida pelo trabalho de ilustração de Clément Oubrerie. Se, com frequência, “tropeçamos” em momentos narrativos brilhantes e plenos de humor- a conferência de Raymond Passot face a uma plateia hostil, os primeiros dias de Suzanne e Jacqueline no apartamento de Montmartre, as recomendações à Dra. Irène Duval antes de Suzanne partir em viagem -, não menos frequentemente damos conta de “cartões” de uma enorme expressividade e beleza - uma aula do Dr. Brocq no teatro anatómico, Suzanne e os colegas a atravessarem a praça de um quarteirão de Paris, uma panorâmica do “serviço dos babam-se todos”. Um livro que se lê com redobrado interesse e que, combinando a arte da escrita e a arte da ilustração, recupera a imagem de uma mulher muito à frente do seu tempo, cujo exemplo de coragem e empenho é um farol nos dias que correm.